sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Para o fim do massacre no trânsito



Quando a mente toma a dianteira do espírito, constrói uma sociedade contra a natureza e persiste em seus conceitos até que apareça a Grande Complexidade proveniente de seus próprios processos. Ela percebe então que já não pode administrar essa realidade, nem quantativamente, nem qualitativamente. RANDOM, Michel, O pensamento transdisciplinar e o real : 208
Somente a restrição de automóveis solucionará os engarrafamentos, diz palestrante do Fronteiras
Antes ficasse tudo engarrafado.
Impressiona a quantidade de vítimas e prejuízos patrimoniais causados pelos acidentes rodoviários. São milhares, milhares mesmo, só neste Natal brasileiro. Centenas de jovens se despediram. Se duvida, contabilize os jornais estaduais.
Reputa-se o infortúnio à série de elementos: bebida alcoólica, alta velocidade, drogas, ou rebites; também o sono, falta de cinto, air-bag, imperícia, imprudência, negligência, imaturidade; ainda: estradas mal sinalizadas, esburacadas, sem guard-rails e/ou acostamentos, stress dos motoristas, aqua-planning, congestionamentos, ou mau estado dos veículos.
Então, tome rastreadores, brake-lights, freios ABS, parabrisas degradè, laminados, rosários no espelhinho, São Cristóvão na carteira. Nada seria por ausência de extintor, ou de estojo de pronto-socorro, certamente, coisas de lobista. Quem sabe instituir a obrigatoriedade do uso de elmos e armaduras?..
E dê-lhe aulas teóricas, e práticas, aumento de carga horária, ingresso de conteúdos cada vez mais complexos e abrangentes, testes psicológicos, de memória, visão, coração e sei-lá mais o quê, contratação de milhares de especializados professores pelo Brasil a fora, e um contingente de profissionais, fora a instituição de novos cartórios aos elevados registros, além das indefectíveis e onerosas inspeções veiculares. Logo chegará a necessidade de curso superior, e um consórcio para arrumar recursos ao sonhado título de condutor!
Todas razões são díspares, e concorrentes, mas o que é presente em TODOS desastres, sem exceção? Elementar, meu caro Watson: é seu agente, o próprio automóvel! A existência estúpida, em nada natural, desses cavalinhos outrora de aço, hoje de plástico, seduz o homem a embarcar com destino ao além.
De nada adianta a presença maciça dos guardiões do Estado, nem férreas leis. Tudo pode até circunstancialmente diminuir, em dez, vamos supor, por este lado que pode ser racionalizado.Mas o irracional, que é colocar no mercado uma abundância jamais vista de carros e motos e toda a sorte de parafernália ambulante só pode levar ao descalabro do aumento geométrico, proporcional, em vinte, trinta, cem vezes mais em acidentes, despesas, e infelicidade de todos. Malgrado a paixão que desperta, o automóvel é mais letal do que a pior droga que se conhece.
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Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria.
Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos;
nossa inteligência, empedernidos e cruéis.
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.
Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade.
Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura.
Sem essas virtudes,
a vida será de violência e tudo será perdido.
CHAPLIN, Charlie, O Grande Ditador, último discurso.
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Por isso me dedico a esmiuçar, sob todos os ângulos possíveis, ou que puder imaginar, esse tabú criado recentemente, há apenas meia dúzia de gerações. Juntarei uma série de elementos condenáveis, por que dos sabores não é mister mencionar. Não posso supor que, elencado o rosário de perdas de todos os matizes, em troca apenas dos deslocamentos, possa se manter incólume tal aventura. Também não tenho a pretensão de elaborar a lista para enterrá-lo, nela inserindo a infinidade de números., de ocorrências em todos os campos. Não é isso. Serão apenas constatações, que se disseminarão não por causa dos meus levantamentos, mas pela conscientização de seus vários danos, sejam históricos, sociológicos, filosóficos, econômicos, ecológicos, até políticos, jurídicos, urbanos, e sociais.

