terça-feira, 17 de agosto de 2010

O desconhecimento de Locke* no Brasil

O principal propósito da minha apresentação é provar aos senhores que não se está ensinando ciência alguma no Brasil! - FEYNMAN, R.  O Senhor está brincando, Mr Feyman?**
A Revolução Francesa praticamente apagou a Gloriosa, esta sem-graça, sequer heróica. O sucesso do Corso determinou a fuga lusa e inédita preocupação inglesa. O êxito francês e o êxodo português indicaram a eficácia do molde platônico. O idioma dos francos era diplomático; e para nosotros, familiar.  Sua cultura, admirada pelo mundo todo. Arquitetura,  moda e perfumes encantavam os primos pobres. Art Déco ou Art Nouveau mostravam o gabarito da parente. As construções foram mudando a paisagem e os costumes portugueses ´por aqui introduzidos pela corte imperial. A moda chic preciítava os moradores a seguirem idiossincracias parisienses,  incrementadas especialmente nos cumprimentos, nas danças, e nos passeios pelas boulevards cariocas. Vê-se o estilo da Cidade-luz nas tradicionais luminárias, e em prédios públicos da ex-capital federal. Na Glória mantém-se a fachada de Pantheon da Igreja Positivista do Brasil, erguida pelos militares republicanos.com fachada de Pantheon para justificar a sapiência da imposição. Além dos livros o templo abriga várias estátuas e todo um acervo de AUGUSTE COMTE,  Imagens da amante CLOTILDE DE VAUX representam a humanidade.
    Apenas a ti, minha santa Clotilde, estou reconhecido por não sair desta vida sem ter experimentado as melhores emoções da natureza humana. Um ano incomparável fez surgir espontaneamente o único amor, puro e profundo, que me era destinado. A excelência do ser adorado permite-me, na maturidade, mais favorecida do que a minha juventude, vislumbrar em toda a sua plenitude a verdadeira felicidade humana.Augusto Comte
    Um cofre guarda  valiosos objetos pessoais de COMTE - copos, garfos, livros, e autógrafos. Em um armário ainda estão vestes sacerdotais usadas nas cerimônias para impressionar os caboclos.
    O comtismo serve então de fundamentação doutrinária a uma facção política conservadora e anti-democrática, que durante quarenta anos dominou o Rio Grande do Sul, e daí se irradiou para todo o país. SILVA, Prof. Nady Moreira da, Universidade Federal do Maranhão, Positivismo no Brasil
    Embora a Sorbonne originalmente exibisse, já no portal, um monumento à sumidade, a França não engolia o gabarito. Ao  contrário, a magestosa capital, remetida à convulsão socialista justamente no meado do XIX, simplesmente passou a ignorar qualquer ciência ou ideologia. Para nós, entretanto, longe do terror jacobino, do descalabro napoleônico, e da confusão da comuna, a engenharia retórica bastava para  alavancar e sustentar o torrão brasileiro, ao gosto de Arquimedes, no rumo a um pretenso  desenvolvimento, como se ele fosse um alvo estanque, único, insofismável, e por tudo inexorável, e com disciplina rapidamente lhe atingiríamos.
    Inspirados na filosofia de Auguste Comte e na sua Teoria dos Três Estados ou Estágios de Civilização (o teológico, o metafísico e o científico ou positivo), os republicanistas que se opunham aos democratas defendiam uma república provisória com meio para alcançarmos a ordem e o progresso. Segundo eles, somente numa ditadura sociocrática, nos moldes positivistas, poderiam ser resolvidos os nossos problemas; para atingirmos esse objetivo tornava-se necessária a instauração desse regime ditatorial e, ao combaterem então a monarquia esses políticos defendiam o republicanismo.  DA SILVA, Prof. N; M. D., Positivismo no Brasil, Univ. Fed. Maranhão.
    Retroagimos uns dois séculos. No meado do XVII  a Inglaterra já  tinha mandado  a "ditadura sociocrática" às favas, antes mesmo dela nascer. 
    Locke e Shaftesbury consideravam o despotismo como um mal francês e, quando escreveu o documento, em 1679, Locke acabava de voltar da França, após estudar o mal francês enquanto sistema político. A filosofia de Shaftesbury foi planejada para combater a interpretação mecanicista da realidade, mas sobrepujou a filosofia daqueles em seus esforços para salvar as artes dos efeitos das idéias mecanicistas: aspirou fundar bases não só para a verdade e a bondade, como também para a beleza. BRETT, R. L.: 109 
    "Foi igualmente pela recusa do dualismo cartesiano, e pela defesa da observação e da análise contra o espírito sistemático, que Locke se impôs como 'mestre da sabedoria' aos filósofos franceses do século XVIII." (CHÂTELET: 228). Na maioridade do XXI, ainda patinamos na metonímia, no conto de Comte, empacotados para presentes.
    Nada mais estranho ao pensamento de Comte do que a noção liberal de direitos individuais: 'Todo direito individual é uma abstração, a sociedade é a única realidade'. Nada de divisão de poderes: o Legislativo e o Judiciário deviam ser inteiramente subordinados ao Executivo. Tudo para o Estado, nada para a sociedade; em suma, um completo sistema de despotismo espiritual, político e social.  CANGUILHEM, Georges, Cahiers pour l'analyse; cit. DESCAMPS, C.,: 88
    Pagar mico é com a gente: Quando Einstein por aqiu aportou o fiasco foi total: “O senhor Licínio Cardoso, na primeira fila, tinha o ar de quem, acompanhando a exposição feita, contrapunha mentalmente aos princípios da mecânica einsteniana os dogmas de Augusto Comte.” ( cit. MOREIRA, Ildeu de Castro e VIDEIRA, Antonio Augusto Passos Org.:124)
    As ciências humanas que se desenvolveram no interior da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, como era então denominada por ocasião de sua fundação, teve a sua marca francesa. Sua origem foi sociológica com forte influência filosófica. QUIRINO, C., Depto de Ciência Política da USP - Estud. av. vol.8 no.22 São Paulo Sept./Dec. 1994
    TOCQUEVILLE era marca francesa, mas provavelmente de algum vinho  Ao brasileiro. importava a coleção prêt-à-porter, literalmente dos pés à cabeça. Anos-luz da sofisticação de Versailles, o chapéu atravessado de NAPOLEÃO caiu bem na turma de LAMPIÃO. E para o papel de JOSEFINA, pintou MARIA BONITA.
    Mercê do desenvolvimento agrário, maciça imigração, e parque industrial, os paulistas ainda se esmerararam pela aridez ítalo-gemânica.  A dialética gerava positivismo à granel.

