sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Loja do Tempo


O tempo esvai-se logo e deves bem gozá-lo..
A ordem e a disciplina ensinam a utilizá-lo.
Aconselho-te, então, meu muito caro amigo,
A primeiro estudar lógica comigo
Teu espírito estará por fim bem amestrado
Em botas espanholas muitíssimo ajustado;
E assim já poderá deslizar, num momento,
Nas estradas suaves de todo pensamento
Não andarás indeciso a torto e a direito,
Erradio, a vagar, sem o menor proveito.*
PARA NÃO FICAR A VER NAVIOS, ou dentes de outras gentes, ao almoçar sozinho além do milho debulho letras. Não são poucos os que se admiram. Há quem julgue falta de educação. Concordo; só não sei com quem. Outro quer saber o que leio. Lisonjea-me o interesse. Ao mostrar o título, todavia, vem fatídica resposta:.“Legal, pena que não tenho tempo!” Engraçado é que vivemos no mesmo tempo. Para ele, entretanto, o tempo é escasso. Não dá para fazer nada além do essencial. Raro, o tempo lhe custa mais caro. Acho um barato.
Ninguém tem tempo. Você tem, ainda bem. Eu também. Utilizo o meu, ora o seu, mas gratifico. Porto tempos adicionais, cedidos gentilmente pelos grandes cientistas da civilização. A ciência amplia a consciência; portanto, o tempo. Há célebres tapeadores, muitos velhacos, mas quando os descubro, encurto o trajeto, com formidável prazer: "Ela se renova, assim como as gerações, graças a uma atividade que constitui o melhor jogo do 'homo ludens': A ciência é, no mais estrito e melhor dos sentidos, uma gloriosa diversão." (BARZUN, Jacques, cit. BERSTEIN, Jeremy, Observación de la Ciencia; trad. Lorenzo Aldrete. México: Fondo de Cultura Económica, 1988: 11)  Possuo tempo muitos tempos estocados. Para não perdê-los, posto também perecíveis, abro minha loja. Tempo para dar e vender. Quem vai querer? A Loja do Tempo  oferece o produto que resgata o passado, e ultrapassa o Ano Novo. Cliente mimado, sai entusiasmado. Apraz vê-lo de volta.

Quem diz que não tem tempo, não vê futuro.Take it easy, acabo com a agonia. Na mesa ainda vem sobremesa; mas se de regime, melhor abstenção. Não poucas vezes é mais prudente parar do que continuar rumo à inflação. Retrocedendo, obterá mais tempo:
Não é curto o tempo que temos, mas dele muito que perdemos. A vida é suficientemente longa e com genorosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferênça, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente, constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou por nós sem que tivéssemos percebido. SÊNECA, Sobre a Brevidade da Vida
Para a criança, sempre aflita, tudo demora a passar. A natureza é sábia. As múltiplas transformações tem que ser em lento compasso, à assimilação. Bebês não perdem tempo ao brincar. Jovens tem muito a ganhar se não frequentarem a academia. Ela permanece fora da realidade; difícil é o retorno. Brincar rende mais que sonhar.
O velho marcado por câncer é felizardo. Muitos morrem na meia-idade. Outro tanto, ainda jovens. Rick nos deixou precocemente. O acidente o imolou. Nossa tristeza é tão sem fim quanto a própria eternidade. A ele e aos caros ausentes dedico o cruzeiro.

Getúlio tapeava o povo. Sua consciência lhe abreviou a estada, mas o entulho vigora. Lembro-me do imortal Mário Quintana: "O passado é um intrometido porque está sempre presente." Você faz bem em se intrometer, Passarinho; mas há os que merecem esquecimento. Esses passarão.
Para nós o tempo permanece ao dispor. Se você não bem usá-lo, outro lhe usurpará. Use o presente, considere o passado, mas conte com o futuro. Para não perder detalhes, não tenha pressa. Ela traz a morte depressa. Prudente câmera lenta.
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Tempo é dinheiro?

O homem ocidental civilizado vive num mundo que gira de acordo com os símbolos mecânicos e matemáticos das horas marcadas pelo relógio. É ele que vai determinar seus movimentos e dificultar suas ações. O O relógio transformou o tempo, transformando-o de um processo natural em uma mercadoria que pode ser comprada, vendida e medida como um sabonete ou um punhado de passas- de-uva. E pelo simples fato de que, se não hovesse um meio para marcar as horas com exatidão, o capitalismo industrial nunca poderia ter se desenvolvido, nem teria contnuado a explorar os trabalhadores, o relógio representa um elemento de ditadura mecânica na vida do homem moderno, mais poderoso do que qualquer outro explorador isolado ou do que qualquer outra máquina.
WOODCOCK, A ditadura do relógio, In A rejeição da política, 1972
No fito de pretensamente melhorar nossa estada na Terra, a linha do tempo marca o compasso das gentes como gado embretado. Tudo mentira, e fatal, como sói acontecer.
A órbita planetária nos remete a um parque de diversões..
Estações climáticas corroboram a infantil noção do carrossel. Ao operador, e para quem usa o brinquedo, o tempo acarreta dinheiro ganho, ou gasto.. Mas se a Terra e nossa vida se restringem no incessante circular, nada faz sentido: seríamos meros passageiros do gigantesco disco-voador sem destino? Digo, de trem-voador, pela falta de mobilidade lateral? Não vai levar!.
E o ponteiro do relógio não imita a cabeça de um cão correndo atrás do próprio rabo? Convenhamos: para quem isso é negócio? Obviamente a retrógada postura sequer pressupõe onde vai dar. Prometem o céu. Como papel, o celeste aceita tudo..Vá lá. A Nova Era é que não suporta mais as primárias e limitadas dialéticas: ."O fato de o tempo ser próprio de cada corpo, não uma ordem cósmica única, envolve mudanças nas noções de substância e causa." (RUSSEL, cit. FADIMAN: 165) E lá se vai o sofístico apelo trabalhista: "Como o valor do trabalho depende cada vez mais do conhecimento, não podemos mais vender ou padronizar o tempo de trabalho como se ele fosse igual para todos."(TOFFLER, A.: 86) Ciao Mussolini:
Uma coisa é certa, a hora uniforme do relógio não é mais pertinente para a medida do trabalho. Essa inadequação há muito era flagrante para a atividade dos artistas e dos intelectuais, mas hoje se estende progressivamente ao conjunto das atividades. Compreende-se porque a redução do tempo de trabalho não pode ser uma solução a longo prazo para o problema do desemprego: ela pereniza, com um sistema de medida, uma concepção de trabalho e uma organização da produção condenadas pela evolução da economia e da sociedade. Só se pode medir – e portanto remunerar – legitimamente um trabalho por hora quando se trata de uma força de trabalho-potencial (já determinado, pura execução) que se realiza. Um saber alimentado, uma competência virtual que se atualiza, é uma resolução inventiva de um problema numa situação nova. Como avaliar a reserva de inteligência? Certamente não pelo diploma. Como medir a qualidade em contexto? Não será usando um relógio. No domínio do trabalho, como alhures, a virtualização nos faz viver a passagem de uma economia das substâncias a uma economia dos acontecimentos. Quando irão as instituições e as mentalidades acolher conceitos adequados? Como aplicar os sistemas de medida que acompanham esta mutação? LÈVY, PIERRE: 61
Por enquanto, milhões cultivam a ansiedade. Sentem-se atrasados, cansados, stressados, resultado da enorme pressão do tempo. E tome buzina, grita nas filas. Em véspera de Natal, cruzes. O fim-do-ano já está aí!!! É gente fechando, animal xingando:
"Sai da frente que atrás vem gente!" “Tempo é dinheiro!”. Sim, pode ser. Mas com tempo, porque a pressa pelo dinheiro? E sem tempo, como fazer dinheiro? Francamente!
"Quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro!" Já ouvi essa outra aberração. Tal conceito deve ter vindo da Bobonne. Lá ensinavam maravilhas ao pessoal de cá. Houve um especial. Retornou à Pátria empertigado. Como chegava da Europa, bem vestido, de fatiota, ninguém percebeu a lorota. Deram-lhe a chave do cofre. O bon-vivant confirma o ditado, mas tem outro que deve ter esquecido: "Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe!" Aguardo.
Quando se aposentar, não faça como o tipo, que não sabe o que fazer com o tempo furtado de todos lá atrás. Não se perturbe. Se nada se dispuser a fazer, também nada há de perder, e não precisa tomar de ninguém. Orienta-nos Lao-Tzè: "Pela não-ação tudo pode ser feito."
Goethe, Miefistófoles, Heisenberg e mesmo Sêneca que me desculpem, mas cogito da hipótese amarela. Se porventura nesse meio-tempo alguém necessitar qualquer auxílio, por favor, acuse. Boa-vontade não me falta.

O banco do “ú” também deve conhecer nosso precursor asiático. O estabelecimento não tem disponibilidade de tempo. De dinheiro, está farto. Ita demora no mínimo dez dias para abrir uma conta, na melhor das hipóteses. Na pior, não abre. Pela não-ação, fica com um dinheirão.

Nos EUA, a Nextcard limpa seu nome, histórico de crédito, e ainda aprova seu cartão em 35 segundos. É gente que faz; contudo, não falta quem reclame da demora.
A Bolsa opera com horário, mas aceita after-market. Não deveria fechar. Deus teve o privilégio de descansar no sétimo, depois de usar seis para criar o Universo, mas no céu o cair do Sol encerra o dia. Não temos tal regalia. No mundo ele nunca se põe. Se estamos no último dia da semana, o Japão já está no primeiro, de novo.
Os astrônomos determinaram um segundo extra ao ano que finda (Folha de São Paulo,10/12/2008).
O Brasil adianta tres mil e seiscentos, de uma vez, por conta do verão. "Neste país" é o decreto que regula o cuco. Não sei  se o galo obedece. Como informá-lo? Meu relógio, todavia, não se mexe, não. Nele quem manda sou eu. No do povo, mandava o finado Zé Bedeu.
Certos segmentos não fecham. Acompanham nossos corações. Hospitais, bombeiros, postos, rádios e táxis amparam a comunidade sem parar. A Internet é oásis. Estou para ver a cidade 24 horas. Não haveria insônia, nem garçon de cara feia.

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Cadência marcial
Foi a tradição judaico-cristã que estabeleceu o tempo linear (irreversível) de uma vez por todas na cultura ocidental... O tempo irreversível influenciou profundamente o pensamento ocidental. Preparou a mente humana para a idéia de progresso, para o conceito de tempo profundo, para a surpreendente descoberta dos geólogos de que a evolução humana é apenas um episódio recente e curto na história da Terra. Preparou o caminho para a evolução de Darwin, que fala de nossa união com criaturas mais primitivas através dos tempos. Em resumo, o advento da idéia de tempo linear e da evolução intelectual desencadeada por essa idéia corroborou a ciência moderna e a promessa de melhoria da vida na Terra. COVENEY: 22
Quando morrer vou direto ao Inferno, Quero trazer pela orelha, digo pelas guampas, o inventor de Deus.
Era uma enorme cebola de ouro, suíço, pedras preciosas nos ponteiros, o tampo em filigranas, uma jóia, uma antigüidade, uma relíquia, uma preciosidade. (FESTER, Ribeiro, O relógio do avô. In O mar tem várias cores. - São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1979)
Como convém ao mito.
O efeito da "filosofia" grega é o domínio. Ao contraste, o efeito da filosofia oriental é o usufruto. Não por acaso, ainda que por paradoxo, a religião ocidental tudo fragmentou, despedaçou. Corpo e alma. céu, inferno, e, por fim, esquerda e direita. Não sobrou sequer o tempo, dividido em quarto sobre quarto, ad infinitum, mas desse modo tornando tudo totalmente limitado, e supostamente sem retorno.

