domingo, 4 de maio de 2008

A Future 1


Aos aparentemente ausentes.
* * *
Future 1 realiza pit-stop na SiderALL Base
-
Sr. 008, o senhor veio precedido de enorme cartaz. A platéia quer esmiuçar a bagagem trazida da Estação-Primeira do Futuro. Como estão as coisas por lá?
Esqueça meu número. Sou o Agente pra Frente.
Bem, então fale, senhor Agente. O quê preocupa a tão avançada civilização?
O fator primordial com que por lá se lida é justamente isso: o tempo.
Muito quente? Mau tempo? Aeroporto fechado? Neve? Tsunami?
Nada, vivente. A preocupação paira sobre tempo sim, mas aquele que passa, o que se vive, o que tem fim.
Seja mais claro, por favor.
A preocupação paira sobre a quase centena que recebemos, especialmente com os últimos, o que faremos.
Qual a dúvida?
A coisa ficou mais complexa, mas ninguém tem pressa. A pressa trás a morte depressa. Aprendemos a coletar o tempo de todos. Isso significa, em primeiro plano, o dos presentes, juntos ou distantes; e inclui-se, por tantas inferências, os tempos que já não são visíveis, ou aguardam conferências. São por demais relevantes.
Quê confusão. Mas bah, tchê, índio véio. Ôigalê!
Até bicho no salão se vê. Em algum nicho vira emaranhado, mas o quê fazer? Somos nós e nossas circunstâncias. Elas estão cada vez mais amplas, desgarradas de modo espantoso; porém, se não as salvarmos, não nos salvamos. Ao reparar a ecologia, vem ao semblante a alegria.
Concordo. Mas se vale o tempo invisível, como remunerá-lo?
Esqueça hábitos antigos, não guarde papelucho. A sociedade é de amigos; e não há nenhum gorducho. En passant, coexistem o gaucho e o gaúcho, mas ainda não se cumprimentam. Muito engraçado.
E sobre as finanças?
Dos reais conta-se muito naufrágios, afogados em furados sufrágios. Reais de cem, desde Féliz não mais se vê. Permanecem náufragos em ilha deserta, na propriedade de gente muito esperta. Circundam-lhes tubarões, crocodilos e outros répteis. Ao centro, em paredes de aço, os piratas ergueram o templo aos semideuses. Querem bem protegê-los. Estão inacessíveis ao laço, pois. O real deveria ser verde, pela esperança. Quê esperança! Por lá ele sumiu, com a cor apropriada. Do Triângulo das Bermudas não tem volta. É bilhete-azul. Mas sabemos onde se esconde. Jaz deitado por baixo dos panos com o remanescente de Cuba, alguns míseros austrais, e os petrodólares, da Venezuela, em preto ou vermelho, mas não rubro-negros.
Mas que conversa. E daí?
Dinheiro, só pelo Paraguai. Nem neto vê o vil objeto.
Afinal, que moeda circula?
São muitas, mas nenhuma transportada por mula. É mula lá, e nós aqui. Vive-se fartura, sem farta. Escambo sofisticado, se preferir.
Seja objetivo.
Meios de troca: informação, música, técnica, idéia, sonho, conhecimento, arte, cultura, humanismo, compaixão, solidariedade, gratidão. Mister o respeito ao indivíduo. Ele é o átomo que causa o Big-bang. Massa é na pizzaria. Som & luz. Isso é que vara o EspaçoTempo.
Muito lírico. Até sonho é moeda de troca. Queria saber como ele transita. Ademais, dispensam a pizza. Vivem de luz, como atocha a australiana.
Passear pela vizinhança não cansa. O passageiro se alimenta, dorme, trabalha, caminha, ama, vive feliz, quase do mesmo modo como se conhece aí, no passado. Se tiver alguma farinha-no- saco, passa bem. Quem nada tem, na carona vem. Pessoal gosta de coisas simples: futebol, praia, samba & cerveja.
Quase igual. Não fossem as taxas e os juros cobrados pela farinha, depois de tropeçarmos em pobres ao relento, teríamos um replay. Que inveja! Seria força da lei, nobre mensageiro?
De fato, o povo está bem mais culto, civilizado. Ninguém se vale de medida provisória. Qualquer indivíduo é capaz de traçar sua própria História; e ela não tem volta. Nada, portanto, pode ser provisório. O tempo passa, e define. Quando apto, o cidadão redige a Constituição que lhe é compatível, e a registra erga omnis*. É o primeiro a querer preservá-la. À consagrá-la, cumpre.
E a tramitação burocrática?
Nada se cobra. Tudo é patrocinado. Existe apenas um cartório no globo, o 24 h on line for you. É o bastante. O resto é ranço daquele gatuno palerma, tal de João VI. Mas gostaria de acrescentar uma curiosidade.
Pois não.
Por feriadão ninguém reclama. Os dias são de realizações, ou de ócio, mas estes são tornados criativos, como ensina teu contemporâno italiano. Nada perdemos; e pela não-ação, tudo pode ser feito também. Mesmo dormindo, mesmo trabalhando, mesmo se divertindo.