Acabam de chegar animais novos. Domesticaram os
homens, que lhes obedecem e os servem como escravos.
E os homens brancos alimentam-nos e abrem-lhes passagem
através da floresta.
Claude Lévi-Strauss
O automóvel é o Frankenstein da civilização.
E não tem como como torná-lo nem mais light,
tal qual almejam os fabricantes de cigarro.
.Como o Zepellin, não há como reformá-lo. Vem com carro elétrico, à energia solar, biodiesel, no álcool e tal, mas o perigo recrudesce, tanto quanto sua inviabilidade espacial.
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Um argumento: limitar velocidade ou potência dos motores. Pois isso acarretaria menor número de viagens, até a parada total, por engarrafamento geral.. Assim teríamos risco zero, em velocidade zero.
Se caísse um avião por dia ele seria proibido? Creio que não. Ninguém mais embarcaria. Pois os carros ocasionam dez vezes mais vítimas que o número dos hipotéticos desastres aéreos:
"Morrem 35 mil pessoas no trânsito por ano no Brasil. É uma carnificina! Não é possível morrer tanta gente assim." (SANTANA, Paulo, ZH, 23/12/2008)
No entanto, governo e montadoras promovem, e compradores continuam sonhando, e fazendo fila.
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De acordo e ao gáudio da ANFAVEA - Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (por que precisam se associar em alcatéia?) o Brasil de 2008 ultrapassou a França de Sarkozy: de sétimo passou ao sexto lugar no ranking mundial dos dez maiores produtores de automóveis. Onde irá colocar a estupenda produção, não me refiro em qual mercado, mas em qual espaço físico, ninguém responde. Pois se a produção cresce more geométrico, ruas e estradas nem em aritmético. Maior non sense não há.
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O colapso não será por causa do elevado número de vítimas que enseja, tampouco pela crise financeira, mas pela impossibilidade física: "
Detran de SP vai inspecionar 2,5 milhões de veículos em 2009, número que abrange apenas os fabricados nos últimos cinco anos." (Estadão, 30/12/2008) Mas que contingente será necessário para cumprir tão elevada tarefa? E será mesmo cumprida, ou é só para render mais algum? E, por acaso, tal inspeção equivale a uma bênção, a qual, depois de efetuada assegurará ao condutor a imunidade? Seria cômico, se não fosse trágico.
Por que não abreviar essa via cruxis? Por girar enorme volume financeiro, não sendo os acidentes rodoviários assim concentrados, e por causa da proporção custo/benefício, ou seja, a cada morte milhares sobrevivem, ninguém se dá conta da cruel realidade. Quem sabe não é hora de pelo menos cogitar algo mais compatível com a civilização e a leveza cósmica?
Alguém dirá: virou Dom Quixote! Por rosário de motivos o automóvel é imprescindível hoje em dia!
Ilusão. Necessária é a vida. Por decorrência, tudo que lhe ameaça não é só prescindível, como deveria ser banido.
Romântico? Utópico? Radical como um Amish? Maybe. Mas a causa requer. Como muito bem diz JAPIASSU, (Nascimento e Morte das Ciências Humanas: 101) “a inteligência só pode aplicar-se à vida reconhecendo a originalidade da vida”.
Certamente você conhece alguém que já perdeu ente querido por causa dessa desgraça. Pergunte-lhe se preferiria que todos andassem sempre a pé, fizessem compras a pé, percorressem a via sacra da vida a pé, com isso preservando o ente que perdeu, ou aceitaria a presença dos bólidos, e culparia o destino, a fatalidade pela ingratidão? Talvez haja alguma discrepância, mas a resposta que mais ouvirá de quem perdeu o que lhe é mais caro na vida é estar disposto a percorrê-la sim, até de joelhos, para tê-lo de volta. Agora são milhões nessa condição, e outro tanto a caminho, de modo cada vez mais rápido. Por qual Minerva manteremos tal solução?
Os dias sobre rodas motorizadas estão contados, malgrado a estupenda massa internacional que sobrevive de seus favores. Faz-se premente o corte epistemológico.
De que modo poderá ser o carro substituído, como cambiar esse aparentemente inexorável progresso? Quais vantagens poderiam confortar os milhões de desempregados desta indústria de latas e seus satélites?
As carências humanas evidentemente não podem ser todas satisfeitas pelos veículos de rodagem. Aliás, tirante o lazer, o transporte de mercadorias, e o turismo local ou não, para o quê mais serviriam os artifícios?
Não obstante a avalanche de infortúnio que carreia, bem como a inequívoca impossibilidade logística, simplesmente por falta de espaço na Terra a qualquer dinossauro, tamanha alteração em hábitos e costumes só poderá ser paulatina, por lento consenso, suponho. Os allons, pelo jeito, acham que não:

Mais de mil veículos foram queimados na França na última noite do ano, segundo número divulgado nesta quinta-feira pelo ministério do Interior, aumento de 30% em relação ao ano passado.
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Conheço dois lugarejos brasileiros, tidos como paraísos:
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............Paquetá, RJ: "Ilha dos Amores".


Por lá não é permitida a circulação de automóveis particulares.
Os meios de transporte de moradores e visitantes são as charretes, bicicletas, trenzinho turístico, barcos e canoas. As ruas não são asfaltadas. A cobertura de saibro garante a preservação do bucólico aspecto original. O local é tranqüilo, totalmente seguro. Não há flanelinhas, nem pedintes em sinaleiras. As mercadorias chegam de barco.
Sua dimensão é pequenina, mas a vida por lá é mais abundante do que a levada em qualquer metrópole. Precisa mais?
www.ilhadepaqueta.com.br/paqueta -
www.paquetaonline.hpg.ig.com.br
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Famílias inteiras de sagüis, cavalos atrelados às
charretes, tranquilos passeios de bicicleta, e

garças elegantemente pousadas nas pedras
redondas constituem peculiaridades do recanto.
Não parece, de fato, mais humana?



Quantas mortes ocorrem ao ano na aprazível Paraty -RJ? Nenhuma. A razão é a mesma de Paquetá:
não há freeways, nem avenidas. E por suas
ruelas os carros são proibidos de circular.
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Aprecie:
As atrações da TV paulistana
Sobre as montadoras de automóveis
O renascimento da cidade-estado
Introito: a crise nas montadoras de automóveis
A corrida do ouro e o automóvel
Tem muito a ver.

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