Falam de nossa união com criaturas mais primitivas, através dos tempos. Quantos seriam? E se for apenas uma, pelo critério da seleção natural não são os macaquinhos mais equipados do que gente, porque tem até rabo, que ainda não temos? E nossos parentes, seriam descendentes do quê? Darwin (cit. THUILLER: 199), todavia, para desespero do Cap. Fritz Roy, curtiu com tais contas o cruzeiro por longo tempo, e de graça; depois esperou, por dezenas de anos, a chegada de Wallace. Só então apresentou "seu" trabalho, por sinal, idêntico, mas se disse autor. Nada perdeu, só ganhou. No casar, contudo, sim: “O casamento acarreta uma terrível perda de tempo!”
Proust foi em busca do tempo perdido. Na sepultura deve ter achado.

Não são poucos os que perdem o avião. Outros, o cinema, e até o bonde da história. Às vezes passa o cavalo encilhado, sem montaria. Diz-se que ao lento recai o vento.
Na falta de outro parâmetro, a marcha vem batida no cronograma: rush da manhã, do almoço, da happy hour. Ela nem pode durar a unidade; senão, o incauto leva um rolo de massa na cabeça. Em casa, depois do jantar, todos na TV. Acompanham a novela de enredo invariável, e de horário impecável. Ela é tão forte que desloca até o Maracanã lotado para mais tarde. A torcida que espere o beijo.
Hora-extra? Quem logra o fenômeno leva vantagem. Só não atrase o pagamento. Ele custará muito mais caro, principalmente por aqui. Coisa de “apenas” uns 200% ao ano.
Mas se o atraso recair na audiência, justiça não vem ao caso. Pronto: lá se foi o capital!
Trabalho à noite ganha adicional, mas vôo noturno à capital tem desconto. Durma-se com um barulho desses!

Quem tem tempo não carece. Quem não tem, pega a primeira condução que aparece, comumente ônibus. Se parado ficasse, ainda assim poderia ser mais rápido: era só estar no saguão do aeroporto.

Mesmo dentro do ônibus há discrepâncias de tempo: um vai dormindo, e o tempo lhe passa sem sentir. Ao preocupado, o tempo varia. No terminal da namorada o ônibus não chega nunca! Apreciando boa música, ainda mais se acompanhado, tudo finda muito rápido.

O tempo flui em taxas diferentes. Cabe ao agente definir o grau de sua dilatação, ou mesmo a contração espacial.
Quem possui a mulher nota 10, junto dela o tempo voa. Ao marido de mulher feia o feriado é interminável.
A Hora do Brasil demora mais do que noventa minutos de futebol, vai dizer que não. Mas quando o placard assinala um a zero para nós, maldito relógio que não anda!
O tempo é elástico até para quem dorme. O rico sonha, e assim tem tempo dobrado.
O carente, pesadelo. É sofrido, ninguém quer, mas o tempo também para ele se expande. Se ao acordar nada lembram, aí sim, lá se foi parte do tempo em vão.
E o que dizer do caranguejo, que anda para trás? Pode-se dizer que seu futuro está no passado?
O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno.
William Shakspeare

Se o trem percorre ao norte, numa velocidade de cem, e alguém dentro dele atira uma bola ao sul, na velocidade de cincoenta, pergunto: a bola está se dirigindo para o norte ou para o sul? Ela percorre o futuro, ou se dirige ao passado? Boa essa não? Posso responder facilmente. Qualquer resposta pode ser correta. Depende, apenas, do ponto do observador. Para quem atira a bola, ela se dirige para o passado. Para quem aprecia da plataforma, ela viaja ao futuro.
O tempo por tudo é relativo. Quando um carro anda a 180 km por hora, é incrível. No entanto, se ficasse parado daria quase no mesmo: é que a Terra por onde ele anda viaja a 180, mas a 180 mil km. por hora ao redor do Sol, que por sua vez viaja sei-lá a quantas, na expansão do Universo.
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De presente
Ao deixarmos a estação férrea, ela fica no passado. Mas ela continua existindo, de modo que é presente. E pelo fato do trem percorrer o circuito e para lá voltar, a estação também está no futuro. Se o espaço não desaparece, porque o tempo que lhe acompanha seria diferente? Eles são tão complementares quanto corrimão de escada rolante. E o que dizer dos objetos e animais, e plantas, e as gentes, e tudo mais inserido?
Desde o momento que comecei a cogitar dessa distração, tenho claro na mente : não é apenas pelo fato de sair do palco, ou mesmo da história, que se deve supor o falecimento do ator. Ele pode, e certamente estará nos bastidores, curtindo sua própria atuação e a cara dos espectadores!

O desavisado existencialista despreza dois dias especiais: o de ontem, e o de amanhã. De certo modo está certo; contudo, é recurso sofista. Nesta pista em vez do “s”, cabe o “a”. Se não pudermos contar com esses dias, nenhuma conta jamais adiantará.

Quando você caminha, coloca um pé no futuro. O outro, fica no passado. Seu corpo faz o presente.
O viaduto une as duas margens, ao mesmo tempo. Era o que preconizava Nietzsche: o ser como uma ponte.
Assim se vê a eternidade. E assim caminha a humanidade.
Corpos celestiais e o TempoEspaço são hologramáticos Somos uma gota no oceano**. O que acontece com o oceano, acontece na gota. Quando ela cai, sente o oceano:
"Isto faz dos seres vivos elementos numa vasta rede de inter-relações que abarca a bioesfera de nosso planeta – que em si mesma é um elemento interligado dentro das conexões mais amplas do campo psi que se estende pelo cosmos." (LASZLO: 198)
O conceito de um mundo sutilmente interligado, um oceano cósmico no qual estamos intimamente ligados uns aos outros e à natureza, assimilado por nosso intelecto e abraçado por nosso coração, poderá talvez inspirar novos modos de pensar e de agir que transformem o espectro de uma derrocada global no triunfo de uma renovação global – uma renovação para uma era mais humana e sustentável.
(Idem: 205)
Se entendermos o tempo como deslocamento no e do espaço, ao mesmo tempo, como de fato é, fica mais fácil perceber: tudo é presente, exceto nosso corpo, que perde a massa para poder viajar. Passado e futuro, pois, reduzem-se a meras e arbitrárias demarcações, projetadas na necessidade do homem de dar sentido à própria existência física, que pode enxergar. Esta demarcação é ilusória; mas nossa presença, não.
Um buraco-negro, todavia, pode tirar tudo de cena; e o monstro anda por perto:
"Astrônomos alemães confirmaram que há um buraco negro gigantesco no centro da Via Láctea, a galáxia onde fica o planeta Terra." (O Globo, 10/12/2008). O malvado translada o passado para a dimensão que quer, sabe-se lá qual é. O elemento escuro, claro, é voltado para si. Presume o tôlo que tudo deva existir em sua função. Neste caso, como em quase todos, aquele que tudo quer, tudo perde. Se o insaciável escuasse José Ortega Y Gasset, far-se-ia super-nova:
"Somos nós e nossas circunstâncias. Se não as salvarmos, não nos salvamos."
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Toque, toque, bate na porta
Era (de certo modo ainda é) o previsível (e monótono) tique-taque que orientava as previsões:
"A confecção de relógios, por exemplo, é certamente delicado e trabalhoso, de tal modo que as suas rodas parecem imitar as órbitas celestes ou o movimento contínuo e ordenado do pulso dos animais.
" (BACON, F.: 67 )
Sir
Newton (Principia, II, art. 37) aproveitou a carona:
O espaço absoluto, em sua própria natureza, sem levar em conta qualquer coisa que lhe seja externa, permanece sempre inalterado e imóvel... O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, de si mesmo e por sua própria natureza, flui uniformemente, sem depender de qualquer coisa externa.
Lêdo engano, o mais crasso dos equívocos:
O verdadeiro tempo (o que Bergson chama de 'duração') consiste propriamente na experiência vivencial da própria vida, e, por conseguinte, radicalmente intuitiva. Entretanto, para a maioria de nós, esse tempo verdadeiro foi inapelavelmente deslocado pelo ritmo do tempo marcado pelo relógio. Aquilo que constitui fundamentalmente o fluxo vital de experiência torna-se então um gabarito externo, arbitrariamente graduado, a que nossa existência é subordinada - e sentir o tempo de qualquer outra maneira torna-se 'místico ou louco'. Se a sensação do tempo pode ser assim coisificada, porque não haverá de ser tudo o mais? Por que não inventarmos máquinas que coisifiquem o pensamento, a criatividade, a tomada de decisões, o julgamento moral? ROSZAK, T.:230
Há quem pense que a história acabou. Não foi bem isso que Fukuyama quis dizer. O passado é definido, mas ainda assim pode ser mutante: de novo, depende da interpretação. E o futuro é infinito:
Pois o chamado ‘fim da história’ nada mais é do que a emancipação da multiplicidade dos horizontes de sentido. Um desses desafios é o de repensar o pensamento científico, libertando-o de sua ganga positivista, de sua mania contábil, a fim de instalar em seu seio a argumentação filosófica capaz de regular as relações do conhecimento científico com as demais modalidades de pensamento e ação. Outro, não menos importante, é o de pensar a modernidade. Porque esta não é um momento datado da história, definindo uma época. É o nome de uma ruptura, de uma crise relativamente à tradição. Estamos diante de uma nova episteme: da indeterminação, da descontinuidade, do deslocamento, do pluralismo (teórico e ético), da proliferação dos projetos e modelos, da ampliação de todas as perspectivas e do tempo da criatividade.
JAPIASSÚ: 10
O ultrapositivista Pontes de Miranda (cit. MOREIRA: 103) superou os próprios preconceitos, e conclamou:
O princípio da relatividade deve ser mais geral ainda - devemos procurar a diferença de tempo nas realizações biológicas e sociais, - o tempo local das espécies e dos grupos humanos. Isto nos poderá explicar muitos fenômenos que resistem às explicações atuais. Mas para conseguir tais fórmulas muito terá que lutar o espírito humano contra os preconceitos que o rodeiam e contra as obscuridades da matéria que irá estudar.
.Futuro do Universo pode estar influenciando o presente
Não há flecha do tempo. Sua descontinuidade é manifesta nos instantes e nas diversidades vividas O tempo vive sob o signo das diferenças: "Cada forma de vida inventa seu mundo (do micróbio à árvore, da abelha ao elefante, da ostra à ave migratória) e, com esse mundo, um espaço e um tempo específico." (LÈVY, Pierre, cit. PELLANDA e PELLANDA: 118)
Bem que na Idade Média os clérigos apregoavam que o tempo pertencia a Deus. Não deveria, sequer, ser medido. Vai ver, estavam mesmo mais certos do que a turma de Copérnico, Galileu, Bacon, Descartes e Newton, e inúmeros debilóides que lhes sucederam. Passamos por séculos terrificantes, arrasadores, em nome do mecanicismo extremado. Meu co-piloto acabou com essa cadência encadeada. O tempo não é estático, uniforme. A simples presença da massa distorce o espaço, e com ele o tempo. Dessarte, são por essência relativos. Depende da composição/disposição de cada corpo, e até de sua velocidade, que por sua vez também incide no próprio objeto gerador, que é o espaço. O tempo, pois, não é tão toscamente engrenado como o relógio. Isso é apenas uma convenção, lavrada quando a vela era a rainha da noite.
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O inferno da Divina Comédia castigava o vidente com corda no pescoço, e cabeça voltada para trás. Tal preocupação ora se faz desprovida de sentido: previsões são impossíveis. Nem satélites, telescópios, ou bolas de cristal; tampouco computadores ou qualquer tipo de gente pode descrever o que o será que virá. O tempo se define a cada instante, pela natureza e por cada um de nós, na unidade cósmica.
Atrás fica o porto. O vento enfuna as velas.
Acolá se estende o tenebroso mar.
Meus marinheiros,
Companheiros de batalhas e vigílias...
... Vinde amigos:
Inda é tempo de buscar um mundo novo.