    Lia-se Marx, Weber, Dobb, Mannheim, Lukács, Heller e, em 1968, muito Marcuse.Também Gramsci começava a ser estudado. De início, no curso de História das Idéias, foram introduzidos os seus escritos sobre Maquiavel, mas nos anos 70, tornou-se um dos autores mais trabalhados, a ponto de, no princípio dos anos 80, ter sido tema de tese de livre-docência de um dos professores da Cadeira. Nos cursos de Instituições Políticas Brasileiras discutia-se desde as questões referentes ao escravismo, ao feudalismo e ao capitalismo na formação do estado brasileiro, debate que foi uma constante durante certo período, até os aspectos mais atuais do país, ou seja, a revolução brasileira, o populismo e o autoritarismo. Caio Prado e Celso Furtado eram leituras obrigatórias...QUIRINO, Célia, Departamento de Pós-graduação em Ciências Políticas da USP
    Curiosamente nas listas de preferências da famosa universidade não aparece HEGEL, padrasto de todos, inclusive COMTE. O pai é PLATÂO. As falhas transcendem.

    Era 1970 e eu tinha 18 anos. Resolvi então buscar nos clássicos o fundamento de que precisava. Marx silenciara sobre o problema da luta armada, o Brasil de 1970 nada tinha a ver com a Rússia de 1917, Mao era um pensador budista esotérico, Fidel Castro era bom de discurso, mas não tinha escrito uma linha sequer. Após peregrinações sem fim pela literatura revolucionária, Gramsci veio em meu socorro. Fiquei confuso com seus argumentos, lidos em traduções parciais de seus escritos para o espanhol, mas deles extraí o jargão e o mote que me interessava: “A luta armada como estratégia de conquista do poder está equivocada porque ignora o papel da conquista da hegemonia política na sociedade civil.”  Rakudianai, by Persio Arida, ex-Presidente do Banco Central de FHC.

    Budista cocker de GRAMSCI e MARX dá conta não só da ignorâncioa, como principalmente da  falsidade ideológica que nos vem sendo impingida. Em 70 a Teoria da Relatividade já tinha cumprido jubileu de ouro. Nenhum dos citados logrou conhecê-la. Podemos elencar uma centena, dentre as quais uns dez autores de leitura obrigatória em qualquer segmento acadêmico internacional, até hoje por aqui desdenhados . J. LOCKE, (cit. BARNETT, L.:33) foi pioneiro em adotar as perspectivas da relatividade e até mesmo da quântica:


    Há duzentos anos, o filósofo John Locke escreveu, em seu grande tratado 'Sobre o entendimento humano': 'Se encontrarmos as pedras de xadrez nas mesmas posições que as deixamos, diremos que elas não foram movidas, ou permaneceram imóveis, mesmo que o tabuleiro, nesse interim, tenha sido transportado para outro cômodo. Da mesma forma diremos que o tabuleiro não se moveu, se ele permanecer no mesmo lugar em que se encontrava na cabine, embora o navio esteja andando. E diremos, também, que o navio se encontra no mesmo lugar, desde que se mantenha à mesma distância da terra, embora o globo tenha dado uma volta completa. Na verdade, as pedras de xadrez, o tabuleiro e o navio, tudo isso mudou de lugar em relação a corpos situados muito mais longe'. Esse quadro das pedras que se movem, embora se mantenham no mesmo lugar, representa um dos princípios da relatividade, a relatividade de posição. Mas isto também sugere outra idéia, a da relatividade de movimento.
    Infelizmente, nós, brasileiros, nunca lemos Burke, Locke ou Tocqueville, nem Acton, Burkhardt ou Hayek, ou utros bons autores anglos-saxônicos. Preferimos as divagações românticas dos discípulos de Rousseau, as chatices de Comte e a filodoxia ou pretensioso amor das opiniões especulativas e rebuscadas dos autores da rive-gauche, influenciados por Marx e seus corifeus. Gramsci e os medíocres professores da Escola de Frankfurt ainda continuam aqui hegemônicos. PENNA, O.M., O espírito das revoluções: da revolução gloriosa à revolução liberal: 469
    Em relação à educação no Brasil, tive uma experiência muito interessante. Eu estava dando aulas para um grupo de estudantes que se tornariam professores, uma vez que àquela época não havia muitas oportunidades no Brasil para pessoal qualificado em ciências. Esses estudantes já tinham feito muitos cursos, e esse deveria ser o curso mais avançado em eletricidade e magnetismo – equações de Maxwell, e assim por diante. Descobri um fenômeno muito estranho: eu podia fazer uma pergunta e os alunos respondiam imediatamente. Mas quando eu fizesse a pergunta de novo – o mesmo assunto e a mesma pergunta, tanto quanto eu podia–, eles simplesmente não conseguiam responder! RICHARD FEYNMAN

    O ministro da Educação, Fernando Haddad chamou atenção para o aumento de 140 mil analfabetos entre as pessoas com mais de 25 anos, especialmente no Sul e no Sudeste, o que para ele não é 'algo compreensível'. Segundo ele, é como se pessoas que se declararam alfabetizadas em um ano se declarassem analfabetas no ano seguinte. Terra, 18/9/2009
    O que está acontecendo no Brasil é uma farsa e uma fraude com dinheiro público. Se fosse algo que pudesse ser resolvido mudando a política, mas não é. Será um"dano irreparável". Eu diria hoje, sem problemas, que temos de 30 a 40 mil doutores 'Mobral' no Brasil, disputando empregos HERMES, Marcelo, Prof. Biologia Molecular - 1/7/2010 - http://migre.me/V3lo
    Pelo Deifico oráculo sagrado
    Tinha-lhes Pítia ainda acrescentado:
    Os reis, aos quais pertence por dever
    O bem de Esparta amável promover,
    Serão os chefes e moderadores
    Do conselho, assim como os senadores;
    Sempre de acorde, a massa popular
    Deverá limitar-se a confirmar
    .
    O conceito espiritual do reino de Deus degenerou numa instituição eclesiástica, jurídica, política, militar, financeira que, substituindo a força do espírito pelo espírito da força, fez da Civitas Dei uma Civitas Terrena, com o agravante que esta cidade terrena é acintosamente proclamada como sendo a cidade de Deus. ROHDEN, H.: 28.

    No raiar dos '30 o Brasil  embarcava na  metonímia: “Getúlio era um fiel discípulo do secretário florentino, daquele que Gioberti considera o “Galileu da política” e Emil Ludwig chama de 'instrutor dos ditadores'.” (Capanema, Gustavo, Dois Traços Getulianos em Maquiavel, Folha de São Paulo, 21/8/1977
    “Ele fez uma poderosa e adaptável mistura política. Atuou dentro do lema positivista do Brasil: 'Ordem e Progresso'." (Bourne, Richard, Getúlio Vargas of Brazil (Sphinx of the Pampas) p. 91, 200/221)
    O traje do cangaceiro é um dos exemplos demonstrativos do comportamento  brasileiro. VALLADARES, C. , cit, MELLO, F. P. , Estrelas de Couro - A Estética do Cangaço
    A Universidade brasileira se desenvolve sob estas fortíssimas influências: descompromisso elitista das 'Grandes Écoles', o reducionismo profissionalizante agmático dos 'Land Colleges Americanos', e a departamentalização do saber de Humbolt e Descartes. Nesse ambiente cultural é formada em 1934 a primeira Universidade Brasileira, a Universidade de São Paulo, e, logo em seguida, em 1935, a Universidade do Distrito Federal. PINOTTI, JOSÉ ARISTEMO, Professor titular e Diretor da Divisão de Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo/Hospital das Clínicas, Ex-Reitor da Unicamp. - A Universidade : do Arcaísmo à Transcendência; Folha de São Paulo, 8/2/2003: 5
    Com o perdão do conceituado professor, esse ambiente nada tinha de cultural:.
    O país ficou entregue, como não é segredo para ninguém, a uma quadrilha de assassinos e torturadores e de gatunos profissionais, que tinham carta branca para a consumação dos crimes mais hediondos contra os adversários do regime. MUNIZ, E., cit. JORGE, FERNANDO: 7
    Getúlio esmagava o povo, especialmente os paulistas, dizimados na Revolução Constitucionalista; (1932).  Como o puro-sangue MUSSOLINI,  o Petiço também posava de "estadista":
    É o Estado quem deve educar os cidadãos para a vida civil, tornando-os conscientes de sua missão, e convidando-os à unidade; harmoniza-lhes os interesses na justiça; transmite as conquistas do pensamento, nas ciências, nas artes, no direito, na humana solidariedade; conduz os homens, da vida elementar da tribo, à mais alta expressão humana de poder, que é o Império; conserva para os séculos o nome dos que morreram pela sua integridade ou para obedecer às suas leis; indica como exemplo, e recomenda às gerações que vierem, os capitães que o acresceram de território e os gênios que o iluminaram de glória. Quando declina o senso do Estado e prevalecem as tendências dissociadoras e centrífugas dos indivíduos e dos grupos, as sociedades nacionais se dirigem para o ocaso. MOURA, G. DE ALMEIDA, O Fascismo Italiano e o Estado Novo Brasileiro, www.ebooksbrasil.org/eLibris/fascismoit
    Restou o lamento-predição do sucessor de LOCKE: 

    Aqueles que cobram impostos nadam sobre tesouros. entre eles há poucos Tântalos. Começam, no entanto, esse trabalho na mais completa miséria. São desprezados como lama quando são pobres; quando ricos, são muito estimados; por isso não negligenciam em nada para conquistar a estima... A instituição dos lacaios é mais respeitável na França que em qualquer outro lugar...MONTESQUIEU (Cartas Persas de 1717: 241) 
    O pragmatismo "cultural"  é que vinha a calhar:
    O conhecimento positivista relacionava-se a meras utilidades físicas, e carecia de uma associação às crenças santificadas pelos sacrifícios dos ancestrais e pelo culto dos contemporâneos. Dado o seu caráter limitado e concreto, êle era  árido, rígido e frio. DEWEY, John,: 45
    Pois há mais de tres séculos o "mestre da sabedoria" evidenciara a vulnerabilidade da pretensão que lograria seu ápice  no Positivismo Lógico, começo de seu fatal, merecido e definitivo dèbacle, na medida que a civilização começou a tomar ciência da constituição atômica do Universo, e da relatividade daí decorrente: A realidade, contudo,para nós  é o que menos interessa. Importa fazer valer o desígneo platônico, ao gáudio exclusivo do porta-estandarte. Quando RICHARD FEYNMAN aportou¹, o caudilho ainda mantinha seu cômodo no Catete. Leviathan resplandecia:

    Assim como Newton formulou as leis fundamentais da realidade física, os filósofos e sociólogos, viajando na sua esteira, esperavam descobrir os axiomas e princípios básicos da vida social. Seu universal maquinismo de relógio converteu-se em modelo a partir do qual comparava-se o Estado com mecanismo preciso, sujeito a leis, e retratavam-se os seres humanos qual máquinas viventes.  ZOHAR, D., 2000: 23
    Nas vésperas da  traição ao Imperador os lobos já tratavam da "reforma agrária" para si mesmo

    A República está próxima. E não há como resistir. As sociedades obedecem ao influxo de leis tão exatas, precisas e invariáveis como as que regem os fenômenos transformadores do mundo físico. É que os fenômenos sociais estão sujeitos às leis naturais, como os fenômenos físicos. É que há uma física social. CASTILHOS, Julio, cit. FLORES, Hilda Agnes Hubner: 18
    .Os calibradores sociais valorizavam técnicas de engenharia, direito, de economia, preferencialmente em conjunto,como rebanho
    A Politécnica também produzia empresários equipados com sobrenomes que convinha, e tinha os contratos necessários para obter as licenças, autorizações e concessões especiais para seus projetos. Este tipo de empresário era, decididamente, um defensor da iniciativa privada, mas só tinha condições de se desenvover à sombra do Estado. www.anpocs.org.br
    Nossa carreta atolou na ignorância:
    Este, aliás, é um ponto que passa em branco na maioria dos discursos sobre a alfabetização científica: quando se reconhece o valor do ensino e da divulgação da ciência, o foco costuma repousar sobre os benefícios econômicos — pesquisa e desenvolvimento, novos produtos, engenharia — que são, evidentemente, reais e importantes. Mas pouco se fala sobre a educação científica como fator de cidadania e, se me permitem o termo, de defesa pessoal. ORSI, Carlos, Analfabetismo científico (Estadão, 22/4/2010)

    A universidade brasileira ainda não existia, é certo, mas também há consenso em se afirmar que sua emergência foi retardada pela posição dos positivistas comtianos - ortodoxos ou heterodoxos, autoritários ou democráticos - que consideravam que, no clima de opinião vigente, sua instalação apenas aumentaria a confusão existente no país entre as etapas ou estágios de desenvolvimento do pensamento. Mais ainda, o comtismo considerava a ciência como fechada, como já sintetizada. A presença do comtismo pode ter realmente significado um contrapeso a qualquer iniciativa de convidar Einstein a vir ao Brasil. Um argumento forte é o fato de que a polêmica entre comtianos defensores da mecânica clássica e einstenianos era pública e reconhecida nos jornais. LOVISOLLO, H., Einstein: Uma viagem, Duas Visitas; cit. MOREIRA, I. e VIDEIRA, A. Passos Org., Einstein e o Brasil: 242

    Por isso não é de estranhar que muitos universitários ainda imaginem Einstein como uma espécie surrealista de matemático, e não como descobridor de certas leis cósmicas de imensa importância na silenciosa luta do homem pela compreensão da realidade física. Eles ignoram que a Relatividade, acima de sua importância científica, representa um sistema filosófico fundamental, que aumenta e ilumina as reflexões dos grandes epistemologistas - Locke, Berkeley e Hume. Em conseqüência, bem pouca idéia têm do vasto universo, tão misteriosamente ordenado, em que vivem. BARNETT, Lincon, O universo e o Dr. Einstein: 12
    Com efeito, hoje sabemos que o direito está imerso numa atmosfera ideológica e a teoria geral do direito, empenhando-se em abstrair este aspecto do direito, só pode falsear as perpectivas e, com isso, fica, por sua vez, sujeita à acusação de ser mais ideologia do que ciência. PERELMAN: 621

