segunda-feira, 8 de outubro de 2007

O Pecado do Darwinismo

Se me perguntarem qual é a minha convicção mais íntima sobre o nome que será dado a este século, se será o “século de ferro”, “do vapor” ou da "eletricidade”, responderei sem hesitar que será chamado o século da visão mecânica da natureza, o século de Darwin. Ludwig Boltzmann *
A ESTÓRIA DE ADÃO e EVA é fruto da imaginação. E a de DARWIN, da increpação,
Na ciência clássica, a natureza era vista como um sistema mecânico composto de elementos básicos. De acordo com essa visão, Darwin propôs uma teoria de evolução em que a unidade de sobrevivência era a espécie, a subespécie ou algum outro componente básico da estrutura do mundo biológico. Mas, um século mais tarde, ficou bem claro que a unidade de sobrevivência não é qualquer uma destas entidades. O que sobrevive é o organismo-em-seu-meio-ambiente. (Lemkow: 183)
. De outro ângulo, Andrew Smith interpôs:
A teoria de Darwin foi falha. Não há evidência direta para a seleção natural como um processo evolucionário. Ninguém jamais observou um organismo evoluir, sob condições naturais, para outra forma de organismo. Que formas intermediárias concebíveis poderiam ter levado à aparição do olho? Como poderia a Seleção Natural ter dado origem à aparição de pássaros? Quando um animal arrisca sua vida para salvar um companheiro, suas possibilidades de sobrevivência não são aumentadas. (Behe, p.20)
Vários autores asseguram: Wallace confiara suas observações a Darwin, para que este o entregasse à Casa Real. Como desde a chegada do Beagle o rei dos macacos estava em débito com a Coroa, simplesmente colou seu nome no trabalho do colega. Não foi plágio, mas fraude
Só não me pergunte o quê colocar no lugar. A mim não vem ao caso. O futuro é sempre mais amplo do que o passado, que é marcado. Já muita gente espreita pelo espelhinho. Só digo que tem tudo a ver com as ondas gravitacionais ocasionadas pela passagem do corpo, que por sua vez dança no ritmo da Teoria das Cordas.
A extrapolaçao da fronteira
A.R. Wallace & R.Young identificam uma cabeceira bem contaminada:
Toda a teoria darwineana da luta pela existência é simplesmente a transferência, da sociedade à natureza viva, da teoria de Hobbes sobre a guerra de todos contra todos e da teoria econômica burguesa da concorrência, bem como da teoria da população de Malthus. (Sciences studies, 1971, p.184; cit. Japiassú, 1978: 56)
Não é o que pensa o notável neurocientista chileno H. Maturana, (cit. Pellanda, Nize M.C. e Pellanda, Eduardo Campos, p.115). por exemplo: “A constituição biológica humana é a de um ser que vive no cooperar e compartir, de modo que a perda da convivência social traz consigo doença e sofrimento.” Outros pesquisadores enxergam diretamente o amor como diferencial. A teoria defende a sobrevivência do mais bondoso. O tradicional egoísmo inato dos animais, biologicamente determinado, e longamente estendido ao comportamento humano, começa a ser questionado pelos estudos sobre lealdade e justiça.  Não creio ser tudo isso prerrogativa humana. "O choque, a ação de um átomo sobre o outro, pressupõe também a sensação. Algo de estranho em si não pode agir sobre o outro. Esses complexos de sensações, maiores ou menores, deve ser chamados 'vontades'. (NIETZSCHE, F, O livro do filósofo: 45).
Malgrado inúmeras falhas do trilho pseudo-epistemológico darwineano, onze foguistas são fortes para levar o trem à Conchinchina:
Depois de ter sido incorporada por Charles Darwin como uma metáfora para ilustrar o mecanismo evolutivo das espécies biológicas, foi reincorporada por sociólogos como uma confirmação oferecida pela história natural dos processos que atravessam a história humana.  (Schwartz: 57)
Os reservas Herbert Spencer (1820-1903) e Albert Schäffle, figuram no team. Principles of Sociology (1.vol, 1876) desenvolve um paralelo entre a organização e a evolução dos organismos vivos e das sociedades. Social Statics foi publicado nove anos antes da Origem das Espécies. The Man versus State veio em 1884. Spencer mescla a tradição racionalista dos economistas clássicos com a versão moderna da natureza - a tal evolução. (Schwartzenberg: 143)