EINSTEIN, A., Arquitetos de Idéias; cit. TRATTNER, apresent.
Boas Festas!
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NOTAS
* Werner Heisenberg rememora as palavras de Miefistófeles ao jovem estudante, in
Fausto, de W. Goethe.

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Suíços confirmam a tese:
Emitindo pares de fótons - partículas de luz - ao longo de uma fibra óptica estendida entre as cidades suíças de Satingny e Jussy, cientistas do Grupo de Física Aplicada da Universidade de Genebra determinaram que um fóton, chegando a um extremo da linha, é capaz de reagir instantaneamente a uma manipulação realizada no parceiro que foi para o lado oposto, a 18 km de distância. Os pesquisadores calcularam que, se essa reação for resultado de uma comunicação entre as partículas, o sinal teria de viajar a, no mínimo,
10.000 vezes a velocidade da luz. 'Trata-se de uma violação do espírito, se não da letra', da Teoria da Relatividade de Einstein, que diz que nada pode viajar mais depressa que a luz, diz o físico Terence Rudolph, do Imperial College London, em comentário ao experimento suíço. Tanto a descrição da experiência quanto o comentário de Rudolph estão publicados na edição desta semana da revista Nature. O efeito utilizado pela equipe suíça é conhecido pelos cientistas como 'emaranhamento quântico', e ocorre quando duas partículas são preparadas de tal forma que qualquer alteração numa delas afeta a outra instantaneamente, não importa a distância que as separa. A velocidade de 10.000 vezes a da luz, determinada pelos físicos de Genebra, é o limite mínimo para que o sinal seja 'instantâneo'. 'Sabemos que as partículas que representam os bits quânticos, ou q-bits, precisam adquirir, durante o processamento da informação, certo grau de emaranhamento para que a computação quântica seja mais eficiente que computação clássica', explica o físico brasileiro Marcio Cornelio, atualmente na Unicamp. Cientistas acreditam que computadores quânticos serão capazes de realizar cálculos muito mais rapidamente que computadores normais, ou clássicos, além de resolver problemas que estão fora do alcance das máquinas atuais. O emaranhamento não viola a 'letra' da relatividade porque, por si só, o fenômeno não permite a transmissão de sinais de comunicação mais depressa que a luz - não seria possível, por exemplo, usar partículas emaranhadas para criar um telefone celular instantâneo. 'O emaranhamento não pode ser usado para comunicar unidades de informação escolhidas por uma pessoa, exatamente porque os eventos correlacionados por ele são aleatórios, fora do controle humano. Se os eventos fossem determinísticos, seria possível usar o fenômeno para comunicação clássica mais rápida que a luz', o que violaria a relatividade, diz Gisin. Mas se as partículas não trocam sinais entre si, como o emaranhamento quântico é possível? Como uma partícula 'sabe' que sua parceira, a quilômetros de distância, foi manipulada? Eu diria que as partículas simplesmente estão correlacionadas', diz Cornelio. 'Como não é possível transmitir informação usando apenas partículas emaranhadas, não há necessidade de uma 'saber' o estado da outra e vice versa. Existe apenas uma correlação estranha, que não pode ser descrita pela física clássica'. Partículas 'conversam' a 10.000 vezes a velocidade da luz.'
(Partículas 'conversam' a 10.000 vezes a velocidade da luz
, - Estadão, 13/8/ 2008.)

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FONTES

BACON, Francis, Novo Organum ou Verdadeiras Indicações Acerca da Interpretação da Natureza. Tradução e notas de José Aluysio Reis de Andrade, São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1997.

COVENEY, Peter e HIGHFIELD, Roger, A Flecha do Tempo. Tradução J. E. Smith Caldas. - São Paulo: Ed. Siciliano, 1993.

FADIMAN, Clifton org., O Tesouro da Enciclopédia Britânica - O Melhor do Pensamento Humano desde 1768. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, 2. Ed. - Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1994.

JAPIASSÚ, Hilton, Um Desafio à Filosofia: Pensar-se nos Dias de Hoje. São Paulo: Editora Letras & Letras, 1997.

HEISENBERG, Werner, A parte e o todo. Tradução de Vera Ribeiro; revisão da tradução Luciana Muniz e Antônio Augusto Passos Videira; revisão técnica de Ildeu de Castro Moreira - Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

MOREIRA, Ildeu de Castro e VIDEIRA, Antonio Augusto Passos Organizadores, Einstein e o Brasil. - Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1995.

NAISBITT, John, Paradoxo Global. Tradução de Ivo Korytowski. - Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1994.

NIETZSCHE, Friederich Wilhelm Assim falava Zaratustra (Livro para toda a gente e para ninguém); Apêndices de autoria de Elizabeth Förster-Nietzsche; tradução de José Mendes de Souza. - 5 edição. - São Paulo: Edições e publicações Brasil editora S.A., 1961.

PELLANDA, Nize Maria Campos e PELLANDA, Eduardo Campos org., Ciberespaço: um hipertexto com Pierre Lévy. - Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000.

ROSZAK, Theodore, A Contracultura. Tradução de Donaldson M. Garschagen. - Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1972.

THUILLIER, Pierre, De Arquimedes a Einstein: a face oculta da invenção científica. Tradução de Maria Inês Duque-Estrada; revisão técnica César Benjamim. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994.

TOFFLER, Alvin e TOFFLER, Heidi, A Riqueza Revolucionária. Trad. Maiza Prande Bernardello e Luiz Fernando Martins Esteves. - São Paulo: Futura, 2007.


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segunda-feira, 8 de outubro de 2007

O Pecado do Darwinismo

Se me perguntarem qual é a minha convicção mais íntima sobre o nome que será dado a este século, se será o “século de ferro”, “do vapor” ou da "eletricidade”, responderei sem hesitar que será chamado o século da visão mecânica da natureza, o século de Darwin. Ludwig Boltzmann *
A ESTÓRIA DE ADÃO e EVA é fruto da imaginação. E a de DARWIN, da increpação,
Na ciência clássica, a natureza era vista como um sistema mecânico composto de elementos básicos. De acordo com essa visão, Darwin propôs uma teoria de evolução em que a unidade de sobrevivência era a espécie, a subespécie ou algum outro componente básico da estrutura do mundo biológico. Mas, um século mais tarde, ficou bem claro que a unidade de sobrevivência não é qualquer uma destas entidades. O que sobrevive é o organismo-em-seu-meio-ambiente. (Lemkow: 183)
. De outro ângulo, Andrew Smith interpôs:
A teoria de Darwin foi falha. Não há evidência direta para a seleção natural como um processo evolucionário. Ninguém jamais observou um organismo evoluir, sob condições naturais, para outra forma de organismo. Que formas intermediárias concebíveis poderiam ter levado à aparição do olho? Como poderia a Seleção Natural ter dado origem à aparição de pássaros? Quando um animal arrisca sua vida para salvar um companheiro, suas possibilidades de sobrevivência não são aumentadas. (Behe, p.20)
Vários autores asseguram: Wallace confiara suas observações a Darwin, para que este o entregasse à Casa Real. Como desde a chegada do Beagle o rei dos macacos estava em débito com a Coroa, simplesmente colou seu nome no trabalho do colega. Não foi plágio, mas fraude
Só não me pergunte o quê colocar no lugar. A mim não vem ao caso. O futuro é sempre mais amplo do que o passado, que é marcado. Já muita gente espreita pelo espelhinho. Só digo que tem tudo a ver com as ondas gravitacionais ocasionadas pela passagem do corpo, que por sua vez dança no ritmo da Teoria das Cordas.
A extrapolaçao da fronteira
A.R. Wallace & R.Young identificam uma cabeceira bem contaminada:
Toda a teoria darwineana da luta pela existência é simplesmente a transferência, da sociedade à natureza viva, da teoria de Hobbes sobre a guerra de todos contra todos e da teoria econômica burguesa da concorrência, bem como da teoria da população de Malthus. (Sciences studies, 1971, p.184; cit. Japiassú, 1978: 56)
Não é o que pensa o notável neurocientista chileno H. Maturana, (cit. Pellanda, Nize M.C. e Pellanda, Eduardo Campos, p.115). por exemplo: “A constituição biológica humana é a de um ser que vive no cooperar e compartir, de modo que a perda da convivência social traz consigo doença e sofrimento.” Outros pesquisadores enxergam diretamente o amor como diferencial. A teoria defende a sobrevivência do mais bondoso. O tradicional egoísmo inato dos animais, biologicamente determinado, e longamente estendido ao comportamento humano, começa a ser questionado pelos estudos sobre lealdade e justiça.  Não creio ser tudo isso prerrogativa humana. "O choque, a ação de um átomo sobre o outro, pressupõe também a sensação. Algo de estranho em si não pode agir sobre o outro. Esses complexos de sensações, maiores ou menores, deve ser chamados 'vontades'. (NIETZSCHE, F, O livro do filósofo: 45).
Malgrado inúmeras falhas do trilho pseudo-epistemológico darwineano, onze foguistas são fortes para levar o trem à Conchinchina:
Depois de ter sido incorporada por Charles Darwin como uma metáfora para ilustrar o mecanismo evolutivo das espécies biológicas, foi reincorporada por sociólogos como uma confirmação oferecida pela história natural dos processos que atravessam a história humana.  (Schwartz: 57)
Os reservas Herbert Spencer (1820-1903) e Albert Schäffle, figuram no team. Principles of Sociology (1.vol, 1876) desenvolve um paralelo entre a organização e a evolução dos organismos vivos e das sociedades. Social Statics foi publicado nove anos antes da Origem das Espécies. The Man versus State veio em 1884. Spencer mescla a tradição racionalista dos economistas clássicos com a versão moderna da natureza - a tal evolução. (Schwartzenberg: 143)
A pá-de-mal tocou o liberalismo num balaio de “inteligível confusão." (Sabine: 699)
Já o polonês Ludwig von Gumplovicz utilizou os conceitos darwineanos em Die Sociologische Staatsidee (1892). O próprio Estado seria um produto social da evolução, aperfeiçoado pela competição e pela luta nos embates tribais, firmando a hegemonia dos mais aptos, na forma de evolução social. Nada disse de novo. A bandeira era do obsoleto filósofo do medo,
Thomas Hobbes. Para melhor aquilatarmos a preponderante mediocridade que comandou o raciocínio de Thomas Hobbes, vejamos a seqüência do seu pensamento pelo detalhista Prelot (vol II, p. 258) :
A essência da natureza humana é o egoísmo e não a necessidade altruísta da vida em comum. Quando o homem procura a comunidade, não o faz a fim de conseguir a sua realização pessoal, ou, como pensava o fundador da Escola, em virtude de uma tendência natural que o faz procurar seus semelhantes, mas unicamente com vista ao seu próprio interesse nasce do temor mútuo que existe entre os homens, e não da boa vontade mútua.
A propagação de que “da guerra da natureza, da fome, da morte, forma-se o mais nobre objeto que somos capazes de conceber: a produção de animais superiores”  o menos avisado pensaria ser o receio de Hobbes transformado à emulação pela publicidade nazista; porém, assim não o é. Esta eloqüente frase foi proferida pelo parente símio, nosso Charles. Robert Downs descreve-nos a "meritosa" contribuição:“Consciente ou inconscientemente o Mein Kampf, de Hitler, deve muito a Maquiavel, Darwin, Marx, Mahan, Mackinder e Freud.” (Johnson, p. 4)
Esqueceu, ou não quis citar, Mussolini, mentor da hipócrita
Carta del Lavoro.
O darwinismo social
O que ocorreu foi que as premissas tecnocráticas quanto à natureza do homem, da sociedade e da natureza, deformaram-lhe a experiência na fonte, tornando-se assim os pressupostos esquecidos de que se originam o intelecto e o julgamento ético. MISES, Ludwig von, 1990: 112
Na rota riscada por Bacon, Descartes, Newton, Hobbes, Rousseau, Bentham, junto a mecânica hegeliana, Mill, Comte, Sorel, Lamarck, o próprio Darwin, e em seguida Engels e Marx, criativas equações sociológicas, econômicas e legislativas passaram a “ordenar” os fatos sociais, cada vez com maior ênfase e precisão. A maioria liberal já tinha claramente identificado que a manobra de transferência de um poder (real) para outro (do povo), como queriam Rousseau, Bentham e seus cometas, não buscava a liberdade, mas sim a novo absolutismo. De fato, as formulações tecno-políticas embasadas no “utilitarismo” passaram a sobrepujar o “utópico” e “primitivo” sistema. O foguista-mor dedicou a edição inglêsa de O Capital ao autor da Origem das espécies: “O livro de Darwin é muito importante e me convém como base da luta histórica das classes.” (Marx, cit. Japiassú,1978,p.60)
Darwin recusou a homenagem, simplesmente por não entender o que teria a Seleção Natural a ver com o Socialismo. Na verdade era uma falsa modéstia. A expressão “podemos lançar um olhar profético ao futuro e ver que as espécies pertencentes aos grupos maiores e dominantes dentro de cada classe é que finalmente prevalecerão e darão origens a novas espécies dominantes” traduz ao quê se opõe o discurso da mistificação dial-ética-comunista. É de Darwin a autoria. (Cit. Carvalho,p.21)
Pelo nosso Miguel Reale (p. 223): "Alguns postulados fundamentais caracterizam a filosofia marxista: o primado do real sobre o ideal, a admissão da teoria evolucionista de Darwin, a concepção materialista da história, a dialética hegeliana revisada."
Marx tanto se valeu do antropofágico curso que Turati e Kautsky o identificaram como o “Darwin da ciência social”. (Cits. Hayek, p. 83)
O trem da alienação desceu a ribanceira em desenfreada carreira. O universo social passou a ser descrito em ordem uniformemente acelerada. A partir da direção do patrono comunista, nova leva embarcou. Joseph Needham, em 1943,(cit. Hayek, p. 84) foi um dos arrastados:

A nova ordem mundial de justiça social e da camaradagem, o estado racional e sem classes, não é um desvairado sonho idealista, mas uma extrapolação lógica a partir de todo o curso da evolução, que não tem menos autoridade do que aquela que o precedeu é portanto de todas as crenças a mais racional.
Needham cometeu redondo engano, teórico e prático:
Em resumo, a evolução é um desdobrar-se de uma ordem interna existente. Mas, por ser ela inteligente e não um processo mecânico, há espaço aberto para variações criativas e respostas individuais às circunstâncias ambientais  (Lemkow, p. 174)
F. Hayek (p. 46) bem avisara:
O darwinismo social está errado, mas a intensa aversão que provoca hoje é também devida em parte a seu conflito com a arrogância fatal de que o homem seria capaz de moldar o mundo ao seu redor de acordo com seus desejos.
Needham, se leu, não entendeu. Wilber (A Transpersonal View of Human Evolution, p. 304/305; cit. idem, p.178) também foi ignorado:
"A teoria científica ortodoxa da evolução parece correta quanto ao 'quê' da evolução, mas é profundamente reducionista e/ou contraditória quanto ao 'como' (e porquê) da evolução.”
A idéia cerne é furada. Que dirá seu transplante à economia, à sociologia e ao direito:

Não é a adaptação bem sucedida a um dado ambiente que constitui o mais notável formador da vida, mas a teia de processos ecológicos em um sistema ambiental que forma os padrões psicológicos e comportamentais, os quais podem apoiar-se na genética. A evolução acontece não como resposta às exigências da sobrevivência, mas como um jogo criativo e necessidade cooperativa de um universo todo ele evolutivo. ( Lemkow, p. 183)
Sobrevivências
O foco de uma crônica competição sangrenta entre indivíduos e as espécies, a guinada popular à “sobrevivência dos mais aptos”, dissolve-se diante de uma nova visão de cooperação contínua, forte interação e dependência mútua entre as formas de vida. A vida não conquista o globo pelo combate, mas pelo entrelaçamento. Formas se multiplicam e tornam-se complexas cooptando outras, e não apenas se autodestruindo.
O Príncipe Peter Alexeyeevich Kropotkin (1842-1912), ex-integrante do seleto Corpo de Pagens do Czar Nicolau I, não foi ao paraíso tropical de Galápagos; foi na Sibéria que ele viu as espécies bem sucedidas preferirem a cooperação. Foi pioneiro em “falsear” a festejada  teoria, mas nada disso, obviamente, interessaria aos bolcheviques. Naquele frio siberiano, diferentemente do sol tropical buscado por Darwin, a seleção natural procura um meio de evitar a competição. O livro Auxílio Mútuo, contudo, não era de serventia praxeológica. Além disso, Kropotkin foi taxado como anarquista. Merecia juntar-se a Nietzsche. Mas o russo estava correto: "A teoria da evolução, de Darwin, de mutação acidental e de sobrevivência dos mais capazes, inevitavelmente tem se mostrado inadequada para responder a um grande número de observações biológicas." (Ferguson, p. 149.)
Em que pese desabrochar os sentimentos mais nobres, as virtudes mais elevadas, a política liberal assim foi solapada. Os onze viajariam por muito tempo. Possuíam uma equipe de teóricos e treinadores da mais alta competência. Como todo trem (e todo embuste) tem fim-de-linha,. A cátedra está em cheque:
Há uma grande lacuna na teoria neodarwiniana da evolução, e acreditamos que deva ser de tal natureza que não possa ser conciliada com a concepção corrente da biologia. Concluímos – inesperadamente – que há poucas provas que sustentem a teoria neodarwineana; seus alicerces teóricos são fracos, assim como as evidências experimentais que a apoiam.
(Coyne, Jerry, do Depto. Ecologia e Evolução. Universidade de Chicago. Cit. Behe: 37)

Talvez porque só se preocupassem com a “origem”, portanto atendo-se exclusivamente a um passado presumido, fragmentado, predisposto por fatos e objetos parcialmente identificados, mal-coletados, pior interpretados, e jamais resolvidos, é que esses onze - Spencer, Darwin, Malthus, Rousseau, Hegel, Comte, Mill, Bentham, Marx, Sorel e Freud - não conjeturaram a espetacular reversão científica que adviria com a quântica e com a relatividade:
É nisso que aqueles que se empenham em melhorar a sorte do homem podem fundar suas esperanças: os seres humanos não estão condenados, em razão de sua constituição biológica, a aniquilar uns aos outros ou ficar a mercê de um destino cruel que eles mesmos se afligem. Einstein, A., Escritos da maturidade: artigos sobre ciência, educação, relações sociais, racismo, ciências sociais e religião: 133
A ciência e a sociedade de ponta evoluem por “somaléticas”, em vez das necessariamente destrutivas lambanças dialéticas, sejam elas de caráter histórico, físico, biológico, econômico, político, ético ou social.


200 anos de Darwin. Para inglês ver. A perene atualidade de Thomas Hobbes
A influência de Malthus
O dano social darwiniano
Darwinismo à caminho do fim
O crepúsculo da hipótese darwinista
__________
Nota

* Boltzmann, Ludwig, Populare Schriften Essay 1, theorethical physics and philosophical problems, p. 15; cit. Coveney, P. e Highfield, R., p. 135.
Boltzmann defendeu este mesmo ponto de vista na palestra sobre a segunda lei, proferida em 1886, num festival da Academia Austríaca de Ciências.
-
Fontes

BEHE, Michael J., A caixa preta de Darwin: o desafio da bioquímica à teoria da evolução. Tradução de Ruy Jungmann; consultoria de Rui Cerqueira.– Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.
CARVALHO, Eide M. Murta, O pensamento vivo de Darwin.- São Paulo: Martin Claret, 1987.
COVENEY, Peter e HIGHFIELD, Roger, A flecha do tempo. Tradução de J. E. Smith Caldas.- São Paulo: Ed. Siciliano, 1993.
FERGUSON, Marilyn, A conspiração aquariana. Tradução de Carlos Evaristo M. Costa, 10 ed.- Rio de Janeiro: Ed. Record, 1995.
HAYEK, Friedrich August von, Os erros do socialismo: arrogância fatal. Tradução de Ana Maria Capovilla e Candido Mendes Prunes.- Porto Alegre: Editora Ortiz/Instituto de Estudos Empresariais, Edição preliminar, 1995.
JAPIASSÚ, Hilton, Nascimento e morte das ciências humanas. - Rio de Janeiro : Livraria Francisco Alves Editora, 1978.
JOHNSON, Paul, Tempos modernos: o mundo dos anos 20 aos 80. Tradução de Gilda de Brito Mac-Dowell e Sérgio Maranhão da Matta. - Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1990.
LEMKOW, Anna F., Princípio da totalidade. Tradução de Merle Scoss.- São Paulo: Ed. Aquariana, 1992.
REALE, Miguel, Pluralismo e liberdade, 2. edição. - Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1998.
SCHWARTZ, Joseph, O momento criativo - mito e alienação na ciência moderna. Tradução de Thelma Medici Nóbrega.- São Paulo: Ed. Best Seller, 1993.
SCHWARTZENBERG, Roger-Gèrard, Sociologia política: elementos de ciência política. Tradução de Domingos Mascarenhas.- São Paulo e Rio de Janeiro: Difel, Difusão Editorial, 1979.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Nietzsche: a consciência de um louco