    No Brasil, quem fica com a renda dos trabalhadores é o Estado. Devolve depois? Para os trabalhadores das empresas privadas, pouco. Mas capricha nas transferências para interesses especiais entrincheirados, universidades para meninos e meninas ricas e funcionários públicos. O componente fiscal no Brasil é terrível em qualquer atividade. Na distribuição da receita bruta de uma empresa não financeira, o primeiro beneficiário é o Estado, que fica sempre com mais de 42% da receita. Os trabalhadores ficam com cerca de 20%. Fornecedores, credores, prestadores de serviço públicos e privados e os acionistas ficam com o restante. Desde 2002 a União investe menos de 1% do PIB. Existem estudos empíricos que mostram que os trabalhadores com menos de dois salários mínimos pagam mais de 50% da sua renda em impostos. E o Bolsa Família custa 1,7% da receita da União. FONSECA, O. Só depois de impostos - 9/6/2010
    Obscuro exilado e insignificante RICHARD FEYNMAN (O significado de tudo: reflexões de um cidadão cientista: 14) assim abria suas palestras: “Não há praticamente nada do que vou dizer esta noite que não pudesse já ter sido dito pelos filósofos do século XVII”. E para encerrá-las, o pesquisador de Los Alamos trocava o “vou dizer” por “eu disse“; e repetia as concepções de LOCKE & SMITH:
    Nenhum governo tem o direito de decidir sobre a verdade dos princípios científicos nem de prescrever de algum modo o caráter das questões a investigar. Também nenhum governo pode determinar o valor estético da criação artística nem limitar as formas de expressão artística ou literária. Nem deve pronunciar-se sobre a validade de doutrinas econômicas, históricas, religiosas ou filosóficas. Em vez disso, tem para com os cidadãos o dever de manter a liberdade, de deixar os cidadãos contribuírem para a continuação da aventura e do desenvolvimento da raça humana. Obrigado
    Rezemos.
    ___________

    Notas
    * John Locke (1632-1704) foi um filósofo britânico, acadêmico de Oxford e pesquisador da área médica, cuja associação com Anthony Ashley Cooper (mais tarde o primeiro Conde de Shaftesbury) o levou a tornar-se, sucessivamente, uma autoridade do governo encarregada de coletar informações sobre o comércio e colônias, escritor econômica, activista da oposição política e, finalmente, um revolucionário cuja causa acabou por triunfar na Revolução Gloriosa de 1688. Grande parte da obra de Locke é caracterizada pela oposição ao autoritarismo. Essa oposição é tanto no nível do indivíduo e do nível de instituições como governo e igreja. Para o indivíduo, Locke quer cada um de nós a usar a razão para procurar pela verdade em vez de simplesmente aceitar a opinião de autoridades ou ser objecto de superstição. Ele quer que nós assentimento proporção de proposições para a prova para eles. No nível das instituições torna-se importante distinguir o legítimo das funções ilegítimas das instituições e fazer a distinção correspondente para os usos da força por parte dessas instituições. O lado positivo do anti-autoritarismo de Locke é que ele acredita que usar a razão para tentar compreender a verdade, e determina as funções legítimas das instituições vai otimizar o florescimento humano para o indivíduo e sociedade, tanto no que diz respeito ao seu bem-estar material e espiritual. Este, por sua vez, equivale a lei natural a seguir e ao cumprimento do propósito divino para a humanidade. Ensaio de Locke Um monumental sobre o entendimento humano se preocupa com a determinação dos limites da compreensão humana em relação a Deus, o eu, espécies naturais e artefatos, bem como uma variedade de diferentes tipos de ideias. Assim, diz-nos com algum detalhe o que se pode legitimamente afirmar que sabe eo que não pode. Locke também escreveu uma série de importantes obras políticas, religiosas e educacionais, incluindo os Dois tratados sobre o governo, as Cartas sobre a tolerância, a razoabilidade do cristianismo e reflexões acerca da Educação.
    ** Entre 1951 e 1952, Feynman passa vários meses no Brasil e sua estada é relatada no capítulo "O americano, outra vez!" do sua obra “O senhor está brincando, Sr. Feynman!”. Ele descreve sua divertida experiência com o povo brasileiro, com a língua portuguesa e com a música (percussão e samba). No final do capítulo ele se utiliza da experiência que teve com seus alunos e suas falhas durante o aprendizado para fazer uma crítica ao método de aprendizado por meio da memorização mecânica,  em vez de estimular o raciocínio.

