sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O Corte Epistemológico nas Ciências Humanas


A ciência moderna está estreitamente associada a um poder sobre as coisas, e sobre o próprio homem, e é por isso que ela aparece ligada à tecnologia a ponto delas serem indiscerníveis. LADRIÉRE, J., Um saber do tipo operatório : as questões da racionalidade; Le défit de la science et de la technologie aux cultures [O desafio da ciência e da tecnologia às culturas], Aubier UNESCO, 1977; CRÈTIEN:  205
As pesquisas atuais que se desenvolvem em setores da Filosofia, da Psicologia, da Lingüística, e mesmo da História e Arte, convergem todas para a mesma sugestão: o paradigma tradicional está, de algum modo, equivocado.  KUHN, T.:156
I have for long thought that if I had the opportunity to teach this subject, I would emphasize the continuity with earlier ideas. Usually it is the discontinuity which is stressed, the radical break with more primitive notions of space and time. Often the resul is to destroy the confidence of the student in perfectly sound and useful concepts already acquired! BELL, John, Speakable and Unspeakable in Quantum Mechanics
Uma cirurgia corretiva pode ser considerada trivial no âmbito da Física, mercê dos marcos delineados pelos gênios do século recém findo. A tarefa, contudo, torna-se mais complexa no nebuloso universo das Ciências Humanas
Somos infinitamente mais complicados, para a ética, a religião, a política, as relações sociais e os assuntos da vida, três quartos dos argumentos a favor de cada opinião controversa consistem em dissipar as aparências que favorecem uma qualquer opinião diferente dela. MILL, J.S., Sobre a Liberdade
Assim falava LOCKE (Ensaios sobre a lei da natureza, cit. BOBBIO 1997: 138):
a) Enquanto as idéias matemáticas podem ser expressas por meio de sinais sensíveis, imediatamente claros aos nossos sentidos, as idéias morais só podem ser expressas por meio de palavras, que são signos menos estáveis e exigem interpretação;  b) As idéias morais são mais complexas do que as matemáticas, daí a maior incerteza dos nomes com que são designadas e a dificuldade em aceitá-las todas de uma vez. 
Curiosamente os segmentos, da Filosofia à Sociologia, da Psicologia à Medicina, da Economia ao Direito, da Antropologia, mesmo a própria História Geral, porque atenta à interpretação, e arrisco, inclusive a Religião, ao arrepio de muitos vocacionados, todos ancoram no porto da Física, a mater: "A Igreja combateu o epicurismo em todas as frentes, nomeadamente declarando heréticos os que aceitavam a constituição atómica da matéria." (SCHRÖDINGER, Erwin, A Natureza e os Gregos e Ciência e Humanismo. Cap. 1 – Os motivos para regressar ao pensamento da Antiguidade. Lisboa: Edições 70, 1999)
As faculdades do próprio ser humano permanecem defasadas, obsoletas diante das nem tão novas confirmações atômicas, mas praticamente ignoradas nas academias.
Segundo Jean Piaget o grande defeito das epistemologias tradicionais foi o facto de considerarem o conhecimento como um facto e não como um processo, e que, por via disso, terem considerado que o que está sabido está sabido e que tal pode ser estudado estaticamente. Tais concepções prolongaram-se na filosofia de Platão e Aristóteles, de Descartes a Leibnitz e encontram-se ainda nos quadros apriorísticos de Kant e mesmo na dialéctica de Hegel.  ORIGENS DA EPISTEMOLOGIA 
Malgrado a advertência do venerado grego, pouco conhecemos sobre nós mesmos.
Onde, o quê, por que, e como cortar?
O principal propósito da minha apresentação é provar aos senhores que não se está ensinando ciência alguma no Brasil! Não consigo entender como alguém pode ser educado neste sistema de autopropagação, no qual as pessoas passam nas provas e ensinam os outros a passar nas provas, mas ninguém sabe nada.  FEYNMAN, Richard P, O Senhor está brincando, sr. Feynman?
