Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Carma Ocidental - 51. Édipo, ou luta pelo poder?

Se eu tivesse de resumir em uma frase a principal diferença entre chineses e nós, deveria dizer que eles, em sua maioria, visam o prazer, enquanto nós, na maioria visamos ao poder.
RUSSELL,B., 2008: 99
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Nós gostamos das delimitações, das classificações, das hierarquias, das identidades claras. O essencial do esforço ocidental é afinal de contas nos traçados de fronteiras. Trata-se sempre, para nós, de esclarecer os contornos de uma idéia, de um objeto, de um projeto, de uma ato. Nós nos esforçamos de estabilizar esses contornos e de operar escolhas. Por exemplo: entre o verdadeiro e o falso, o justo e o injusto, o homem e a natureza, os fiéis e os infiéis. O movimento profundo, na Ásia, é exatamente o contrário: trata-se de apagar as barreiras, as distinções, de dissolver ou de afastar o sujeito fechado, o conceito que resiste, as aparentes contradições que bloqueiam o movimento. Último objetivo: a fusão com o Todo, a inserção imediata em um real fluido e movediço. Chegar a esse estado onde todas as fronteiras param ou se apagam, viver nessa indistinção suprema, tal seria a sabedoria. www.expressaototal.blogspot.com/2008/
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Se alguém afirmar que o Sol circunda a Terra, facilmente pode prová-lo - basta acompanhar o nascente. Quase do mesmo modo, NEWTON demonstrou como agem as forças gravitacionais. Todavia, desde a mais tenra idade já somos alertados: não é a estrela maior que viaja, e sim nosso enfeitiçado planeta que a contorna. E ainda que poucos saibam, não são forças que regem a natureza gravitacional, mas apenas relações de massa, espaço e tempo.
Uso essas coincidências para propor uma possibilidade, hipótese adversa, que até pode ser polêmica, mas não desprovida de razão..
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AO NASCER o filho, naturalmente tudo muda na vida do casal, e nada pode ser previamente estipulado. O que era a vie en rose passa por vários matizes, desde a famosa depressão pós-parto, a ansiedade pelo cuidado com o novo ente querido, a responsabilidade pelo sustento, a divisão das atenções, enfim, não há quem não passe por momentos de atribulações, completamente imprevisíveis. Como instantes nevrálgicos se sobrepõem às esperanças, e o sexo frágil se torna ainda mais fragilizado, pela extensão, junto com as festas pelo rebento se sobressaem apreensões e com elas inéditos pensamentos.
“Hegel, como Heráclito, acredita ser a guerra o pai e a mãe de todas as coisas.”(POPPER, K.: 44)
No caso em tela, o objeto de conquista avista-se no próprio filho. Quando grávida, a mãe tem no novo ente uma propriedade quase exclusiva, mas ao nascer outros se aproximam com idênticos direitos. Entre esses, o pai se mostra a maior ameaça, naturalmente. Nada mais oportuno do que pintá-lo nefasto:
“Para falar em termos fisiológicos: na luta com o animal, torná-lo doente é talvez o único meio de enfraquecê-lo.” (NIETZSCHE Crepúsculo dos ìdolos, ou como filosofar a marteladas: 54)
Aí está a fera que, com sua afiada cauda, trespassa as montanhas e derruba as muralhas e as armas; aí está a que corrompe o mundo inteiro.
ALIGHIERI, Dante, A divina comédia: 63
“Assim Platão constantemente estabelece o contraste nos seus diálogos.” (DEWEY, J.: 43)
O novo quadro toma maior vulto, e de certo modo confirma a primária angústia materna, em qualquer desacordo do casal.
“Na Idade Média, a dialética torna-se disputatio, isto é, um confronto de opiniões.” ( ABRÃO, B.: 353)
No caso de uma separação, quem ficará com a guarda do filho?
Com o inimigo à vista, resta o resguardo pelo proselitismo amoroso, no aliciamento emocional.
Tudo é duplo no homem, tudo se joga entre o tempo e a eternidade. Só o amor, que surge como raiva, libido, arrebatamento ou delírio divino, pode rasgar o reino da necessidade.
CHÂTELET, F.: 43
Pois se o bebê é hóspede exclusivo da mãe, desde a concepção; se ele se vale do seio materno, da mão, do carinho, do afeto, da ternura, de tudo o mais que só uma mãe pode dar, não há dúvidas que o pai pode parecer a maior ameaça à usurpação.
O marxismo e a psicanálise freudiana expressam os dois lados de um mesmo 'fato', duas perspectivas de uma mesma realidade, a realidade do indivíduo 'cindido', explorado e alienado.
PISANI, M. MELLO, Revista Mal-estar e subjetividade . - Fortaleza, CE, março/2004
Sutilmente, por certo quase sempre de modo inconsciente, e por isso inconsequente, vai a mãe aos poucos minando a confiança do menor à fidelidade do pai, com isso estimulando o confronto, colocando-se ao lado do pequenino naturalmente. Para o reforço do combate, não raras vezes se aliam os avos maternos, ávidos em competir com os paternos.
E como se desce, desse mundo de ironia e razão e veridicidade, ao reinado do sábio de Platão, cujos poderes mágicos o elevam muito acima dos homens comuns, embora não tão alto que dispense o uso de mentiras ou despreze o triste mercado de cada curandeiro, a venda de feitiços, de encantamento e criadores de raça, em troca de poder sobre seus concidadãos!
PEREIRA, J.C., Epistemologia e Liberalismo - Uma Introdução a Filosofia de Karl R. Popper: 153
Eis como o tal complexo, visto como natural na infância, "compreendido" por hipócritas, pode ser completamente antinatural, levado à cabo pela faina do poder, o carma de nossa civilização:
O racionalismo priva de energia tudo aquilo que os homens mais amam: o sonho, a fantasia, o vago, a fé, a afirmação gratuita. Acrescentemos que isso é essencialmente inumano: o racionalista persegue seu raciocínio, não se importando em saber se ofende os interesses da família, da amizade, do amor, do Estado, da sociedade, da humanidade. Na realidade, o racionalista é um monstro. A humanidade se afirma nas suas religiões mais vitais atirando-lhes na cara o seu ódio.
BENDA, JULIEN, cit. BOBBIO, NORBERTO, Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea: 56.
Eis como pode ser bem fracionada, à ponto da esquizofrenia, a mente em precária formação, cingida entre o bem da mãe, e o mal projetado do pai.
"A crença fundamental dos metafísicos é a crença na oposição de valores." (NIETZSCHE, F., Além do bem e do mal: 10)
“A cisão é a fonte da exigência da filosofia”, diz Hegel no Differenzschrift.( cit. CÌCERO, A.: 73)
HEGEL (Conferências e escritos filosóficos de Martin Heidegger; Hegel e os gregos: 20) não titubeou homenagear o ídolo:
Com Descartes cruzamos propriamente o umbral de nossa filosofia independente. Aqui, podemos dizer, estamos em casa e podemos, como o navegante após longo périplo por mar proceloso, exclamar ‘terra’!
Não seria preferível HEGEL permanecer no mar?
Bem se pode entender, contudo, o viés esteriotipado da Coruja Prussiana:

Quando Hegel estudava o destino do sujeito racional sobre a linha do saber, ele não dispunha mais do que de um racionalismo linear, de um racionalismo que se temporalizava sobre a linha histórica de sua cultura, realizando movimentos sucessivos de diversas dialéticas e sínteses.
BACHELARD, G.: 57
O custo, todavia, se apresenta incomensurável:
Grande parte da moderna sociologia, da pedagogia e toda a psicologia da pessoa derivam desta linha de pensamento, assim como nossa violência característica do século XX, uma reação natural diante de tamanha impotência. Foi igualmente afetada nossa atitude em relação à natureza e ao mundo material. Se nossa mente, nosso consciente é totalmente diferente de nosso ser material, como argumentou Descartes, e se a consciência não tem nenhum papel a desempenhar no Universo, como sugere a física de Newton, que relacionamento podemos ter com a natureza ou com a matéria? Somos alienígenas num mundo alienígena, situados à parte dele e em oposição a ele, nosso ambiente material.
ZOHAR, DANAH: 191
A primeira desintegração se lavra mesmo no interior da própria criança, dividida e vista como composta por corpo e alma, esta em princípio divina, mas que poderia tomar o rumo do inferno, se capitulasse frente aquele mundano e limitado, contraste que leva diretamente ao confronto, e a consequente doença da alma.
O dualismo cartesiano, ao criar a bifurcação mente-matéria, observador-observado, sujeiro-objeto, moldou o pensamento ocidental, poucos filósofos discordando dele, cujos mais notórios foram Spinoza e Schopenhauer. No século XX essa discordância se acentuou.
GOTTSCHALL: 189

O mesmo se sucede com as questões relativas à mente, ao cérebro e ao corpo, em relação as quais o erro de Descartes continua a prevalecer. Para muitos, as idéias de Descartes são consideradas evidentes por si mesmas, sem necessitar de nenhuma reavaliação.
DAMÁSIO, ANTÔNIO : 113.

O movimento profundo, na Ásia, é exatamente o contrário: trata-se de apagar as barreiras, as distinções, de dissolver ou de afastar o sujeito fechado, o conceito que resiste, as aparentes contradições que bloqueiam o movimento. Último objetivo: a fusão com o Todo, a inserção imediata em um real fluido e movediço. Chegar a esse estado onde todas as fronteiras param ou se apagam, viver nessa indistinção suprema, tal seria a sabedoria.
www.expressaototal.blogspot.com
Em nosso modo, infelizmente, resta a prevalência do carma, desde o berço:
Na Grécia, berço das artes e dos erros e onde se levou tão longe a grandeza e a estupidez do espírito humano, raciocinavam sobre a alma como nós.
VOLTAIRE,
«13.ª carta», Cartas Filosóficas.
Em 1932 FREUD (cit. ALVES, RUBEM, Rubem, Filosofia da Ciência: 110) teve a coragem de enviar uma carta a EINSTEIN, logo para quem, com a sugestão:
“Não será verdade que cada ciência, no fim, se reduz a um certo tipo de mitologia?"
ULISSES CAPOZOLI (Cem anos no divã do doutor Sigmund Freud, O Estado de São Paulo, 29/10/1995) compara e questiona:
“Ao contrário dos trabalhos de Einstein, no entanto, que ganham consistência com o tempo, as perspectivas da psicanálise não parecem tão evidentes. No seu centenário, a psicanálise divisa seu próprio fim?”
O Grande Relativo prognosticou o Nobel de Literatura, não da ciência, que seria abiscoitado pelo coitado do charuto.
O famoso complexo se esvai na observação de MALINOWSKI (cit. MERQUIOR, J.G, As Idéias e as Formas: 182) sobre os costumes nativos das ilhas Tobriand - o triângulo envolve o filho, a mãe e, em vez do pai, um tio materno, que nem coabita com sua irmã.
O superego é um juiz malévolo, como seu inconsciente é um carcereiro obtuso: velando sempre tão zelosamente sobre seu segredo, ele acaba por designar o local onde se esconde. Sob o pretexto de liberar os complexos, as pessoas se enredam cada vez mais nos assuntos sociais, familiares.
BACHELARD, GASTON, cit. QUILLET, PIERRE: 61
Livrai as criancinhas do banco dos réus, please.
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Sobre a Bibliografia da Nav 's ALL

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Ministro da Economia de Portugal renuncia

Pinho bancou o engraçadinho.
O gesto lhe custou o cargo..
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Ao simular chifres com os indicadores, apontando na direção do líder da bancada parlamentar do PCP, Bernardino Soares, o ministro provocou a revolta dos deputados comunistas.

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A vã atitude motivou um pedido de desculpas do primeiro-ministro, José Sócrates, qualificando-lhe "injustificável".
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“Trataram-me de mentiroso, reagi mal, mas a culpa é toda minha”, resumiu esta noite o ex-ministro, referindo-se ao incidente na Assembleia da República que levou à sua demissão.

O Econ. Manuel António Gomes de Almeida de Pinho é Doutor em Economia pela Universidade de Paris X. Tem 54 anos. O Mané tomou a decisão de renunciar após um telefonema para a sua mulher, quando relatou o sucedido.

Outra coisa engraçada, que bem reflete o atraso daquela comuna, é a presença de deputados comunistas. Se E=MC2, e parece que é, o materialismo não tem, sequer, objeto. Resta avisar aquele pessoal.

Templo romano,
localizado em Evora
O sistema político português é quadrilátero: o Presidente da República (Chefe de Estado – poder moderador, com algum poder executivo), a Assembleia da RepúblicaGoverno (poder executivo) e os Tribunais (poder judicial). Vigora no país um regime semipresidencialista, que ao longo das várias revisões constitucionais vem retirando poder ao Presidente da República. (Parlamento – poder legislativo). O Governo é chefiado pelo Primeiro-Ministro, por regra líder do partido mais votado em cada eleição legislativa, e é convidado, nessa forma, pelo Presidente da República para formar governo. É o Primeiro-Ministro quem nomeia os restantes ministros.


O carma ocidental - 50 Complexo de Édipo, ou dos pais?

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E como se desce, desse mundo de ironia e razão e veridicidade, ao reinado do sábio de Platão, cujos poderes mágicos o elevam muito acima dos homens comuns, embora não tão alto que dispense o uso de mentiras ou despreze o triste mercado de cada curandeiro, a venda de feitiços, de encantamento e criadores de raça, em troca de poder sobre seus concidadãos!

PEREIRA, J.C., Epistemologia e Liberalismo - Uma Introdução a Filosofia de Karl R. Popper: 153
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O complexo de Édipo é mais do que saber falsificado... Sua difusão atual, depois de comprovado como embuste, deve ser encarada não só academicamente como mais uma fraude científica, mas também enfrentada judicialmente como propaganda enganosa.
JACOB BETTONI,
Freud explica? - Kronika, Porto Alegre, edição 24: 4
É certo que a artimanha pretensamente científica foi desmascarada; todavia, mercê do intenso marketing, a presunção edipiana permanece inculcada no senso comum, especialmente entre abnegadas famílias.
Pelo Deifico oráculo sagrado
Tinha-lhes Pítia ainda acrescentado:
Os reis, aos quais pertence por dever
O bem de Esparta amável promover,
Serão os chefes e moderadores
Do conselho, assim como os senadores;
Sempre de acorde, a massa popular
Deverá limitar-se a confirmar
Os progenitores impregnam nos rebentos algo que eles próprios, naturalmente sem perceber, introduzem.
A criação de necessidades repressivas tornou-se há muito parte do trabalho socialmente necessário; necessário no sentido de que, sem ele, o modo de produção estabelecido não poderia ser mantido. Não estão em jogo problemas de psicologia nem de estética, mas a base material da dominação ideológica.
MARCUSE, apud. MAAR, 1998: 69
Lamentável. Dedico-lhes o microensaio, no afã de aliviar os inocentes.
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A história das ciências emergirá então como a mais reversível de todas as histórias. Ao descobrir o verdadeiro, o homem de ciência barra a passagem de um irracional.
BACHELARD, GASTON, cit. QUILLET, PIERRE, Introdução ao Pensamento de Bachelard: 45
Se alguém afirmar que o Sol circunda a Terra, facilmente pode prová-lo - basta acompanhar o nascente. Quase do mesmo modo, NEWTON provou como agem as forças gravitacionais. Todavia, desde a mais tenra idade já somos alertados: não é a estrela maior que viaja, e sim nosso enfeitiçado planeta que a contorna. E ainda que poucos saibam, não são forças que regem a natureza gravitacional, mas apenas relações de massa, espaço e tempo.
Uso essas coincidências para propor uma possibilidade, hipótese adversa, que até pode ser polêmica, mas não desprovida de razão..
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O carma ocidental

Freud baseou-se na tragédia de Sófocles(496-406 a.C.), Édipo Rei, para formular o conceito do Complexo de Édipo, a preferência velada do filho pela mãe, acompanhada de uma aversão clara pelo pai. Na peça (e na mitologia grega), Édipo matou seu pai Laio e desposou a própria mãe, Jocasta. Após descobrir que Jocasta era sua mãe, Édipo fura os seus olhos e Jocasta comete suicídio. O complexo de Édipo é um conceito fundamental para a psicanálise, entendido por esta como sendo universal e, portanto, característico de todos os seres humanos. O complexo de Édipo caracteriza-se por sentimentos contraditórios de amor e hostilidade. Metaforicamente, este conceito é visto como amor à mãe e ódio ao pai, mas esta idéia permanece, apenas, porque o mundo infantil resume-se a estas figuras parentais ou aos representantes delas. Uma vez que o ser humano não pode ser concebido sem um pai ou uma mãe (ainda que nunca venha a conhecer uma destas partes ou as duas), a relação que existe nesta tríade é, segundo a psicanálise, a essência do conflito do ser humano. (Wikipédia)
Pois nosso carma é seguir essa "civilização" greco-romana:
Na Grécia, berço das artes e dos erros e onde se levou tão longe a grandeza e a estupidez do espírito humano, raciocinavam sobre a alma como nós.
VOLTAIRE,
«13.ª carta», Cartas Filosóficas.
E o pior: graças à faina platônica estamos envoltos não só em seus aspectos epistemológicos, mas, como no caso em tela, até mesmo vendo ciência no que era apenas mitológico. Haja centauros!
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De PARMÊNIDES (540-450 a.C.) PLATÃO contrabandeou as alegorias da ilusão; de PITÁGORAS, (VI a.C.) a geometria e a matemática; da doutrina órfica, a presunção da alma, entendida celestial e pior, separada do corpo, este mundano. Assim crescia a chicana dialética: o fato, a suposição e a resposta, conflito estimulado por distinções polares, paradoxais e enfraquecidas mutuamente, mas desse modo receptiva à introdução da vontade do amo.
De Rousseau a Freud, o homem rolou todos os abismos e, rolando, incapaz de se reter, convencido aos poucos de toda sua negrura interior, perverteu todos os caminhos, comprometeu todos seus atos, justificou todas as acusações futuras e passadas.
Para atingir o mercado sem ser rotulada como ciência abstrata, presumivelmente discutível, a Psicanálise, como a esmagadora maioria dos ramos científicos, logrou o sucesso através do interminável cabo grego:
A influência do neoplatonismo, doutrina filosófica criada por Plotino (205/270) no século III, não se restringiu ao cristianismo (Santo Agostinho, John Scotus Erigena). Na Idade Média influenciou ainda a filosofia judaica, a filosofia dos árabes e, mais recententemente, o filósofo alemão G.W.F. Hegel (1770/1831) e os platonistas de Cambridge (séc. XVII).
www.greciantiga.org