Moro em minha própria casa.
Nada imitei de ninguém. 
E ainda ri de todo mestre,
Quem não riu de si também.
Friedrich Nietzsche*
Volta-e-meia o pai de Zaratustra é intimado ao banco dos reús. A acusação versa sobre o "assassinato" de Deus. Ao contrário da praxe judicial, entretanto, imputam-lhe a culpa até que se prove o contrário. Os matadores de Jesus, os darwinistas e os materialistas dialéticos não são tão apedrejados. Será porque se trata do único verdadeiramente coberto de razão? Ou seria apenas uma acusação fermentada por onda produzida, a mesma que lhe atribui a inspiração racial de Hitler? Pois neste caso a situação foi inversa: tanto o clero quanto o colocco do norte é que reverenciavam o fascismo:."Em virtude dessa estreita associação entre o poder do Estado e a autoridade religiosa, o catolicismo, em toda a parte em que predominava, opunha-se a liberdade de consciência e as liberdades democráticas, com o apoio do braço secular do poder civil." (GUSDORF :80).
Quando se coloca o centro da gravidade da vida não na vida, mas no além - no nada -, então se priva a vida de qualquer centro de gravidade
NIETZSHE, F., O anticristo: maldição contra o cristianismo:78  
Aprecio Dawkins, que ainda não li:a fé é delírio. O Oriente Médio lhe enche de razão. Há quem sustente o preceito como educacional. Se esta for a intenção, meio e forma são equivocados. Primeiro ela ensina o pecado; depois o proibe, sem oferecer razão. Na escola havia uma pegadinha: passava-se um bilhete com a mensagem: "Só abra em caso de incêndio". Pronto - na mesma hora o curioso embarcava e abria o interior, onde dizia:: "Eu disse só em caso de incêndio!" 
A estória de Adão e Eva subestima o desenvolvimento da criança. Lembro a estória de Chapéuzinho Vermelho, ou do Papai Noel. Por muito tempo funciona, mas não por todo o tempo. Por certo haverá quem passe a vida escrevendo bilhetes ao barbudo feliz; mas geralmente se descobre a alegoria ainda antes da adolescência. E no caso, a frustração é inerente, e uma certa revolta, conseqüente.
De plano absolvo o indiciado. Russel também; e de quebra, acusa o queixoso. Aglutinam-se promotores para este juri raras vezes cogitado 
Tanto o platonismo quanto o cristianismo distanciam os seres humanos do meio que os rodeia. A natureza e a experiência eram encaradas como o mundo das modificações perturbadoras, o mundo do erro e do caos. Para o cristianismo, a dúvida e a incerteza são obra do diabo. ZOHAR, D., O Ser Quântico, Uma visão revolucionária da natureza humana e da consciência, baseada na nova física: 188.
O Testamento revogado
O primeiro, taxado de Velho, foi substituído pelo Novo. Vovô abusara de estorinhas. De Adão e Eva a Sodoma e Gomorra o método disciplinar é repressivo, até terrorista. Se não resiste a maioridade, que dirá unanimidade.
Aquela da Arca não se garante ao menor questionamento.
A rigor, não tem uma passagem sequer que permaneça incólume à uma crítica de viabilidade.
De quem falou com Deus
A estória de Moisés é de amargar. É o único ser da face da Terra, em todo o EspaçoTempo, que teve o privilégio de encontrar Deus! Nem Jesus se tem notícia de ter logrado tamanha façanha. Nem na cruz Deus apareceu. Dizem que Jesus O acusou de abandono.
Há gente que diz que fala com Ele. Tem até quem se julgue o Próprio:
Em Florianópolis foi detido em flagrante, por atentado ao pudor, Evanildo João da Cunha, 36 anos. Ele estava sem roupa, em frente a uma igreja, na Avenida Leoberto Leal, e gritava ser Jesus Cristo.O Globo, 4/5/2009
Outros preferem incorporar Napoleão.
Não falta quem reverencie as três meninas portuguesas, e o tal caminho de Santiago. Dizem que depois do percurso ninguém volta igual. Acredito. Nossa vida, como dizia Heráclito, é uma vertente. A água que passa não é a mesma que foi. Mutatis mutandis, ao percorrer a famosa trilha a forma física deve melhorar bastante; e o contato com outros peregrinos deve fazer muito bem. Mas quem mais ganha mesmo, e bastante, são os promotores turísticos, não há dúvidas.
"Dos lugares das viagens missionárias de Paulo, visitaremos Efésio, Tessalonica, Corinto, Athenas, Berea, Filipos, Roma, Óstia." (Agência de Turismo ao Além)


A participação do mar
A da abertura para o povo passar bem serve a roteiro de filme. Em Dunkerke os ingleses não obtiveram tal ventura. Vai ver os libertários eram filhos do diabo; e Hitler os dizimou.