Isso vai demorar. O que interessa mesmo é a Economia. Aqui não tem blábláblá. Só agonia.
Não se restrinja a rótulos, muito menos rotule. A demora diminui a cada instante.
Donde vim já não se faz economia. A moeda quanto mais espraiada, maior valor assume. É uma economia que em vez de economizar, gasta, à vontade. No gasto visceja o pasto. A onda sobe a praia e desce revigorada, para encorpar a próxima. Todos ganham, ninguém perde. Não há inflação, muito menos recessão, como sói por aí acontecer.
Qual locomotiva puxa o trem?
Isso é do Agente pra Trás, o 007. O trem vai ao desuso. Ora preferem seus próprios tapetes, mais compatíveis com a intensidade e leveza cósmicas. São de energia reciclável, e não-poluentes. Quem não os tem, satisfaz-se com as novas trazidas pelos passarinhos.
Era só o que faltava.
Sim, os idiomas estudados não se restringem às nacionalidades. A linguagem animal também começa a ser ensinada. Quadrúpedes, aves e outras espécies fazem parte de nosso universo; porque não podemos interagir? Você já deve saber que as vacas holandesas adoram violino. Já pensou sussurá-las no ouvido? Tem o Centro Cultural do Bichano; Aliança da Tigresa; o Yauau, já sabe para quem. Falta apenas um curso para entender anta. Neste caso, poderão interpretar o que aconteceu no passado recente. Mas há uma determinação expressa: títulos de eleitor são vedados a esses novos participantes. Já chega os analfas.
No Paraíso havia congraçamento. Os animais votavam, e serviam até de cabos-eleitorais - veja o caso da serpente, contratada a mando de Belzebú.
Mas não alcançava os vegetais e inanimados. Ora também esses elementos podem receber atenção. Curso adiantado é do neolatim, da Escola Electron de Línguagem Universal, EELU.
Fale-me da locomotiva, ou coisa que o valha!
Na avenida dialética, em frente ao eixo monumental, mora o Banco da Ética. Ele substitui a Central do Brasil. Juros foram abolidos, por perniciosos. Em vez do círculo vicioso da especulação, implementamos o círculo virtuoso da produção. Juntos, finalmente, chegamos lá! Os impostos foram abolidos. E ninguém mais vive de mensalão.
Que política adotaram para extinguir tão rapidamente as sanguessugas?
Tratam-na como mero palco de representação. Como políticos apenas representam, quanto menos fizerem, menores se tornam prejuízos, frustrações e atrasos. É a gente que faz.
E a arrecadação?
Insignificante. São os patrocinadores que amparam os carentes. Aos caciques, que também nada fazem, basta-lhes o cocar. Nada se desperdiça por aqui. Especialmente gente. É investimento de retorno garantido.
Fale mais.
Antes advirto: muitas peculiaridades nos cercam; mas o câmbio é por velocidade de cruzeiro.
Ao assunto, please.
Um avanço considerável envolve a Medicina. O neolatim e a EELU traduzem os hieroglifos atômicos. O câncer terá o destino da lepra. AIDS, nunca mais. Terminadas as tarefas, não iremos em busca do tempo perdido, como o tonto, mas à própria fonte da juventude!
Não acredito, Sr. 008. O senhor só tem um ano para se movimentar. O futuro que pinta, beleza igual gostaria de ver passar. Mas a "velocidade de cruzeiro" verá gerações passarem. Ninguém poderá comprovar o acerto de suas palavras; portanto, são improváveis.
Ora, seu limitado, a comunidade é unânime. Pergunte a seu contemporâneo, o Físico Amit Goswami. Ele pode lhe responder:
"O núcleo do novo paradigma é o reconhecimento de que a ciência moderna confirma uma idéia antiga - a idéia de que consciência, e não matéria, é o substrato de tudo que existe."
Marx jaz envergonhado embaixo do muro que compôs. O materialismo não tem, sequer, objeto. Óps, desculpe.
É muita enrolação.
Vislumbro real horizonte. No Hubble faço meu ágape. Pensei bem satisfazê-lo. Todavia, se gostas de provas, indico-lhe locais apropriados. Por aí mesmo. Elas existem em profusão, nas suas escolas, tribunais, laboratórios médicos, autódromos, e até em altares, com aquela de fogo. Licença.
Hum ...
Bem, se me permite, o melhor já descrevi. Considere-se, pois, norteado, não desnorteado, muito menos nocauteado.
Hei, alto-lá! Para onde vai, senhor 008?
Calma, vou ancorar. Vim resgatá-los. Ficarei em exibição pública até a volta da F1. Ela virá ainda mais opulenta, dona de maior espaço interno; e com navegação totalmente eletrônica. Mas, se duvida de mim, pobre 009.
_____________
* Termo jurídico do Império Romano. Assegura o direito (também a obrigação) perante todos os demais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário