quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Os aliados da crise


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O homem bom também quer ser verdadeiro
e crê na verdade de todas as coisas.
Não só da sociedade, mas também do mundo...
De fato, por que razão o mundo deveria enganá-lo?
NIETZSCHE, F., O livro do filósofo: 55.


Recessões e quedas na Bolsa de Valores
não eram
apenas costumeiras, mas também
partes necessárias
do ciclo de crescimento:
elas separavam o joio do trigo
,
liquidavam com
os malsãos da economia e repeliam parasitas.
JOHNSON, Paul: 215


O lugarejo cataliza como se fosse o painel de todos os preços do mundo. No meio do fog não se distingue o elementar: ali nada se produz. Esta "praça de comércio", se comparada com a da cidade, já não lhe supera; que dirá se confrontada com todas as operações do país, e agora até do mundo!
A liberdade consiste em conhecer
os cordéis que nos manipulam.

SPINOZA
, Baruch (1632-77)
...
Governos neomercantilistas, passistas, e economistas divulgam gigantescas perdas. Ora propalam que a festa da crise ameaça a economia "real". Pois bem. Então, qual foi atingida? Seria uma virtual?
- As ações caíram pela metade do preço. Isso é fato!
Mais ou menos; o dinheiro não sumiu. O que há são apenas transferências de valores entre os dispostos nos trapézios. E como todo trapezista necessita de bilheteria, o espetáculo é anunciado pela cidade. Ela se emociona. Apaixonada, torna-se suscetível, maleável, compassiva, e tudo aceita. .
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Dos bancos
MIANYANG, China - A crise financeira mundial vai gerar, no ano que vem, uma crise de desemprego. A avaliação é o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, que alertou os países ricos sobre as medidas tomadas contra os problemas. 'Esta crise financeira virou uma crise econômica, e no ano que vem será uma crise de desemprego', disse Zoellick. 'Será uma fase extremamente difícil'. 14/12/2008 .- (1)
Folha destaca em 1/2/2009
o que desde 1995 temos evidenciado.
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Pois se uma crise financeira, levada a cabo não por mau gerenciamento, como teimam em propalar, mas por corrupção e negociatas em larga escala, está precipitando uma crise econômica, como diz, que vem a ser exatamente a mesma coisa, como esconde, porém com reflexo no desemprego, que ousa prever, então é fácil contorná-la: basta despir esta e as santidades congêneres do dom de cadenciar o ritmo da civilização, seja pela prova cabal de incompetência, ou pela prova material da safadeza:
O poder excessivo do setor financeiro é o
motivo pelo qual o mundo chegou à crise atual.
RUSSELL, Bertrand, O Moderno Midas, 1930/2002: 69
Dia desses encontrei abnegado jornalista. Conhecia centenas de prejudicados com o midicrash. Configurou um problema social. Todavia, como estamos tratando de valores, e não de cabeças; de dinheiro, e não de pessoas, asseguro-lhe que a maior parte do capital que por lá circulava, coisa de uns oitenta por cento, festeja um veraneio como nunca.
Tem-se uma falsa impressão de liberdade de mercado, porque o ambiente das bolsas é tão aberto quanto o mar, às sardinhas. Contudo, enquanto alguns cidadãos, que podem ser centenas, e até milhares, para lá acorrem com alguns zeros depois da unidade, fruto de poupanças de toda a vida, aqueles gigantes operam com todo o resto do dinheiro da face da Terra! Se combinados, então, como visível, depenam todas as galinhas, dentro da lei (2). Ou, como na linguagem corrente, o tubarão se farta de tanta sardinha. Basta os recursos adormecerem, por alguns dias, em suas caixa-fortes.
Até outubro a Bovespa girava cerca R$ 6 bilhões por dia. Ora movimenta a metade. O BC marca forte saída dos "investimentos" estrangeiros. Tal qual brinquedo de iô-iô, sem comprador qualquer preço despenca, e retorna quando o manipulador quiser:
O ministro Paulo Bernardo (Planejamento) é direto quando indagado se os bancos privados estão escondendo dinheiro por causa da crise: 'Claro que estão! O que eles fizeram? Fogueira com o dinheiro? Isso deve estar todo entesourado' Folha de São Paulo, 23/11/2008
Todavia, como se não bastasse, os bancos ainda são contemplados com frutos virtuais, de produção futura, tornados reais pelas promissórias em forma de moeda, emitidas por esse e por governos alhures, de modo antecipado, sem lastro. O fito de combater a provocada depressão justifica artimanha keynesiana. Tudo combina com a máxima do apreciado Maquiavel. O resultado é fantástico; e espelha a total inversão dos valores:
O lucro dos bancos no Brasil superou o resultado de todos os outros setores da economia juntos no terceiro trimestre, segundo pesquisa da consultoria Economática. Os dados consideram apenas empresas de capital aberto.
Folha de São Paulo, 24/11/2008
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Dos governantes

