quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Finados e não-finados II

O Dia de Todos os Santos celebra todos os que morreram em estado de graça e não foram canonizados. O Dia de Todos os Mortos celebra todos os que morreram e não são lembrados na oração. Mons. ARNALDO BELTRAMI, www.arquidiocese-sp.org.br
O Dia dos Fiéis Defuntos, Dia dos Mortos ou Dia de Finados é celebrado pela Igreja Católica no dia 2 de Novembro, logo a seguir do dia de Todos-os-Santos. A Bíblia diz que a salvação de uma pessoa depende única e exclusivamente da sua na graça salvadora que há em Cristo Jesus e que esta fé seja declarada durante sua vida na terra (Hebreus 7.24-27; Atos 4.12; 1 JoãoLucas 16.10-31). Os Protestantes observam o dia de Finados para lembrar das coisas boas que os antepassados deixaram, como o legado de um caráter idôneo, por exemplo. Mas entendem que as pessoas precisam ser cuidadas enquanto estão vivas. Após a morte, nada mais resta senão o juízo. - a pessoa passa diretamente pelo juízo (Hebreus 9.27) e que vivos e mortos não podem comunicar-se de maneira alguma (1.7-10) (Wikipédia).
Foi a tradição judaico-cristã que estabeleceu o tempo linear (irreversível) de uma vez por todas na cultura ocidental... O tempo irreversível influenciou profundamente o pensamento ocidental. COVENEY, A Flecha do Tempo: 22
Esta tradição se põe como religião por  oferecer religação. A tamanho afazer, o pre-requisito é o desligamento. Eis a razão da expulsão do Paraíso.
O homem bom também quer ser verdadeiro e crê na verdade de todas as coisas. Não só da sociedade, mas também do mundo... De fato, por que razão o mundo deveria enganá-lo? NIETZSCHE, F., O livro do filósofo: 55
Na morte, pois, além das lembranças nada mais parece viável. Não há possibilidade e para alguns sequer necessidade da religação com o Céu, muito menos com a Terra, nem requisitando os advogados especializados, os profissionais da espécie. Eles próprios não acreditam, e assim pregam que devamos ter atenção aos vivos, antes do tenebroso advento do Juízo Final.

Reverenciar os vivos é sábio, prudente, mas a justificativa dos mencionados hebreus é pueril, e a conclusão, apenas ideológica. Arrisco: não se trata de falta de fé, ou de crença, mas de conhecimento.
A Igreja é pródiga em alegorias, e coincidências. A realidade, por difícil compreensão, nem vem ao caso. Parábolas e figurativos são mais palatáveis, mormente se impressos em fundos contrastantes. Uma forte impressão valia mais que a razão.
Na Grécia, berço das artes e dos erros e onde se levou tão longe a grandeza e a estupidez do espírito humano, raciocinavam sobre a alma como nós. VOLTAIRE, «13.ª carta», Cartas Filosóficas.
"O erro, o Mal entra pelo corpo para transformar o divino Bem da alma," e isso já bem ensinara PLATÃO. (cit. KELSEN, 1998: 3). Pura tolice; porém, de gravíssimas consequências espirituais, científicas, ecológicas, políticas, sociais, e econômicas. A separação primordial levou todo o Ocidente a supor que nada mundano fosse divino. DEUS estava no céu, um lugar inatingível, distante, e até de cor diferente; portanto, um mundo completamente à parte.
Os acidentes, as doenças, assim como a infelicidade em que está mergulhada a maior parte da humanidade, tem como gênese o distanciamento da fonte de energia vital e cósmica. GONZALEZ, Mathias, O caminho cósmico. - Rio de Janeiro: Pallas, 1993.
A natureza foi colocada na escravidão total. Mais do que ela, ao "reconhecer" a natural maldade do ator principal, ela ensejou vários religadores, impostores que se precipitaram inicialmente pelas ciências politicas, na qual despontaram as "engenharias sociais" de MAQUIAVEL, THOMAS HOBBES, ROUSSEAU, HEGEL e MARX, e quase em conjunto, as estipulações de DESCARTES, NEWTON, LAPLACE, DARWIN, FREUD e KEYNES.
Os homens tinham a teoria de que a matéria celestial era fundamentalmente diferente da matéria terrestre e que era natural que os objetos assim caíssem, enquanto era natural que os objetos celestiais, tais como a Lua, permanecessem parados no céu.BOHM, David, Totalidade e ordem implicada: 20
O deleite da maçã motivou a expulsão. Pobre venenosa, acusada de aliciamento. Pois se ninguém colhesse, na maturidade o próprio fruto se precipitaria na cabeça de Adão.* * *
"A luz pode ser definida como uma transmissão de energia entre corpos materiais à distância." (BOHR, Niels, Física atômica e conhecimento: 6)
Partículas viajam pelo campo. A energia percorre o EspaçoTempo. Os mortos em algum momento viveram, e nesta condição projetaram suas luzes. Embora não se vislumbre, eles e elas convivem conosco. Ainda que estejamos "desligados", nada se tem cessado. A interatividade decorre natural e até necessáriamente.
"Se uma onda pode agir como uma partícula, uma partícula também não deveria agir como uma onda?" (DE BROGLIE, L., cit. ISAACSON, W.: 338)
Na verdade, nem o corpúsculo, nem o campo é a coisa fundamental. Ambos, em igual medida, são aspectos da matéria. São as duas formas fundamentais e primárias da matéria como tal. A estrutura da partícula é um reflexo de suas interações.*
TELLES JR. G., O Direito Quântico:
56
O átomo capta e emite energia; recebe, e transfere informações. Por isso, é a liga fundamental.
De acordo com a Relatividade, nada pode se deslocar mais rápido do que a luz, mas as partículas subatômicas parecem se comunicar instantaneamente. Não sabemos porque o eletron, diante da presença do simples olhar, muda a trajetória. Os fenômenos ignoram as nossas lineares demarcações entre passado/presente. Além disso, eles podem estar em dois ou mais mais lugares ao mesmo tempo. O mesmo "objeto"pode aparentar ser uma partícula localizada em um lugar determinado, ou uma onda espalhada pelo EspaçoTempo.
Meu cético copiloto quis acabar com a celeuma. EINSTEIN requisitou os talentos de PODOLSKI e ROSEN para realizar uma experiência que falsearia o absurdo eletrônico. O Paradoxo de EPR criou duas partículas, disparando-as para destinos opostos. Apurou o bizarro: o que se fazia numa, alterava a outra. EINSTEIN acabou rendido.
O átomo não tem olhos, nem ouvidos, nem faro, nem dor, a rigor não tem vida, mas é "sensível".