As teorias de Newton lançaram-nos em um curso que desembocou no materialismo que ora domina a cultura ocidental. Esta visão realista materialista do mundo exilou-nos do mundo encantado em que vivíamos no passado e condenou-nos a um mundo alienígena.
BERMAN, MORRIS, cit. GOSWAMI: 31
“As imutáveis leis da História descritas por Marx, a luta desesperada pela sobrevivência de Darwin e as tempestuosas forças da sombria psiquê de Freud devem, em alguma medida, sua inspiração à teoria física de Newton.” (ZOHAR, D., & MARSHALL, I. N.: 16)
Ele possuía seu aparato mental, suas estruturas psíquicas, seus objetos internos, suas forças - mas não tinha a menor idéia de como dois desses aparatos mentais, cada um com sua própria constelação de objetos internos, poderiam se relacionar. Para Freud, eles interagiam de maneira meramente mecânica, como duas bolas de bilhar. Ele não concebia a experiência partilhada pelos seres humanos.
LAING, R. D., cit. CAPRA, F., Sabedoria Incomum, Conversas com pessoas notáveis: 93.
Forte conceito emitiu o prêmio Nobel de Medicina (1980) Sir PETER MEDAWAR (1):
“A psicanálise é aparentada com o mesmerismo e a frenologia: contém núcleos isolados de verdade, mas é falsa na teoria geral”.
E detona o edifício de FREUD:
“É o mais estupendo embuste intelectual do século XX”.
Bem, não é necessário mais destituí-lo; ora trato de oferecer as razões que demonstrarão: antes do complexo ser infantil, é uma introjeção encetada justamente pela luta pelo poder, entre os pais, cujo objeto é o próprio filho, pugna que timbra nossa civilização de modo inequívoco, infelizmente, a começar pelo próprio:
"Existem relatos históricos escabrosos sobre violência sexual contra crianças. Sigmund Freud não apenas tinha amplo conhecimento dos fatos, como sabia que seu próprio pai, Jacob, violentava regularmente seu irmão e sua irmã. (BETTONI, J. , Pedofilia, Freud explica? . - Kronika, Porto Alegre, edição 24: 4)
Custo a acreditar. Presumo que não tenha testemunhado tais crueldades.
Ao longo desse belo 2 de julho, data magna da folclórica Bahia, irei tecendo os fios que os ligam, para encostá-los em minhas elucubrações. Até amanhã.
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Notas
1. The Hope of Progress, London, 1972, cit. Johnson, Paul: 4. Também em Crews, Frederick, O gênio da retórica. - Folha de São Paulo, 22/10/2000, p. 18. Crew ainda relata: “Peter Medawar ficou famoso ao condenar esse sistema como um estupendo conto-do-vigário intelectual."
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Veja o seguimento:
Carma Ocidental - 51. Édipo & dominação

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Ex Presidente Itamar Franco volta à cena política

Do jeito que as coisas vão,
FHC vende a Bandeira Nacional até 2002.
ITAMAR FRANCO. - www.frazz.com.br/autor.htm

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O introdutor do austero Real providencia filiação no PPS, em ato público programado para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais, a 6 de julho. Itamar deixou o PMDB em 2006, e permanecia três anos sem partido.
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A nova moeda
brecou a espiral inflacionária, vetada novas emissões...A gestão se fez praticamente isenta de deslizes administrativos. Sem nada inventar, muito menos corromper, S. Exa. estabeleceu uma harmonia generalizada, levando o país à estabilidade econômica e política.
Com o principal objetivo de controlar a hiperinflação, o Plano Real completa 15 anos com a missão cumprida. A economia foi reaquecida com a entrada das classes C e D no mercado consumidor, aumento da oferta de crédito e prestações sem aumento todo mês. O PIB cresceu 5,67% em 1994, com o setor industrial apresentando expansão de 7%. O principal objetivo do Plano Real era conseguir a estabilização dos preços. O mérito do Plano foi ter conseguido alcançar a estabilidade.
Invertia, 29/6/2009
Manobrando com maestria um engenhoso plano de transição da antiga moeda para o Real, a equipe econômica do governo Itamar Franco conseguiu convencer a sociedade de que a inflação podia ser controlada e de que era possível voltar a viver com estabilidade monetária.
Antônio Delfim Netto, professor emérito da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, ex-ministro da Fazenda, foi deputado federal por cinco mandatos, sendo um como constituinte. - UOL Economia - 1/7/2009)


O resultado ao final do governo FHC todos conhecem: um déficit nas contas externas de US$ 180 bilhões que nos obrigou a fazer vultosos empréstimos no Fundo Monetário Internacional.

Idem, ibidem.
Em que pese por muitos ridicularizado, até por sua simplicidade, tomada como simploriedade, o tom do seu governo foi a eficácia conjugada com a ética, onde a corrupção teve reduzido espaço para se espraiar. Seu demérito, contudo, foi coroar um ministro para fazê-lo sucessor, supondo retornar em seguida, fato frustrado pelo golpe da reeleição..
O Brasil vivia um dos momentos mais difíceis de sua história: recessão prolongada, inflação aguda e crônica, desemprego, etc. Em meio a todos esses problemas e o recém Impeachment de Fernando Collor de Mello, os brasileiros se encontravam em uma situação de descrença geral nas instituições e de baixa auto-estima. O novo presidente se concentrou em arrumar o cenário que encontrara. Itamar procurou realizar uma gestão transparente, algo tão almejado pela sociedade brasileira. Para fazer uma gestão tranqüila, sem turbulências, procurou o apoio de partidos mais à esquerda. Itamar Franco terminou seu mandato com um grande índice de popularidade. Uma prova disso foi o seu bem-sucedido apoio a Fernando Henrique Cardoso na sucessão presidencial.
TIAGO DANTAS, Equipe Brasil Escola
Atual presidente do Conselho de Administração do BDMG, Itamar Franco presidiu o País de 1992 a 1994. Diante da traição, concorreu e venceu para governador de Minas Gerais, de 1999 a 2002.
Engenheiro, foi prefeito de Juiz de Fora por dois mandatos e senador, também por dois mandatos. Foi também embaixador do Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA) e na Itália.
Acompanham-lhe na filiação os ex-ministros Henrique Hargreaves (Casa Civil) e Djalma Morais (Comunicações); atual presidente da Cemig, além do ex-deputado Marcelo Siqueira e da ex-secretária estadual de Justiça de Minas Gerais Ângela Pace.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Honduras: exemplo de Estado de Direito

Se o governo se exceder ou abusar da autoridade explicitamente outorgada pelo contrato político torna-se tirânico e o povo tem então o direito de dissolvê-lo ou se rebelar contra ele e derrubá-lo.
LOCKE, J., Second treatise of civil government: 184
De acordo com os parlamentares hondurenhos, a deposição de Zelaya foi aprovada por suas 'repetidas violações da Constituição e da lei' e por 'seu desrespeito às ordens e decisões das instituições'.
Folha de São Paulo, 29/6/2009
Governantes de diversos países, todavia, criticam o que chamam de Golpe Militar:
O ditador aposentado Fidel Castro, que nomeou seu irmão sucessor, sem eleição, reapareceu em artigo condenando o golpe em Honduras.
Para nosso jardineiro muito além do jardim é deplorável, pois "pode até virar moda", no que é acompanhado pelo intrépido venezuelano, que ameaça com invasão, por OBAMA, exímio diplomata, e de resto pelos retransmissores.
Zelaya foi derrubado do poder, neste domingo (28), em um golpe orquestrado pela Justiça e pelo Congresso e executado por um grupo de militares, que o expulsaram para a Costa Rica, provocando uma condenação mundial unânime. O golpe foi realizado horas antes do início de uma consulta popular sobre uma reforma na Constituição que tinha sido declarada ilegal pelo Parlamento e pela Corte Suprema.
Folha de São Paulo, 29/6/2009
Pois ouso afirmar: Honduras promove o maior leitmotiv democrático, e tomara, mesmo, que sirva de exemplo, posto estarmos por demais necessitados.
Aliás, se formos falar em "moda", foi mesmo um bem trajado e bem-sucedido soció logo e ex-presidente brasileiro que adotou o prêt-à-porter legalizante, ao alterar nossa constituição ára o proveito pessoal, às custas de mensalões.
O engraçado é que todos os presidentes juram obedecer suas constituições.
Ademais, se golpe militar, deveria vir "orquestrado" por comando militar, e o poder exercido por líder fardado. Não é o caso. Os militares foram convocados, como a justiça convoca as forças públicas para fazer valer a lei, ora! No diminuto rincão o poder permanece nas mãos civis, em caráter interino, até se restabelecer a normalidade eleitoral. O novo governante especificou que não se apresentará como candidato nas eleições gerais de 29 de novembro e que entregará o poder ao ganhador em 27 de janeiro de 2010.
Convém por fim lembrar que a democracia se sustenta pelo tripé Legislativo, Executivo e Judiciário, de modo que uma ação, ainda que radical, de dois poderes contra um pode refletir justamente a preservação do sistema:
A continuação da autoridade num mesmo indivíduo freqüentemente tem sido o fim dos governos democráticos. As repetidas eleições são essenciais nos sistemas populares, porque nada é tão perigoso como deixar permanecer um mesmo cidadão por muito tempo no poder. O povo se acostuma a lhe obedecer, e ele se acostuma a mandar, de onde se origina a usurpação e a tirania.
BOLIVAR, S., Discurso de Angostura, de 1819.
A divisão administrativa foi a fórmula encontrada por LOCKE, a qual seria confirmada por MONTESQUIEU::
A Nação inglêsa é a única da terra que chegou a regulamentar o poder dos reis resistindo-lhes e que de esforço em esforço, chegou, enfim, a estabelecer um governo sábio, onde o príncipe, todo-poderoso para fazer o bem, tem as mãos atadas para fazer o mal; onde os senhores são grandes sem insolência e sem vassalos, e onde o povo participa do governo sem confusão.
VOLTAIRE, cit. CHEVALLIER, tomo II: 67
O Estado Absolutista virou Estado Democrático, Liberal, ou de Direito, critério tão bem explicado por MABLY (Doutes Proposes aux Philosophes Economistes sur l'Oredre Naturel et Essentiel des Societes Politiques; cit. Bobbio, 1992:144):
Em política, os contrapesos são instituídos não para privar o poder legislativo e o executivo da ação que lhes é própria e necessária, mas para que seus atos não sejam convulsos, nem irrefletidos, apressados ou precipitados. Criam-se dois poderes rivais para que as leis tenham poder superior ao dos magistrados, e para que todas as ordens da sociedade tenham protetores com quem possam contar. Forma-se um governo misto a fim de que ninguém se ocupe só com seus próprios interesses; para que todos os membros do Estado, obrigados a ajustar-se aos interesses alheios, trabalhem para o bem público, a despeito das suas próprias conveniências.
Infelizmente entre nós, e também entre os venezuelanos, e os bolivianos, não há distinção entre os poderes constituídos. Provavelmente Mr. OBAMA desconhece essa sutileza.
A democracia fala de um governo comandado pelo povo e sujeito às suas leis; na realidade, entretanto, os regimes democráticos são dominados por elites que planejam maneiras de moldar e dobrar a lei a seu favor. O totalitarismo aspira ao extremo oposto da democracia: ele luta para pulverizar a sociedade e estabelecer um controle completo sobre esta [...]
PIPES, R., 2001:251
Dir-se-á: mas no caso hondureño, tal como foi proposto na Bolívia e na Venezuela, o presidente visava permanecer dentro da lei, mercê de referendum popular. Portanto, sua iniciativa foi democrática, e não poderia ser deposto. Nada mais falso.
A facilidade que se tem de mudar as leis e o excesso que se pode fazer do poder legislativo parecem-me as doenças mais perigosas a que nosso governo está exposto.
MADISON, J., Federalist, n. 62. cit. TOCQUEVILLE, A., A Democracia na América, Leis e Costumes: 237
Eis a receita de todas as tiranias e ditaduras:
"Através da vontade geral, o povo-rei coincide, miticamente, de agora em diante, com o poder; essa crença é a matriz do totalitarismo." (COCHIN, AUGUSTE, cit. FURET: 1989: 191)
A capacidade legislativa, especialmente em se tratando de alteração constitucional, não pode ser levada á maniqueísmos, a simples manifestação pelo sim pelo não, ainda mais se proposto por quem detém o poder executivo. É trivial concluir que a massa pode ser facilmente emocionada, porque passional, quando não obter resultados fraudados, como evidentemente aconteceu na Bolívia e na Venezuela:
Nem sequer um doutrinário da democracia como Rousseau, com a concepção organicista da volonté générale, princípio tão aplaudido por Hegel, pode forrar-se a essa increpação uma vez que o poder popular assim concebido acabou gerando o despotismo de multidões, o autoritarismo do poder, a ditadura dos ordenamentos políticos.
BONAVIDES, P. : 56
Igualmente não cabe ao Executivo produzir nenhuma lei. Aliás, já no berço da democracia, na Revolução Gloriosa de 1688, a lei foi instituída justamente para barrar os abusos do Executivo. E como tampouco pode ser tarefa do povo, diretamente, produzi-la, por isso a democracia é representativa. O Governo, ao desprezar a contrária posição do Congresso, age ao arrepio da lei, do Estado de Direito, e da própria democracia, e neste caso, nada mais justo do que destituí-lo: o que lhe importa, de fato, é o usufruto do poder, às custas de todos..
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O sistema de Honduras

Poder executivo: Presidente eleito por votação popular para um período de quatro anos, sem possibilidade de reeleição. Em assessoria ao presidente existe um gabinete de ministros.

Poder legislativo: Unicameral, com 128 deputados eleitos por sufrágio direto.

Poder Judiciário : Composto pelo Tribunal Supremo de Justiça, 9 tribunais de recurso, 66 tribunais de primeira instância e 325 “juzgados” de paz. Integram o Tribunal Supremo 9 magistrados eleitos pela Assembleia para um período de quatro anos, podendo ser reeleitos.


Sábado, 27 de Junho de 2009

O Carma Ocidental - 48. Exorcismo

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A história do poder político nada mais é do que a história do crime internacional e do assassínio de massa.
Karl Popper
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É essa configuração de coletivismo extremado que,
desde o século V, é vista na Grécia como um modelo perfeito de Estado, com a coletividade assim rigidamente aparelhada e destinada à defesa do Estado. CASTRO, P.P. www.fflch.usp.br/dh/heros/pcastro/grecia
A sociedade grega e romana se fundou baseada no princípio da subordinação do indivíduo à comunidade, do cidadão ao Estado. Como objetivo supremo, ela colocou a segurança da comunidade acima da segurança do indivíduo. Educados, desde a infância, nesse ideal desinteressado, os cidadãos consagravam suas vidas ao serviço público e estavam dispostos a sacrificá-las pelo bem comum; ou, se recuavam ante o supremo sacrifício, sempre o faziam conscientes da baixeza de seu ato, preferindo sua existência pessoal aos interesses do país.
TOYNBEE, Arnold J.: 196
Maquiavel, Galileu, Bacon, Descartes, Newton, Hobbes, Rousseau, Bentham, Mill, Hegel, Malthus, Darwin, Sorel, Freud, Comte, Marx & Keynes são as estrêlas mais brilhantes da via láctea do inolvidável Platão.
A crença fundamental dos metafísicos é a crença na oposição de valores.
Nietzsche, F., Além do bem e do mal: 10;
Essa montagem milenar, força concentrada pelas candentes brilhaturas, vara os tempos precipitando os povos à insanidade, desde as peripécias do Tirano de Siracusa ao obscuro César Bórgia; do galante Cromwell, à sangrenta Revolução travestida democrática, daí ao Corso e às guerras civis e mundiais que se sucederam.
Mussolini, Hitler, Mustafá Kemal Pacha, Roosevelt e Salazar. Todos eles para mim são grandes homens, porque querem realizar uma idéia nacional em acordo com as aspirações das coletividades a que pertencem.
VARGAS, GETÚLIO,
Cit. MONTEIRO, Gen. GOIS, A Revolução de 30 e a Finalidade Política do Exército: 187
Malgrado o linchamento do Duce, a bomba atômica, muitos suicídios e o colapso soviético, suas perfídias não se extinguiram; e até hoje impregnam quase a totalidade das constituições, sempre conservadas, muitas incrementadas através de sofisticados disfarces, assim aprimoradas pelo poderoso de plantão.
Assim como Newton formulou as leis fundamentais da realidade física, os filósofos e sociólogos, viajando na sua esteira, esperavam descobrir os axiomas e princípios básicos da vida social. Seu universal maquinismo de relógio converteu-se em modelo a partir do qual comparava-se o Estado com um mecanismo preciso, sujeito a leis, e retratavam-se os seres humanos qual máquinas viventes.
ZOHAR, D., 2000: 23.
A mesquinhez e o egoísmo orientam os passos de desvirtuantes talentos, e conduzem a humanidade às covas comuns, massacres coletivos logrados por convocações realizadas não só para tal defesa, ou de preconceitos morais, mas oriundos dos interesses escusos, imediatistas, devidamente envoltos pela cultura disseminada, fé quase religiosa que os hábeis condutores sabem incutir para captarem seguidores de suas doutrinas de dominação total:
Após ter então agarrado cada membro da comunidade e tê-los moldado conforme a sua vontade, o poder supremo estende seus braços por sobre toda a comunidade. Ele cobre a superfície da sociedade com uma teia de normas complicadas, diminutas e uniformes, através das quais as mentes mais brilhantes e as personalidades mais fortes não podem penetrar, para sobressaírem no meio da multidão. A vontade do homem não é destruída, mas amolecida, dobrada, guiada; os homens raramente são forçados a agir, mas constantemente impedidos de atuar; tal poder não destrói, mas previne a existência; ele não tiraniza, mas comprime, enerva, ofusca e estupefaz um povo, até que cada nação seja reduzida a nada além de um rebanho de animais tímidos e trabalhadores, cujo pastor é o govêrno.
SMITH, ADAM, cit. Pioneiro, Caxias do Sul, 17 /10/1996
Evidentemente não podemos tolerar a permanência dos impostores. Tampouco, porém, nos cabe julgar os precursores. Condenaríamos o próprio o passado pelo qual emergimos. Ademais, penas post mortem são inócuas. Antes de tudo temos o dever de tentar compreender motivações e peculiares circunstâncias, até de tempo e lugar, realidade e crenças predominantes. A faina serve para enquadrar costumeiros clones, gente presente, ávida à utilização das velhas cadeiras; ou melhor, caldeiras, porque depenam patos:
O poder de Estado, que parecia planar bem acima da sociedade, era todavia, ele próprio, o maior escândalo desta sociedade e, ao mesmo tempo, o foco de todas as corrupções.
Comuna de Paris, 1871
Quando se perfilam lógicas e razões condicionantes dos movimentos das massas, sobressaem-se os grandes equívocos, bem como a caducidade dos arquétipos e suas artimanhas, por bizarro ainda utilizados.
Mais de dois mil anos já se passaram desde o dia em que Platão ocupava o centro do universo espiritual da Grécia e em que todos os olhares convergiam para a sua Academia, e ainda hoje se continua a definir o caráter da filosofia, seja ela qual for, pela sua relação com aquele filósofo.
JAEGER, Werner. Paidéia. A formação do homem grego
: 581