O diagnóstico requer prévio exame da genealogia acadêmica, e cultural. Algumas formulações, em particular as próprias cadeiras de ênfase econômica e política, apresentaram um perfil da Relatividade e mesmo da Quântica com alguns séculos de antecedência à prova de Sobral. Demócrito lavrou a primeira clareira, mas de Athenas ninguém queria sair. Coube aos bandeirantes Hume, Spinoza, Shaftesbury,  Locke e Adam Smith delinearem os traços da modernidade: "A teoria do conhecimento, como disciplina autônoma, aparece pela primeira vez na Idade Moderna, devendo considerar-se como seu fundador o filósofo John Locke" (Senso comum, ciência e filosofia - elo dos saberes necessários à promoção da saúde. - ediara@yahoo.com - http://br.monografias.com)
Einstein reverenciou os dois primeiros diretamente; e indiretamente, porque convicto e experimentado, consagrou os segundos ao declarar, inúmeras vezes, sua preferência pela tolerância, pela liberdade religiosa e democracia. Seus depoimentos vieram consubstanciados pela própria experiência, provando sua tese ao escolher morar em Zurich, na juventude, e em Princeton, na vida adulta, em vez de permanecer em Berlim, ou tentar uma aventura em Leningrado.
Grosso modo é permitido dividir as Ciências Humanas por dois estupendos marcos, ou paradigmas, ao gosto de T. Kuhn: de um lado a cabeceira determinista, mecanicista, planificada pelo molde platônico-baconiano-newtoniano, a qual desaguou por dialéticas, embretando-se no positivismo. A maioria das concepções em voga ainda escorrega pela vereda, soberba no podium do Pantheon, malgrado as quedas do Eixo e do Muro.
 
Se, nas ciências sociais, o positivismo não tem resistido aos seus críticos, sucumbindo diante de metodologias mais modernas e sofisticadas, em vários outros campos científicos, particularmente nas ciências naturais e administrativas (que têm influência importante nas ciências da saúde), ele tem subsistido a ponto de ainda coincidir com o seu paradigma dominante CAMPOS, G.W. Os médicos e a política de saúde. - São Paulo, Hucitec, 1988 - www.scielosp.org/scielo
A razão da teimosia se deve à dificuldade da verificação empírica no campo nada matemático, e por isso nem um pouco exato, como requer o conceituado GREGORY BATESON, por exemplo. Para ele, nunca poderemos pensar construir uma ciência do conhecimento fora do campo da investigação empírica. O engraçado é que a própria matemática nada tem de empírica; contudo, é assim considerada porque seus dados são irrefutáveis. Mas, dizia, a epistemologia batesoniana pertence à ordem do concreto, do palpável, do sensível. O renomado pesquisador não admite uma fórmula abstrata, sequer calcada na razão pura kantiana, fora da concretude de uma realidade constatável. A maneira através da qual adquirimos 'conhecimentos ou informações' origina-se, sempre, insistirá Bateson, da “observação e da experimentação” (ou de uma experiência).(www.uff.br/mestcii/samain1.htm)
Todavia, há que se considerar que a ciência surge por uma idéia, seja dedutiva ou indutiva, per se abstrata, uma especulação, evoluída à heurística, formulação provisória. Havendo alguma razoabilidade na propositura, uma constatação da especulação aí sim, passa para o teste de veracidade, na experiência da consecução. A Epistemologia se ocupa em checar esses prerrequisitos, o teor especulativo, se apenas metafísico, ou não, o método utilizado, a viabilidade e a consistência da prova, pela verificação dos afluentes que encorpam seu o delta:
O problema é ao mesmo tempo distinguir os acontecimentos, diferenciar as redes e os níveis a que pertencem e reconstituir os fios que os ligam e que fazem com que se engendrem, uns a partir dos outros. FOUCAULT, Michel, Microfísica do Poder: 5
Enveredada equivocada, as ciências humanas tinham noção das freeways relativistas e quânticas, sem necessitarem, e nem era possível, de imediatas provas empíricas. Explico melhor. No âmbito na Sociologia, do Direito, da Economia, da Ciência Política, enfim, coube a John Locke encetar o primeiro grande corte epistemológico à ciência padrão, esta essencialmente empírica, solidificada com Galileu, Bacon, Descartes e Hobbes:"Foi igualmente pela recusa do dualismo cartesiano, e pela defesa da observação e da análise contra o espírito sistemático, que Locke se impôs como 'mestre da sabedoria' aos filósofos franceses do século XVIII." (CHÂTELET: 228).
