O que sobra? Algo
além da esquerda e da direita.
Jamais o liberalismo foi praticado em algum lugar do mundo; que dirá o
neoliberalismo.
Obviamente não se pode decretar a morte de quem sequer nasceu. Nem de modo prematuro.
O sistema liberal tem como maior apelo, e eficácia, e o considero científico, por uma única razão: ele flui pela desconcentração do poder. Naturalmente os intervencionistas não podem concordar. Eles rechaçam o
Estado-Mínimo. Todavia, jamais, em algum canto, o Estado foi reduzido a esta envergadura. É o gigante, o
Leviathan que tudo controla, da U.R.S.S. ao nazismo; da democracia francesa à
corinthiana; do federalismo suíço ao americano:
O poder nos EUA foi mais concentrado do que se costuma imaginar. Quem controlava o Pentágono, a Cia, o Departamento de Estado, o Tesouro e o homem que coordena estes órgãos na Casa Branca, controlava tudo, e tudo isso o sistema controlava.
GALBRAITH, 1989: 197
Dado o advento dos magníficos meios de comunicação, e dos computadores, hoje "usufruímos" ainda maior controle do que ontem! O insaciável
Leviathan participa de todas as atividades, em
perene atualidade de Thomas Hobbes, seja pelo recolhimento de impostos, seja pela ditadura de regras, mas, principalmente, por concentrar toda a riqueza da Nação, representada pelo dinheiro. A colheita é irracional:
"Limitar o real apenas ao quantificável não é científico, é cientístico - uma perversão da ciência."
(HUSTON, Smith, cit. LEMKOW, Anna: 5 )
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Seria possível, e apropriado a implantação de um preciso regime liberal? Seria conveniente? Qual fórmula o atenderia, não só no campo político, ou eleitoral, mas essencialmente no econômico, núcleo jamais violentado? Seria viavel? E omo se revestiria em benefício comum, e não em mais uma armadilha à satisfação dos predadores? Poderia o liberalismo ensejar a chave à raposa entrar no galinheiro, como apregoava Leonel Brizola? E caso fosse radical, como ora propugno, não estaríamos na
borderline da anarquia?
Em primeiro lugar, as galinhas não precisam estar confinadas. É justamente esta característica que atrai a raposa. Se soltas, e alguma for pego em distração, milhares terão escapulido. Caso reunidas no galinheiro, fatalmente nenhuma escapará.
Em segundo lugar, o Universo se expande de forma caótica; porém, curiosamente, é onde se vê menor anarquia. Há uma espécie de ética entre o espaço e os corpos, de modo que tudo se preserva intacto, e estável, em que pese em expansão. Ocorre, todavia e apenas, o vêzo:
Todos sabem que a física newtoniana foi destronada no século XX
pela mecânica quântica e pela relatividade. Mas os traços fundamentais
da lei de Newton sobrevivem, seu determinismo e sua simetria temporal
sobreviveram.
PRIGOGINE, I.,: 19
Se a Física pautou todas as ciências, a ponto de levar a humanidade ao desequilíbrio ecológico, legal, econômico, social e tudo o mais, porque logo agora, passado século de sua emenda, insistimos com as fórmulas daqueles nossos tataravós?
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A difusão de poder, nas esferas política e econômica, em lugar da sua concentração nas mãos de agentes governamentais e capitães de indústria, reduziria enormemente as oportunidades para adquirir-se o hábito do comando, de onde tende a originar-se o desejo de exercer a tirania. RUSSELL, Bertrand, Ideais Políticos: 24
Utópico? Exagero? Nem tanto. Quem diria que os reis divinos rumariam aos céus? Alguém ousaria predizer a dobra da
Coroa perante os cidadãos ingleses? Como supor que um exuberante
Duce morreria feito carneiro à gaúcha? Quem vaticinaria a queda da fortaleza soviética, ainda mais por absoluta inanição? Por fim, qual
Minerva poderia antecipar o descalabro que ora presenciamos, um fenômeno suicida, porque desprovido de adversários?
A difusão dos poderes, especialmente a capacidade de criar e gerir a moeda, será contingência de um longo processo, em evolução contínua; porém, como para qualquer jornada, o primeiro passo é facilmente realizável. Aliás, em tal picada já coexistem vários trilhos:
"A superioridade dos sistemas auto-organizadores é ilustrada pelos sistemas biológicos, em que produtos complexos são formados com uma precisão, uma eficiência, uma velocidade sem iguais."
(BIEBBRACHER, C., NICOLIS, G. e SCHUSTER; Self Organizations in the Physico-Chemical and Life Sciences; Relatório EUR 16546, European Commission, 1995; cit. PRIGOGINE, I.: 75)
O físico Rohden
(p. 81) explicita:
Uma colméia é a perfeita imagem de uma ‘anarquia cósmica’, isto é, uma perfeita ordem e harmonia sem nenhum governo externo; o sem governo (anarquia) se refere a um fator extrínseco, mas o governo (autarquia) está dentro de cada abelha. É a consciência apiária que governa e, por isto, não há necessidade de uma organização externa.
Bruno Latour
(Das Sociedades Animais às Sociedades Humanas; cit. Witkowski: 207) apresenta sua contribuição:
Depois do livro do americano Edward O. Wilson, Sociobiology e dos ensaios do inglês Richard Dawkins, os geneticistas das populações, assim como os especialistas em insetos sociais, procuraram compreender a organização social a partir dos interesses individuais. Não existe o formigueiro; só existem as formigas. Não existe a espécie; só existe o indivíduo. Falar de um sacrifício pelo grupo é, portanto, uma impossibilidade - pelo menos se estudarmos a evolução darwiniana dos caracteres sociais. Era preciso repensar a sociedade animal como a resultante do cálculo dos indivíduos e não mais como um vasto sistema dentro do qual os animais nascem e morrem. Esta revolução entre os animais assemelha-se às revoluções que as ciências políticas conheceram duzentos anos antes.
No livro
Bionomics, Michael Rothschild propõe direto:
"A principal diferença entre a economia e um
ecossistema é que a economia evolui mais rapidamente do que o
ecossistema, mas suas propriedades fundamentais seriam similares."
(Gleiser, I.: 77).
Ambos
são desprovidos de direção central, de plano; por isso podem se desenvolver de modo espontâneo, apregoado no século XVIII, por Adam Smith, já mencionamos; e no primeiro quarto do século XX, por Hayek, Fridman, Schumpeter, e de resto pelas
Escolas de Chicago e da Áustria. Nada de novo; infelizmente, tampouco experimentado.
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Lembrança de especial aniversariante