O painel detetor da insensatez permanece aceso, e acusa inúmeras situações críticas, todas oriundas dos malfadados projetos:
Lia-se Marx, Weber, Dobb, Mannheim, Lukács, Heller e, em 1968, muito Marcuse. Também Gramsci começava a ser estudado. De início, no curso de História das Idéias, foram introduzidos os seus escritos sobre Maquiavel, mas nos anos 70, tornou-se um dos autores mais trabalhados, a ponto de, no princípio dos anos 80, ter sido tema de tese de livre-docência de um dos professores da Cadeira.
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Nos cursos de Instituições Políticas Brasileiras discutia-se desde as questões referentes ao escravismo, ao feudalismo e ao capitalismo na formação do estado brasileiro, debate que foi uma constante durante certo período, até os aspectos mais atuais do país, ou seja, a revolução brasileira, o populismo e o autoritarismo. Caio Prado e Celso Furtado eram leituras obrigatórias...
QUIRINO, Célia, Departamento de Pós-graduação em Ciências Políticas da USP
A permanência desses pré-fabricados platônicos é que se torna indesculpável.
As corporações centralizadas e autoritárias têm fracassado pela mesma razão que levou ao fracasso os estados centralizados e autoritários: elas não conseguem lidar com os requisitos informacionais do mundo cada vez mais complexo que habitam.
FUKUYAMA, F., 2002: 205
Curiosamente, nessa época, enquanto atrelávamos nosso futuro, que hoje é presente, e um presente grego, e negro, os estudantes da Sorbonne e do mundo inteiro balançavam o globo exigindo que a imaginação chegasse ao poder, e às escolas. Pouco adiantou, infelizmente, como ora experimentamos. Não temos mais tempo a perder.
Chegaremos mais próximos da reorganização e de um acomodamento natural, paradoxalmente, lançando um cocktail desintegrativo no desenrolar sócio-político-histórico. Parando ou rompendo com o determinismo oriundo deste pretérito mecanicista, estéril e opressor, poderemos alcançar mais rapidamente a readaptação, arejada e transparente, a perfazer um tecido social condigno com a época e as aspirações de cada um de nós.
Voltando-nos ao real, por que acontecido, restar-nos-á explicá-lo e abandoná-lo, para tomarmos os tapetes mágicos de nossos próprios sonhos, permitidos e queridos por uma nova ordem (ou desordem), múltiplo anseio de ver e viver de modo mais harmônico, integrados com a natureza, sim, mas especialmente com o principal ator, o próprio semelhante. Estacionado o velho trem ideológico, podemos atirá-lo ao ferro-velho, junto com seus trilhos estendidos à esquerda e à direita. No fim-da-linha aguardam pequenas, ágeis, versáteis e ecológicas naves, individuais ou não, mas definitivamente em consonância com a complexidade e leveza cósmica:
Há infinitos universos paralelos formando ramificações. Em cada um se atualiza uma realidade." (Toffler, Alvin e Toffler, Heidi: 20)
Ortega Y Gasset me advertiu sobre o custo do resgate:
“O homem que descobre uma nova verdade científica precisou, anteriormente, despedaçar em átomos tudo o que aprendera, e chega à nova verdade com as mãos sujas de sangue do massacre de mil superficialidades”. (Rebelião das massas, cit. Rohmann, Cris, p. 298.)
Orgulho-me dos crimes cometidos - dezenas de exumações e ataques ininpterruptos; porém, nem uma gota me caiu nos dedos. Ao mirar a obsoleta arquitetura das oxidadas plataformas econômico-jurídicas institucionalizadas, apelo por francos bisturis demistificadores, mas a laser, (light amplification by stimulated emission of radiation), no fito primordial de total profilaxia, aragem preparatória ao plantio de um novo tronco, suficientemente oxigenado, sustentáculo efetivo, motriz do amplo desenvolvimento, sem requerer pervertê-lo.
As informações, outrora truncadas, esparsas, herméticas, enfeixadas, censuradas por perigosas ou de difícil acesso, nos dias de hoje são desvendadas ao mundo dos normais por uma avalanche de razões perfeitamente ordenadas; e o cidadão comum pode ver despontar, apesar de uma infinidade de mitos e obstáculos dogmáticos, a majestosa reversão propiciada pelos luminares da ciência.

Na frente aguarda o caminhão da "grande mudança" aclamada por Polanyi e Kraemer. Capra qualifica como "momento da mutação", Pawells e Bergier, de "despertar dos mágicos", Naisbitt, de “paradoxo global”, Kuhn de "novo paradigma", Toffler de “powershift" (Mudança de poder), Ferguson da tal “era de aquarius”, Bobbio, a “dos direitos”, muitos da reengenharia, e o que Popper propugnava, há mais de meio século, o advento da "sociedade aberta".
O desiderato se impõe independentemente de números ou códigos comportamentais (posto que infinitamente mais amplo), mas se faz também legal e legítimo, cientificamente correto e apreciado, em reversão por convergência, sem dialética, mas por somalética, dialógica na qual a ética não se fratura.
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Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

País de tolos?


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O estudo da sociedade é tão precioso
porque o homem é muito mais ingênuo
como a sociedade do que como indivíduo.

NIETZSCHE, F., Vontade de Potência,
Parte 2 : 276
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.Nenhuma gota d'água passa pelo
esgoto sem se tornar poluída.
Roberto Jefferson, presidente do PTB
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São Paulo, 25 de janeiro de 1984:
O povo se aglomera na Praça da Sé.
Encanta-lhe alegorias, flautas mágicas, cânticos e cantorias.
Palmas e coros embalam o show protagonizado pelos trovadores.
Os artistas prometem liberdade a um povo naturalmente livre, mas a
promessa é atraente. Quem não gosta de aumentar a satisfação?
O movimento abarca toda a "oposição" e "dissidentes", desconformes com
o regime ditatorial.
No palanque, de mãos dadas, se jactam Tancredo Neves,
ex-ministro da "justiça" do introdutor do fascismo no Brasil,
e portador da famosa Carta-Testamento, (Fundação Getúlio Vargas) único depoimento de um suicida completado com máquina de escrever; Ribamar Costa, o Zé do Sarney, ferrenho colaborador do regime militar; Fernando Cardoso, ironicamente filho de General, mero papagaio-de-pirata, diletante de socio logia; e Luís da Silva, sindicalista preservado da cassação graças à sua função de carneiro-guia. Na primeira fila vê-se ainda Dante de Oliveira, já de cabeça baixa, futuro governador do MT a ser desmascarado por corrupção.
O que me assusta não são as ações e os gritos das pessoas
más, mas a indiferênça e o silêncio das pessoas boas.
Martin Luther King

O presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Carlos Ayres Britto, disse à Folha Online (23/1/2009) que o movimento pelas Diretas-Já desencadeou um "processo sem volta" no caminho da democracia. Ayres Britto afirmou ainda que a partir deste movimento a trinca de valores democracia, ética e ecologia entrou no rol de valores obrigatórios da sociedade brasileira.
Onírico.
Nos anos 80, Ayres Britto era procurador-geral do Estado de Alagoas e professor universitário. Segundo ele, participou "ativamente" do movimento das Diretas-Já, mas como intelectual e não na linha de frente. "Sempre atuei mais no campo teórico. Acho que tenho mais vocação para isso", disse ele, com um suave sorriso.

E cá estamos, ovelhinhas com quantidade de lã jamais por ninguém auferida, material que serve de cobertor para o resto das vidas não só dos pastores, mas também de seus parentes e descendentes, dos prosélitos engajados, e da cachorrada que lhes serve:
"Há fraudes de todos os tipos." (Edgard Camargo Rodrigues, novo presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE) do Estado de São Paulo. Estadão, 22/2/2009)
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Eis nosso martírio, já por quarto secular, um quarto deveras escuro, sombrio como convém a gatuno:

O 'trem da alegria' foi promovido às vésperas do Colégio Eleitoral que escolheu Tancredo Neves. Os senadores beneficiados pelo 'trem' juraram que 'tudo foi feito dentro da legalidade' e como manda 'a tradição da Casa'. Também foram nomeados na ocasião aliados políticos e jornalistas amigos de senadores.
www.claudiohumberto.com.br - 25/6/2009
Desde a redemocratização do Brasil, em 1985, peemedebistas e democratas (antigos pefelistas) se revezam no comando dos principais cargos do Senado. Nos últimos 15 anos, uma aliança entre o PMDB e o ex-PFL bancou a gestão de Agaciel Maia na direção-geral do Senado. Gestão que é um caso de polícia
KENNEDY ALENCAR, Folha de São Paulo, 28/6/2009

Não são poucos os que lamentam a estupenda vigarice:
Revoltados com os políticos, alguns leitores defenderam o voto nulo nas eleições. É o caso de Olegario Silva. 'É difícil admitir, mas o voto nulo é a única arma constitucional que podemos utilizar para virar o jogo político em nosso país', diz Olegario, desiludido com os políticos.'Que vontade de rasgar o meu título de eleitor.
Votar para quê?', completa Rubens Lima.
O Globo, 5/2/2009 .

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

A Mão Invisível & Dia do Meio-Ambiente

Abandonar a busca da realidade e do valor absoluto e imutável pode parecer um sacrifício. Mas esta renúncia é a condição requerida para se empenhar numa vocação mais vital - a procura dos valores que podem ser assegurados e compartilhados por todos, porque estão vinculados aos fundamentos da vida social. É uma busca em que a filosofia não encontrará rivais mas sim colaboradores em todos os homens de boa vontade.
DEWEY, JOHN (1859-1952)
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Nesta data, precisamente em 1723, nascia o Sol-Maior da Economia. Desde então, não poucas nuvens pairaram sob seus raios, para transformá-los em densas tempestades. Elas se vão, ele retorna, e com seu brilho refaz todos os danos.
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O cenário

A grande epopéia das Luzes incluía no mesmo movimento o justo e o belo. Organizava um afresco tranquilizador da natureza e da sociedade. Os romances de aprendizagem diziam como se conduzir e se comportar. Ora, as indicações foram se desagregando nas sociedades industriais contemporâneas. Como poderiam ter consciência?
DESCAMPS, C., As Idéias Filosóficas Contemporâneas na França, p. 27.

Diante da fraticida espanhola, ORTEGA Y GASSET conclamou para a tragédia consumada na titânica luta pelo poder travada entre os fascistas de FRANCO, MUSSOLINI e HITLER, contra os comunistóides ibéricos armados pelos soviéticos:
"Eu sou eu e minhas circunstâncias."
Como o mundo vem já há século marchando ora direita, ora esquerda, a difusão da obra sempre foi dificultada, de modo que apenas ressonâncias ecoam pelos ouvidos dos sobreviventes. Assim, não poucos invocam a famosa frase no sentido de se desculparem por alguma intempérie, por um fato aleatório que venha a solapar melhores expectativas. Revelam um conhecimento por demais empírico, e ainda parcialmente assimilado, fatores que per se levam-no ao rumo inverso do que pretende o recado de Ortega.
A partir de Bacon, o objetivo da ciência passou a ser aquele conhecimento que pode ser usado para dominar a natureza. A natureza, na opinião dele, tinha que ser ‘acossada em seus descaminhos’, ‘obrigada a servir’, ‘escravizada’. Devia ser ‘reduzida à obediência’ e o objetivo do cientista era
‘extrair da natureza, sob tortura, todos os seus segredos’.

A criação da data foi em 1972, na
Conferência das Nações Unidas para
tratar de assuntos ambientais, que englobam
o planeta.
A conferência reuniu 113 países,
e conversaram sobre o que homem tem
causado ao meio ambiente e os riscos
para sua própria sobrevivência.

http://bibliotecachampagnat.blogspot.com

A filosofia mecânica forneceu uma resposta para o problema da ordem cósmica e, portanto, da ordem social, mas ao fazê-lo indicou a necessidade de poder e domínio sobre a natureza.
HENRY, JOHN
: 101
De nutriente, participativa, a natureza virava alvo, adversária subjugada. O saber resumir-se-ia em meio vigoroso e seguro para conquistar o poder sobre ela, mas per se, não constituia valor:
“Assim, foi abandonada a filosofia natural como um traste inútil e o vazio, produzido pelo seu abandono, pretendeu o homem enchê-lo com a ciência.”
MARX (O que Marx realmente disse; décima-primeira das Teses sobre Feuerbach: 22) soube bem apreciar a originalidade baconiana:
“Os filósofos tem se limitado a interpretar o mundo de maneiras diversas; trata-se de transformá-lo.”
“O ser que já iniciou a apropriação da natureza por meio do trabalho de suas mãos, do intelecto e da fantasia, jamais deixará de fazê-lo e, após cada conquista, vislumbra já seu próximo passo.” (MARX, KARL, posfácio à segunda edição alemã do primeiro volume de O Capital; cit. Konder, L.: 10)
As conseqüências do analfabetismo científico são muito mais
perigosas em nossa época do que em qualquer outro período anterior.

SAGAN, C., O Mundo Assombrado pelos Demônios: 21
As teorias de Newton lançaram-nos em um curso que desembocou no materialismo que ora domina a cultura ocidental. Esta visão realista materialista do mundo exilou-nos do mundo encantado em que vivíamos no passado e condenou-nos a um mundo alienígena.
BERMAN, MORRIS, cit. GOSWAMI: 31
Sir BERTRAND RUSSELL (cit. FADIMAN, C.: 266) condena a possibilidade, tantas vezes tornada realidade:
Surge um grave perigo quando esse hábito de manipulação com base em leis matemáticas é estendido ao nosso trato com seres humanos, uma vez que estes, diferentemente do cabo telefônico, são suscetíveis de felicidade e infortúnio, de desejo e aversão. Seria, portanto, lamentável que se permitisse que hábitos mentais apropriados e corretos para o trato com mecanismos materiais dominassem os esforços do administrador no plano da construção social.
O resultado não poderia ser mais trágico:
Na medida em que o poderio da ciência e da técnica é não somente poderio do homem, mas poderio sobre o homem, a ciência é mediadora da dominação do homem pelo homem; e talvez por isso que vivemos numa agressão e numa agressividade permanentes: porque o nosso meio ambiente é considerado como imputável.
PH ROQUEPLO,
Oito Teses Sobre o Significado da Ciência, in DEUS, J. D. Organizador: 151
Os danos
Embora a mágica de esporádicos trechos incólumes, o retilíneo, desrespeitoso e por tudo grosseiro caminho passou por cima de tudo. A má temática de Platão & Pitágoras abalou todos os sistemas, sejam vegetais, minerais ou animais, e mormente os políticos, jurídicos, econômicos, científicos, filosóficos, sociais e pessoais. Ao examinarmos teorias e fatos, idéias e formas, para tomar o jargão da perfídia grega, elemento que impulsionou o insensato tour ocidental, delineamos o leitmotiv da torpeza. Precedeu-lhe o medo injetado, do trovão e da epidemia, da extinção da propriedade privada em prol do abstrato coletivo, gerado e gerido por um único artífice, invasões e chacinas, guerras frias e quentes, estratégias, ações e reações. As aventuras “ferrocarris-ideológicas” conduziram a humanidade no rumo de Marte, digo, da morte, às covas comunitárias, massacres coletivos logrados por convocações realizadas pretensamente na defesa de ideais, mas efetivadas na mera ambição do alheio, vileza camuflada na fé quase religiosa que hábeis condutores bem sabem incutir, no fito de captar seguidores de suas doutrinas de espoliação total...
A permanência desses pré-fabricados é que se torna indesculpável. Chegaremos mais próximos da reorganização e de um reacomodamento natural, paradoxalmente, lançando um cocktail desintegrativo nesse desenrolar pseudocientífico, ferros da direita e da esquerda que compuseram os trilhos à passagem da loco motiva sócio-política. Parando ou rompendo com o determinismo oriundo deste pretérito mecanicista, egoísta e opressor, poderemos alcançar mais rapidamente a readaptação, arejada e transparente, a perfazer um tecido social condigno com a época e as aspirações de cada um de nós. Voltando-nos ao real, por que acontecido, restar-nos-á explicá-lo e abandoná-lo, para tomarmos os tapetes mágicos de nossos próprios sonhos, permitidos e queridos por uma nova ordem (ou desordem), múltiplo anseio de ver e viver o mundo mais harmonicamente integrado e desenvolvido. Estacionado o velho trem, retirada a carga, optamos por pequenas, ágeis, versáteis e ecológicas naves, individuais ou não, mas definitivamente em consonância com a complexidade e leveza cósmica.
O imperativo da melhor convivência do habitante com o meio ambiente não pode olvidar, por óbvia extensão, o semelhante. Isto condiciona, pois, o aprimoramento das relações pessoais; por conseguinte, sociais. Em outras palavras: pelo respeito e consideração ao indivíduo (só por ele), chegamos ao resultado social. A economia faz-se, apenas, expressão numérica, e por convenção; portanto, há que ser integrada, mero complemento, e não pauta destinatória.
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A ReVerSão
Nem o Universo, nem o futuro, nem nada está por acaso:
Assim, descobriu-se recentemente que na natureza tudo está subordinado a uma ordem, até mesmo os fenômenos confusos, sem nexo, totalmente imprevisíveis. Esta ordem ‘superior’ é capaz de explicar eventos aparentemente randômicos - não importa se se trata de bolsa de valores, da mudança na temperatura de nosso planeta, ou da maneira que nós formulamos nossos pensamentos – e que podem ser expressos tanto em fórmulas matemáticas e físicas, quanto em belas imagens (os chamados fractals) disformes, mas com uma atraente irregularidade. Todos esses eventos têm algo em comum: o fato de serem atraídos a certos estados da natureza, o que lhes dá unidade, se bem que disfarçada. A nova regularidade dos fenômenos deu origem a uma nova ciência, que tem o ‘caos’ como tema central e na qual, um dia, deve se enquadrar a teoria das ondas.
WITKOWSKI, Bergè: 275

Na rotina diária, nem sempre percebemos que tudo que existe é de certa maneira controlado por forças e interações invisíveis aos olhos. Nossa própria existência, do nascimento até a morte, é influenciada por essas forças. Elas controlam as menores partículas subatômicas e as grandes galáxias a bilhões de anos-luz de distância.
OLIVEIRA, Adilson,
Depto. de Física Universidade Federal de São Carlos
19/11/2008
- http://cienciahoje.uol.com
Por bizarro, mas felizmente, essas forças não são acionadas à força:
O choque, a ação de um átomo sobre o outro, pressupõe também a sensação.
Algo de estranho em si não pode agir sobre o outro.
NIETZSCHE, F. ,
O livro do filósofo: 45
"O núcleo do novo paradigma é o reconhecimento de que a ciência moderna confirma uma idéia antiga - a idéia de que consciência, e não matéria, é o substrato de tudo que existe." (GOSWAMI, A. )
"Sabemos que o universo manifestado, que parece ser formado por objetos sólidos, é na verdade composto por vibrações, com os diferentes objetos vibrando em frequências distintas." (CHOPRA, DEEPAK, A realização espontânea do desejo: 124)
Onde quer que haja organismos, o que mais importa conhecer é o complexo 'organismo x meio'. Os próprios elementos dos organismos estão sempre e necessariamente em relação mediata ou imediata com o conjunto de outros elementos. A interação é o fato perene do mundo. Como, pois, limitar a aplicação do relativismo?

Nesse caso, os neutrinos que criamos em nosso organismo podem ter a nossa marca e podem estar fazendo a nossa interação com o universo. Podem estar levando nossa mensagem, mostrando nossa existência e o que somos, do mesmo modo que a luz das estrelas nos faz tomar conhecimento de sua existência.
ANDREETA, José Pedro e ANDREETA, Maria de Lourdes, Quem se atreve a ter certeza? A realidade quântica e a filosofia: 162.

"Eu sou eu e minhas circunstâncias. Se não as salvo, não me salvo."
Eis a oração completa de ORTEGA.
Nossas maiores circunstâncias estão em primeiro plano localizadas em nosso habitat, naturalmente, e daí ao sideral. Todas dependem de nossa ação. Ou melhor, não da omissão, mas da consciência de que pela não-ação tudo pode ser feito, ou até refeito.
As desmedidas ações do homem para "dominar a natureza, o mundo a seus pés, como pregavam BACON e as tais Sagradas Escrituras tem agravado todos os problemas.
Tudo, contudo, excede a padronização, a centralização, a concentração da energia, do dinheiro, do poder. Cabem aos novos sóis as restaurações:
"Essa nova civilização tem sua própria e distinta concepção de mundo, maneiras próprias de lidar com o tempo, o espaço, a lógica e a relação de causa e efeito." (ORMEROD,Paul, 1996: 194)
Para isso mister refrear o artificial e danoso poder, logrado pelo ser na expansão política e tecnológica, levado ao extremo pela revolução industrial e a volúpia pela matéria.
O que estou tentando mostrar é que a ciência, por causa do seu método e de seus conceitos, projetou um universo no qual o domínio da natureza ficou ligado ao domínio do homem e que ela favoreceu esse universo – e esse traço de união tende a tornar-se fatal para esse universo e seu conjunto.
MARCUSE, Herbert,
Uma ciência sem domínio?; P. Seuil, 1970; cit. CHRÉTIEN
: 212
Por isso conclamava LAO-TZÈ:
"Pela não-ação tudo pode ser feito."
Em nosso caso, diante de tantos feitos, há que ser tudo refeito. A preocupação com o cenário, todavia, não pode olvidar o principal ator:
O que governa a dinâmica da natureza, inclusive em seu aspecto mais material, na física, não é uma ordem rígida, predeterminada. Nem tampouco uma dialética entre contrários em luta, que leve a síntese, até que se produza uma nova antítese, como na visão dialética marxista rechaçada também pela genética, segundo diz MONOD. É precisamente uma interação - que já existe nos níveis materiais mais elementares entre o aspecto onda e o aspecto corpúsculo - o que impulsiona a dinâmica da natureza. Assim o mostram as relações de mecânica ondulatória, que explicou LOUIS DE BROGLIE, síntese genial que tornou possível, como diz RUEFF, uma filosofia quântica do universo, aplicável não somente às ciências físicas, senão também a todas as ciências humanas.
Juan Vallet de Goytisolo

Interações
Do lado da sociologia, sabe-se que mesmo um autor como Luhmann acabou por se ver compelido a introduzir uma mudança radical no paradigma das relações entre a pessoa e o sistema social. Deixando de ser categorizada como mero ambiente do sistema social, a pessoa passa a valer, também ela própria, como sistema. A pessoa vê-se, assim, chamada - e legitimada - a desafiar permanentemente o sistema social, como fonte de 'contingência', 'irritação', mesmo desordem. De acordo com o 'novo paradigma luhmanniano', na construção de sistemas sociais, a complexidade opaca dos sistemas pessoais aparece como indeterminabilidade e contingência. Não sobrando para o sistema social outra alternativa que não seja 'interiorizar a complexidade' irredutível, emergente da pessoa. O que bem justificara a pretensão de apresentar a nova teoria de Soziale Systeme (1984) como uma Zwang zur Autonomie.
ANDRADE, M.: 26
O notável ANATOLY GROMIKO (Breakthrough: 8; cit. LEMKOW: 382) não se furtou em saudar a New Age:
A humanidade está emergindo de uma reação em cadeia de causa e efeito que se estende por bilhões de anos no passado. Agora a espécie tem o poder de afetar sua própria evolução através da escolha consciente. As pessoas hoje sabem mais do que nunca. Rádios, televisores, computadores, telefones, copiadoras se espalharam pelo globo em um século. Nenhuma geração pode acrescentar essas coisas aos jornais, revistas e as artes. O nosso é um tempo de possibilidades ilimitadas para intercâmbio, interação entre culturas, viagens e aprendizado. Pensar globalmente exige a descoberta da relação certa entre indivíduo e a comunidade global. Nenhum deles é insignificante. Deve haver uma relação saudável entre comunidade, ordem social, o todo e o indivíduo.
"Isto faz dos seres vivos elementos numa vasta rede de inter-relações que abarca a bioesfera de nosso planeta – que em si mesma é um elemento interligado dentro das conexões mais amplas do campo psi que se estende pelo cosmos." (LASZLO: 198)
O conceito de um mundo sutilmente interligado, um oceano cósmico no qual estamos intimamente ligados uns aos outros e à natureza, assimilado por nosso intelecto e abraçado por nosso coração, poderá talvez inspirar novos modos de pensar e de agir que transformem o espectro de uma derrocada global no triunfo de uma renovação global – uma renovação para uma era mais humana e sustentável.
(Idem: 205)
Esta organização não pode ser abandonada à iniciativa dos governos: será alcançada quando os povos tiverem uma vontade firme e ativa, porque é renovação radical de todas as antiquadas tradições politicas. A compreensão e a vontade de resolver o problema estão-se generalizando. Acredito na influência de um individuo sobre outro e acredito no processo de seqüência e encadeamento entre os homens.
EINSTEIN, A., Fala Einstein sobra o futuro da humanidade, Folha da Manhã, 4/3/1949
Somente pela ação da Mão Invisível é que tudo pode ser feito. Como preconizava ADAM SMITH, o Sol-Maior, aniversariante do dia:
"De fato, a vida no espaço cibernético parece estar se moldando exatamente como Thomas Jefferson gostaria: fundada no primado da liberdade individual e no compromisso com o pluralismo, a diversidade e a comunidade.” (NAISBITT, J., Paradoxo Global: 96)

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

O Carma Ocidental - 47. Tempo é dinheiro?

O homem ocidental civilizado vive num mundo que gira de acordo com os símbolos mecânicos e matemáticos das horas marcadas pelo relógio. É ele que vai determinar seus movimentos e dificultar suas ações. O relógio transformou o tempo, transformando-o de um processo natural em uma mercadoria que pode ser comprada, vendida e medida como um sabonete ou um punhado de passas- de-uva. E pelo simples fato de que, se não houvesse um meio para marcar as horas com exatidão, o capitalismo industrial nunca poderia ter se desenvolvido, nem teria contnuado a explorar os trabalhadores, o relógio representa um elemento de ditadura mecânica na vida do homem moderno, mais poderoso do que qualquer outro explorador isolado ou do que qualquer outra máquina. WOODCOCK, A ditadura
do relógio, In A rejeição da política, 1972
Como convém ao mito.
O efeito da "filosofia" grega é o domínio. Ao contraste, o efeito da filosofia oriental é o usufruto. Não por acaso, ainda que por paradoxo, a religião ocidental tudo fragmentou, despedaçou. Corpo e alma. céu, inferno, e, por fim, esquerda e direita. Não sobrou sequer o tempo, dividido em quarto sobre quarto, ad infinitum, mas desse modo tornando tudo totalmente limitado.
Religiosos não acreditam na eternidade.
Foi a tradição judaico-cristã que estabeleceu o tempo linear (irreversível) de uma vez por todas na cultura ocidental... O tempo irreversível influenciou profundamente o pensamento ocidental. Preparou a mente humana para a idéia de progresso, para o conceito de tempo profundo, para a surpreendente descoberta dos geólogos de que a evolução humana é apenas um episódio recente e curto na história da Terra. Preparou o caminho para a evolução de Darwin, que fala de nossa união com criaturas mais primitivas através dos tempos. Em resumo, o advento da idéia de tempo linear e da evolução intelectual desencadeada por essa idéia corroborou a ciência moderna e a promessa de melhoria da vida na Terra.
COVENEY: 22

Era (de de todo modo ainda é) o previsível (e monótono) tique-taque que orientava as previsões:
"A confecção de relógios, por exemplo, é certamente delicado e trabalhoso, de tal modo que as suas rodas parecem imitar as órbitas celestes ou o movimento contínuo e ordenado do pulso dos animais.
" (BACON, F.: 67 )
Sir
NEWTON (Principia, II, art. 37) aproveitou a carona:
O espaço absoluto, em sua própria natureza, sem levar em conta qualquer coisa que lhe seja externa, permanece sempre inalterado e imóvel... O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, de si mesmo e por sua própria natureza, flui uniformemente, sem depender de qualquer coisa externa.
Lêdo engano, o mais crasso dos equívocos:
O verdadeiro tempo (o que Bergson chama de 'duração') consiste propriamente na experiência vivencial da própria vida, e, por conseguinte, radicalmente intuitiva. Entretanto, para a maioria de nós, esse tempo verdadeiro foi inapelavelmente deslocado pelo ritmo do tempo marcado pelo relógio. Aquilo que constitui fundamentalmente o fluxo vital de experiência torna-se então um gabarito externo, arbitrariamente graduado, a que nossa existência é subordinada - e sentir o tempo de qualquer outra maneira torna-se 'místico ou louco'. Se a sensação do tempo pode ser assim coisificada, porque não haverá de ser tudo o mais? Por que não inventarmos máquinas que coisifiquem o pensamento, a criatividade, a tomada de decisões, o julgamento moral?
ROSZAK, T.:230
Mais do que isso, se presume que a quantidade de tempo, e não como se lhe usa é que constitui seu valor. Bobagem. De nada adianta dispor de tempo, e não bem usá-lo. Pode-se ter todo o tempo do mundo, que se mal empregado, torna-se desvalorizado. Portanto, não é o número, e sim a qualidade o maior distintivo do tempo de cada ser.
* * *
Falam de nossa união com criaturas mais primitivas, através dos tempos. Quantos seriam? E se for apenas uma, pelo critério da seleção natural não são os macaquinhos mais equipados do que gente, porque tem até rabo, que ainda não temos? E nosso parentes, seriam descendentes do quê? DARWIN (cit. THUILLER: 199), todavia, para desespero do Cap. FRITZ ROY, curtiu o cruzeiro por longo tempo, e de graça; depois esperou, por dezenas de anos, a chegada de WALLACE. Só então apresentou "seu" trabalho, por sinal, idêntico. Nada perdeu, só ganhou. No casar, contudo, sim:

“O casamento acarreta uma terrível perda de tempo!”

PROUST foi em busca do tempo perdido. Na sepultura deve ter achado.

Não são poucos os que perdem o avião. Como ontem ainda vimos, pode ser a sobrevida. Outros, perdem o cinema, e até o bonde da história. Às vezes passa o cavalo encilhado, sem montaria. Diz-se que ao lento recai o vento.
Na falta de outro parâmetro, a marcha vem batida no cronograma: rush da manhã, do almoço, da happy hour. Ela nem pode durar a unidade; senão, o incauto leva um rolo de massa na cabeça. Em casa, depois do jantar, todos na TV. Acompanham a novela de enredo invariável, e de horário impecável. Ela é tão forte que desloca até o Maracanã lotado para mais tarde. A torcida que espere o beijo.
Hora-extra? Quem logra o fenômeno leva vantagem. Só não atrase o pagamento. Ele custará muito mais caro, principalmente por aqui. Coisa de “apenas” uns 200% ao ano.
Mas se o atraso recair na audiência, justiça não vem ao caso. Pronto: lá se foi o capital!
Trabalho à noite ganha adicional, mas vôo noturno à capital tem desconto. Durma-se com um barulho desses!

Um semialfabetizado demora um ano para ler o livro. Outro faz o percurso em dia. Àquele o tempo urge. Pela leitura dinâmica, há tempo para tudo.
Quem tem tempo não carece. Quem não tem, pega a primeira condução que aparece, comumente ônibus. Se parado ficasse, ainda assim poderia ser mais rápido: era só estar no saguão do aeroporto.

Mesmo dentro do ônibus há discrepâncias de tempo: um vai dormindo, e o tempo lhe passa sem sentir. Ao preocupado, o tempo varia. Para quem visita a namorada, o ônibus não chega nunca! Apreciando boa música, ainda mais se acompanhado, tudo finda muito rápido.

O tempo flui em taxas diferentes. Cabe ao agente definir a dilatação temporal. Sua ausência acarreta a contração espacial.

O tempo é elástico até para quem dorme. O rico sonha, e assim tem tempo dobrado. O carente, pesadelo. É sofrido, ninguém quer, mas o tempo também para ele se expande. Se ao acordar nada lembram, lá se foi o tempo em vão.

Quem possui a mulher nota 10, junto dela o tempo voa. Ao marido de mulher feia o feriado é interminável.

A Hora do Brasil demora mais do que noventa minutos de futebol, vai dizer que não. Mas quando o placard assinala um a zero, maldito relógio que não anda!
E o que dizer do caranguejo, que anda para trás? Pode-se dizer que seu futuro está no passado?
Se o trem percorre ao norte, numa velocidade de cem, e alguém dentro dele atira uma bola ao sul, na velocidade de cincoenta, pergunto: a bola está se dirigindo para o norte ou para o sul? Ela percorre o futuro, ou se dirige ao passado? Boa essa não? Posso responder facilmente. Qualquer resposta pode ser correta. Depende, apenas, do ponto do observador. Para quem atira a bola, ela se dirige para o passado. Para quem aprecia da plataforma, ela viaja ao futuro.
O tempo por tudo é relativo. Quando um carro anda a 180 km por hora, é incrível. No entanto, se ficasse parado daria quase no mesmo: é que a Terra por onde ele anda viaja a 180, mas a 180 mil km. por hora ao redor do Sol, que por sua vez viaja sei-lá a quantas, ao redor de nossa galáxia, que por último voa a bilhões, na expansão do Universo.

Era uma enorme cebola de ouro, suíço, pedras preciosas nos ponteiros, o tampo em filigranas, uma jóia, uma antigüidade, uma relíquia, uma preciosidade.
FESTER, R., O relógio do avô,in O mar tem várias cores. - São Paulo, Liv. Duas Cidades, 1979
No fito de pretensamente melhorar nossa estada na Terra, a linha do tempo marca o compasso das gentes como gado embretado. Tudo mentira, e fatal, como sói acontecer..

A órbita planetária nos remete a um parque de diversões. Estações climáticas corroboram a infantil noção do carrossel. Ao operador, e para quem usa o brinquedo, o tempo acarreta dinheiro ganho, ou gasto.. Mas se a Terra e nossa vida se restringem no incessante circular, nada faz sentido: seríamos meros passageiros do gigantesco disco-voador sem destino? Digo, de trem-voador, pela falta de mobilidade lateral? Não vai levar!.
O ponteiro do relógio não imita a cabeça de um cão correndo atrás do próprio rabo? Convenhamos: para quem isso é negócio?
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Obviamente a retrógada postura sequer pressupõe onde vai dar. Prometem o céu. Como papel, o celeste aceita tudo..Vá lá.
A Nova Era é que não suporta mais as primárias e limitadas dialéticas:
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"O fato de o tempo ser próprio de cada corpo, não uma ordem cósmica única, envolve mudanças nas noções de substância e causa." (RUSSEL, cit. FADIMAN: 165)
O ultrapositivista PONTES DE MIRANDA (cit. MOREIRA: 103) superou os próprios preconceitos, e conclamou:
O princípio da relatividade deve ser mais geral ainda - devemos procurar a diferença de tempo nas realizações biológicas e sociais, - o tempo local das espécies e dos grupos humanos. Isto nos poderá explicar muitos fenômenos que resistem às explicações atuais. Mas para conseguir tais fórmulas muito terá que lutar o espírito humano contra os preconceitos que o rodeiam e contra as obscuridades da matéria que irá estudar.
Não mais cabe o sofístico apelo trabalhista:
"Como o valor do trabalho depende cada vez mais do conhecimento, não podemos mais vender ou padronizar o tempo de trabalho como se ele fosse igual para todos."(TOFFLER, A.: 86)
Ciao MUSSOLINI:
Uma coisa é certa, a hora uniforme do relógio não é mais pertinente para a medida do trabalho. Essa inadequação há muito era flagrante para a atividade dos artistas e dos intelectuais, mas hoje se estende progressivamente ao conjunto das atividades. Compreende-se porque a redução do tempo de trabalho não pode ser uma solução a longo prazo para o problema do desemprego: ela pereniza, com um sistema de medida, uma concepção de trabalho e uma organização da produção condenadas pela evolução da economia e da sociedade. Só se pode medir – e portanto remunerar – legitimamente um trabalho por hora quando se trata de uma força de trabalho-potencial (já determinado, pura execução) que se realiza. Um saber alimentado, uma competência virtual que se atualiza, é uma resolução inventiva de um problema numa situação nova. Como avaliar a reserva de inteligência? Certamente não pelo diploma. Como medir a qualidade em contexto? Não será usando um relógio. No domínio do trabalho, como alhures, a virtualização nos faz viver a passagem de uma economia das substâncias a uma economia dos acontecimentos. Quando irão as instituições e as mentalidades acolher conceitos adequados? Como aplicar os sistemas de medida que acompanham esta mutação?
LÈVY, PIERRE: 61

* * *
Todo sistema natural, quando deixado livre, evolui para um estado de máxima desordem, correspondente a uma entropia máxima'.
A entropia representa a perda de energia do universo, que ocorre a todo instante, razão pela qual os cientistas dizem que o universo caminha para a morte térmica. Ela é irreversível. Por isso, essa energia perdida jamais será recuperada. Esse sentido único da entropia fez com que os físicos a chamassem de 'a flecha do tempo'.
Entropia - a flecha do tempo
Não creio correta tal divisa. Se o sistema natural caminha para desordem é justamente oposto da flecha, ordenada a um único sentido. O que caracteriza a desordem, por óbvio, é a carência de direção, do determinismo, do oriente. A flecha tem que ser precisa; viver, não é preciso.
Não há uma flecha do tempo, mas uma infinidade de vetores, em múltiplas direções. A descontinuidade é manifesta nos instantes e nas diversidades vividas. O tempo vive sob o signo das diferenças:
"Cada forma de vida inventa seu mundo (do micróbio à árvore, da abelha ao elefante, da ostra à ave migratória) e, com esse mundo, um espaço e um tempo específico." (LÈVY, Pierre, cit. PELLANDA e PELLANDA: 118)

* * *
Por enquanto, milhões cultivam a ansiedade. Sentem-se atrasados, cansados, stressados, resultado da enorme pressão do tempo. E tome buzina, grita nas filas. Em véspera de Natal, cruzes. O fim-do-ano já está aí!!! É gente fechando, animal xingando:

"Sai da frente que atrás vem gente!"
“Tempo é dinheiro!”.
Sim, pode ser. Mas com tempo, porque a pressa pelo dinheiro? E sem tempo, como fazer dinheiro? Francamente!
"Quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro!"
Já ouvi essa outra aberração. Tal conceito deve ter vindo da Bobonne. Lá ensinavam maravilhas ao pessoal de cá. Houve um especial. Retornou à Pátria empertigado. Como chegava da Europa, bem vestido, de fatiota, ninguém percebeu a lorota. Deram-lhe a chave do cofre. O bon-vivant confirma o ditado, mas tem outro que deve ter esquecido:
"Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe!"
Aguardo.
Quando se aposentar, não faça como o tipo, que não sabe o que fazer com o tempo furtado de todos lá atrás. Não se perturbe. Se nada se dispuser a fazer, também nada há de perder, e não precisa tomar de ninguém. Orienta-nos Lao-Tzè:
"Pela não-ação tudo pode ser feito."
GOETHE, MIESTÓFOLIS, HEISENBERG e mesmo SÊNECA que me desculpem. Prefiro esta vera amarela.
APESAR DA CRISE GLOBAL, a China não abranda. Em todos os domínios se pode dizer que acelera o seu desenvolvimento. Das suas universidades saem centenas de milhares de cientistas e engenheiros e os melhores destes fazem cursos de pós- graduação nas escolas ocidentais onde se vão apropriando e desenvolvendo o conhecimento de ponta.
LETRIA, Joaquim, www.sorumbatico.blogspot.com - 14/5/2009
Se porventura nesse meio-tempo alguém necessitar qualquer auxílio, por favor, acuse. Boa-vontade não me falta.
O banco do “ú” também deve conhecer nosso precursor asiático. O estabelecimento não tem disponibilidade de tempo. De dinheiro, está farto. Ita demora no mínimo dez dias para abrir uma conta, na melhor das hipóteses. Na pior, não abre. Pela não-ação, fica com um dinheirão.

Nos EUA, a Nextcard limpa seu nome, histórico de crédito, e ainda aprova seu cartão em 35 segundos. É gente que faz; contudo, não falta quem reclame da demora.
A Bolsa opera com horário, mas aceita after-market. Não deveria fechar. Deus teve o privilégio de descansar no sétimo, depois de usar seis para criar o Universo, mas no céu o cair do Sol encerra o dia. Não temos tal regalia. No mundo ele nunca se põe. Se estamos no fim da semana, no Japão recém começa. Ien não é bemvindo também?
Os astrônomos determinaram um segundo extra ao ano passado. (Folha de São Paulo,10/12/2008). Isso é timidez. O Brasil troca tres mil e seiscentos, de uma vez, por conta do verão. "Neste país" basta um decreto para obrigar até o cuco. Não sei do galo. Como informá-lo? Meu relógio, todavia, não se mexe, não. Nele quem manda sou eu. No do povo, mandava o finado Zé Bedeu.
Certos segmentos não fecham. Acompanham nossos corações. Hospitais, bombeiros, postos, rádios e táxis amparam a comunidade sem parar. A Internet é oásis. A propósito: por ela podemos ter a noção exata da eternidade, em confronto com o tempo linear arbitrado. Se arrolássemos todos os sites nela inseridos, a partir do primeiro ao último, teríamos uma extensão inimaginável. Para ir do primeiro ao último levaria quanto tempo? No entanto estão todos ao alcance, ao mesmo tempo, no toque mágico da tecla.
Estou para ver a Cidade 24 horas. Não haveria insônia, nem garçon de cara feia.

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

Quantidade & igualdade x qualidade & liberdade

O raciocínio quantitativo tornou-se sinônimo de ciência, e com tal sucesso que a metodologia newtoniana foi transformada na base conceitual de todas as áreas de atividade intelectual, não só científica, como também política, histórica, social e até moral.
GLEISER, M.: 164.
Se vamos continuar a nos apoiar na ciência para criar e gerenciar organizações, para fazer pesquisa e formular hipóteses sobre desenho organizacional, planejamento, economia (finanças), a natureza humana, e mudanças de processos, então deveríamos pelo menos nos apoiar na ciência de hoje. Deveríamos parar de procurar modelos na ciência do século XVII e começar a explorar o que aprendemos com a ciência do século XX.
WHETLEY, M.

Leadership and the new science
J. LOCKE livrou a Inglaterra das barbáries cometidas especialmente na América e na Europa latinas, mas também na Alemanha, Rússia, seus satélites, e alhures.
O escrito de Descartes se difundiu amplamente no continente, em particular na França e nos Países Baixos, mas não teve o mesmo sucesso na Inglaterra. A filosofia experimental tal como ali se desenvolveu impedia uma aceitação fácil de qualquer sistema dedutivo, e o sistema de Descartes foi considerado tão gerador de dissensões, quanto o sistema extremamente materialista de Thomas Hobbes.
HENRY: 71
Nem mesmo os EUA permaneceram livres do vírus platônico, especialmente com os ROOSEVELT, o último introdutor de cartas di lavoro no bolso da famosa estátua, em troca de toneladas de ouro.
O médico inglês propugnou pelo óbvio, pelo que há de mais elementar, mas raramente lembrado:
“Cada pessoa possui uma inviolabilidade fundada na justiça que nem mesmo o bem-estar da sociedade como um todo pode ignorar.” (RAWLS: XV)
No decorrer daquele distante 1688, o Parliament aprovou inúmeras leis, salvaguardas civis, proteções contra eventual ganância da Coroa. O Rei foi impedido de lançar impostos sem o consentimento da Câmara. Os inglêses cansaram de trabalhar para entregar seus frutos na forma de shipmoneys, à construção da Marinha Real. As verbas do Tesouro passaram a ser fixadas em orçamentos anuais.
O triunfo punha a termo definitivo a monarquia absoluta na Inglaterra. Nunca mais uma cabeça coroada desafiaria o legislativo daquele País; muito menos, qualquer ditadura, seja de esquerda, ou direita.

Na liberdade de credo e convivência civil, o Toleration Act introduziu o Bill of Rights, inspirador do nosso “Mandado de Segurança”, o mais eficiente remédio jurídico ao seu dispor, contra males causados pelo Estado:
Acresce que, para Locke, a força por si só não legitima o direito, dado considerar que o direito precede o Estado e que o povo é superior aos governantes. Aliás, o poder legislativo (legislature), apesar de ser um supream power, não é um poder absoluto, estando limitado pelo fim para que foi instituído o governo, que é a protecção da vida, da liberdade e da propriedade dos homens: the legislative being only a fiduciary power to act for certain ends, there remains stil in the people a supream power to remove or alter the legislative when they find the legislative act contrary to the trust reposed in them (...) thus the community perpetually retains a supream power.
http://farolpolitico.blogspot.com/2007/10/locke-john-1632-1704.html
O cidadão se integrava às responsabilidades decisórias. Ninguém, nem mesmo o rei, poderia lhe ser senhor dos destinos. Disso o rei, obrigatoriamente, haveria de entender:
“Se o governo se exceder ou abusar da autoridade explicitamente outorgada pelo contrato político torna-se tirânico e o povo tem então o direito de dissolvê-lo ou se rebelar contra ele e derrubá-lo.” (LOCKE, Second treatise of civil government: 184)
KARL POPPER (p. 159) reconhece:
De fato, o funcionamento da democracia depende, em grande medida, da compreensão do fato de que um governo que intente abusar de seu poder para estabelecer-se sob a forma de uma tirania se coloca à margem da lei, de modo que os cidadãos não só teriam o direito, como também a obrigação de considerar delituosos esses atos do governo e delinqüentes seus autores.
LOCKE se consagrou como fundamento da Revolução Gloriosa; e por decorrência, do Estado de Direito:
Na era dos direitos passou-se da prioridade dos deveres dos súditos à prioridade dos direitos do cidadão, emergindo um modo diferente de encarar a relação política, não mais predominantemente do ângulo do soberano, e sim daquele do cidadão, em correspondência com a afirmação da teoria individualista da sociedade em contraposição à concepção orgânica tradicional .
BOBBIO, N., 1995: 27.

A inviolabilidade preconizada, ou o respeito à participação social advém da extensão da personalidade aos objetos produzidos. Ao dispender neles sua energia, ou mesmo captá-la, o trabalhador os transforma em partes de si mesmo, e assim pode oferecer algo ao meio que o acolhe:
“O homem tem direito natural as coisas com as quais 'misturou' o trabalho do seu corpo, tais como, por exemplo, cercar e lavrar a terra.” (LOCKE, J., cit. SABINE: 521)
Desse modo, que depende do talento, interesse, aptidão, capacidade, vontade, disponibilidade, até idade e vocação, é impossível, mas sequer essencial, a "igualdade de direitos". Pelo contrário:
"Aplicado aos outros domínios da vida em sociedade, o formalismo igualitário das regras coexiste mal com a exatidão das diferenças naturais." (GUÉHENNO: 37)
Até mesmo o minuto seguinte diverge do anterior:
A realidade física é concebida como uma teia dinâmica de eventos inter-relacionados. As coisas existem em virtude de suas relações mutuamente compatíveis, e tudo na física é tem de partir da exigência de preconceitos para modelos diferentes, sem dizer que é um mais que seus componentes sejam compatíveis uns com os outros.
CAPRA & STENDHAL: 129
Igualdade x Liberdade
“Existem tempos nos quais os homens são tão diferentes uns dos outros que a própria idéia de uma mesma lei aplicável a todos lhes é incompreensível.” (TOCQUEVILLE, A. 1997, Livro Primeiro, Capítulo III: 61)
Não há igualdade entre os homens, tampouco nos reinos animal, vegetal, e até no mineral. Se a procurarmos na teia cósmica, sequer nos anéis de Saturno. Não existe igualdade na natureza, nem entre os átomos que a compõem. O EspaçoTempo de cada partícula diverge da vizinha, seja por variações das órbitas dos elétrons pelos saltos quânticos, seja por deformar o espaço à sua volta pela simples passagem, ou por que o Universo, desde o Big-Bang, se expande, tornando-nos, ainda, peculiarmente complexos, originais, evolutivos, por tudo mutantes:
“Uma das conseqüências da ‘diversidade humana’ é que a igualdade num espaço tende a andar, de fato, junto com a desigualdade noutro." (SEN: 51)
“Sem homens livres não há possibilidade de um Estado livre.” (ROSSELLI: 149)
A democracia fala de um governo comandado pelo povo e sujeito às suas leis; na realidade, entretanto, os regimes democráticos são dominados por elites que planejam maneiras de moldar e dobrar a lei a seu favor. O totalitarismo aspira ao extremo oposto da democracia: ele luta para pulverizar a sociedade e estabelecer um controle completo sobre esta [...] O objetivo último do totalitarismo é a concentração de toda a autoridade nas mãos de um corpo autodesignado e autoperpetuado de eleitos que se denominavam 'partido', mas parece uma ordem, cujos membros devem lealdade a seus líderes e uns aos outros. Esse objetivo pressupõe controle, direto ou indireto, conforme as circunstâncias, dos recursos econômicos do país.
PIPES, R., 2001:251
VON MISES compreende o processo, cruzador dos séculos:
O principal erro do pessimismo tão alastrado é a crença de que as idéias e as políticas destrutivas de nossa era emergiram do proletariado e são uma 'revolta de massas'. Na verdade, as massas, precisamente por não serem criativas e não desenvolverem filosofias próprias, seguem líderes. As ideologias que produziram todos os danos e catástrofes de nosso século, não são uma façanha da turba. São proezas de pseudo-intelectuais e pseudo-estudiosos. Foram propagandas das cadeiras das universidades e dos púlpitos; foram disseminadas pela imprensa, pelos romances, pelo rádio. Os intelectuais são responsáveis pela conversão das massas ao socialismo e ao intervencionismo. Para reverter o processo, é preciso mudar a mentalidade dos intelectuais. Então as massas os seguirão.
As principais características do indivíduo no grupo são, portanto, o desaparecimento da personalidade consciente, o domínio da personalidade inconsciente, a orientação de pensamentos e sentimentos em uma só direção mediante a sugestão e contágio, a tendência à realização imediata de idéias sugeridas. O indivíduo não é mais ele mesmo, é um autômato destituído de vontade. Ademais, pela mera participação num grupo, o homem desce vários degraus na escada da civilização.
LE BON
cit. KELSEN, HANS, A Democracia: 315
Pois este mais reverenciado jurista do século XX tardou trinta anos, mas dobrou-se à grande diferença:
“É o valor de liberdade e não o de igualdade que determina, em primeiro lugar, a idéia de democracia.” (Idem: 141)
Os soviéticos demoraram o dobro, mais dez. Na implosão da Perestróika, o que se viu foi uma casta encastelada, a Nomenklatura dissipando-se no buraco-negro do blefe. A faina era utópica, do vírus platônico, apenas ideológico; e, como tal, estéril:
“Aparentemente a desigualdade – não a igualdade – é uma condição natural da humanidade.”
(DAHL: 77)
Tudo muda. Tudo flui, disse HERÁCLITO. O rio nunca é o mesmo - são outras águas, em novas margens. Universo é movimento. Vivemos num caldo de energia cósmica fluente do caos atômico. As aspirações e necessidades de cada ser mudam constantemente. A flecha do tempo se distancia de si mesma. Somos diferentes de ontem, e de tudo o mais, na estupenda dança universal. A riqueza da Terra aí reside. E no entanto, ardemos de paixão pela justiça, pela igualdade!
As sociedades globais atuais compõem-se duma pluralidade quase infinita de agrupamentos particulares: famílias, comunas, municipalidades, departamentos, regiões, serviços públicos, Estados, seitas, congregações, ordens religiosas, conventos, paróquias, igrejas, sindicatos, operários e patronais com suas federações e confederações, cooperativas de consumo, de venda, de produção, sindicatos de iniciativa, caixas de segurança social, classes sociais, profissões, produtores, consumidores, usuários, partidos políticos, sociedades científicas e de auxílio, equipes esportivas e de turismo e assim ao infinito.Todos esses grupos se entrecruzam e se limitam, se unem e se opõem, se organizam e permanecem inorganizados, ora formam blocos maciços, ora se dispersam. A trama da vida social sob o aspecto macrossociológico não é menos complexa que sob o aspecto microssociológico, permanecendo caracterizada por um pluralismo inextricável.
GURVITCH, G., cit. GOLDMAN, L.: 46
A natureza não tem um nível simples. Quanto mais tentamos nos aprofundar, maior a complexidade com que nos defrontamos. Nesse universo rico e criativo, as supostas leis de estrita casualidade são quase caricaturas da verdadeira natureza da mudança. Há uma forma mais sutil de realidade, uma forma que envolve leis e jogos, tempo e eternidade. Em lugar da clássica descrição do mundo como um autômato, retornamos ao antigo paradigma grego do mundo como uma obra de arte.
PRIGOGINE, I., cit. FERGUNSON, M.: 164
Onde concretizar a faina? Por arranjos? Bem, pode ser. Então não venha com ciência do direito, mas sim com técnica, com estratégia juridica. E mesmo assim, fadada a esterelidade, como todo artifício:
Querer encerrar todo o direito de um tempo ou de um povo nos parágrafos de um código é tão razoável quanto querer prender uma correnteza numa lagoa. Cada um desses códigos estará superado necessariamente pelo direito vivo, no momento em que estiver pronto, a cada dia ainda mais antiquado.
ERHTICH, EUGEN, cit. COELHO, LUIZ FERNANDO, Teoria Crítica do Direito: 286
A justificativa dos tais direitos sociais supõe conter lógica em função matemática: o maior deve se sobrepor ao menor. Lêdo engano, o mais crasso dos equívocos. De plano utilizar a lógica como único guia já é estupenda burrice; ademais, mesmo ela não é propriedade exclusiva de ordenamentos numéricos. No Universo nada é maior do que o espaço. No entanto, ele se contrai na presença radiante do corpo. Portanto, pelo menos neste caso, mas posso estendê-lo alhures, é a qualidade, e não a quantidade que determina a importância, o valor.
Dir-se-á: mas queres um regime elitista, uma aristocracia, oligarquia, ou o quê?
Pois digo sem o menor constrangimento: é mais fácil, mais conveniente, lucrativo, e prazeiroso mirar um exemplo mais elevado do que preferir um chão-de-fábrica, não parece óbvio? Ou, por outro lado: qual razão teriam os generais para seguirem a batuta de soldados? Só se fosse um castigo. Não seria o mais completo non sense? E se ainda assim a inversão for preferida, por que cargas d'água deve existir cursos superiores?
No Brasil, não em Portugal, esta anomalia é tão comum que a plebe se refastela, mal sabendo que ela própria, a base da pirâmide, ao elevar um dos seus, transporta seu próprio mundo como ideal. Convenhamos, não me parece nem um pouco inteligente.
Como por aqui, no tempo em que circulava uma moeda chamada cruzado, o boi gordo valia menos do que o magro, e o carro usado era mais caro do que o novo, parece que não só continuamos, mas elevamos à máxima potência a mais notável capacidade portuguesa, com certeza. (Com o perdão dos queridos amigos do belo Além-mar.)
O ser humano per se é elitista. O livre-arbítrio lhe concede a prerrogativa da escolha.
A prevalência da qualidade sobre a quantidade é trivial em obras de arte. Será que não podemos nos incluir como notáveis criações, em vez de sermos apenas macacos, em primeiro instante, e depois autômatos, produtos de uma falida revolução industrial?
Eis a maior incoerência do fascismo e do comunismo: eles conservaram os nomes próprios de seus infelizes cidadãos, em vez de numerá-los, simplesmente, já que tratavam gente como gado.
A balança, instrumento eminentemente mecanicista, não é capaz de aferir qualidades, só quantidades, porque apenas numerais podem ser iguais.
BERTRAND RUSSELL (cit. FADIMAN, C.: 266) condena a possibilidade, tantas vezes tornada realidade:
Surge um grave perigo quando esse hábito de manipulação com base em leis matemáticas é estendido ao nosso trato com seres humanos, uma vez que estes, diferentemente do cabo telefônico, são suscetíveis de felicidade e infortúnio, de desejo e aversão. Seria, portanto, lamentável que se permitisse que hábitos mentais apropriados e corretos para o trato com mecanismos materiais dominassem os esforços do administrador no plano da construção social.
O numerário subverte a sociedade. A ética se torna dialética; e a política, espoliação.
O cérebro do Universo é capaz de contar acima de dois. Os dilemas do intelectual-artista e do teórico -político tem mais de dois chifres. Entre a torre de marfim, de um lado e a ação política direta, de outro, existe a alternativa da espiritualidade. Do mesmo modo, entre o fascismo totalitário e o socialismo totalitário existe a alternativa da descentralização e do empreendimento cooperativo - o sistema político-econômico mais natural à espiritualidade.
WELLS H.G.
O distintivo da democracia é a partilha, não a igualdade entre as gentes:
A difusão de poder, nas esferas política e econômica, em lugar da sua concentração nas mãos de agentes governamentais e capitães de indústria, reduziria enormemente as oportunidades para adquirir- se o hábito do comando, de onde tende a originar-se o desejo de exercer a tirania. A autonomia, para distritos e organizações, daria menos ocasiões para que os governos fossem chamados a tomar decisões nos assuntos alheios.
RUSSELL, B.: 24



O Carma Ocidental - 46. Da justiça social


A
s conseqüências do analfabetismo científico são muito mais perigosas em nossa época do que em qualquer outro período anterior.
SAGAN, C., O Mundo Assombrado pelos Demônios: 21
A história das ciências emergirá então como a mais reversível de todas as histórias. Ao descobrir o verdadeiro, o homem de ciência barra a passagem de um irracional.
BACHELARD, G., cit. QUILLET, P., Introdução ao Pensamento de Bachelard: 45
Da faina
Os espartanos se notabilizaram por duas peculiaridades: competição & vazio racional. Ela requer domínio sobre o adversário, daí se incluindo as guerras, e o conforto na morte do competidor. O objetivo é simples, delineado, e não requer controvérsias.
O conceito de justiça é o primeiro conceito democrático mistificado por Platão. A justiça surgiria como uma propriedade do Estado. Seu totalitarismo é disfarçado sob a capa de 'verdadeira justiça', e se legitima teoricamente mediante a subversão doutrinária do humanitarismo em três frentes: defendendo o privilégio natural, postulando o coletivismo, advogando a tese de que o indivíduo existe para o Estado.
PEREIRA, J.C., Epistemologia e Liberalismo - Uma Introdução a Filosofia de Karl R. Popper:116

É essa configuração de coletivismo extremado que, desde o século V, é vista na Grécia como um modelo perfeito de Estado, com a coletividade assim rigidamente aparelhada e destinada à defesa do Estado.
CASTRO, P.P. www.fflch.usp.br
HITLER, LENIN e MUSSOLINI agradeceram a boa idéia, mas pagaram caro por ela.
Longe de ridicularizar os aspectos irracionais do comunismo e do fascismo, devemos antes criticar estes credos políticos pela sua falta de conteúdo sensível e estético, pela pobreza de seu ritual e sobretudo pelo fato de que nenhum deles chegou a entender o papel que a poesia e a imaginação desempenham na vida da comunidade.
READ, HERBERT, O anarquismo e o impulso religioso, 1940, cit. WOODCOCK, 1971: 68
No fito de arrumar um cômodo junto ao Tirano de Siracusa, o vulgar PLATÃO recolheu a matéria-prima da colônia grega de Crotona, incrustrada na península italiana, onde havia a "primeira Universidade do mundo, obra do pioneiro"filósofo":
"A sabedoria plena e completa pertence aos deuses, mas os homens podem desejá-la ou amá-la tornando-se filósofos." (PITÁGORAS)
"Se não houvesse o 'teorema Pitágoras', não existiria a Geometria".
E lá se foi PLATÃO, induzindo a humanidade a medir tudo, até mesmo a imaginação:
"Quase que invariavelmente, todas as modernas áreas do conhecimento tiveram lume na Grécia Antiga." (MEISTER, L.F., A evolução do pensamento econômico - www.webartigos.com.br)
O resultado de tão alta sabedoria se apura no raiar de cada dia:
Com efeito, hoje sabemos que o direito está imerso numa atmosfera ideológica e a teoria geral do direito, empenhando-se em abstrair este aspecto do direito, só pode falsear as perpectivas e, com isso, fica, por sua vez, sujeita à acusação de ser mais ideologia do que ciência.
PERELMAN: 621
Encantado com as possibilidades numerais, o precursor dava ênfase à igualdade, que significava a exatidão. Infelizmente, foram esses princípios os determinantes para evolução geral da Filosofia Ocidental, e seus afluentes do Direito, da Sociologia, mesmo da Medicina, da História, e da Economia, naturalmente, entre várias outras áreas de investigação e proposição, todos baseados na pressuposição da harmonia matemática aferida pela "doutrina" dos números e do dualismo cósmico essencial:
"A Escola Pitagórica ensejou forte influência na poderosa verve de Euclides, Arquimedes e Platão, na antiga era cristã, na Idade Média, na Renascença e até em nossos dias com o Neopitagorismo." (Wikipédia)
PITÁGORAS descobriu a Mathematike, um sistema de pensamento dedutivo. Ao biografá-lo, Jâmblico (c. 300 d.C.) registra que o mestre vivia repetindo aos discípulos: “todas as coisas se assemelham aos números”.
Ainda que eivado de presunção, o dano seria menor se ficasse circunscrito às coisas, como predisse. Todavia, o gaiato PLATÃO contrabandeou o rascunho para estendê-lo ao geral, incluindo o próprio ser humano, desse modo também reduzido a objeto:
"A matemática pura, mais do que qualquer outra disciplina, tornou-se aquele discurso vivo que Platão considerou a única forma de conhecimento." (FEYERABEND, P.: 1991: 135)
O raciocínio quantitativo tornou-se sinônimo de ciência, e com tal sucesso que a metodologia newtoniana foi transformada na base conceitual de todas as áreas de atividade intelectual, não só científica, como também política, histórica, social e até moral.
GLEISER, M.: 164.
Pois assim falou o pai de Zaratustra:
Em algum ponto perdido deste universo cujo clarão se estende a inúmeros sistemas solares, houve uma vez um astro sobre o qual animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o instante da maior mentira e da suprema arrogância da história universal.
NIETZSCHE, F.W., cit. MATOS, OLGÁRIA, A polifonia da razão, 1997: 134
A igualdade pode ser lograda na imaginação, por cálculos; portanto, antes de tudo, é ficção. No caso da raça humana, a pretensão atinge as raias do non sense. Igualdade entre seres é totalmente impossível, exceto se todos nascerem ao mesmo tempo, e morrerem no mesmo tempo, ainda assim, de única forma, em produção seriada. É quase isso, mas não é isso. Na evidente impossibilidade, ocupa seu lugar a hipocrisia, e a má-fé. Demagogos e proselitistas sóem proclamar a "profunda injustiça" para imporem o pacto social que lhes convém. A increpação só atende ao gosto do rei:
“O igualitarismo não é imposto pela sociedade ao Poder, mas pelo Poder à sociedade.” (CANNAC: 107)

De antemão o vivente já vem com a marca da injustiça. Chega a ser perverso alguém nascer em melhores condições - a sorte não sorri para todos, e isso é uma aberração, ainda mais se o nascituro tiver que trabalhar quando crescer. Todavia, o trabalho, desde as divinas pregações, é considerado um fardo, um castigo por causa da aquisição do conhecimento no Paraíso, e como tal seu exercício é considerado penoso. Como Deus é inatingível, ou pelo menos surdo às reivindicações, o Leviathan promove seu balcão de queixas.
"Que culpa tenho se sou miserável? Mas é preciso que alguém tenha culpa, do contrário isso não seria tolerável..."
Essa invenção de responsabilidade cria o agradável sentimento da vingança, elemento-chave pelo qual LENIN logrou sua mudança para o Palácio:
"Justiça é dar a cada um, segundo as suas habilidades (capacidade e esforços), e a cada um, segundo as suas necessidades”.
Assim o culto soviético tomou as propriedades e ceifou milhares de vidas, deixando longe os “belos trabalhos” de CESAR BORGIA e de ROBESPIERRE, embora TRÓTSKI (cit. JOHNSON, P.: 42) comparasse o trio já em 1904. LENIN (cit. CHALLITA, M., Os Mais Belos Pensamentos de Todos os Tempos, 3. Vol. : 157), não titubeou expor suas medidas:
“Mesmo se para cada cem atos justos cometermos dez mil injustos, nossa Revolução não será menos grande.”
(A (tétrica) mão visível)
Mais dantesca, de fato, o mundo não conheceu.
O cérebro do Universo é capaz de contar acima de dois. Os dilemas do intelectual-artista e do teórico -político tem mais de dois chifres. Entre a torre de marfim, de um lado e a ação política direta, de outro, existe a alternativa da espiritualidade. Do mesmo modo, entre o fascismo totalitário e o socialismo totalitário existe a alternativa da descentralização e do empreendimento cooperativo - o sistema político-econômico mais natural à espiritualidade.
WELLS H.G.
Felizmente.
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Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

O Carma Ocidental - 45. A faina pela igualdade

Feliz aquele que ainda esperança pode ter,
De desse mar de equívocos emergir!
O que não se sabe, é o que mais se precisou saber,

E do que se sabe, não se pode mais servir.
FAUSTO, à WAGNER, por GOETHE.

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O AVATAR do marxismo e da democracia mora na igualdade. Aquele buscou atingi-la com fuzis. Não deveria nem ter tentado: se E=Mc2, o materialismo não tem, sequer, objeto! Até o muro desapareceu. Não há o quê abordar.
A aferição consensual tem por princípio “cada cabeça, um voto”. Às controvérsias dos imperfeitos humanos, basta equacionar contendores em eleições, agora eletrônicas.
Em todos regimes somos “iguais perante a lei”, mas no Estado de Direito a maioria é mais igual (?!), e por isso supõe ser a fonte da lei. A voz do povo deve ser a voz de Deus. A maior soma expressa a Vox apregoada, mas será mesmo ela, vibrante com os gladiadores, histérica na queima das bruxas e aguda na praça da guilhotina, originária ou expressão celestial?
Pois especialmente a partir da Revolução Francesa o ser humano vem se exterminando, em prol do igualitarismo:
"O socialismo nasceu da dissolução do Ancien Régime, da mesma forma que o conservadorismo foi criado a partir da tentativa de protegê-lo.” (GIDDENS, A.: 64).
A Constituição Francesa de 1791 proclamou uma série de direitos, ao passo que
"nunca houve um período registrado nos anais da humanidade em que cada um desses direitos tivesse sido tão pouco assegurado - pode-se quase dizer completamente inexistente - como no ápice da Revolução Francesa." (LEONI: 85)

"A Revolução Francesa produziu um impacto galvanizado sobre os vizinhos europeus da França, desencadeando as idéias utópicas que reinaram soberanas nos séculos XIX e XX." (BRZENSKI, ZBIGNIEW, A desordem. - Veja 25 anos - Reflexões para o futuro: 67)
Ora até os míseros coreanos se arvoram assombrar o mundo, empunhando a tocha da escuridão. De fato, a sete-palmos somos todos iguais.
Se os seres humanos houvessem de inspirar-se nos exemplos da Natureza,
fazendo deles normas de conduta, a anarquia, a independência, o individualismo
e o princípio do menor esforço passariam a ser os ideais humanos.

GARBEDIAN, H. G.: 161
A obssessão por igualdade é mais uma cruel patologia decorrente do vírus platônico. Como todas as outras, ela se projeta por dupla incidência, tal qual a presa da cobra.
A marca da filosofia platônica é um dualismo radical. O mundo platônico não é um mundo de unidade, e o abismo que, de diversas formas, resulta dessa bifurcação, surge em inúmeras formas.
KELSEN, H., 2001:81
Por um lado, a possibilidade é matemática. Se dois e dois são iguais, a igualdade é perfeita e facilmente atingível. Por outro, outro artifício: a imperiosidade da Justiça, consubstanciada na divulgação que somos todos filhos de Deus; portanto, iguais. O mais lamentável é a Justiça Social, exterminadora da imprescindível sincronicidade entre o indivíduo e a sociedade, em nome da mais completa abstração, para não dizer alienação.
Seriam científicas tais plataformas? Suas disposições são aplicáveis aos seres humanos?
A resposta é negativa, para todas.

O leitmotiv da Justiça
A Justiça depende de polos digladiantes. Somente a promoção da discórdia pode lhe consagrar. Os arautos subsistem da desintegração social, e isto é perfeitamente provável. Quanto mais gente é atirada na arena, mais se deliciam aqueles promotores, os empresários dos dantescos espetáculos. Embora digam que exista a Divina, e não poucos o Direito Natural, na Terra vinga a justiça pelo que o legislador entende que deva ser, ou melhor, a que lhe convém. Destarte, conforme o agente ou as circunstâncias, novos dispositivos são constantemente introjetados. Mesmo prêt-à-porter, são obsoletos. De sua confecção à utilização, a Terra e seus atores já tem disparado anos-luz:
Querer encerrar todo o direito de um tempo ou de um povo nos parágrafos de um código é tão razoável quanto querer prender uma correnteza numa lagoa. Cada um desses códigos estará superado necessariamente pelo direito vivo, no momento em que estiver pronto, a cada dia ainda mais antiquado.
ERHTICH, EUGEN, cit. COELHO, LUIZ FERNANDO, Teoria Crítica do Direito: 286
Leis primam pela burocracia, embora o telos da eficácia. Elas se pretendem claras, insofismáveis, inequívocas, precisas, exatas. A natureza é nebulosa, objeto de tantas interpretações quantas forem os passageiros; e, por tudo, move-se de maneira caótica, ainda que meio definidas estações. Mostra-se incerta pela nossa incapacidade de identificar a enorme quantidade de vetores incidentais. Impossível contabilizá-los, ainda mais sob o crivo de uma razão proporcional que tal empreitada exigiria. Toda sentença per se faz-se injusta. Eis a razão primaz para que os processos só findem em último grau de recurso. No entanto, as prescrições ou ideologias, sempre estanques, põem-se universais, e apresentam moral para designar o rumo da gente. Pode haver maior pretensão?

Da faina pela igualdade
Ela não é mister, pelo contrário: foi pela diversidade atômica que se manifestou o Big-Bang:
"Um universo físico requer diversidade. A matéria não pode se formar sem diferenças." (SHELTON: 170)
Mas lá se foi o homem, no apito da flauta mágica:
"A doutrina da igualdade!... Mas não há nenhum veneno mais venenoso: pois ele parece estar sendo pregado pela própria justiça, enquanto é o fim da justiça." (NIETZSCHE: 106)
BASTIAT (P:33) não ficou atrás:
"A lei só será um instrumento promotor da igualdade se tirar de algumas pessoas para outras pessoas. E nesse momento ela se torna instrumento de espoliação."
“O planejamento em escala abrangente é uma impossibilidade epistêmica” (GRAY, J., cit. GIDDENS, A.: 80), mas, pela extensão, pelo somatório de conhecimentos empilhados nas obras, ambiciosos players se punham competentes:
“No Século XIX os positivistas incidiram em tal erro ao reivindicarem a generalização do método experimental que se aplicava eficazmente nas ciências naturais, para estendê-lo também as ciências humanas.” (HUGON, PAUL, História das Doutrinas Econômicas: 128)
ALEXIS DE TOCQUEVILLE nunca duvidou - sob a capa do “governo igualitarista” é que nasceria o monstro totalitarista.
BOBBIO (1993: 57) pondera:
Tocqueville se revela um escritor liberal e não-democrático. Jamais demonstra a menor hesitação em antepor a liberdade do indivíduo à igualdade social, na medida em que está convencido de que os povos democráticos, apesar de terem uma inclinação natural para a liberdade, tem ‘uma paixão ardorosa, insaciável, eterna, invencível’ pela igualdade e embora ‘desejem a igualdade na liberdade são também capazes’, se não podem obtê-la, de ‘desejarem a igualdade na escravidão’.
O Nobel AMARTYA SEN (2001: 29) reconhece:
"A idéia de igualdade é contrariada por diversidades de dois tipos distintos: 1) a heterogeneidade básica dos seres humanos e 2) a multiplicidade de variáveis em cujos termos a igualdade pode ser julgada."
NIETZSCHE (Além do Bem e do Mal: 45) já entendia, e alertou:
Os niveladores... rapazes bonzinhos e desajeitados... mas que são cativos e ridiculamente superficiais, sobretudo em sua tendência básica de ver, nas formas da velha sociedade até agora existente, a causa de toda a miséria e falência humana... O que eles gostariam de perseguir com todas as suas foras é a universal felicidade do rebanho em pasto verde, com segurança, ausência de perigo, bem-estar e facilidade para todos; suas doutrinas e cantigas mais lembradas são 'igualdade de direitos' e 'compaixão pelos que sofrem' - e o sofrimento mesmo é visto por eles como algo que se deve abolir.
Malgrado a enorme contribuição, o alemão foi taxado louco. Ninguém lhe deu ouvidos, muito menos os olhos. A dezena de obras permanece desconhecida, especialmente entre os fervorosos latinos, um rebanho conduzido célere há milênios, à tosa em prol do feitor. A grande sociedade preferiu o pretenso bem-estar da maioria, preparo e educação para a democracia de massa, à magna sociolatria. Direitos pessoais se tornaram insignificantes, porque “nossas idéias e até o próprio egoísmo nasciam da sociedade.” O homem é obrigado a se resignar, adaptar-se ao meio social até perder a personalidade, pelo todo absorvido, ao usufruto da casta. Nada de novo ora no front:
A Rússia atual foi transformada por uma oligarquia oportunista, corrupta e sanguinária em um lugar aonde as políticas fascistas vêm sendo esticadas ao limite, com intensidade multiplicada se comparadas com as ofensivas anti-povo empreendidas em outras partes do mundo, em especial naqueles países que os papagaios da pirataria financeira costumam chamar de 'emergentes'. Ali mesmo, onde um dia bateu o coração da União Soviética revolucionária. Para nós, tomar conhecimento da realidade dos trabalhadores russos é sim uma questão de solidariedade, mas também de saber bem até onde podem chegar os esforços de aniquilação movidos pelos inimigos do povo. Ainda mais agora, que os demagogos do lado de cá do mundo, como Chávez e Lula, estão convidando gente como Dimitri Medvedev e toda a máfia russa para fazer negócios na América do Sul.
SOUZA, H.R.C., Um preocupante retrato da Rússia atual. www.anovademocracia.com.br
O jogo continua, vedada mudança na regra; mas de antemão sabemos que ela sofrerá o desvio, sutileza de quem está com as cartas:
A massa se rege por sentimentos, emoções, preconceitos, como a psicologia social já demonstrou exaustivamente. A opinião das massas formando a opinião pública será por conseqüência irracional. Não se iluda o publicista democrático a esse respeito, cunhando a expressão agora uso corrente no vocabulário político da propaganda: o ‘estereótipo’, ou seja o ‘clichê’, a ‘frase feita’, a idéia pré-fabricada, que se apodera das massas e elas, numa economia de esforço mental, como diz Prelot, aceitam e incorporam ao seu ‘pensamento’, entrando assim a constituir a chamada ‘opinião pública’.
BONAVIDES, P.:459.