Locke trabalhou de modo empírico em seu Ensaio sobre o Conhecimento, fato que por sinal levou os modernos físicos e epistemologistas mais afoitos a lhe catalogarem à prateleira obsoleta; contudo, os mais brilhantes e decisivos trabalhos de Locke - O ensaio sobre a tolerância e Dois tratados sobre o governo - apresentam soluções totalmente inovadoras, completamente apartadas da realidade concebida, implementada. Até hoje suas disposições permanecem incólumes, mas foi somente com Einstein e Niels Bohr que os baluartes iluministas obtiveram a chancela científica, ainda assim de modo indireto. O composto da experiência localizada que exigiu séculos às comprovações, e ainda assim até ao presente não totalmente assimiladas, somado a coincidência do novo método da Física, parece atender com folga a condição apregoada por BATESON. As concepções jurídicas e democráticas de Locke e Montesquieu, consubstanciadas pelas sócio-econômicas de Adam Smith, e sintetizadas por Tocqueville, não merecem o selo ideológico, empírico, ou metafísico, porquanto calcadas na mesma epistemologia que iria deslumbrar a nova Física, e a ciência em geral. Concebida inicialmente apenas de modo heurístico, ela sofreu aplicação experimental, e o tempo se encarregou de consagrá-la . Poderiam ter puxado , de antemão, todas as congêneres, mais ou menos aparentadas. E por certo teriam influído e até antecipado, por que não, a reforma da posterior dissidente.
Depois do livro do americano Edward O. Wilson, Sociobiology e dos ensaios do inglês Richard Dawkins, os geneticistas das populações, assim como os especialistas em insetos sociais, procuraram compreender a organização social a partir dos interesses individuais. Não existe o formigueiro; só existem as formigas. Não existe a espécie; só existe o indivíduo. Falar de um sacrifício pelo grupo é, portanto, uma impossibilidade - pelo menos se estudarmos a evolução darwiniana dos caracteres sociais. Era preciso repensar a sociedade animal como a resultante do cálculo dos indivíduos e não mais como um vasto sistema dentro do qual os animais nascem e morrem. Esta revolução entre os animais assemelha-se às revoluções que as ciências políticas conheceram duzentos anos antes. Latour, Bruno, Das Sociedades Animais às Sociedades Humanas; cit. Witkowski: 207
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Os embarcados no trem newtoniano encontraram alojamento em numerosos vagões. Na segunda classe já aguardava Platão, submerso até o século das descobertas, obscurecido pela hegemonia de seu primeiro crítico, Aristóteles. Copérnico, Galileu e Maquiavel o resgataram, e a moda pegou. Na esteira do sucesso, ascenderam sucessivamente Bacon, Descartes, Hobbes, Rousseau, Napoleão, Saint-Simon, Hegel, Malthus, Darwin, Mill, Bentham, Marx, Austin, Savigny, Comte, Fichte, Sorel, Dilthey, Durkheim, Weber, Freud, Mach e Keynes, entre outras menores brilhaturas. Esta formidável orquestra tinha lá seus maestros, sim senhor
A idéia de que o conhecimento progride através de uma luta de visões alternativas e que ele depende da proliferação foi primeiro aventada pelos (isso foi enfatizado pelo próprio Popper) e depois desenvolvida numa filosofia geral por On Liberty). A idéia de que uma luta de alternativas é decisiva para a ciência também foi apresentada por Mach (Erkenntnis und Irrtum) e Boltzmann (veja suas Populaer-wissensschajtliche Vorlesungen), principalmente sob o impacto do darwinismo. A necessidade de tenacidade foi enfatizada pelos materialistas dialéticos que objetaram a vôos "idealísticos" extremos da imaginação. E a síntese, finalmente, é a própria essência do materialismo dialético na forma em que este aparece nos escritos de Engels, Lenin e Trotsky. Pouca coisa a esse respeito sabem os filósofos "analíticos" ou "empiristas" de hoje, que ainda sofrem muito a influência do . Considerando esse contexto estreito, embora 'moderno', podemos falar, portanto, em 'descobertas' genuínas, se bem que muito atrasadas
FEYERABEND, Paul,, Consolando o especialista: apres.
Grande parte da moderna sociologia, da pedagogia e toda a psicologia da pessoa derivam desta linha de pensamento, assim como nossa violência característica do século XX, uma reação natural diante de tamanha impotência. Foi igualmente afetada nossa atitude em relação à natureza e ao mundo material. Se nossa mente, nosso consciente é totalmente diferente de nosso ser material, como argumentou Descartes, e se a consciência não tem nenhum papel a desempenhar no Universo, como sugere a física de Newton, que relacionamento podemos ter com a natureza ou com a matéria? Somos alienígenas num mundo alienígena, situados à parte dele e em oposição a ele, nosso ambiente material.