A pá-de-mal tocou o liberalismo num balaio de “inteligível confusão." (Sabine: 699)
Já o polonês Ludwig von Gumplovicz utilizou os conceitos darwineanos em Die Sociologische Staatsidee (1892). O próprio Estado seria um produto social da evolução, aperfeiçoado pela competição e pela luta nos embates tribais, firmando a hegemonia dos mais aptos, na forma de evolução social. Nada disse de novo. A bandeira era do obsoleto filósofo do medo,
Thomas Hobbes. Para melhor aquilatarmos a preponderante mediocridade que comandou o raciocínio de Thomas Hobbes, vejamos a seqüência do seu pensamento pelo detalhista Prelot (vol II, p. 258) :
A essência da natureza humana é o egoísmo e não a necessidade altruísta da vida em comum. Quando o homem procura a comunidade, não o faz a fim de conseguir a sua realização pessoal, ou, como pensava o fundador da Escola, em virtude de uma tendência natural que o faz procurar seus semelhantes, mas unicamente com vista ao seu próprio interesse nasce do temor mútuo que existe entre os homens, e não da boa vontade mútua.
A propagação de que “da guerra da natureza, da fome, da morte, forma-se o mais nobre objeto que somos capazes de conceber: a produção de animais superiores”  o menos avisado pensaria ser o receio de Hobbes transformado à emulação pela publicidade nazista; porém, assim não o é. Esta eloqüente frase foi proferida pelo parente símio, nosso Charles. Robert Downs descreve-nos a "meritosa" contribuição:“Consciente ou inconscientemente o Mein Kampf, de Hitler, deve muito a Maquiavel, Darwin, Marx, Mahan, Mackinder e Freud.” (Johnson, p. 4)
Esqueceu, ou não quis citar, Mussolini, mentor da hipócrita
Carta del Lavoro.
O darwinismo social
O que ocorreu foi que as premissas tecnocráticas quanto à natureza do homem, da sociedade e da natureza, deformaram-lhe a experiência na fonte, tornando-se assim os pressupostos esquecidos de que se originam o intelecto e o julgamento ético. MISES, Ludwig von, 1990: 112
Na rota riscada por Bacon, Descartes, Newton, Hobbes, Rousseau, Bentham, junto a mecânica hegeliana, Mill, Comte, Sorel, Lamarck, o próprio Darwin, e em seguida Engels e Marx, criativas equações sociológicas, econômicas e legislativas passaram a “ordenar” os fatos sociais, cada vez com maior ênfase e precisão. A maioria liberal já tinha claramente identificado que a manobra de transferência de um poder (real) para outro (do povo), como queriam Rousseau, Bentham e seus cometas, não buscava a liberdade, mas sim a novo absolutismo. De fato, as formulações tecno-políticas embasadas no “utilitarismo” passaram a sobrepujar o “utópico” e “primitivo” sistema. O foguista-mor dedicou a edição inglêsa de O Capital ao autor da Origem das espécies: “O livro de Darwin é muito importante e me convém como base da luta histórica das classes.” (Marx, cit. Japiassú,1978,p.60)
Darwin recusou a homenagem, simplesmente por não entender o que teria a Seleção Natural a ver com o Socialismo. Na verdade era uma falsa modéstia. A expressão “podemos lançar um olhar profético ao futuro e ver que as espécies pertencentes aos grupos maiores e dominantes dentro de cada classe é que finalmente prevalecerão e darão origens a novas espécies dominantes” traduz ao quê se opõe o discurso da mistificação dial-ética-comunista. É de Darwin a autoria. (Cit. Carvalho,p.21)
Pelo nosso Miguel Reale (p. 223): "Alguns postulados fundamentais caracterizam a filosofia marxista: o primado do real sobre o ideal, a admissão da teoria evolucionista de Darwin, a concepção materialista da história, a dialética hegeliana revisada."
Marx tanto se valeu do antropofágico curso que Turati e Kautsky o identificaram como o “Darwin da ciência social”. (Cits. Hayek, p. 83)
O trem da alienação desceu a ribanceira em desenfreada carreira. O universo social passou a ser descrito em ordem uniformemente acelerada. A partir da direção do patrono comunista, nova leva embarcou. Joseph Needham, em 1943,(cit. Hayek, p. 84) foi um dos arrastados:

A nova ordem mundial de justiça social e da camaradagem, o estado racional e sem classes, não é um desvairado sonho idealista, mas uma extrapolação lógica a partir de todo o curso da evolução, que não tem menos autoridade do que aquela que o precedeu é portanto de todas as crenças a mais racional.
Needham cometeu redondo engano, teórico e prático:
Em resumo, a evolução é um desdobrar-se de uma ordem interna existente. Mas, por ser ela inteligente e não um processo mecânico, há espaço aberto para variações criativas e respostas individuais às circunstâncias ambientais  (Lemkow, p. 174)
F. Hayek (p. 46) bem avisara:
O darwinismo social está errado, mas a intensa aversão que provoca hoje é também devida em parte a seu conflito com a arrogância fatal de que o homem seria capaz de moldar o mundo ao seu redor de acordo com seus desejos.
Needham, se leu, não entendeu. Wilber (A Transpersonal View of Human Evolution, p. 304/305; cit. idem, p.178) também foi ignorado:
"A teoria científica ortodoxa da evolução parece correta quanto ao 'quê' da evolução, mas é profundamente reducionista e/ou contraditória quanto ao 'como' (e porquê) da evolução.”
A idéia cerne é furada. Que dirá seu transplante à economia, à sociologia e ao direito:

Não é a adaptação bem sucedida a um dado ambiente que constitui o mais notável formador da vida, mas a teia de processos ecológicos em um sistema ambiental que forma os padrões psicológicos e comportamentais, os quais podem apoiar-se na genética. A evolução acontece não como resposta às exigências da sobrevivência, mas como um jogo criativo e necessidade cooperativa de um universo todo ele evolutivo. ( Lemkow, p. 183)
Sobrevivências
O foco de uma crônica competição sangrenta entre indivíduos e as espécies, a guinada popular à “sobrevivência dos mais aptos”, dissolve-se diante de uma nova visão de cooperação contínua, forte interação e dependência mútua entre as formas de vida. A vida não conquista o globo pelo combate, mas pelo entrelaçamento. Formas se multiplicam e tornam-se complexas cooptando outras, e não apenas se autodestruindo.
O Príncipe Peter Alexeyeevich Kropotkin (1842-1912), ex-integrante do seleto Corpo de Pagens do Czar Nicolau I, não foi ao paraíso tropical de Galápagos; foi na Sibéria que ele viu as espécies bem sucedidas preferirem a cooperação. Foi pioneiro em “falsear” a festejada  teoria, mas nada disso, obviamente, interessaria aos bolcheviques. Naquele frio siberiano, diferentemente do sol tropical buscado por Darwin, a seleção natural procura um meio de evitar a competição. O livro Auxílio Mútuo, contudo, não era de serventia praxeológica. Além disso, Kropotkin foi taxado como anarquista. Merecia juntar-se a Nietzsche. Mas o russo estava correto: "A teoria da evolução, de Darwin, de mutação acidental e de sobrevivência dos mais capazes, inevitavelmente tem se mostrado inadequada para responder a um grande número de observações biológicas." (Ferguson, p. 149.)
Em que pese desabrochar os sentimentos mais nobres, as virtudes mais elevadas, a política liberal assim foi solapada. Os onze viajariam por muito tempo. Possuíam uma equipe de teóricos e treinadores da mais alta competência. Como todo trem (e todo embuste) tem fim-de-linha,. A cátedra está em cheque:
Há uma grande lacuna na teoria neodarwiniana da evolução, e acreditamos que deva ser de tal natureza que não possa ser conciliada com a concepção corrente da biologia. Concluímos – inesperadamente – que há poucas provas que sustentem a teoria neodarwineana; seus alicerces teóricos são fracos, assim como as evidências experimentais que a apoiam.
(Coyne, Jerry, do Depto. Ecologia e Evolução. Universidade de Chicago. Cit. Behe: 37)