Por isso, um príncipe cauteloso deve conceber um modo pelo qual
os seus cidadãos, sempre e em qualquer situação, percebam que ele
e o Estado lhes são indispensáveis. Só então aqueles ser-lhe-ão sempre fiéis.
MAQUIAVEL, Nicolau, O Príncipe, D' ELIA, Antônio: 15.
Numa coincidência impressionante, poderosas lentes gravaram a terrível manhã do 11 de setembro. Por certo foram os "acidentes aéreos" mais bem documentados de todos os tempos. Em que pese a fugacidade do episódio, ele foi captado por incontáveis ângulos, em seus mínimos detalhes, desde a aproximação das aeronaves. Apenas a aterrisagem na área de pouso de helicópteros do Pentágono, portanto presumivelmente escolhida a dedo, até hoje permanece mal detalhada, e nem um pouco explicada.
Por tudo vejo Bin Laden mera produção de TV. Eis o álibi para bombardear vários países, ameaçar outros tantos, saqueá-los do petróleo, e ainda por cima seqüestrar e assassinar um ditador, para que não abrisse a boca, certamente.
"A idéia da política como espetáculo nada tem de novo" (BOBBIO, Norberto, Teoria Geral da Política: a Filosofia Política e as Lições dos Clássicos: 403).
Nesses casos, contudo, é evidente que ela já foi longe demais.

* * *
Como vivemos numa apregoada democracia, tudo depende do voto popular. Para atingi-lo, haja recursos. Os bancos alimentam os partidos, conquanto engordam as contas pessoais dos players nos paraísos fiscais. Insignificâncias garantem multiplicadas recompensas supostamente pagas com o dinheiro de todos, isto é, de ninguém:
"Os financiadores da campanha visam exercer influência na próxima administração."(HOLMAN, Craig, presidente do grupo Craig Holman of Public Citizen, ao jornal USA Today.)
A GM e a Ford possuem dúzias de superjatos executivos, mas se põem na porta da Igreja para levar o quinhão que lhes cabe por esses "financiamentos". Milhões de aposentados, alcunhados "vagabundos" pelo sociologo, são totalmente esquecidos, em prol dos "investidores":
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador de São Paulo, José Serra, deram um belo presente à indústria automobilística em tempos de crise. Juntos, colocaram R$ 8 bilhões para os bancos das montadoras a fim de facilitar empréstimos para aquisições. Na mídia, já tem montadora falando do subsídio dos governos federal e estadual.
Tom Donilon, lobista da Fannie Mae, da tal crise hipotecária, alavancou a candidatura de Obama, e ora está prestes a abocanhar o spread diretamente na fonte. Deverá ser indicado "conselheiro" do novo governo, junto com Don Gips, executivo na Level 3 Communications, um dos líderes da equipe de revisão das agências, e contribuinte de US$ 500 mil. (Wall Street Journal)
Esta promiscuidade foi flagrante no governo de FHC. Os banqueiros listados na famosa pasta cor-de-rosa remanejaram as contas de seus correntistas às Cayman, no maior golpe do mundo, tudo coberto através do criativo PROER. Ninguém notou a falta, exceto a produção, que desde então claudica, e se arrasta, sem saber o motivo. Apresenta-se o expiatório.
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Dos economistas
O pensamento econômico contemporâneo é esquizofrênico. A teoria clássica foi quase virada de ponta-cabeça. Os próprios economistas, quaisquer que seja suas convicções, criam ciclos econômicos mediante suas políticas e previsões.
CAPRA, F., 1995: 207.
A lei do galinheiro legitima a má temática da Economia. Os tecnocratas são muito requisitados. Nenhum deles senta praça na produção, mas se postam a orquestrá-la. Vem à berlinda, e dão entrevistas, e usam seu alto palavreado de economês:


Uma recessão profunda na economia dos Estados Unidos é inevitável e não se pode descartar a possibilidade de uma longa depressão, afirmou hoje o economista George Soros. O economista preside o Soros Management Fund e fez fortuna com a especulação das divisas. (Folha SP)
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Os especialistas sondaram nossos recônditos desejos e são os únicos capazes de continuar a prover nossas necessidades. Estes especialistas que 'realmente' sabem o que dizem, estão todos eles na folha de pagamento oficial da estrutura estatal e/ou empresarial. Os especialistas importantes são os autorizados. E os especialistas autorizados pertencem à matriz.
HAZLIT, H.,
Economia numa unica lição: 4