    segunda-feira, 16 de agosto de 2010

    O desconhecido Locke


    Talvez nunca tenha havido espírito mais sensato, mais metódico, um lógico mais exato que o senhor Locke; não era, contudo, um grande matemático.
    VOLTAIRE,
    Vida e Obra: 25
    John Locke foi o maior gênio de sua época. Supera Newton, há século revogado. Em que pese decorridos mais de tres séculos, entretanto,o artífice da democracia ainda é pouco conhecido no mundo latiinoamericano. Tal lapso é quase imperdoável.
    Muitos ingleses que emigraram para as colônias conheciam as idéias de Locke. De muitas formas, Locke também passou a fazer parte da tradição política das colônias. Os estudantes das colônia iam para a Europa em busca das universidades, voltavam influenciados por Locke e pelos filósofos iluministas do século XVIII. A política iluminista atravessava o oceano e frutificava na colônia. Karnal: 62   
    Sonegada das informações, dedicada professora de adolescentes solicita um concernente tecido, um fio-de-ariadne para escapulir do brete que se vê envolta.  Respondo-lhe em dois tempos. O lapso tem tamanho de buraco-negro, mas o contorno é vie-en-rose,  de modo que somos todos enformados à alienação: :
    A Grécia, que nos educou, soltou nossas línguas e nos fez indiscretos a nativitate. O aticismo havia triunfado sobre o laconismo, e para o ateniense viver era falar, dizer, esganiçar-se, dando ao vento em formas claras e eufônicas a mais arcana intimidade. Por isso divinizaram o dizer, o logos, ao qual atribuíam mágica potência, e a retórica acabou sendo para a civilização antiga o que tem sido a física para nós nestes últimos séculos. Sob esta disciplina, os povos românicos forjaram línguas complicadas, mas deliciosas, de uma sonoridade, uma plasticidade e um garbo incomparáveis; línguas feitas à força de palavreados infindáveis - em ágora e praça, em palanque, taberna e tertúlia. Daí que nos sintamos sôfregos quando, aproximando-nos destes esplêndidos ingleses, os ouvimos emitir a série de leves miados displicentes em que consiste seu idioma. GASSET, José Ortega Y, Rebelião das massas.
    Na segunda etapa, a demonstração que se o mundo civilizado ainda confunde democracia com poder divino, posto a suposta vox populi representar a vox dei, por aqui ela toma contornos ainda mais dramáticos. A questão formulada refere-se ao método empírico adotado por JOHN LOCKE, em seu Ensaio sobre o conhecimento, obra que lhe emprestou a visibilidade. Posteriormente o médico inglês ainda comporia o Tratado sobre a Tolerância, findando com a obra-prima intitulada Segundo tratado sobre o govêrno civil.
    Ressalte-se o intenso domínio romano sobre aquele país. A realeza auferia o mensalão do Vaticano, que por sua vez exigia a contrapartida do dízimo, fardo a mais sobre os ombros de toda Nação. A Inglaterra caiu em convulsão, dividida a ponto de revolução civil, degola de rei, e um monte de atrocidades. Era a hora da mais alta sapiência:
    A única forma de constituir um poder comum, capaz de defender a comunidade das invasões dos estrangeiros e das injúrias dos próprios comuneiros, garantindo-lhes assim uma segurança suficiente para que, mediante seu próprio trabalho e graças aos frutos da terra, possam alimentar-se e viver satisfeitos, é conferir toda a força e poder a um homem, ou a uma assembléia de homens, que possa reduzir suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só vontade. (...) Esta é a geração daquele enorme Leviatã, ou antes - com toda reverência - daquele deus mortal, ao qual devemos, abaixo do Deus Imortal, nossa paz e defesa.HOBBES, THOMAS, The Leviathan, cap. 17.
    Hobbes, que havia freqüentado assiduamente a corte fazendo-se passar por matemático (mesmo que pouco soubesse dessa disciplina) se desgostou ali, regressou à Inglaterra nos tempos de Cromwell e publicou uma obra muito malvada, de título muito raro: The Leviathan. Sua tese principal era de que todos os homens atuam devido a uma necessidade absoluta, tese apoiada, aparentemente, pela doutrina dos decretos absolutos, doutrina de geral aceitação nesses tempos. Sustentava que o interesse e o mêdo eram os princípios fundamentais da sociedade. BRETT, R. L., La Filosofia de Shaftesbury y la estetica literaria del Siglo XVIII: 14
    Eis a panacéia aos males da população: “Hobbes justifica racionalmente o poder absoluto, a partir duma concepção puramente materialista da natureza do homem, egoísta e perseguido por fobias.” (CHEVALLIER: 19)
    Eis, também, o zenith malandro: um cômodo no Palácio, onde de fato lograria morar. Tal qual o astuto florentino recomendara, e bem usufruíra, o apoio financeiro e logístico tinha que vir da multinacional.
    Na verdade, jamais houve qualquer legislador que tenha outorgado a seu povo leis de carácter extraordinário sem apelar para a divindade, pois sem isso estas leis não seriam aceitas... O governante sábio sempre recorre aos deuses. MAQUIAVEL, N., Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio. Brasília : Editora UnB, 1994: 58; tb. cit. BOBBIO, 2002: 164
    O governo inglês também deveria se restringir à franquia: "Para Thomas Hobbes, a Igreja cristã e o Estado cristão formavam um mesmo corpo, encabeçado pelo monarca, que teria o direito de interpretar as Escrituras, decidir questões religiosas e presidir o culto." (Wikipédia)
    EINSTEIN, (cit. PAIS, ABRAHAM, Einstein viveu aqui: 139) em tese, pode explicar:
    Com o homem primitivo é acima de tudo o medo que invoca noções religiosas - medo de fome, bestas selvagens, doença, morte. Já que nesse estágio da existência a compreensão das conexões causais é geralmente pouco desenvolvida, a mente humana cria seres ilusórios mais ou menos análogos a ela mesma, de cujas vontades e ações dependem esses acontecimentos temerosos.
    No primeiro trabalho a preocupação de LOCKE era de quebrar o liame do pecado original  de Adão & Eva, a estorieta  propalada pelo Vaticano, fato que o levou a caracterizar o ser humano como uma tábula-rasa ao nascer. Cada ser nasce livre, e assim é o responsável por sua própria história, a qual vai escrevendo conforme melhor lhe aprouver. Definitivamente, isso em nada poderia agradar os romanos:
    Quase totalmente ignoradas eram as obras de Locke (a primeira tradução completa de Dois Tratados sobre o Governo somente aparecerá em 1948) Constant, Tocqueville, Benhtham e Mill. Haviam florescidos estudos sobre Maquiavel: basta recordar os nomes de Ercole, de Russo, de Chabod. Nas breves notas Para a história da filosofia política, escritas em 1924, os autores levados em consideração eram (pareceria incrível nos dias de hoje) Maquiavel, Vico, Rousseau (maltratado), Hegel, Haller e Treitschke. A grande tradição do pensamento liberal e democrático da qual nascera o Estado moderno (também o estado italiano) era completamente ignorada. Croce, B. Per la storia della filosofia política, 1924; cit. Bobbio, Norberto, Ensaios sobre Gramsci e o conceito de sociedade civil, p. 92.
    Para suporte de sua teoria, LOCKE evidenciou que todo o conhecimento vem pelos sentidos, e que não faz sentido nenhum conhecimento prestipulado. Naturalmente ninguém cogitava o modo de formação da matéria, muito menos seria provável encadeamentos atômicos, como nos DNAs, e tudo o mais. LOCKE, por se valer do argumento que exigia a experiência para validar o conhecimento de plano toma a pecha de empirista, e assim muitos pesquisadores nem seguem adiante. No entanto, a intuição lhe mereceu destaque, e este motivo, per se, não tem nada de empírico.
    O pensamento de Locke sobre o conhecimento foi uma grande contribuição para filósofos posteriores que se dedicaram à mesma temática. Por mais que as conclusões que se tenham chegado até hoje tenham uma grande validade, há ainda a necessidade de continuar-se investigando com empenho e dedicação. Se o conhecimento é algo que se constrói, esta construção é infinita afinal, a razão humana é um terreno que ainda tem muito a ser explorado. clertoncord@yahoo.com.br graduando em filosofia pela Unicap – Universidade Católica de Pernambuco
    No Tratado sobre a Tolerância LOCKE mostra a que veio, e o Segundo Tratado nada tem de empírico, posto encadeado de modo totalmente original. O Farol do Iluminismo formulou uma teoria calcada na relatividade ao campo das ciências humanas com tres séculos de antecedência das exatas, complementando o molde ao panteísmo spinoziano em sua estada na Holanda, este sim, frequentemente citado por EINSTEIN.
    A barragem francesa
    De modo geral a cultura inglesa sempre foi desdenhada entre nosotros. Não se estranhe. Depois da fragorosa derrota da Invencível Armada, por século a Europa, dominada pela pujança francesa, reconhece que o Império Romano findava em Calais, e simplesmente ignorou suas proposituras. Que interesse poderia haver em autores anglosaxões?
    O escrito de Descartes se difundiu amplamente no continente, em particular na França e nos Países Baixos, mas não teve o mesmo sucesso na Inglaterra. A filosofia experimental tal como ali se desenvolveu impedia uma aceitação fácil de qualquer sistema dedutivo, e o sistema de Descartes foi considerado tão gerador de dissensões, quanto o sistema extremamente materialista de Thomas Hobbes.
    HENRY: 71