Talvez porque só se preocupassem com a “origem”, portanto atendo-se exclusivamente a um passado presumido, fragmentado, predisposto por fatos e objetos parcialmente identificados, mal-coletados, pior interpretados, e jamais resolvidos, é que esses onze - Spencer, Darwin, Malthus, Rousseau, Hegel, Comte, Mill, Bentham, Marx, Sorel e Freud - não conjeturaram a espetacular reversão científica que adviria com a quântica e com a relatividade:
É nisso que aqueles que se empenham em melhorar a sorte do homem podem fundar suas esperanças: os seres humanos não estão condenados, em razão de sua constituição biológica, a aniquilar uns aos outros ou ficar a mercê de um destino cruel que eles mesmos se afligem. Einstein, A., Escritos da maturidade: artigos sobre ciência, educação, relações sociais, racismo, ciências sociais e religião: 133
A ciência e a sociedade de ponta evoluem por “somaléticas”, em vez das necessariamente destrutivas lambanças dialéticas, sejam elas de caráter histórico, físico, biológico, econômico, político, ético ou social.


200 anos de Darwin. Para inglês ver. A perene atualidade de Thomas Hobbes
A influência de Malthus
O dano social darwiniano
Darwinismo à caminho do fim
O crepúsculo da hipótese darwinista
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Nota

* Boltzmann, Ludwig, Populare Schriften Essay 1, theorethical physics and philosophical problems, p. 15; cit. Coveney, P. e Highfield, R., p. 135.
Boltzmann defendeu este mesmo ponto de vista na palestra sobre a segunda lei, proferida em 1886, num festival da Academia Austríaca de Ciências.
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Fontes

BEHE, Michael J., A caixa preta de Darwin: o desafio da bioquímica à teoria da evolução. Tradução de Ruy Jungmann; consultoria de Rui Cerqueira.– Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.
CARVALHO, Eide M. Murta, O pensamento vivo de Darwin.- São Paulo: Martin Claret, 1987.
COVENEY, Peter e HIGHFIELD, Roger, A flecha do tempo. Tradução de J. E. Smith Caldas.- São Paulo: Ed. Siciliano, 1993.
FERGUSON, Marilyn, A conspiração aquariana. Tradução de Carlos Evaristo M. Costa, 10 ed.- Rio de Janeiro: Ed. Record, 1995.
HAYEK, Friedrich August von, Os erros do socialismo: arrogância fatal. Tradução de Ana Maria Capovilla e Candido Mendes Prunes.- Porto Alegre: Editora Ortiz/Instituto de Estudos Empresariais, Edição preliminar, 1995.
JAPIASSÚ, Hilton, Nascimento e morte das ciências humanas. - Rio de Janeiro : Livraria Francisco Alves Editora, 1978.
JOHNSON, Paul, Tempos modernos: o mundo dos anos 20 aos 80. Tradução de Gilda de Brito Mac-Dowell e Sérgio Maranhão da Matta. - Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1990.
LEMKOW, Anna F., Princípio da totalidade. Tradução de Merle Scoss.- São Paulo: Ed. Aquariana, 1992.
REALE, Miguel, Pluralismo e liberdade, 2. edição. - Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1998.
SCHWARTZ, Joseph, O momento criativo - mito e alienação na ciência moderna. Tradução de Thelma Medici Nóbrega.- São Paulo: Ed. Best Seller, 1993.
SCHWARTZENBERG, Roger-Gèrard, Sociologia política: elementos de ciência política. Tradução de Domingos Mascarenhas.- São Paulo e Rio de Janeiro: Difel, Difusão Editorial, 1979.

2 comentários:

  1. Pois é. Eu, de novo. O assunto me fascina. Mas vc não acha que Freud, incluído na sua lista de equivocados, não teve um papel importante na revelação da complexa mente humana?

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  2. Prezada EAD,
    Grato pelo interesse e gentil registro.
    Freud usou a mesma estratégia dialética, o mesmo liame epistemológico, cujo parteiro foi Platão, e os padrinhos, Hobbes, Descartes, e Hegel.

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