ZOHAR, D.: 191
LOUIS ALTHUSSER valeu-se da expressão “corte epistemológico” à ruptura que MARX estabeleceu frente às fontes econômicas e históricas até então admitidas, em especial as construções de RICARDO E SMITH, mas na verdade o mago do proletariado apenas arranhou aqueles edifícios, e ainda assim de modo até reacionário, pelo resgate e evidência do materialismo, andaime comum que remonta a PLATÂO, e que serviu de plataforma ao mecanicismo em voga na Física, a partir de Copérnico, Kepler, Galileu e Descartes, e que culminou em LAPLACE, não sem antes sensibilizar Maquiavel, Hobbes, Rousseau, Hegel e Darwin, o que fora justamente dispensado pelo escocês da Mão Invisível.
Não basta, pois, como também acreditava Durkheim, por em dúvida verdades adquiridas através do simplório método cartesiano, e assim discorrer os fatos, eis que o pesquisador elabora sua abordagem com categorias e pré-noções implícitas e não conscientes que lhe fecham, de antemão, o caminho da compreensão objetiva, até mesmo pela cisão do objeto em epígrafe. Desse modo o que se apura é uma verdade ainda mais deturpada por mutilação, na arbitrária parcialidade escolhida.
“O homem que descobre uma nova verdade científica precisou, anteriormente, despedaçar em átomos tudo o que aprendera, e chega à nova verdade com as mãos sujas de sangue do massacre de mil superficialidades”. (GASSET, Ortega y Rebelião das massas, cit. ROHMANN, Cris:. 298)
Em quarto de antecipação aos gigantes da Física, e distante meio século de Ortega, Nietzsche (O livro do filósofo: 21) cansou de assinalar as anomalias científicas:"O instinto do conhecimento, chegado a seus limites, volta-se contra si mesmo, para chegar à crítica do saber."
Nietzsche, como bem o sabemos, morreu infeliz, à mercê dos mecânicos mentais. Como Edward, o filho mais novo de Albert Einstein.
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Além das salvaguardas democráticas encetadas pela Revolução Gloriosa, uma área correlata pela qual a perfídia platônico-newtoniana não encontrou unanimidade, em que pese as marcantes presenças de Marx e Keynes, foi justamente a da Economia, dado o pioneirismo de Smith e F. Quesnay, ao que se somaram as intervenções pouco divulgadas da Escola Austríaca, em conjunto com a Escola de Chicago. Pelo fato de Mises, Hayek, Friedman e Schumpeter emergirem justamente na década de 1930, a dos grandes ditadores, seus faróis na ocasião foram ofuscados. Mas não apagados. "O que estou tentando mostrar é que a ciência, por causa do seu método e de seus conceitos, projetou um universo no qual o domínio da natureza ficou ligado ao domínio do homem e que ela favoreceu esse universo – e esse traço de união tende a tornar-se fatal para esse universo e seu conjunto". (MARCUSE, H., Uma ciência sem domínio?; Points Seuil, 1970; cit. CHRÉTIEN: 212). "Hoje a Antropologia não pode abster-se de uma reflexão sobre: o princípio de relatividade einsteniano; o princípio de indeterminação, de Heisenberg; a descoberta da ‘antimatéria’, desde o anti-elétron (1932) até o antinêutron (1956); a cibernética, a teoria da informação; a química biológica; o conceito de realidade." MORIN, E.: 64.
Não por acaso, pois, RICHARD FEYNMAN (O significado de tudo: reflexões de um cidadão cientista: 14) assim abria suas palestras: “Não há praticamente nada do que vou dizer esta noite que não pudesse já ter sido dito pelos filósofos do século XVII.” Para encerrá-las, o pesquisador de Los Alamos trocava o “vou dizer” por “eu disse“; e praticamente repetia as concepções de LOCKE & SMITH:
Nenhum governo tem o direito de decidir sobre a verdade dos princípios científicos nem de prescrever de algum modo o caráter das questões a investigar. Também nenhum governo pode determinar o valor estético da criação artística nem limitar as formas de expressão artística ou literária. Nem deve pronunciar-se sobre a validade de doutrinas econômicas, históricas, religiosas ou filosóficas. Em vez disso, tem para com os cidadãos o dever de manter a liberdade, de deixar os cidadãos contribuírem para a continuação da aventura e do desenvolvimento da raça humana. Obrigado.

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Um comentário:

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