    Locke e Shaftesbury consideravam o despotismo como um mal francês e, quando escreveu o documento, em 1679, Locke acabava de voltar da França, após estudar o mal francês enquanto sistema político. A filosofia de Shaftesbury foi planejada para combater a interpretação mecanicista da realidade, mas sobrepujou a filosofia daqueles em seus esforços para salvar as artes dos efeitos das idéias mecanicistas: aspirou fundar bases não só para a verdade e a bondade, como também para a beleza.
    BRETT, R. L.
    : 109
    Só depois de devastado pela insanidade é que o Velho Mundo buscou recuperar o fio-da-meada:
    O ano de 1960 foi um marco para os estudos sobre Locke. Em um só ano, além da edição crítica de Laslett, já lembrada, foram publicadas três monografias importantes que representam muito bem o interesse renovado pelo filósofo do liberalismo e do cristianismo racional. Todas as três enfatizam Locke moralista e político, mais do que o teórico do conhecimento, sobre o qual se havia detido especialmente os trabalhos e a crítica precedente.
    BOBBIO, NORBERTO, 1997: 78

    Nesse contexto, o mês de maio de 1968 aparecera como um acontecimento que ninguém previra. Generalizado, o discurso político perdeu então seu privilégio. A proclamação do que era científico ficou abalada; as ciências políticas não souberam antecipar esta explosão internacional.
    DESCAMPS, C. : 15
    Coube primeiramente a MONTESQUIEU (Do Espírito das Leis, Livro XIX) referendar a solução inglesa.
    Quando na mesma pessoa, ou no mesmo corpo de magistrados, o poder legislativo se junta ao executivo, desaparece a liberdade; pode-se temer que o monarca ou o senado promulguem leis tirânicas, para aplicá-las tiranicamente. Não há liberdade se o poder judiciário não está separado do legislativo e do executivo.

    Foi igualmente pela recusa do dualismo cartesiano, e pela defesa da observação e da análise contra o espírito sistemático, que Locke se impôs como 'mestre da sabedoria' aos filósofos franceses do século XVIII.
    CHÂTELET: 228
    .
    De Londres VOLTAIRE ( cit. CHEVALLIER, tomo II: 67 ) confirmava o acerto daquele método governamental:
    A Nação inglêsa é a única da terra que chegou a regulamentar o poder dos reis resistindo-lhes e que de esforço em esforço, chegou, enfim, a estabelecer um governo sábio, onde o príncipe, todo-poderoso para fazer o bem, tem as mãos atadas para fazer o mal; onde os senhores são grandes sem insolência e sem vassalos, e onde o povo participa do governo sem confusão.
    O movimento francês tomava rumo à modernidade quando ROUSSEAU renovou a munição à barbárie, culminando com o flamante NAPOLEÃO.
    A Constituição Francesa de 1791 proclamou uma série de direitos, ao passo ‘que nunca houve um período registrado nos anais da humanidade em que cada um desses direitos tivesse sido tão pouco assegurado - pode-se quase dizer completamente inexistente - como no ápice da Revolução Francesa.’
    LEONI: 85
    Examinarei, pois, o sistema do mais ilustre desses filósofos, J.J. Rousseau e mostrarei que, transportando para os tempos mais modernos um volume de poder social, de soberania coletiva que pertencia a outros séculos, este gênio sublime, que era animado pelo amor mais puro a liberdade, forneceu, todavia, desastrosos pretextos a mais de um tipo de tirania.
    CONSTANT,
    Benjamin, Da Liberdade dos Antigos Comparada a dos Modernos, tradução de textos escolhidos de Benjamin Constant, por Gauchet, Marcel Org., paper Assembléia Legislativa do RS, 1996
    LOCKE? Nem pensar.. Pois graças ao fugaz genebrino e seu liquidificador franco-italiano o Brasil vem sendo triturado na vileza extremada já há mais de século, sem a menor piedade, ou constrangimento É o que veremos, na próxima escala.
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    quinta-feira, 12 de agosto de 2010