Dos mandamentos
Estranho as disposições da tal tábua. É "positivista", embora parte seja calcada no Direito Natural. Pelo cunho, todavia, vê-se eivada de interesse, e do pior, o de comando.  A primeira cláusula dá conta que devemos "amar a Deus sobre todas as coisas."
.Ora, Deus colocado no nível das coisas? E, ademais, como amar o Quê, ou Quem não se vê? Como amar Quem não se dá a conhecer, apenas presumidos efeitos, ou ter ouvido falar, ou ter lido alguma coisa? E por qual Causa assim procede, mantendo-se envolto no mistério, que mais confunde do que acolhe, mais torna descrente qualquer candidato a crente? Seria somente um alvéolo, um projeto, quem sabe uma ameaça?
Outro artigo dá conta que "não devemos desejar a mulher do próximo". Neste caso, a coitada vira pertence, reduzida a objeto. Cadê seu direito à manifestação, ou livre escolha?
Honrar pai e mãe, não roubar, e não matar são determinações óbvias as quais, mesmo completamente desconhecidas por esquimós ou indígenas, por exemplo, são preservadas.
Deus faltou com a palavra
Tirante a estória contada por Moisés, não se sabe mais de nenhum lugar por onde Deus tenha emitido Sua palavra, muito menos a língua que preferiu. E não há sequer uma testemunha do furtivo encontro, lá atrás do monte, lujgar apropriado para quem na marcha se encontra apertado. Onde já se viu isso? Pelamor dedeus. Deus nunca falou; portanto, não existe a palavra de Deus. Ele falta com ela.  Ainda bem.
A concepção
Nascer de uma virgem é incompreensível, além de afronta ao marido, mesmo sendo por demais compreensivo. Imagine a gozação na redondeza. Não sei porque este capricho. Já que se fez como homem, por que Deus não poderia ser produto da forma costumeira? A resposta o "louco" nos traz:
"Somente o cristianismo, com seu fundo de ressentimento contra a vida, fez da sexualidade algo impuro: joga lama sobre o começo, sobre a condição primeira de nossa vida."
Eis, certamente, a razão da Bíblia tornar Jesus isento do risco do amor.
A infância e a adolescência
A ninguém é dado conhecer a juventude de Jesus. Todos sdizem que ele nasceu numa manjedoura, mas ninguém sabe do seu gatinhar, até os trinta. Lembra a Nav's ALL ao entrar na atmosfera: por uns instantes perde todo o contato.
Porque Jesus nada escreveu?
Hitler fez seu Mein Kampf; Churchill contou suas peripécias em prosa e verso. Napoleão não ficou atrás. Mitterand também não. Até Féliz hc, o semialfabetizado da Bobonne, deu-se ao luxo de dourar sua pílula em centenas de páginas. Porque Cristo nunca escreveu nada?
Neste ponto lembro da carta-testamento de Getúlio Vargas, única despedida que se conhece datilografada em máquina de escrever,por acaso ausente em seu quarto de dormir, onde solitariamente consumou a insanidade. Coisa de Sócrates, claro. Evidentemente, não foi Gegê quem a elaborou, muito menos a ditou, como gostava de fazer com os milhares de decretos contrabandeados da Itália fascista. Foram seus órfãos que trataram do espólio. Mas do pequenino ditador, todavia, temos a certeza da existência, bem como dos demagogos que pariu. Com Jesus, todavia, já não cabem as mesmas certezas; sequer com os apóstolos. A Bíblia é lavrada num estilo único, presumindo-se costurada, no máximo, à duas mãos: a de Agostinho, com a empalhada de Platão.
A questão do centro do Universo
O elemento mais contundente é um fato inequívoco: naquela época todos supunham que o Sol girasse em torno da Terra, e, pior, que ela fosse chata. O Filho de Deus se incluiria em tamanha ignorância? Mas se a resposta for negativa, porque não avisou o pessoal? Não dá. A estória, infelizmente, não escapa ao que Popper tão bem observa - a questão da falseabilidade da hipótese.
O bode Judas
A imputação a Judas também dói. Dizem que na ceia o traidor beijou a face do procurado, a fim de apontar a vítima aos malvados soldados romanos. Mas não era flagrante a liderança? Quem sentava no meio da mesa? Quem poderia ter alguma dúvida, naquelas aldeias onde se conhecia até quem estava para nascer?
Também é dura, essa, pobre Judas, o bode-expiatório, exemplo negativo, mas comumente seguido, pela humanidade crédula e incrédula, mas principalmente hipócrita.
A ignorância de Pilatos
Tem mais essa, se me permite: não foram os soldados que prenderam e levaram Jesus ao chefe? E como este chefe lavaria as mãos? Seria idéia dos recrutas, à despeito da vontade do graduado? Surpreenderam-lhe? Ele nem sabia do quê, nem de quem, nem por quê? Como Lula, do mensalão?
Fico por aqui. Minhas lembranças são parcas, e circunscritas às decorebas que nos obrigam em tenra idade.
O papel de Belzebú
De certo modo ele é mais importante que Deus. Sua atuação independe de sparring. Deus, todavia, necessita contendor. Sem adversário, não há espetáculo; portanto, não acorre o público.
A Divina Comédia
Não dá para ser levada levada ao pé-da-letra,  tampouco do ouvido. Nada tem de divina, por geopolítica, É ridícula a forma ameaçadora com que  ela  embreta o rebanho, desde então, ao sabor dos pastores-do-pasto-verde. Dante, diz Nietzsche, é "a hiena que versifica nos túmulos." (O crepúsculo dos ídolos, ou como filosofar a marteladas: 65)
Na  divina comédia cabe a platéia se vestir de arlequim.
O estilo da Bíblia
É dialético. Se lembrarmo-nos de que Aristocles chegou ao sul da Itália para tomar a carinhosa alcunha de Platão, torna-se flagrante de onde o Livro Sagrado buscou inspiração: na doutrina órfica, aquela que separava o corpo da alma, colocando-os em confronto direto, ao gosto do estereotipado Primeiro-Secretário. A obra é toda montada em contrastes, no estilo do grego. A quantidade de vestígios ultrapassa o próprio número das páginas canônicas.
Um conselho cruel
"Se teu olho direito é para ti uma ocasião de queda, arranca-o."
Três Cruzes! Não conheço ninguém sem quedas. Basta sair do colo da mãe, e plaft!
Felizmente também desconheço alguém que tenha respeitado a advertência. Nem cristão, nem sacristão.
Deus materialista
A religião costuma estigmatizar o desejo. Os ascetas obtém o que acreditam. É por esta falha que o protestantismo emerge. Este propugna o trabalho árduo, mas oferece recompensa: a riqueza. Ou seja, Deus se assume materialista. Existe, todavia, uma passagem bíblica antagônica ao preceito protestante fundamental:
"É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no reino dos céus."
Neste caso, encontrarei os europeus e americanos apenas no habitat de Belzebú.
Outrossim, o que recairá aos condutores do Vaticano, sabidamente um Estado riquíssimo em ouro e obras de arte?
Não; desse modo também não dá. Pode até ser em sentido figurado, parábola, ou nem lembro como definir exatamente. Mas que é exagero, não resta dúvida. Jamais qualquer camelo passará por buraco nenhum. Nem filhote. É piada.
Deus como atração turística
O caminho de Santiago, a basílica de Nossa Senhora Aparecida, a de Lourdes, Notre Dame, Montmartre, Sacrè-coeur, St. Paul, Westminster, a de Milão, de Brasília, a praça da Sé, as igrejas de Salvador, o sítio de Lourdes, o santuário de Caravaggio, todos são points turísticos, de alta rentabilidade. Jerusalém ferve na Páscoa. Graças à Deus.
O agente do Estado
Pelo fim do século XIX, o sociólogo Max Weber desembarcou em New York. Assombrou-se: Deus agia. Era Agente do Estado. Então, os governantes americanos começavam a amealhar parte da produção, em nome dos desvalidos. O Presidente foi assassinado; e Ted Roosevelt, empossado. Com o cowboy, o Imposto de Renda surgiu. E o dinheiro sumiu. Acredite em Deus. Trabalhe e enriqueça. E pague o compulsório pela ousadia. Mas isto é fichinha.
Um Brasil de audiência
Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristão, porque eles, segundo parece, não têm nem entendem nenhuma crença. E, portanto, se os degradados que aqui hão de ficar aprenderem bem sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa intenção de Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa fé.
Carta de Pero Vaz de Caminha, cit. Faraco & Mora, Para gostar de escrever. - São Paulo: Ática, 2002.
A História é pródiga em aquilatar a consistência de tamanha santidade. Eles conseguiram. Ora vivemos na Pátria de maior contingente católico do mundo. Se Deus não estiver por aqui, não estará em lugar nenhum. O adúltero ex-Presidente do Senado assim presumia, e apelou. Acreditava ser o único salvo-conduto que poderia lhe salvar.** Pois este país tão fervoroso, capaz de invocar Suas Bênçãos nos parlamentos, nos tribunais e até na moeda, também é o mais agiota do mundo, para não falar da corrupção alastrada. O índice de criminalidade é compatível com as enormidades. As ovelhinhas são cruelmente tosqueadas. Vai ver é porque o clima é tropical. Alívio às coitadinhas.
Neste País quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro. Féliz nunca trabalhou; só fingiu que estudou. Sua filha casou com banqueiro. O banco saqueou os correntistas. O tesouro dos piratas está no Caribe.
Mula por pouco tempo enganou, mas tem recursos para comprar mansão em Babojá. Vai ver provém de seu filho, megaempresário.
Já o ALLmirante é um felizardo. Trabalha duro. Não precisa, além disso, ganhar dinheiro. ALL e muitos brasileiros solapam a tese de Weber. Deus nada tem a ver com trabalho, muito menos com a remuneração dele proveniente.
Querer não é poder
Na Idade Média, quando a peste assolava uma região, os sacerdotes reuniam o povo na igreja, às orações. Como resultado, a peste se proliferava com absoluta rapidez. Eis o que pode levar a fé desprovida de conhecimento.
E ainda dizem que a fé remove montanhas. A civilização não acredita; daí inventou o trator.
O Médico
Deus é muito requisitado para curar doença. Reabilitado, o doente morre por outra, ou atropelado. Não há milagre capaz de estender a vida por um século e meio, digamos. Muito menos de modo eterno. Só na eternidade.
Uma questão relativa
Max Planck, em seguida Niels Bohr, Erwin Schöeringer e principalmente Werner Heisenberg demonstraram a Einstein a incerteza atômica, provada pela quântica. No domínio do quantum não é possível chegar onde o cientista sempre quis: a objetividade completa. Bergson balançou, mas meu copiloto Albert escorregou na quimera, não perdeu a fé, e lascou: "Deus não joga dados!"
Por conta do preconceito inreojetado pelos ancestrais o Grande Relativo demorou assimilar, e depois gastou o resto da vida tentando a unificar a Quântica com a sua Relatividade. Desperdiçou seu inigualável talento. Tivesse o gênio se debruçado sobre seu compatriota Nietzsche, ou pelos vários outros autores, teríamos o caminho encurtado. O conhecimento essencial situa-se por maior amplitude - a unificação da ciências, sim, mas das exatas com as humanas! Sorry, meu parceiro. Ou melhor, obrigado.
Na defesa, ao ataque!
Uma das maiores forças capaz de induzir o ser humano ao apelo do extra-terreno advém da consciência de sua fraqueza. Então invoca o escudo: "Se Deus é por mim, quem será contra mim?"
Mas se Deus é por todos, onde arrumar contendor?
A bênção no esporte
Muito engraçado acontece nos vestiários de times de futebol. Quase todos tem capelas. Os jogos deveriam terminar empatados.
A convocação à guerra
Carlos Magno, as Cruzadas, a Inquisição, os Bórgia e Maquiavel, Napoleão e Cromwell, Mussolini e Hitler logo elegeram adversários; e Deus, imediatamente, foi convocado ao serviço militar. A negra cruz prenunciou o horror da Luftwaffe. Bin Laden também o mantém, vestido à caráter. Cabe, todavia, ao vulgar de Siracusa a primazia. O amante dos guerreiros espartanos dividiu o próprio ser: ele próprio era masculino e feminino. Para completar, dividiu ainda mais - em matéria e espírito. No âmago instalou o embate:
"Platão é essa fascinação de duplo sentido chamada 'ideal' que permite aos caracteres nobres da Antigüidade de se enganar a si mesmos e abordar a ponte que se chama 'cruz'." (Nietzsche, Crepúsculo dos ídolos: 103)
Do julgamento final
A desgraça do ser humano se tornou a graça de um mundano:
Então veio, parece, um sábio astuto,
o primeiro inventor do medo aos deuses.
Forjou um conto, altamente sedutora doutrina,
em que a verdade se ocultava sob os véus de mendaz sabedoria.
Disse onde moram os terríveis deuses das alturas,
em cúpulas gigantes, de onde ruge o trovão,
e aterradores relâmpagos do raio aos olhos cegam.
Cingiu assim os homens com seus atilhos de pavor,
rodeando-os de deuses em esplêndidos sólios,
encantou-os com seus feitiços, e os intimidou -
e a desordem mudou-se em lei e ordem.
Poeta Crítias, tio de Platão, líder dos Trinta Tiranos de Atenas, após a guerra do Peloponeso; cit. Popper, p. 160
O artista
Com a chegada da TV, Deus foi incorporado ao elenco. Carreia polpudos dividendos. Onde Ele atua, chega a fama e a riqueza. Bispo Vaicedo posa ao lado de Mula. Quanto custou nem o diabo sabe.
No teatro a performance rende alta bilheteria. A bispa Sonha e o apóstolo Estiveram, da "igreja" Binascer, detinham patrimônio de cerca de 130 milhões de reais, em uma única conta bancária. Os larápios sequer disfarçaram, ou escolheram laranjas, como sói acontecer.
Russell (p. 21), foi incisivo:
“Se houvesse um Deus, ele (ou ela, aquilo, ou eles) deveria ser julgado por crimes contra a humanidade.”
No caso da Binascer, como partner, ou comparsa.
Há que se dar o desconto: Sir Bertrand era mero pacifista; portanto, herege.
A suspeita Via-Sacra
Tirante os romanos, pelo que contam Jesus não desagradava a mais ninguém, ao contrário. Como é que, de repente, foi alvo de pedras, cusparadas, ponta-pés e impropérios de toda uma população nada romana, ainda mais de modo espontâneo, sem orquestração? E onde estavam seus apóstolos, neste momento? Por certo se trata do único movimento social sem condutor; ou, se havia, nada consta. Inacreditável.
Deus neoliberal
No dia em que aqui escrevia, Bento dizia:
"A lei de Deus é a única que pode garantir a liberdade do homem, porque a história demonstra que as maiorias podem equivocar-se."
Pronto. Nem a Vox Populi é mais a Voz de Deus. Isto sempre soube. Aliás, ouso afirmar: a maioria está sempre errada. Como bem diz Ortega Y Gasset, “a cultura de massa gera mediocridade e ignorância.”
Resta capitular o decreto do céu, por não democrático.
Na verdade a única atmosfera que garante a liberdade do homem, por definição, é o liberalismo. Este Papa, contudo, exceto a retórica, em nada parece liberal. Algo de errado acompanha o vento romano; vai ver, desde Florença.
A injustiça
A condenação popular a Friedrich Wilhem Nietzsche é invertida, descabida, precipitada. Quem decretou a morte de Deus, mas não Dele, propriamente, e sim da estorinha de Adão e Eva, foram Darwin, Marx e Engels; de certo modo, pesa a desconfiança sobre Copérnico, Descartes, Bacon, Galileu, e até sobre o suspeito religioso Newton. Nietzsche não pode ser incluído nesta lista. O vilipendiado filósofo visava apenas despertar o povo dos pesadelos advindos da tirania imposta ao mundo pelo venerado católico Napoleão; das artimanhas dialéticas de Hegel; da Origem das Espécies; e do Capital marxista, somados ao chicote de Bismarck, e sua guerra franco-prussiana. Tudo doilética. E Assim falou Zaratustra (1961: 7):

Que é o macaco para o homem? Uma irrisão ou uma dolorosa vergonha. Pois é o mesmo que deve ser para o Super-homem: uma irrisão ou uma dolorosa vergonha. Percorreste o caminho que medeia do verme ao homem, e ainda em vós resta muito do verme. Noutro tempo fostes macaco, e hoje é ainda mais macaco do que todos os macacos.
Bismarck gerou o cabo Hitler, estrondoso animal. A parturiente? A própria irmã de Nietzsche, Elizabeth. Conheço o tipo. Nietzsche não, sequer supôs. Ele se interessava pelo motivo da Santa Sé contra Galileu. Não cogitou que o inimigo morasse no quarto ao lado.
O fundamento do louco
O "filósofo do mal" conclamou o ser humano a se autoaperfeiçoar, em vez de ficar só tentando se equilibrar na corda bamba ardilosamente estendida entre o bem e o mal, na eterna luta da alma contra o corpo. Que o homem abandonasse o posto de escuta, que deixasse de esperar por benesses celestiais. Que fincasse seus pés na Terra, e tomasse as rédeas do próprio destino. Que se superasse, evoluísse, e fosse responsável por tudo, enfim, porque se há malas que vem pelo trem, há malas que nunca vem. Não é prudente a estagnação:
O grande do homem é ele ser uma ponte, e não uma meta. Amo os que não procuram por detrás das estrelas uma razão para morrer e oferecer-se em sacrifício, mas se sacrificam para que a terra pertença, um dia ao Super-homem. Amo o que vive para conhecer, e que quer conhecer, para que um dia viva o Super-homem, porque assim quer seu acabamento.
Nietzsche, F., 1961: 10
O destemido pensador suplantou os grilhões da dialética, ainda no tempo dos falsos moralistas:
Será maior aquele que puder ser o mais solitário, o mais oculto, o mais divergente, o homem além do bem e do mal, o senhor de suas virtudes, o transbordante de vontade; precisamente a isto se chamará grandeza: pode ser tanto múltiplo como inteiro, tanto vasto como pleno.
Nietzsche, 1992: 120
Para Giacóia Jr., o impacto da filosofia de Nietzsche "advém de sua extraordinária clarividência":
"Ele pressentiu, em estado de gestação, as ameaças mais fatais de nosso tempo. Anteviu o panorama sombrio que poderia advir do projeto sociopolítico de uma sociedade de massas."
Nietzsche profetizou que a sociedade ocidental caminhava, desde então, para um nivelamento por baixo. Essa observação veio antecipadamente às grandes guerras, quando então milhões ficaram nivelados por baixo, a sete palmos. Alguém contesta?
A insensatez da inconsciência
Diante de tal farol, não havia mais como espichar o fio obscuro da perfídia. Eis a razão de colarem o dançarino na cadeira dos réus: internem o demente, seja na prisão, num hospício, ou já à cova. Rotulem-no: não presta. A feira é da ilusão!
Como seria mais fácil...
Se a estória fosse verdadeira. Seria só pedir."Pedi e recebereis." Quê barbada! Só em programa de rádio. Pois como dizem, Ele já nos deu a vida. O que mais cabe pedir? O que resta é fazermos por merecê-la, isto sim.
Infelizmente ou não, somos nós os responsáveis pelos nossos passos, desde a tenra idade, ainda que para eles necessitemos de estradas, de caminhos, de nossas circunstâncias. Mas essa dependência não atingiu os bandeirantes, por exemplo, de modo que permaneço fiel, sem o silogismo.
Posfácio
Não conte à minha mãezinha! Ela pensa que Deus me acompanha. Melhor assim.

