domingo, 10 de fevereiro de 2008

A mistificação dial-ética


A filosofia de Platão, que outrora reclamara ser senhora no Estado, torna-se com Hegel o seu mais servil lacaio. Karl Popper (1)
O QUE PROPÕEM esses players para obterem tanto sucesso, assim, por variados estádios, já por mais de dois mil anos? Qual seria a raiz etimológica deste signo tão encantador? Ou, como indaga Bobbio, “o termo dialética tem significado unívoco? Se tem muitos significados, que relação existe entre uns e outros?” (2)
O enigma consagra a chicana. Mero intento de tapeação.
Tudo de Hegel e Platão suscita dúvidas e polêmicas:
“Os escritos de Hegel estão entre as obras mais difíceis de toda a literatura filosófica, devido não só a natureza dos tópicos discutidos, mas também ao estilo canhestro do autor.” (3)
Por um renomado descendente, o preferido da gema instalada, aquilata-se a potencialidade da perfídia:

Quanto ao uso do termo ‘dialética’ podem-se encontrar – nas páginas de Gramsci – os diversos significados que o termo assumiu na linguagem marxista. Podem-se distinguir, pelo menos, dois significados fundamentais: o significado de ‘ação recíproca’ e o de ‘processo por tese, antítese e síntese’. O primeiro significado aparece quando quando o adjetivo ‘dialético’ vem unido à ‘relação’, ‘conexão’, talvez mesmo ‘unidade’. O segundo, quando vem unido a ‘movimento’, ‘processo’, ‘desenvolvimento’.(4)
Só enrola. Tentemos pelos camaradas:
Tem-se a impressão de que, na linguagem cotidiana do marxismo, o termo ‘dialética’ apresenta uma fluidez excessiva, escondendo em suas dobras significados variados, dificilmente articuláveis entre si, e que são, de resto, a maior fonte de confusão e de polêmicas inúteis. (5)
Explica-se tanta mistificação. Historiadores oferecem certeira pista:
“Na Idade Média, a dialética torna-se disputatio, isto é, um confronto de opiniões.” (6)
Talvez seja a designação mais precisa, mas na Idade Média o que menos valia era confronto de opiniões. O negócio era decidido na lança e na espada, mesmo.
Tentemos dissecá-la de outro modo. Alguns pesquisadores enxergam-no formado pelo prefixo dia - correspondente a intercâmbio - e pelo verbo legein, ou substantivo logos, significando diálogo. O sentido, todavia, por dialético, continua dúbio.
Busquemos outro ângulo. Falam-nos em soma de dia=através e lelo=pensar, jogo de palavras que por definição, envolve duas (dial) éticas...(7) Ou seja, a dubiedade é de seu caráter.
Pela semiótica, na sintaxe e na semântica do prefixo dial percebe-se o pragmatismo do adjetivo dual, ou seja, duplo, anunciante das duas éticas - uma, real, legítima; outra a que interessa, dissimulada. O que aparece flagrante é a necessidade primeira de estabelecer-se um confronto. Para tanto, parte-se o objeto em duas metades. De um lado, os ingênuos. Do outro, os que se acham espertos. Uns contra os outros é o ideal. Ambos se enfraquecem, para o engradecimento do introdutor.
Mas quem sabe não seria algo tão fatal? Busquemos outra referência.
Chama-se dial o eixo por onde se identifica as posições de cada emissora de rádio. Com essa, todavia, continuamos na mesma, a não ser perceber que ela corre por um fio previamente estipulado.
Que tal buscarmos decifrar o nebuloso significado diretamente pelo maior adepto?
Logo, para Hegel, é o sufixo que denota a própria lógica proveniente de uma escolha arbitrária sobre um dos dois vértices chamados “intercambiáveis” (na verdade contraditórios) que produzem o confronto das forças, daí restando os despojos cognominados síntese:

A lógica de Hegel, no entanto, contém três termos: a afirmação (a tese), a negação (a antítese) e a síntese, que resulta da negação da negação. O último termo, uma dupla negação, é também outra afirmação, mas engendrada pelo confronto dos dois termos anteriores. Hegel chama essa estrutura lógica de dialética.(8)
Esta definição se aproxima, mas consagra a estupidez. Considerando o mundo em equilíbrio permanente, por causa da dialética das forças físicas, Hegel enxergava a dinâmica da História como produto também do princípio decorrente, quando a oposição e situação teriam cada um sua razão e seu equívoco, resultando a providencial síntese que eliminaria os erros de cada uma, voz da maioria, imediatamente totalitária. Neste caso, Descamps não o perdoa:
“Praticar a história é, então, se colocar à escuta de mecanismos de poderes, de interesses e de paixões que forjam um real que só aparece como racional tarde demais para o filósofo hegeliano acompanhado de sua coruja de Minerva.” (9)
Teses antagônicas, o positivo versus negativo, atração e repulsão gerariam a síntese, daí outra tese, outra antítese e nova síntese, assim por diante, em movimentos supostamente regulares, numa mágica depurativa para um produto pretensamente mais fortalecido e cientificamente correto. Cada povo daria sua peculiar e oportuna contribuição ao mundo, ganhando ou perdendo importância, e a propositura coincidia com um dirigido exame aos fatos da acidentada vida européia, mas
Granger descobre sua principal deficiência:

Sejam quais forem os atrativos das descrições dialéticas de certos períodos da história, não podemos deixar de pensar que a diversidade dos acontecimentos e dos homens não se ajusta assim tanto a este esquema. O salto da antítese para a síntese aparece muitas vezes como arbitrária. (10)
Contrapõe-se tese e antítese no eixo determinista. Para alcançar a realidade (aleatória) captada na síntese, mister o antagonismo mais unilateral possível, o choque frontal, o confronto direto. O resultado é essa pretensa sintética-expressão, a qual já nasce deformada e até traumatizada pelo próprio choque, e completamente distanciada da harmonia natural por que regem todos os corpos, esquecidos tanto na produção quanto em sua apuração. Se paixões não são metais que se fundem, tampouco são campos magnéticos repelentes.
Burns assim desqualificou o método:
“Nunca acontecia de o novo substituir inteiramente o antigo, pois o padrão da mudança era “dialético.” (11)
Na capital não se vê a dialética, mas o novo jamais substituiu o antigo também. É tudo do mesmo saco, direto na sintética.
We can change. I hope.
Complemente:

A mecânica hegeliana
A lambança dialética
__________
Notas
1.Hegel, G.W.; Platão, cits. Popper, K., 1998, p. 269.
2.Bobbio, N., Ensaios sobre Gramsci e o conceito de sociedade civil, p. 27.
3.Russell, B., 2001, p. 354.
4.Gramsci, Antônio, cit. Bobbio, p. 31.
5.Idem, p. 27.
6. Abrão, B., p. 353.
7. Rohden, H., 1993, p. 169.
8.Hegel, G.W., cit. Abrão, B., p. 353.
9. Descamps, C., p. 52.
10. Granger, G.-G., p. 99.
11. Burns, E.M., Lerner, R.E. e Standish, M., vol.2, p. 575.


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