Domingo, 31 de Maio de 2009

O Carma Ocidental - 44. Nascente socialista & fascista

O que acaba de acontecer em Paris é abominável, no fundo e na forma e quando se conhecerem os detalhes, parecerão ainda mais cruéis que todo o acontecimento. Quanto a este, já se encontra em germe desde a revolução de fevereiro, como o pintinho no ovo; para fazê-lo sair, não falta mais do que o tempo necessário de incubação. A partir do momento em que se viu aparecer o socialismo, devia se ter previsto o reino dos militares. Um geraria o outro. .

.Eu esperava isso há algum tempo e, embora sinta muita pena e dor pelo nosso país, e uma grande indignação contra certas violências ou baixarias, que vão além do inaceitável, estou pouco surpreendido ou perturbado interiormente. Neste momento a nação está com medo louco dos socialistas e deseja ardentemente voltar a encontrar o bem-estar. É necessário que a nação, que nos últimos 34 anos tem esquecido o que é o despotismo burocrático e militar o prove de novo e, desta vez, sem o ornato da grandeza e da glória.
TOCQUEVILLE cit. RODRÍGUEZ, R. VÉLEZ : 119.
As idéias encadeadas de DESCARTES, ROUSSEAU, SAINT-SIMON & COMTE compunham os acordes aos estribilhos germânicos de HEGEL & MARX, ao tempo em que eram encorpadas pelas segundas vozes do oeste, de NEWTON, HOBBES, MALTHUS, DARWIN, MILL e BENTHAM.
A designação SOCIALISMO foi usada pela vez primeira por PIERRE LEROUX.
TODOS esses, sem exceção, formularam seus arrazoados sob a égide de PLATÃO.

A cambagem exigia a guerra de classes, a insurreição popular, como ENGELS pleiteava. AUGUSTO BLANCHI foi seu porta-voz. O escudeiro GUIZOT (cit. RUDÈ, G.: 182) sugeria atraente receita às mazelas sociais:
Enrichissez-vous!

Simples. ..
,
.
GEORGE LOVELESS
(idem:
241), nome certo pela manifesta carência de amor, incitava:
.
.
“Nada será feito para minorar o sofrimento da classe trabalhadora, a menos que esta o faça por suas próprias mãos”.
Era uma questão tanto de sobrevivência quanto de política: uma panacéia que, pelo voto do trabalhador e pela transformação radical do Parlamento, proporcionaria ao trabalhador muitos assados, muito pudim de ameixas e cerveja forte, com três horas de trabalho diário
RUDÈ, GEORGE: 190
A França, coração do mundo, faria todo corpo adoecer com tamanha gravidade que até hoje perdura seu mal.
“Sob influência dos filósofos absolutistas e autoritários, Hegel, Marx, Comte e uma pletora de epígonos contaminados por esta magia negra da política que é Ideologia - o Liberalismo recuou a partir da segunda metade do século XIX." (PENNA, J. O. M: 179)
Os interesses amedrontados pelas incertezas, a razão chocada pela desordem, sentimentos revoltados pela miséria, a imaginação estimulada por promessas de inversões, a força pela união, a junção para a defesa, tudo reclamava, de novo, ordenadores, condottieres, justiceiros de moderna versão. Os fins, de novo, justificavam os meios.
Mas em nossa época, a tirania das vastas organizações-máquina, governadas desde cima por homens que nada sabem e a quem nada importa se as vidas daqueles que controlam estão matando a individualidade e a liberdade de pensamento e forçando os homens, cada vez mais, a se amoldarem a um padrão uniforme.
RUSSEL, Bertrand, 2001:20
VON MISES (cit. LEONI, B., A liberdade e a lei, p. 167) .compreende o processo, cruzador dos séculos:
O principal erro do pessimismo tão alastrado é a crença de que as idéias e as políticas destrutivas de nossa era emergiram do proletariado e são uma 'revolta de massas'. Na verdade, as massas, precisamente por não serem criativas e não desenvolverem filosofias próprias, seguem líderes. As ideologias que produziram todos os danos e catástrofes de nosso século, não são uma façanha da turba. São proezas de pseudo-intelectuais e pseudo-estudiosos. Foram propagandas das cadeiras das universidades e dos púlpitos; foram disseminadas pela imprensa, pelos romances, pelo rádio. Os intelectuais são responsáveis pela conversão das massas ao socialismo e ao intervencionismo. Para reverter o processo, é preciso mudar a mentalidade dos intelectuais. Então as massas os seguirão.
As sentinelas nacionalistas obtinham no lago positivista o espelho da certeza sociológica, o “ver para prever”, “prever para prevenir” e isto já mencionamos sobejamente. Então, prevendo o adversário ideológico manifestado através da Internacional Socialista, a inversora do sentido, o negativo do positivo, a ampulheta do tempo histórico virada pela perspectiva dialética e equilibrada no eixo linear de disputa, repete-se a máxima de MAQUIAVEL: “para tudo fazer, necessário que o poder tudo possa”.
Sonhava-se que o poder total pudesse mesmo regular todos os mecanismos sociais, desde que pautado em razão objetiva, quando se sabe que ele, o poder, sempre foi movido por vontades subjetivas.
Benevolentes ações governamentais, não fugindo às regras, embalaram-se em redes de represamento popular com os muros dos aparatos estatais.
O Estado nacional unitário, “monstro concebido na Renascença, dado à luz por ROBESPIERRE, evoluído em Napoleonismo”, concentração enfeixada de poderes, ligava tudo a uma só engrenagem, submetendo a um só impulso todas as forças e toda a vida de uma sociedade, obrigando aceitação de cada um. Nada deveria refrear o poder, muito menos concepções relativistas ou parlamentares.
Em que pese a presença marcante do iluminado TOCQUEVILLE na Câmara dos Deputados, a contumaz praticante nostálgica, mais uma vez, buscava nas glórias passadas a solução de seu futuro, reavivando o execrado mito napoleônico, a glorificação do herói romântico, magistral e triunfante. O novo rei LUÍS FELIPE primeiro manda buscar as cinzas de BONAPARTE e as deposita, com toda a glória, debaixo da cúpula do já tradicional Inválidos, motivando o povo na base do “Olha o que eu trouxe para vingar vocês”.
A lenda refez-se: passadas somente quatro décadas e de novo, através de revolução, voltava o despotismo, período cognominado cesarismo, evidente alusão ao famoso imperador romano, claro demonstrativo de que a França regredia cada vez mais, no tempo, no espaço e nos costumes concernentes. E tome NAPOLEÃO, agora em dose dupla, um de cada vez, é claro, não tão plenipotenciários, sem ornatos ou grandezas, submissos à supervisão real, quanto mais não seja, para que o próprio Rei não sentisse a guilhotina da antevéspera do original. O povo francês aceita. Mais uma vez, se demitia do poder.
O novo proprietário do Estado não hesita em praticar o enterro da liberdade em nome da segurança e da distribuição de “felicidade”:
“O socialismo nasceu da dissolução do Ancien Régime, da mesma forma que o conservadorismo foi criado a partir da tentativa de protegê-lo.” (GIDDENS, A.: 64)
Diante do crescente terror, mister aquele governo uno, coeso, centralizado, esquema que veio atravessando séculos, desde o Tirano de Siracusa, ao Império Romano, daí a CARLOS MAGNO, BÓRGIA, CROMWELL, etc, por fim MAO TSÉ TUNG, com as inconfundíveis características:
1) A liberdade individual, alvo prioritário, suprimida em troca da lei de segurança nacional.
2) A liberdade de imprensa negada em nome do disciplinamento, impedindo serem decisões e acões governamentais conhecidas pela população.
3) A liberdade eleitoral extinta pela tutela processual de candidatura única.
4) A “liberdade” concedida aos representantes parlamentares, perfeitamente dispensáveis até por falta de matéria.-
A convulsão proletária foi desviada à “defesa” nacional: primeiro, contra a Rússia, na Criméia; depois, contra a Itália; no além-mar, contra o México. E por iniciativa do clone ou não, a retomada das hostilidades germânicas, desta feita atirando as tropas ao infortúnio contra BISMARCK, que por sua vez espreitava a chance da desforra:.
A derrota frente a Napoleão e a resoluta defesa por parte dos intelectuais da supremacia da cultura germânica converteu-se em ideologia popular: surgiu o sentimento de que a verdadeira força de uma nação residia no âmbito do espírito e da cultura. Segundo Soppè, entre 1850-80 dominava na ciência alemã um materialismo mecanicista, segundo o qual a realidade obedeceria a leis inerentes às próprias coisas, matéria e força seriam constituintes últimos do real. Dentro desta perspectiva, o objetivo da ciência seria o estudo da matéria com vistas a descobrir as leis mecânicas que regem o mundo.
PEREIRA, JULIO CESAR: 38
OTTO (cit. BURNS, E., LERNER, R. E. e STANDISH, Meacham: 648) era muito hábil para tentar abolir o socialismo emergente só com repressão ou choque frontal. A idéia era “roubar” parte da bandeira. BISMARX encetou a cantilena ao posar de combatente contra latifundiários e capitalistas, neste caso utilizando parte do argumento socialista, mas para aplicação exclusivamente nacionalista(?!).
Bismarck compreendeu muito bem o partido que poderia tirar das idéias do socialismo de cátedra: usou-as como um instrumento de luta contra o socialismo e como meio de expandir o poderio do Estado.
HUGON, P., História das Idéias Políticas: 279
Malgrado conservador, aristocrata, e monarquista, BISMARCK foi o introdutor de leis de acidentes de trabalho, o seguro de doença, o pioneiro em valorizar os sindicatos. Naturalmente ao aristocrata o que menos importava eram as condições dos trabalhadores, mas a manutenção de um exército leal e agradecido, saudável e disposto a morrer por seus caprichos.
Google Pagerank Checker.
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Sempre de olho nas guerras e, como no período da Renascença, objetivando soldados leais e fortes, o "marechal" soube se colocar “a favor” do trabalhador (!?) contra a doença, velhice e outras atenções, “de modo que estes senhores (socialistas) façam soar em vão o canto das sereias”....O "Chanceler de Ferro" (Eiserner Kanzler) primeiro fez todas as vontades: instituiu a aposentadoria, e aquelas várias leis sociais; depois, mandou-os aos campos talados de minas e canhões, para que realizassem o supremo sacrifício.
HEGEL (Fenomenologia dello Spirito, v. II, p. 15; cit. BOBBIO, N., Estudos sobre Hegel, Direito, Sociedade Civil e Estado: 48) também neste particular havia deixado suas recomendações. Assim ele delineou o caminho (do precipício) para o “êxito” dos governos junto a seu povo:
Para não deixá-los lançar raízes e enrijecerem-se em tal isolamento, para não deixar desagregar o todo e envaidecer o espírito, devem sacudi-los de quando em quando, em seu íntimo, com as guerras; devem fazê-los sentir, com aquele trabalho imposto, o seu senhor: a morte.
A guerra deixa ao Estado o encargo dos créditos das vítimas de guerra. Os governos adotam o princípio de que as vítimas de guerra fazem jus à solidariedade da nação. Direitos logo materializados pela carta de ex-combatente, pelo estabelecimento de pensões. Todos os anos parte apreciável do orçamento público se destina ao pagamento das pensões de guerra.
RÈMOND, R., O Século XX, de 1914 aos nossos dias:
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O jovem EINSTEIN (cit. THOMAS, H. e THOMAS, D. L., Einsten, perfil bibliográfico, A Vida do Grande Cientista: Einstein por Ele Mesmo: 53) chegou a conhecer o chanceler:
"Mas quando o assunto das palestras se desviava para a política, e as pessoas começavam a falar em Bismarck e na ascensão do Império Alemão, Albert se assustava e saía da sala.”
BISMARCK era consciente de sua maldade, e tentou o suicídio. Suas ações tiveram as mais graves conseqüências, assim apanhadas por EINSTEIN (New York Times, 23/6/1946; cit. PAIS, ABRAHAM, Einstein viveu aqui: 276):
“Se a Alemanha não tivesse sido vitoriosa em 1870, que tragédia para a raça humana teria sido evitada!”
Logo a Alemanha veria o rio de sangue virou em delta:
Em Munique centenas de trabalhadores ocuparam estações ferroviárias e praças, enfrentando um exército de soldados e policiais. Arames farpados e barricadas brotavam por toda a parte, enquanto rajadas de metralhadoras varriam as ruas. Os vizinhos se acusavam mutuamente: 'Seu maldito bolchevique!' Ninguém estava a salvo dos delatores. Os revolucionários presos eram tratados como traidores. Em questão de semanas, os membros da Guarda Vermelha perceberam que haviam perdido sua mal concebida tentativa de tomar o poder; mas render-se significaria possivelmente enfrentar um esquadrão de fuzilamento. A loucura continuou assolando as ruas.
DIGGINS, J.: 271
Apesar do auxílio soviético, esta rebelião foi esmagada. ROSA DE LUXEMBURGO e KARL LIEBKNECHT que convocaram a luta nas ruas, ali mesmo tombaram. Tiveram o pouco de suas vidas jogadas em vão. O ambiente se adequava à demência de ambos os lados, confirmando os prenúncios de SEIPPEL, e mesmo de SPENGLER..
Na cervejaria daquela Munique sentaria mero cabo, liderando mesa com sete serviçais, a fundar a obra requerida por HEGEL, FICHTE, WEBER, SPENGLER, e os positivistas logicos, de Viena. O Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães nascia com o nome sugerido, e já com chefe: o prático e carismático moço ADOLF..
Naturalmente por total ignorância, tais estratagemas encantaram os povos germânicos, russos, e italianos, além dos próprios franceses. Desnecessário aquilatar o preço que tem sido cobrado de todos - duas guerras mundiais, dezenas de internacionais, e centensa de revoluções civis, tudo em nome social. Agora essa dos desorientados orientais coreanos, completando a melhor idade do carma ocidental.

Eis o grande dilema vivido desde então: tentando escapar da arapuca de HOBBES, do Leviathan, para quem o Estado incorporado em algum absoluto é o grande protetor, a civlização ocidental, e como vemos boa parte da oriental, escorrega na perfídia de ROUSSEAU, que alterou apenas a origem do poder, mas não o poder, por entregá-lo ao sabor e feixe de um premiado, "ungido por ação popular."
Por um ou por outro, apuramos o bizarro: o cidadão se despe e se entrega totalmente à vontade do feitor, que se resume no usufruto das benesses do poder, e isento de qualquer responsabilidade, venha ele da esquerda ou da direita, do socialismo ou do fascismo.
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Pela música e conforto, lá se vão as gentes embarcando nos trens, com destino ao além:





Pesquisa Datafolha publicada neste domingo na Folha informa que o índice de aprovação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é classificado como ótimo/bom para 69% dos entrevistados.



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'Na Venezuela tem democracia até de sobra', disse há meses o presidente Lula. Esse nunca sabe o que diz. Quem não lê sequer livros sobre o Corinthians entende tanto de Vargas Llosa quanto o vizinho que presenteou Barack Obama com um exemplar de As Veias Abertas da América Latina, tão profundo que, na imagem de Nelson Rodrigues, uma formiga poderia atravessá-lo com com água pelas canelas.
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O romancista desconcerta Chávez. Intimida-o muito mais o democrata radical, que se distingue do simplesmente democrata pela disposição de enfrentar com ferocidade quaisquer liberticidas ─ venham de que extremidade vierem..Essa tribo começa a expandir-se também no Brasil. Seus integrantes aprenderam que a ditadura militar é tão odiosa quanto a ditadura do proletariado. Aprenderam que dividir o mundo entre esquerda e direita é apenas uma simplificação malandra forjada para driblar distinções que devem precedê-la.
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Há os homens de bem e os desonestos, há os devotos do convívio dos contrários e a seita dos intolerantes.

NUNES, AUGUSTO, revista Veja, SP, 29/5/2009


Sábado, 30 de Maio de 2009

O Carma Ocidental - 43. Comuna de Paris

Haverá uma nova classe, uma nova hirerarquia de verdadeiros e pretensos sábios e o mundo ficará dividido entre uma minoria que governará em nome da ciência e uma enorme maioria ignorante. Então essa massa ignorante que tome cuidado! Podemos ver como sob todas as fases democráticas e socialistas do programa do sr. Marx sobreviveriam no estado por ele criado e as características cruéis e despóticas de todos os Estados, seja qual for a forma de governo que se utilizam e que, em última análise, O Estado do Povo tão entusiasticamente recomendado pelo sr. Marx e o Estado aristocrático-monárquico mantido com tanta habilidade pelo sr. Bismarck são completamente idênticos tanto nas suas metas internas quanto nas externas.
BAKUNIN, MICHAEL, Obras, 1910; cit. WOODCOCK: 128
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A filosofia de Platão, que outrora reclamara ser senhora
no Estado
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torna-se com Hegel o seu mais servil lacaio.
POPPER, K.,
1998, T. I: 269
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A CULTURA ASIÁTICA percebe os polos complementares. CONFÚCIO, LAO-TZÉ e a vertente do Tao, por fim o Budismo consagram a integração.
De Esparta ao Império Romano, de CARLOS MAGNO a MUSSOLINI, a civilização ocidental adota o confronto. O sabre coloca o povo à serviço do rei:
A sociedade grega e romana se fundou baseada no princípio da subordinação do indivíduo à comunidade, do cidadão ao Estado. Como objetivo supremo, ela colocou a segurança da comunidade acima da segurança do indivíduo. Educados, desde a infância, nesse ideal desinteressado, os cidadãos consagravam suas vidas ao serviço público e estavam dispostos a sacrificá-las pelo bem comum; ou, se recuavam ante o supremo sacrifício, sempre o faziam conscientes da baixeza de seu ato, preferindo sua existência pessoal aos interesses do país.
TOYNBEE, Arnold J.:196.
A ideologia da numerologia
A matemática pura, mais do que qualquer outra disciplina,
tornou-se aquele discurso vivo que Platão considerou
a única forma de conhecimento.