Nobel de Economia Joseph Stiglitz, Ex-FMI e hoje crítico do organismo, declarou que, nas crises vividas pelos EUA nos anos 80 e em 2008, o governo evitou que os bancos americanos falissem. Como? Fixando o valor de seus ativos em um nível intermediário entre o valor de mercado e o valor contábil. A operação acabou explicada pela tradutora do evento como “truchar las estadísticas”. Truchar, na gíria portenha, significa “falsificar”. Ouvindo isso, Cristina Kirchner entusiasmou-se: “Si vamos a truchar, truchemos todos”, frisando que, caso fosse presidente dos EUA, teria tomado a mesma decisão.
Da imprensa
Como há um homicídio a esclarecer, é inevitável que as autoridades
policiais escarafunchem todos os aspectos da história, mas isso não
significa
que o grande público deva participar de tudo e acompanhar
'on line' cada novo
desdobramento das investigações...
Entretanto, os limites do decoro foram quebrados pela perversa
combinação de uma imprensa ávida por
sensacionalismo com
declarações irresponsáveis de autoridades policiais e judiciárias.

SCHWARTZMAN, Hélio, Editorialista da Folha de São Paulo, em 17/4/2008
Ela é o espaço que dá vazão ao efeito nuclear. Adora estar presente nas grandes chacinas, nas guerras, nos crimes bárbaros, nos grandes acidentes. Seu papel é altamente inflamável. Acende lareiras. Ora joga calor ao palco, ao gáudio de suas mais poderosas forças motrizes. Por um lado, faturam maior publicidade de varejo; e por outro, o forte atacado oficial e financeiro.
Todavia, de tanto martelar sobre a recessão a imprensa logra, de fato, arrefecer a iniciativa de muitos executivos, sempre cautelosos com os parcos recursos e a responsabilidade que lhes recai. Qualquer decisão expansiva será tomada como arrojada, e desse modo inibe o investimento, e com isso reduz o trabalho. Se ao trio que lhe precede é trivial concluir suas vantagens, confesso não compreender a psicologia amarronzada que sói aflorar pelos periódicos do mundo. Talvez a profissão seja assemelhada com a do advogado: não lhes cabe a verdade, mas o interesse do cliente eventual:
Por isso a importância de jornais como o New York Times, que serve
ao establishment americano, assim como o Pravda servia ao governo
da União Soviética. Ele oferece aquilo em que os donos do país, e das
grandes corporações, desejam que acreditemos.

ROSSETI, Econ. José Paschoal: 69
Para escapulir dos grilhões, permanece a lição:
Este Hobart Special do Professor Hayek chega num momento em que - depois das asneiras monetárias cometidas antes da guerra, consideradas responsáveis por precipitarem a Grande Depressão de 1929-32 e de quase um terço de século de “controle monetário” (ou, melhor, descontrole) pelo governo no pós-guerra, constata-se que as tentativas de controle internacional de modo algum tiveram maior sucesso - mais uma vez os economistas estão à cata de meios para retirar totalmente o controle do dinheiro das mãos do governo 'afastar o dinheiro da política' caso desejem que sobreviva a sociedade civilizada.
SELDON, Arthur, prefácio de HAYEK, F., A Desestatização do Dinheiro: 3
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1. Malgrado todo o empenho, nada disso parece verdade:
SÃO PAULO - O fluxo de consumidores nos shopping centers ficou estável nos nove primeiros dias de dezembro em relação ao mesmo período do ano passado, segundo levantamento MercadoFlux, divulgado pelo Instituto de Pesquisa & Desenvolvimento de Mercado (IPDM) (Estadão, 14/12/2009]8)

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2. As bolsas européias reverteram o movimento exibido nas primeiras horas de negócios desta quinta-feira e passaram para o vermelho, "em virtude do diagnóstico da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)." O documento afirma que os países-membros entraram em recessão e deverão encolher 0,3% em 2009
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Além de irrisória, tal "previsão" é ignorante quanto improvável; por isso irresponsável:



Durante longo tempo o ideal do conhecimento científico foi aquele que Laplace havia formulado com sua idéia de universo totalmente determinista e mecanicista. Segundo ele, uma inteligência excepcional dotada de uma capacidade sensorial, intelectual e computacional suficiente poderia determinar qualquer momento do passado e qualquer momento do futuro. É essa visão pueril e talvez louca do mundo que está prestes a desmoronar, mas ela ainda reina, e efetivamente excluiu todo o problema da reflexividade.
MORIN, Edgar 2000: 32
Mas os governos, e aqueles que os assessoram nestas questões, sofrem da ilusão de controle. Não é possível, no estado corrente do conhecimento científico, fazer previsões econômicas de curto prazo com razoável grau de precisão.
ORMEROD, P. 2000: 124
Malgrado pautar a cadência monetária, nem tal prerrogativa é capaz de formular com precisão o exercício. O povo é carnavalesco, por isso indisciplinado. Felizmente.

Um comentário:

  1. Parabéns pelo blog.
    Realmente muito bom.
    Luciano Turl
    lmturl@gmail.com

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