O preconceito de Einstein

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*Epígrafe de A Gaia Ciência.
** Deus vai nos proteger, diz Renan Calheiros." (Jornal do Comércio. Porto Alegre, 5/10/2007, p. 23.)
Fontes
CHAMBERLAIN, Lesley, Nietzsche em Turim : o fim do futuro. Tradução de Pedro Jorgensen Jr. - Rio de Janeiro: Difel, 2000.
DAWKINS, Richard, Deus: um delírio. Tradução de Fernanda Ravagnini. - São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
GIACÓIA Jr., Oswaldo, Nietzsche. São Paulo: Publifolha.
DE MASI, Domenico. A economia do ócio / Bertrand Russell, Paul Lafargue; Domenico De Masi organização e introdução. Tradução de Carlos Irineu W. da Costa, Pedro Jorgensen Júnior e Léa Manzi. - Rio de Janeiro : Sextante, 2001.
NIETZSCHE, Friederich Wilhelm, Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Tradução, notas e posfácio de Paulo Cesar de Souza. – São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
____________ Assim falava Zaratustra (Livro para toda a gente e para ninguém). Apêndices de autoria de Elizabeth Förster-Nietzsche. Tradução de José Mendes de Souza. - 5 edição. - São Paulo: Edições e Publicações Brasil Editora S.A., 1961.
____________A Gaia Ciência; em: Nietzsche, Obra Incompleta. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. Col. Os Pensadores. - São Paulo: Abril Cultural, 1974; p. 195.
____________Crepúsculo dos ìdolos, ou como filosofar a marteladas. Tradução Carlos Antonio Braga. - São Paulo: Editora Escala
POPPER, Karl, A Sociedade Democrática e Seus Inimigos. - Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1959.
RUSSEL, Bertrand, No que acredito. Tradução de André de Godoi Vieira. - Porto Alegre: L&PM, 2007.




quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Reversão à vista!

"Esse aspecto genético do paralelo entre o desenvolvimento científico e o político não deveria deixar maiores dúvidas."
Thomas Kuhn
-
A TEORIA DA RELATIVIDADE e a mecânica quântica evidenciaram que as ciências tinham erigido uma Babel. As humanas, convocadas à inglória empreitada, converteram o ser num objeto programado ao fim idealizado, triste fim. No estupendo lapso, o poder foi exercido ao gosto dos velhacos e tiranos.
Maquiavel, Galileu, Bacon, Descartes, Newton, Hobbes, Rousseau, Bentham, Mill, Proudhon, Hegel, Malthus, Darwin, Freud, Comte, Keynes e Marx são as estrelas mais brilhantes da via láctea do inolvidável Platão. A montagem milenar, força concentrada de tamanhas brilhaturas, varou os tempos precipitando os povos à insanidade, desde as peripécias do Tirano de Siracusa* ao obscuro César Bórgia; do galante Cromwell, à sangrenta Revolução travestida democrática, daí ao Corso e às guerras civis e mundiais que se sucederam. Malgrado Napoleão morrer envenenado; o linchamento de Mussolini; os suicídios de Hitler e Getúlio; a bomba atômica; e o colapso soviético, suas perfídias ainda não foram enterradas. Até hoje os arranjos impregnam quase a totalidade das constituições, sempre conservadas e até aprimoradas pelo poderoso de plantão.
O inferno curte a festa, mas pelos derradeiros acordes. O Sol já está raiando. Os falsos brilhantes perdem o brilho emprestado pela própria ciência que outrora lhes oferecia guarida. É tempo de abandonar o salão:
"A civilização emergente estabelece um novo código de comportamento para nós e nos transporta para além da padronização, da sincronização e da centralização, para além da concentração de energia, dinheiro e poder. Essa nova civilização tem sua própria e distinta concepção de mundo, maneiras próprias de lidar com o tempo, o espaço, a lógica, e a relação de causa e efeito."
(Ormerod, p. 194.)
O homem está faminto e sedento após tanto sacrifício, tanto trabalho inútil, estéril, até destrutivo. Começa a ganhar coragem para perguntar por aquilo que necessita: interligações dinâmicas, sentido de valor individual, oportunidades compartilhadas, efeitos:

"Nosso relacionamento com os símbolos de autoridade do passado está se modificando, porque estamos despertando para nós mesmos como seres, cada qual dotado de governo interior. Propriedades, credenciais e status não são mais intimidativos. Novos símbolos estão surgindo: imagens de unidade. A liberdade canta não só dentro de nós, como em nosso mundo exterior. Sábios e videntes previram esta segunda revolução. O homem não quer se sentir estagnado, o que deseja é ser capaz de mudar." (Richards, M. C., The crossing point,1973; cit. Ferguson, p 57/8. )
Naisbitt (p.96) reconhece:
"De fato, a vida no espaço cibernético parece estar se moldando exatamente como Thomas Jefferson gostaria: fundada no primado da liberdade individual e no compromisso com o pluralismo, a diversidade e a comunidade."
Einstein apreciaria viver nesse espaço. O "Grande Relativo" sublinhou:
“A liberdade é uma necessidade fundamental para o desenvolvimento dos verdadeiros valores.” (Cit. Brian, p. 253.)
A expansão é simplificadora:
O fato significativo é que estamos, agora, deslocando-nos para futuras formas poderosas de processamento de conhecimento que são profundamente antiburocráticos.” (Toffler, p. 199.)
A velocidade das comunicações, e, por conseqüência, das alterações, as quais já Justificarnão conhecem tempo, nem barreira, sequer distância, indica que o político tem que ser sua imediata expressão, sob pena de triste fim, soterrado nos escombros de sua própria morada. Resta-lhe despir-se dos adereços e abandonar o palco ilusionista no qual florescem as ervas daninhas e o podre odor suavizado nas gotas dos falsos ideais.
____________
* Dionísio (405-367), "aluno" de Platão, "taxava tão pesadamente os cidadãos que, segundo Aristóteles, chegava a confiscar toda a propriedade deles." (Pipes, p. 281.)

FONTES
BRIAN, Denis, Einstein, a ciência da vida. Tradução Vera Caputo.- São Paulo: Editora Ática, 1998.
FERGUSON, Marilyn, A conspiração aquariana.Tradução Carlos Evaristo M. Costa, 10 ed.- Rio de Janeiro: Ed. Record, 1995.
KUHN, Thomas S., A estrutura das revoluções científicas. Tradução Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. - São Paulo: Ed. Perspectiva, 1982
NAISBITT, John, Paradoxo global. Tradução Ivo Korytowski. - Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1994.
ORMEROD, Paul, A morte da economia. Tradução Dinah de Abreu Azevedo. - São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
PIPES, Richard, Propriedade e liberdade. Tradução de Luiz Guilherme B. Chaves e Carlos Humberto Pimentel Fuarte da Fonseca.- Rio de Janeiro: Record, 2001.
TOFFLER, Alvin, Powershift: as mudanças do poder: um perfil da sociedade do século XXI pela análise das transformações na natureza do poder; Tradução de Luiz Carlos do Nascimento e Silva.- São Paulo: Ed. Record, 1992.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