A ação de um átomo sobre o outro pressupõe também a sensação.
Algo de estranho em si não pode agir sobre o outro.
NIETZSCHE, F. ,
O livro do filósofo: 45
"Sabemos que o universo manifestado, que parece ser formado por objetos sólidos, é na verdade composto por vibrações, com os diferentes objetos vibrando em frequências distintas." (CHOPRA, DEEPAK, A realização espontânea do desejo: 124)

Na rotina diária, nem sempre percebemos que tudo que existe é de certa maneira controlado por forças e interações invisíveis aos olhos [...] Elas controlam as menores partículas subatômicas e as grandes galáxias a bilhões de anos-luz de distância.
OLIVEIRA, A.,
Depto Física, Univ.Fed. de S. Carlos - http://cienciahoje.uol.com.br/133058
BACHELARD chegou à beira de tentar psicanalisar o objeto. O que dizer se for a consciência?
Toda a fala, toda a ação, todo o comportamento são flutuações da consciência. Toda a vida emerge e é mantida na consciência. O universo inteiro é expressão da consciência. A realidade do universo é um oceano ilimitado de consciência em movimento.
MAHARISHI MAHESH YOGI

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O aspecto decisivo da teoria quântica é que o observador não é necessário apenas para observar as propriedades de um fenômeno atômico, mas é necessário até para causar essas propriedades.
CAPRA, Fritoj, cit. ARNTZ, William: 66
O pedaço de matéria nada mais é senão uma série de eventos que obedece a certas leis. A concepção de matéria surgiu em uma época em que os filósofos não tinham dúvidas sobre a validade da concepção 'substância'. A matéria era a substância no espaço e no tempo; a mente, a substância que estava só no tempo. A noção de substância tornou-se mais vaga na metafísica no decorrer dos anos, porém sobreviveu na física porque era inóqua - até a relatividade ser inventada. Um pedaço de matéria, que tomávamos como uma entidade persistente única, é na verdade uma cadeia de entidades, como os objetos aparentemente contínuos em um filme. E não há razão pela qual não possamos dizer o mesmo quanto à mente: o ego persistente parece tão fictício quanto o átomo permanente. Ambos são apenas uma cadeia de eventos que têm certas relações interessantes uns com os outros. A física moderna nos permite dar corpo à sugestão de Mach e de James de que a 'essência' do mundo mental e do mundo físico é a mesma.
RUSSELL, Bertrand, Ensaios céticos: 74
Evidentemente nada preenche a lacuna do ente querido. Envelhecermos juntos, mutuamente nos acompanhar, tudo isso fica comprometido, implacavelmente frustrado. A guarda da dúvida torna mais dantesco qualquer episódio. E como não mais vemos quem nos é mais caro, o mais vivo coração sofre de tudo que é jeito, e não poucos se tornam até emperdenidos. Uma melhor compreensão do inevitável por certo não atrapalha, e tende a aplacar qualquer dor.
Enganados ou desenganados, saudemos a impropriedade dos Finados. Morrer é impossível: o Campo, o contínuo EspaçoTempo - a Eternidade - assegura a presença de todos. Cabe-nos, apenas, não preferir desligamentos.
Viva o Dia de Todos, santos e pecadores, cientistas e vigaristas, filósofos e impostores, ovelhas e pastores, porque nada dessas arbitrárias classificações importa, ninguém pode ser finado - apenas o sofrimento, por ser condensado nuclear, é que pode findar.
Ainda resta algum ceticismo?
Espera um pouco. Vou buscar mais alimento.
__________
* O “princípio da complementariedade” vem explicado no original por NIELS BOHR em Atomic Physics and Human Knowledge; Nova York, 1963. DAVID BOHM o interpreta em Wholeness and Implicate Order, London, 1980. A primeira apresentação pública da teoria foi em Como, IT., 1927. GERALD HOLTON tem publicado um texto na revista Humanidades, nº 9 (1984), pp. 49-71, da Universidade de Brasília, intitulado As Raízes da Complementaridade. Outros excelentes approuches sobre a quântica e a complementariedade você pode encontrar em
http://www1.uol.com.br/vyaestelar/fisicaquantica_yin_yang.htm

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