sexta-feira, 2 de maio de 2008

A amplitude interdisciplinar


A história é, em essência, interdisciplinar. (1)
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A despeito da ausência de uma ciência do homem que coordene e ligue as ciências do homem (ou antes, a despeito da ignorância dos trabalhos realizados neste sentido) o ensino pode tentar, eficientemente, promover a convergência das ciências naturais, das ciências humanas, da cultura das humanidades e da Filosofia para a condição humana. (2) -
NÃO SÃO poucos os que identificam indisciplinaridade tal qual um grande congresso de disciplinas. A esses formalistas, inter prenuncia relação entre as partes, e disciplina, as partes. Então julgam qua ao somá-las obterão o mais certeiro resultado. Mas efetuada esta junção, voltariam as partes aos seus redutos estanques?
Relações, embora muitas possam ser calculadas, não se restringem pitagóricas. São simbioses, acomodamentos, conveniências, e como tais não são estanques, como exigem somas de partes, ou arranjos dialéticos.
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O que importa é a reunificação gnoseológica dos segmentos disciplinados em apenas um esteio:
O espaço do interdisciplinar, quer dizer, seu verdadeiro horizonte epistemológico, não pode ser outro senão o campo unitário do conhecimento. Jamais esse espaço poderá ser constituído pela simples adição de todas as especialidades nem tampouco por uma síntese de ordem filosófica dos saberes especializados.
JAPIASSÚ, 1976: 74