FEYERABEND, P., 1991: 13
“Não tenho dificuldades para admitir, identificando o platonismo com matematicismo, o caráter platônico da ciência galileana”. (GEYMONET, L.: 42)
Analisando aspectos da luta que os primeiros cientistas modernos travaram contra o misticismo,o ocultismo e o orientalismo, e como que refazendo o processo de Galileu, o autor procura renovar o significado e o valor daquela Revolução Científica que permanece nas raízes da civilização moderna.
ROSSI, Paolo, A ciência e a filosofia dos modernos: aspectos da revolução científica. - S.Paulo: UNESP, 1992
Newton é um mero materialista. Em seu sistema o espírito é sempre passivo, espectador ocioso de um mundo externo... há motivos para suspeitar que qualquer sistema que se baseie na passividade de espírito deve ser falso como sistema.
S
HAFTESBURY, carta a THOMAS POOLE. - Cit. BRETT, R. L., La Filosofia de Shaftesbury y la estetica literaria del Siglo XVIII: 109.
“O desencanto do mundo e o progresso da ciência calculista, levando à perda total não somente do mistério, mas do desejo de revelar o mistério, provocaram o irracionalismo da dominação.” (HAGUETTE, T. M. F. org., HAGUETTE, A. , BRUHL, D., OLIVEIRA, M. A., DEMO, P., Dialética Hoje: 26)
Depois do carma subverter quase todas as ciências e filosofias, então retornou a vez da política, e, por consequência, da civilização, precipitarem-se pelo despenhadeiro:..
Marx, enquanto materialista, enquanto alguém que advoga que toda a realidade e matéria, porém não apenas isto, que toda a realidade e matéria obedece a leis que são absolutamente determinadas não apenas é materialista, como também determinista, isto é, crê ser possível compreender a realidade de tal forma que, uma vez descoberta suas leis, poderíamos antecipar seu futuro desenvolvimento e O Capital tem a pretensão de ser a obra que descreve o desenvolvimento das leis econômicas da sociedade moderna.
PEREIRA, J. C., Epistemologia e Liberalismo - Uma Introdução a Filosofia de Karl R. Popper: 134
Tal qualquer religião, as "leis" de GALILEU, KEPLER, DESCARTES, NEWTON & MARX não refletem a ciência, mas a coincidência; não fotografam a realidade, mas a projeção da crença no céu, para proventos na Terra, naturalmente. O materialismo clássico, qualquer determinismo enfim, conduz justamente a uma "teologia", não à Filosofia, que lhe é muito mais ampla; por conseguinte, superior.

A impropriedade da Comuna
As idéias gerais não atestam a força da inteligência humana, mas só sua insuficiência, porque não existem seres exatamente semelhantes na natureza; não há fatos idênticos; não há regras aplicáveis indistintamente e da mesma maneira a vários objetos ao mesmo tempo.
TOCQUEVILLE, ALEXIS, 2000: 15
MARX & ENGELS destilaram o veneno platônico em Londres, mas era na obscura Cidade-Luz, “capital da astrologia, medicina marginal e religiosidade pseudo-científica"(JOHNSON, P., p. 119), que os morcegos se alimentavam.
O Marxismo introduziu dois axiomas: o de que a sociedade está dividida em classes cujos interesses estão em eterno conflito; e o de que os interesses do proletariado - só realizáveis através das lutas de classes - exigem a nacionalização dos meios de produção, de acordo com seus próprios interesses e em oposição aos interesses das outras classes.
VON MISES, LUDWIG, Uma Crítica ao Intervencionismo: 139
ENGELS postulava a (re) quebra da ordem econômica francesa. Meteu-se o confuso alemão no vizinho país pela força do título e do conteúdo de seu trabalho - As Lutas de Classe na França - onde incita a participação direta do povo à guerra civil. Mais uma vez, a Place de La Concorde seria tingida com sangue:
Já é passado o tempo de ataques surpresa, de revoluções realizadas por pequenas minorias conscientes à testa de massas inconscientes. Quando a questão é uma completa transformação da organização social, as próprias massas tem de participar, tem de haver compreendido o que está em jogo, pelo que estão lutando, de corpo e alma.
BURNS, E. M., LERNER, R. E. e STANDISH, M.: 623
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Para melhor compreensão do que estava em jogo (como podem vidas serem tratadas como peças de jogo?) os primeiros jornais de trabalhadores prepararam as manifestações da dupla. O Journal des Ouvriers, o Artisan e Le Peuple datam de setembro de 1830; e as insurreições, em novembro de 1831.
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Vivre en travaillant ou mourir en combattant
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O.

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LOUIS BLANC (1811-1882) se destacou estacaram pela condenação a realidade ofertada pela revolução industrial. Quase sempre utilizando-se daquele mesmo velho estratagema da meia-verdade, BLANC agia no sentido apontar a exploração da classe operária. Para ele, de aparente espírito democrático, deveriam os trabalhadores votarem, elegendo daí representantes que viriam colocar o Estado a serviço de todos como “banqueiro dos pobres”, uma instituição recomendada até pelo liberal TOCQUEVILLE** aos carentes reunidos em “associações de produção”. Mas a organização se assentou num autoritarismo estático colocando o Estado-banqueiro como senhor do capital e da produção, com os carentes trabalhadores tentando, sem o menor êxito, ritmar o Palácio de Luxemburgo.
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.B
BLANC
então tratou de instalar o Parlamento dos Trabalhadores, tal qual PLATÃO recomendara: "O sábio deve dirigir, e os ignorantes, segui-lo."
PROUDHON emprestou-lhe parcial apoio, mas em Contradições Econômicas (1846) com meio século de antecipação predisse dois relevantes fatos causadores de milhões de mortes pelo mundo afora: a possibilidade do socialismo ou do comunismo obterem sucesso, e o abuso que lhe sucederia..
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Graças ao reconhecido talento e a sua brilhante dialética, PROUDHON também formulou com êxito sua teoria da exploração, classificando a propriedade como “um roubo” - a mesma que MARX reencetaria, em seguida, com algumas alterações - liame que o colocou em sintonia com eco populista. O que resta indagar é de onde PROUDHON roubou os tijolos para formular sua construção teórica.
O engatinhante parlamento democrático dissolveu-se nas mão dos trabalhadores aglutinados por esses profissionais do trem platônico-cartesiano-darwiniano. Os maquinistas, como sempre, passaram a comandar as decisões... visando seu universo de atuação e usufruto. A colheita poderia ser farta. Kilos de alimentos não perecíveis assegurar-lhes-iam o ingresso nos palácios.


Era uma questão tanto de sobrevivência quanto de política: uma panacéia que, pelo voto do trabalhador e pela transformação radical do Parlamento, proporcionaria ao trabalhador muitos assados, muito pudim de ameixas e cerveja forte, com três horas de trabalho diário
RUDÈ, GEORGE: 19

A reportagem de dezembro de 1851 delineia a tempestade:
O que acaba de acontecer em Paris é abominável, no fundo e na forma e quando se conhecerem os detalhes, parecerão ainda mais cruéis que todo o acontecimento. Quanto a este, já se encontra em germe desde a revolução de fevereiro, como o pintinho no ovo; para fazê-lo sair, não falta mais do que o tempo necessário de incubação. A partir do momento em que se viu aparecer o socialismo, devia se ter previsto o reino dos militares. Um geraria o outro. Eu esperava isso há algum tempo e, embora sinta muita pena e dor pelo nosso país, e uma grande indignação contra certas violências ou baixarias, que vão além do inaceitável, estou pouco surpreendido ou perturbado interiormente. Neste momento a nação está com medo louco dos socialistas e deseja ardentemente voltar a encontrar o bem-estar. É necessário que a nação, que nos últimos 34 anos tem esquecido o que é o despotismo burocrático e militar o prove de novo e, desta vez, sem o ornato da grandeza e da glória.
TOCQUEVILLE cit. RODRÍGUEZ, R. VÉLEZ : 119
Escudado pela voz da “maioria”, mais uma vez o povo puxou as armas, desta feita para depor o próprio CARLOS X. Vencida as barreiras da tradição institucional, o campo ficou limpo para o descambar da nova onda socialista.
A Paris operária, com a sua Comuna, será para sempre celebrada como a gloriosa percursora de uma sociedade nova. A recordação dos seus mártires conserva-se piedosamente no grande coração da classe operária. Quanto aos seus exterminadores, a História já os pregou a um pelourinho eterno, e todas as orações dos seus padres não conseguirão resgatá-los.
MARX, Karl, Guerra Civil em França - 30 de Maio de 1871

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A teoria econômica veio a ser uma ampla empresa de terrorismo intelectual, cujo aspecto pseudo-científico serve, na realidade, de coerção para excluir todos os verdadeiros problemas da sociedade contemporânea. Seu exagerado profissionalismo, herdado de sua mitologia científica, e todo o aparato matemático que a rodeia, servem para mascarar seu objetivo ideológico, que transforma sua disciplina numa máquina para estabelecer as leis das relações de força que existem na sociedade, numa civilização materialista e produtivista, orientada totalmente para a acumulação de bens materiais.
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Seu dinamismo serve, na realidade, para legitimar a posse do poder em mãos daqueles que dominam o aparato produtivo, quer seja a tecnocracia, nos países ocidentais, ou a burocracia planificadora, nos países socialistas.
GUILLAUME. MARC & ATTALI, JACQUES, cits. GOYTISOLO: 94
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Notas
*Viver trabalhando ou morrer combatendo”, cit. Rude, George, A Multidão na História, Estudo dos Movimentos Populares na França e na Inglaterra - 1730 a 1848, p. 180.
** Rodriguez (p. 64) salienta que Tocqueville (!) propugnava por uma espécie de “Banco dos pobres” uma entidade paraestatal com cerca de 27 mil beneficiados com empréstimos de capital sem juros, algo para ser mais estudado

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

O Carma Ocidental - 42. Pastor do pasto-verde

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O reino da França foi um dos raros Estados europeus que se recusaram, de modo obstinado, a reformar-se segundo as exigências do novo espírito iluminista. Houve soberanos esclarecidos nas Alemanhas, Áustria, Rússia, Itália, na própria Espanha e em Portugal, mas não em Versalhes.

GUSDORF, GEORGES, As Revoluções da França e da América: 38
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No que se refere aos animais mantidos pelos homens, ninguém que não o tenha vivenciado acreditará quão mais livres e insolentes são eles aí do que em qualquer outra parte. Conforme diz o provérbio, as cadelas são como as donas, e vê-se ainda como até cavalos e burros estão habituados, conscientes de sua liberdade e dignidade, a avançar a passos largos e embater contra todos que se encontram na rua, caso não se desviem. E todo o restante encontra-se repleto da cara liberdade.
PLATÃO, cit. KELSEN: 465

O chefe deve mostrar constantemente o caminho ao povo, que não conhece sua verdadeira vontade; deve fazê-lo ver as coisas como elas são – ou como devem lhe parecer.
ROUSSEAU, J. J., Contrato Social, cit. KOSELLECK, R: 142

Como pilotos cujos instrumentos de navegação às vezes falham, os líderes fazem vôos cegos com alarmante freqüência.
CLEMENS, JOHN K.: 106

EUGEN WEBER, da UCLA para a nossa TV Senado (17/4/2001), coisa que os senadores, certamente preocupados com a boca-do-caixa, nada apreciaram, liquida com a tartufice:
Talvez soe bem, mas na verdade o homem não nasceu livre. Nasceu como uma frágil criança de peito. Sem a proteção dos pais, sem a proteção proporcionada a esses pais pela sociedade, não teria podido sobreviver. Liberdade na sociedade significa que um homem depende tanto dos demais como estes dependem dele.
"Como um meio adequado para a consecução de determinados fins, ensina Platão, é permitido ao governo do Estado ideal servir-se de ‘certas mentiras sadias’.” (KELSEN, 1998: 168)
Rousseau não receia reconhecer que lhe aconteceu mentir e mentir muito, quando estava na sociedade dos seres vivos, mas uma coisa é mentir, negando a verdade e ofendendo a justiça - e a recordação da pobre Marion persegue Rousseau durante cinquenta anos - outra, o prazer da imaginação, que não prejudica ninguém.
CHATÊLET, vol. II: 274
"Rousseau, o primeiro homem moderno, idealista e canalha numa só pessoa; que necessitou de ‘dignidade’ moral para aguentar seu próprio aspecto; doente de vaidade desenfreada e de desmedido autodesprezo." (NIETZSCHE, 2002: 108)
“Mas a admiração pelo legislador - por aquele que, ‘assumindo a iniciativa de fundar uma nação, deve sentir-se capaz de mudar a natureza humana’ chega até Rousseau.” (BOBBIO, N. 1992:56)
Para Rousseau, como para outros edificadores da Cidade Ideal do Racionalismo desarvorado, o legislador é responsável por tudo. É um deus ex-machina. Algo que será como Napoleão, que pretendeu representar o novo César e o novo Augusto do cesarismo imperial francês.
PENNA, O.M. 1997: 366
Evidente per se, são esses maviosos ditames platônicos, erigidos sobre a plataforma do patrício DESCARTES, e elevados desse modo à máxima potência que consagram os descalabros do mundo ocidental:
A filosofia política moderna acha sua primeira forma sistemática em Hobbes; mas seu germe vital está em Maquiavel, de quem Hegel foi - não preciso lembrar - um grande admirador. E uma história que tem no Príncipe sua revelação, no Leviathan seu símbolo e - podemos também acrescentar, na vontade geral de Rousseau sua solução ideal, não podia deixar de ter como conclusão o deus-terreno de Hegel.
Segundo SCHWARTZENBERG (1978: 13) ROUSSEAU acompanha de perto a MAQUIAVEL ao “tolerar” o indivíduo quando extraordinário, mitológico, restrito às duas funções: “legislador”, para fundar o Estado e lhe fornecer suas leis e “ditador” para garantir sua sobrevivência. “Puro Platão, estendido à Maquiavel!"
O homem "capaz de mudar a natureza humana" via no Secretário um “grande republicano obrigado pelos tempos a desdenhar seu amor pela liberdade. Fingia dar lições aos reis, mas educava des grandes aux peuples.”
Para FELLIPO BURZIO (cit. GRAMSCI, A.: 133), a interpretação de ROUSSEAU em vez de justificar moralmente o maquiavelismo, na realidade projeta um “maquiavelismo ao quadrado: o autor do Príncipe não só daria conselhos sobre fraudes mas também com fraudes” à desgraça daqueles que o seguiram!
No “Plano Para a Constituição da Córsega” o genebrino reivindica para o Estado o patrimônio da Nação, tributando à propriedade privada todo infortúnio, motivo pelo qual dever-se-ia extingui-la. (Evidentemente ele só não foi marxista-leninista porque não pode alcançar a realização do seu sonho, para todos pesadelo.)
A falsidade do argumento se espatifa no insólito: os ingleses haviam tomado e abandonado a Córsega por duas vezes: dava mais trabalho conservá-la do que dela obter valia. (JOHNSON, 2002: 14)
Por lá não havia propriedade, nem privada, nem pública; só impropriedades, mas Rousseau apostava que a ilhota “assombraria a Europa.” De fato, ela assombrou, não por sua constituição, nem pelo diminuto povo, mas por um filho dali fugitivo.
"
A Revolução Francesa produzira um impacto galvanizado sobre os vizinhos europeus da França, desencadeando as idéias utópicas que reinaram soberanas nos séculos XIX e XX." (ZBIGNIEW BRZENSK, A desordem, in Veja 25 anos - Reflexões para o futuro: 67)
A estupidez ainda vara o EspaçoTempo como se fosse luminar. Republicanos tupiniquins adoram os adereços:
Quatorze de Julho - A data de hoje, que a República Brasileira comemora solenemente incluindo-a no seu calendário de festa nacionais, tem alta significação para o espírito de liberdade que domina a civilização contemporânea. Quaisquer que fossem os erros e os excessos que se seguiram a grande conquista de 1789, a histórica já consagra o estupendo legado que a humanidade recebeu dessa grande revolução, - o início da transformação política de todas as nacionalidades modernas, o berço fecundo de onde frutificou a semente generosa de todas as liberdades.
O Estado de São Paulo, ed. de 14/julho/ 1895; republicado em 14/julho/ 1995
Ainda bem que não comemoramos o 17 de outubro, da Bolchevique, descendente direta.
Pois enquanto a Inglaterra partira, há séculos, (desde 1215) às soluções verdadeiramente democráticas; e quando os EUA proporcionavam ao mundo verdadeiras lições de cidadania e civilidade, os franceses e vizinhos, incluindo-se a Rússia e a África, Cuba, China, Alemanha, Itália, Brasil, Espanha, etc., etc, mergulharam no desespero e no desalento, prelúdio dos perversos domínios:
Examinarei, pois, o sistema do mais ilustre desses filósofos, J.J. Rousseau e mostrarei que, transportando para os tempos mais modernos um volume de poder social, de soberania coletiva que pertencia a outros séculos, este gênio sublime, que era animado pelo amor mais puro a liberdade, forneceu, todavia, desastrosos pretextos a mais de um tipo de tirania.
CONSTANT
, BENJAMIN, Da Liberdade dos Antigos Comparada a dos Modernos, tradução de textos escolhidos de Benjamin Constant, por GAUCHET, MARCEL Org., paper Assembléia Legislativa do RS, 1996.
“Embora Rousseau nunca tenha previsto algo como revolução, muito do terrorismo jacobino revolucionário de 1793-1794 foi executado em seu nome.” (MERQUIOR: 28)
A rica França, a tonta Alemanha, a hibernada Rússia, a folclórica Itália, e los valientes espanholes e TODOS os latinos foram aquinhoados, desde então, com inúmeras perturbações, guerras civis e internacionais, ditaduras e constituições de toda índole, justamente na esteira do carma:
Embora as leis e as condições de produção da riqueza possuam mesmo caráter das verdades físicas, a distribuição é apenas uma questão de instituições humanas. As coisas estando disponíveis, a humanidade, individual ou coletivamente, pode fazer com elas o que quiser. A sociedade pode sujeitar esta distribuição de riqueza a quaisquer normas que ela invente.
MILL, J. S., cit. HAYEK, F.A., p. 127; tb. cit. HUGON, P.: 160.
Era uma questão tanto de sobrevivência quanto de política: uma panacéia que, pelo voto do trabalhador e pela transformação radical do Parlamento, proporcionaria ao trabalhador muitos assados, muito pudim de ameixas e cerveja forte, com três horas de trabalho diário.
RUDE, GERGE: 196.

Faça a conta dos regimes que nos levam a codificar com um gesto nossas paixões do momento. Compensamos nossa inconstância através de visões eternas logo gravadas no mármore. Nossas revoluções passam primeiro pelo tabelião. Conseqüência: quinze Constituições em cento e oitenta se sucederam na França depois da Convenção: Diretório, Consulado, Primeiro Império, Restauração, Cem Dias, Restauração, Monarquia de Julho, II República, Segundo Império, III República, Vichy, de Gaulle, IV República, V República, ufa!
MITTERRAND, FRANÇOIS,
Aqui e Agora: 90

O Folclore