A queda


Newton, perdoa-me; descobriste o único caminho que na tua época era possível para um homem com os mais elevados padrões de pensamento e criatividade. Os conceitos que criaste guiam ainda hoje o nosso pensamento em física. Sabemos, no entanto, que tem de ser substituído por outros, mais afastados da esfera da experiência imediata, se aspiramos a uma compreensão mais profunda das relações. A.Einstein 1
POIS FOI “APOIADO NO OMBRO DE GIGANTES” 2, entre os quais o traíra ateniense vulgo Platão 3; o herege italiano Galileu; o carrasco inglês Francis Bacon; e o pretensioso francês Renè Descartes, que o rev. Isaac Newton (1643-1727) assumiu a guarda da Casa da Moeda. Com sua chave-inglesa lo astuto ogrou acesso à gerência  da  valorosa casa; e com seu sintético arranjo, o gajo abriu as portas da Royal Society, aí sentando praça até falecer.
Newton vira a queda da maçã. Embevecido, não cogitou que ele próprio poderia despencar daqueles ombros. O polonês Copérnico (Châtelet, F.: 49) lhe revendera o bilhete:
E no meio repousa o Sol. Com efeito, quem poderia no templo esplêndido colocar essa luminária num melhor lugar do que aquele donde pode iluminar tudo ao mesmo tempo? Em verdade, não foi impropriamente que alguns lhe chamaram a pupila do mundo, outros o Espírito, outros ainda o seu reitor.
Ao adquirir o premiado, saiu às entrevistas. Tudo era suscetível de explicação, desde que combinado com a explicação mecânica. O mote platônico remetia o homem a descobrir a prova pela matemática. O Verbo não teria nada a influenciar. ou a mistificar . Ou, por outra, conforme Copérnico, o Verbo se mostrava, logicamente, pelo número. Pobre Shakespeare, relegado à vã filosofia. Número se faz provado e provável. Célebre se tornou a premissa “Hypoteses non fingo”:
Sobre isto, Newton foi bastante claro: tudo que não é deduzido dos fenômenos deve ser chamado de hipótese; e as hipóteses, sejam as metafísicas ou físicas, digam respeito às qualidades ocultas ou às mecânicas, não têm lugar na filosofia experimental.
Thuillier: 69
Toda a natureza foi transformada em palco de impulsos e atrações, de dentes, alavancas, e solavancos. A cientista da Nasa, Barbara Ann Brennam, Master em Física Atmosférica na Wisconsin University, compreende:
A mecânica newtoniana descreveu com êxito os movimentos dos planetas, das máquinas mecânicas e dos fluidos em movimento contínuo. O enorme sucesso do modelo mecanicista levou os físicos do século XIX a acreditarem que o universo, com efeito, era um imenso sistema mecânico que funcionava de acordo com as leis básicas da natureza. Considerava-se a mecânica newtoniana a teoria definitiva dos fenômenos naturais.Tudo podia ser descrito objetivamente. Todas as reações físicas tinham uma causa física, como bolas que se chocam numa mesa de bilhar. (p.43)
A pesquisadora ainda lembra: “essa maneira de ver as coisas era muito confortadora.”
Além de confortadora, era muy interessante, como vimos. Newton parece ter sido um grande marketeiro. Com tal furor, sobrepujou as críticas de Locke e Shaftesbury, passou por cima da mais correta teoria ondulatória do holandês Christiaan Huygens, não sem antes se servir do cálculo diferencial de Leibniz, de quem se aproximou. Em seu epitáfio, na Abadia de Westminster, a mando sabe-se lá de quem, está escrito:
"É uma honra para o gênero humano que um tal homem tenha existido."
Na verdade foi uma lástima. Só depois de séculos de engano, tudo foi desvendado. Depois de Einstein, muitos, entre os pioneiros Alfred North Whitehead, perceberam o grave deslize:
"Por mais que tenham sido ditas com orgulho, as palavras de Newton repousam num completo equívoco sobre a capacidade da mente humana para lidar com a natureza externa." (Matemática, cit. Fadiman, p.333.)
Prigogine endossa:
A natureza não tem um nível simples. Quanto mais tentamos nos aprofundar, maior a complexidade com que nos defrontamos. Nesse universo rico e criativo, as supostas leis de estrita casualidade são quase caricaturas da verdadeira natureza da mudança. Há uma forma mais sutil de realidade, uma forma que envolve leis e jogos, tempo e eternidade. Em lugar da clássica descrição do mundo como um autômato, retornamos ao antigo paradigma* grego do mundo como uma obra de arte.
Ferguson: 164
O paradigma 4 da arte foi privilégio de Atenas, mas não de Esparta, para onde mirava o "coração" de Aristocles. É compatível com a democracia liberal, não com o totalitarismo bestial. Não são poucos os que até se penitenciam. Sir James Lightill (cit. Coveney, Peter e Highfield, Roger: 242) é dos mais notáveis:
Hoje em dia todos nós estamos profundamente cônscios de que o entusiasmo que nossos precursores tinham em relação aos feitos maravilhosos da mecânica newtoniana levou-os a fazer generalizações nesta área de previsibilidade, na qual de modo geral talvez tenhamos tendido a acreditar, antes de 1960, mas que hoje reconhecemos que era falsa. Queremos nos desculpar coletivamente por haver confundido o público instruído em geral, fazendo-os acreditar em idéias sobre o determinismo de sistemas que satisfazem as leis de movimento de Newton, as quais, a partir de 1960, foi provado serem incorretas.
A locomotiva newtoniana puxa enorme plêiade, ávida em reconhecimento científico. Eis a lista dos passageiros mais salientes: Rousseau, Hegel, Bentham, Mill, Marx, mesmo Darwin, Sorel, Comte, Weber, Durkheim, Freud, Skinner, Keynes, Galbraith. No vagão verde-amarelo ainda predominam os corais de Pontes de Miranda e Celso Furtado, acompanhados de desafinadas orquestras sociológicas embarcadas na Sorbonne. A platéia se perfila. Urge alertá-la: o trem da carochinha chegou no fim-da-linha. Ao desembarque, please.
______________
Notas
1.Cit. Pais, A. p. 15.
2.Célebre oração de Newton: "Se fui tão longe foi porque estava apoiado no ombro de gigantes." Arthur Koestler analisa alguns “gigantes”. Johannes Kepler: "Uma mente para a qual toda a realidade última, a essência da religião, da verdade e da beleza estava contida na linguagem dos números." Depois, Galileu Galilei e René Descartes, que "prometeu reconstruir o universo inteiro a partir apenas de matéria e extensão e que inventou a mais bela ferramenta de raciocínio matemático, a geometria analítica". (The Sleepwalkers, 1978, cit. Lemkow, p. 84)
3. Aristocles era seu nome verdadeiro. Ainda: "Durante seu desenvolvimento pelo pensamento grego, a filosofia da natureza enveredou por um caminho equivocado. Esse pressuposto errôneo é vago e fluído no Timeu de Platão. (Whitehead, Alfred North: 31)
4. O termo faz-se corriqueiro até em comentários esportivos. Do grego paradeigma, significa “modêlo” ou “padrão”; foi reintroduzido por Thomas Kuhn (1922-1996) no fim dos anos sessenta. The structure of scientific revolutions caracteriza como uma base para a edificação científica. Pelo reintrodutor (p.13): "Considero paradigmas as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência.”
FONTES
CHÂTELET, François, História da Filosofia, 2. Ed. - 4 V., 2. V: De Galileu a J.J.Rousseau. - Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1995.
COVENEY, Peter e HIGHFIELD, Roger, A Flecha do Tempo. Tradução J. E. Smith Caldas. - São Paulo: Ed. Siciliano, 1993.
FADIMAN, Clifton org., O Tesouro da Enciclopédia Britânica - O Melhor do Pensamento Humano desde 1768. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, 2. Ed. - Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1994.
FERGUSON, Marilyn, A Conspiração Aquariana. 10. edição.Tradução Carlos Evaristo M. Costa. - Rio de Janeiro, Ed. Record, 1995.
PAIS, Abraham, Sutil é o Senhor, A Ciência e a Vida de Albert Einstein. Tradução Fernando Parente e Viriato Esteves. - Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1995.
THUILLIER, Pierre, De Arquimedes a Einstein: a face oculta da invenção científica. Tradução Maria Inês Duque-Estrada; revisão técnica César Benjamim. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994.
WHITEHEAD, Alfred North, O conceito da natureza.Tradução Julio B. Fischer. - São Paulo: Martins Fontes, 1993.




segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Falta de imaginação

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"O alfa e o ômega da teoria política é a questão do poder: como conquistá-lo, como conservá-lo e perdê-lo, como exercê-lo, como defendê-lo e como dele se defender. "
Norberto Bobbio


NA DÉCADA de1920, Mussolini, e em seguida Hitler, se agadanhavam do poder. Keynes colheu o ensejo para publicar a “oração fúnebre do liberalismo”, vaticínio intitulado O fim do laissez-faire. Em apenas três anos a Grande Depressão confirmou o prenúncio, granjeando-lhe a fama. Premonição ou autoria?
Peringer entende pela primeira:
"Keynes teve, porém, a inteligência de, primeiramente, ter apresentado uma análise alternativa para explicar os fenômenos depressivos de sua época que pareciam encontrar suporte nas evidências dos fatos, provocado pela Grande Depressão, e, em segundo lugar, inserir o seu pensamento dentro de um arcabouço teórico bem fundamentado. Ademais, mesmo apresentando uma teoria muito bem estruturada para sua época, nunca colocou qualquer dúvida na validade da equação quantitativa da moeda, apresentando, apenas, novas funções a algumas de suas variáveis." (Peringer: 6)
Especulamos pela segunda:
"Antes de Keynes os governos liberais temiam, com razão, perturbar os equilíbrios econômicos se manipulassem a moeda, o orçamento, o imposto, as taxas de juros. A partir de então, tendo justificativas para atuar nesta direção, a estatização se torna 'científica', intelectualmente respeitada." (Sorman, 1989: 54/55)
O método se impunha prático, viável e oportuno. Não requereria qualquer pudor ou piedade:
"Examinando com acuidade o significado dessa crise na passagem da democracia liberal para a democracia social, Gustavo Radbruch excelentemente escrevia, ao abrir-se a década de 1930, que em semelhante estado de coisas não se trata de convencer o competidor, mas de coagi-lo ou esmagá-lo, pois a luta pelo poder substitui em definitivo a luta pela verdade." (Bonavides: 280)
Agora era Keynes, e não mais o mercado, quem comandava as escolhas:
"Mesmo o leitor menos generoso admitirá que o valor lúdico da General theory of employment do sr. Keynes é realçado consideravelmente pelos seus aspectos satíricos. Mas também está claro que muitos leitores ficaram bastante perplexos com essa Dunciad." (Hicks, J. R., O sr. Keynes e os clássicos: uma sugestão de interpretação, in Hilferding: 143)
Os destemidos yankees e o mundo inteiro se renderam à mágica estória do Chapeuzinho Vermelho:
"O capitalismo de livre empresa, um mercado onde perdurassem a competição e a livre iniciativa, passou a ser considerado como instrumento de exploração do povo, enquanto uma economia planejada era vista como alavanca que colocaria os países no caminho do desenvolvimento. Caberia ao Estado, portanto, o controle da economia doméstica, das importações e a alocação dos investimentos de maneira a assegurar que as prioridades sociais se sobrepusessem à demanda egoísta dos indivíduos." (Milton Friedman, Capitalism and freedom; cit. Peringer: 126)
O Lord conhecia a vilã, a via-veneto da depressão econômica - a escassez monetária - mas os financistas com ela lucravam duplamente:
“Por conseguinte, os devedores tendem a perder com a deflação, e os credores, a ganhar’.” (Friedman: 114).
Russell confirma:
"Na verdade os interesses dos banqueiros têm sido contrários aos dos industriais: a deflação que convém aos banqueiros paralisou a indústria britânica." (2002: 68; cit. De Masi, 2001:99)
Inéditas taxas de juros frustraram gastos e investimentos de consumidores e empresas, de modo que a economia interna se enfraqueceu e o desemprego aumentou:
"Não obstante, o que se observou no sistema financeiro internacional foi o surgimento de uma brecha entre as duas taxas: os juros incidentes sobre empréstimos bancários mantiveram-se elevados enquanto o retorno esperado de investimentos produtivos declinava." (Hilferding: 101)
* * *
Em 1968 os estrangeiros residentes da Sorbonne se debruçavam nos mirabolantes planos de manipulação de massa, a fim de persuadir os do chão-de-fábrica. Na Saint Michel des Près, bem em frente ao portão, surgiu o famoso cartaz:
"É PRECISO QUE A IMAGINAÇÃO CHEGUE AO PODER."
Marcos Valério foi requisitado.
__________
* P. 252.
Fontes
BOBBIO, Norberto, Teoria geral da política: a filosofia política e as lições dos clássicos; organizado por Michelangelo Bovero; tradução Daniela Beccaccia Versani. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
BONAVIDES, Paulo, Ciência política. 10. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 1994.
DE MASI, Domenico, A economia do ócio / Bertrand Russell, Paul Lafargue; Domenico De Masi organização e introdução; tradução Carlos Irineu W. da Costa, Pedro Jorgensen Júnior e Léa Manzi. Rio de Janeiro: Sextante, 2001.
FRIEDMAN, Milton, Episódios da história monetária; tradução Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro: Record, 1994.
HILFERDING, Rudolf; SCHUMPETER, Joseph A.; KEYNES, John Maynard; HICKS, John R.; HAYEK, Friedrich A.; FRIEDMAN, Milton, Os clássicos da economia; organização de Ricardo Carneiro; revisão de Fátima de Carvalho M. de Souza (coord.) Isaías Zilli e Márcio Guimarães. São Paulo: Ática, 1997.
PERINGER, Alfredo Marcolin, Monetarismo vs keynesianismo vs estruturalismo: inflação, desemprego e taxas de juros. - Rio de Janeiro: Globo, 1985.
SORMAN, Guy, A solução liberal; tradução Célia Neves Dourado; 3. ed. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1989.