Interdisciplinaridade se realiza como uma forma de ver e sentir o mundo. De estar no mundo. Se formos capazes de perceber, de entender as múltiplas implicações que se realizam, ao analisar um acontecimento, um aspecto da natureza, isto é, o fenômeno dimensão social, natural ou cultural, veremos e entenderemos o mundo de forma holística, em sua rede infinita de relações, em sua complexidade.
Fundação Darcy Ribeiro, www.fundar.org.br/
Infelizmente as ciências foram apartadas já no berço da Academia, e a civilização percorre caminhos concorrentes, muitas vezes excludentes, por isso jamais complementares:
O edifício das ciências atingiu altura e dimensão tremenda, e com isso cresceu também a probabilidade de que o filósofo se canse já enquanto aprende, ou se deixe prender e 'especializar' em algum ponto: de modo que jamais alcança sua altura, a partir de onde seu olhar abrange tudo em torno e abaixo.
(Nietzshe, F., Além do bem e do mal, p. 95)
Assim é que a função interdisciplinar visa, em primeiro lugar, esse reconciliamento cognitivo, a eliminação das diferenças, desaparecendo as dicotomias, em prol de uma ciência integrada, unificada.
O Congresso de Stanford e o curso de Humanidades lançado pela USP buscam elidir o desvio platônico, convergindo áreas como filosofia, química, biologia e teoria literária:
"O que se descobriu é de fato inovador intelectualmente e tem relevância para múltiplas disciplinas." (3)
A Universidade de Brasília (UnB) patrocinou a 6.Conferência Internacional sobre Filosofia, Psiquiatria e Psicologia, "onde pretende aprofundar os temas propostos por meio da interdisciplinaridade." (4)
O mote da reunião da SBPC 2006, realizado na bela e sempre promissora Florianópolis, tratou justamente da Interdisciplinaridade, a fim de "semeá-la". A ótica tem carreado a importância que merece:
O início da década de 90 caracteriza-se pela idéia de interdisciplinaridade, tema-chave dos mais representativos eventos sobre formação de educadores. Esquecida em décadas passadas, volta agora como palavra de ordem das propostas educacionais não só no Brasil, mas em outros países. (5)
Diga-se de passagem, ela vem ungida por vários qualificados patronos, e desde o raiar do século que findou:
"Se todas as partes do universo são solidárias numa certa medida, um fenômeno qualquer não será o efeito de uma causa única, mas a resultante de causas infinitamente numerosas; ele é, como se diz com freqüência, a conseqüência do estado do universo um momento antes. " (6)
"Nos anos 20, os físicos, liderados por Heisenberg e Bohr, constataram que o mundo não é uma coleção de objetos distintos; pelo contrário, ele parece uma teia de relações entre as diversas partes de um todo unificado." (7)
"O mundo é uma rede complexa de inter-relações na qual as categorias de sujeito e objeto se fundem, embotando as distinções dualistas tradicionais." (8)
Einstein deve ser considerado o padrinho da complementariedade: (9)
Não é suficiente ensinar a um homem uma especialidade. Através dela ele pode tornar-se uma espécie de máquina útil mas não uma personalidade desenvolvida harmoniosamente. A sobrecarga necessariamente leva à superficialidade.
(Albert Einstein, cit. Pais, Abraham, Einstein viveu aqui, p. 271.)
Algumas grades curriculares já são articuladas solidárias:
Não podem as bifurcações ajudar-nos a entender a inovação e a diversificação em áreas outras do que a física ou a química? Como resistir à tentação de aplicar essas noções a problemas da esfera da biologia, da sociologia e da economia? Demos alguns passos nesta direção e hoje muitas equipes de pesquisa em todo o mundo seguiram este caminho. Só na Europa, foram fundados nestes últimos dez anos mais de cinqüenta centros interdisciplinares especializado em estudo dos processos não-lineares. (10)
As razões são evidentes:
"Tudo o que é humano é ao mesmo tempo psíquico, sociológico, econômico, histórico, demográfico. É importante que esses aspectos não sejam separados, mas concorram para uma visão 'poliocular'." (11)
Hoje a Antropologia não pode abster-se de uma reflexão sobre: o princípio de relatividade einsteniano; o princípio de indeterminação, de Heisenberg; a descoberta da ‘antimatéria’, desde o anti-elétron (1932) até o antinêutron (1956); a cibernética, a teoria da informação; a química biológica; o conceito de realidade. Tudo o que diz respeito ao homem nos revela ao mesmo tempo o homem em movimento e o homem permanente; o homem diverso e o homem uno. (12)
"De fato a circulação transdisciplinar de modelos e de paradigmas apaga essa oposição simples e leva o conflito para o próprio coração de disciplinas como a inteligência artificial, a psicologia, ou a linguística."(13)
Vivemos na Era do Conhecimento, e o conhecimento múltiplo permite associar medicina com engenharia, descobrir novas leis no mundo jurídico (as antigas já não funcionam mais), psicologia com informática, emoções com dinheiro, família com interesses, educação com criatividade, riqueza com libertação. Buscamos o ser completo. (14)
Aprecie, ainda:
Interdisciplinaridade na Universidade
Economia & Interdisciplinaridade
A essencialidade da interdisciplinariedade
A fragmentação da escolarização
O "gap" de Einstein
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Notas
1.Fazenda, I.C.A., 2002, p. 48.
2.Bairon, S., p. 20.
3. O evento conjeturou a emergência da 'Mão Invisível' que articula a colaboração entre áreas como filosofia, química, biologia e teoria literária.' Folha de São Paulo, 24/11/2002.
4.unb.br -
http://www.ppp2003.hpg.ig.com.br/.
5.Fazenda, I.C.A., 1999, p. 14.
6.Poincaré, J.H., p. 36.
7.Capra, F., p. 15.
8.Fowler, Dean R., Einstein´s Cosmic Religion 1979; cit. Jammer, M., p. 103.
9.Einstein, A.cit. Pais, A., in Brian, D., p. 83.
10.Prigogine, I., p. 74.
11.Morin, Edgar, Contrabandista dos saberes, cit. Pessis-Pasternak, p. 86.
12.Morin, E., p. 64.
13.Lèvy, Pierre, Uma constelação científica em transformação, in Witkowski, N., p. 353.
14.Pereira, G.M.G., p.

Um comentário:

  1. Coruja Tricoteira2 de maio de 2008 16:00

    Mais uma vez obrigada pela visita. Aproveitei e deixei um votinho. bjs Corujinha

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