    O acirramento da violência


    Os números são vergonhosos. Em apenas dois anos e cinco meses, foram registrados no Estado do Rio 18.137 assassinatos. Vou repetir: dezoito mil centro e trinta e sete pessoas tiveram a vida interrompida de forma violenta. BARROS, J.A., O Globo, 17/8/2009
    Não se irrigava o árido do cangaço com tanto sangue. A Nação agoniza na estupidez.
    Em Pombos, mãe vai à mercearia e perde filho de 13 anos, estuprado e morto por pedófilo assassino. Edmilson, 24 anos, atraiu o menino para sua residência onde perpetrou o crime. A população endoidou, demoliu o imóvel, caçou o criminoso no mato e esbagaçou o miserável. http://revistafragmentos.blogspot.com/2010_03_01_archive.html
    Nunca houve tanta violência, neste país. A maioria surge por emulação; outras, por recalque ou inveja, vingança, vaidade ou covardia. Há quem sustente ser processo depurativo: “A guerra é uma necessidade biológica de suma importância, o elemento regulador da vida da humanidade, a qual não a pode dispensar. Não é, contudo, apenas uma obrigação moral; e é, como tal, um fator indispensável da civilização”. (Gen. VON BERNHARDI, cit. CHALLITA, Mansour, Os Mais Belos Pensamentos de Todos os Tempos, 3. Vol.: 94) “Da guerra da natureza, da fome, da morte, forma-se o mais nobre objeto que somos capazes de conceber: a produção de animais superiores”. (CHARLES DARWIN, consagrando os cálculos de MALTHUS)
    O cacoete tem tomado vulto. Valentões tomam de assalto as salas de aula. Senhoritas esbravejam contra marmanjos que não lhes cedam passagem. Não lhes ocorre por ventura não terem sido percebidas. Maria Bonita tem olvidado os sábios conselhos para não falar com estranhos. Pressupondo-se inatingível pela condição feminina, na couraça da lata, e ademais coberta pela garantia legal, a moça finaliza cuspindo no rosto do velho motorista. Pelos seus cálculos, a desmoralização impingida retira a força de um revide. Gratuitamente se coloca na linha de tiro, e espera pelo melhor - que não haja nenhuma reação. O disparate mostra o descompasso mental que acomete a incauta, mas sua paranóia é apenas reflexo do modo como vem sendo colocado todas as coisas; e por causa e consequência, formado a mentalidade de cada viandante.
    A afirmação mitológica da maldade inata na natureza humana encontra-se, como se sabe, na Bíblia.Ela está explicitada no episódio de Caim e Abel, como corolário da tese do Pecado Original. PENNA, O.M., O espírito das revoluções: 83
    Domingo é o dia que registra mais assassinatos:
    foram 110 casos no período, ou 17,2%.
    Depois vêm sexta e sábado.

    Folha, 15/8/2010

    "A Record é a única rede de TV aberta que está sempre presente na cena do crime." (Correio do Povo, 8/8/2010)
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    A Band torce para que o espetáculo se efetive na hora da Ave Maria, quando diariamente entope as telas com choros, ranger de dentes, e candentes protestos por justiça. O apresentador, sujeito simpático, popular, ex-reporter esportivo,  mostra-se indignado, e incita as mulheres à formulação de queixas nas delegacias. Por certo todas concordam, e muitas seguem conselho. Mas quando uma mulher consigna em boletins de ocorrências as ameaças e agressões sofridas, colhe um homem ainda mais raivoso ao seu lado, provavelmente vingativo, até o assassinato. Na pior hipótese para o criminoso, ele será preso algum dia, por algum período. Por certo, arrepender-se-á de ter cometido a insanidade. Mas ela, com toda a segurança, conta com a guarda do cemitério. Cinegrafista da Band é morto durante operação policial no Rio
    A econômica Rede TV! prefere reunir os sobreviventes, protagonistas e comentaristas em debate vespertino, na hora do chá. Doce voz do reality show promove as panacéias dos anunciantes.
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    Engraçado é que, diferentemente de outros estádios, por aqui nem se discute religião - cumpre-se. Na hora da refeição, todavia, na hora de repartir o pão, o pau come, de montão. As brigas são por  pratos-de-comida.
    Toda a teoria darwineana da luta pela existência é simplesmente a transferência, da sociedade à natureza viva, da teoria de Hobbes sobre a guerra de todos contra todos e da teoria econômica burguesa da concorrência, bem como da teoria da população de Malthus. A.R. Wallace & R.Young, Sciences studies, 1971, p.184; cit. Japiassú, 1978: 56
    Proliferam-se delegacias - de menor, de mulher, do trabalho. E as varas judiciais correspondentes. Leviathan mostra competência."Pouco a pouco, os soberanos compreenderam que a justiça podia ser também pretexto para a extensão de seu poder e a afirmação de sua autoridade." (BOBBIO, N. e VIROLLI, M.: 130)
    Até mesmo estádios de futebol e aeroportos são obrigados a transformar ou construir salas para acomodações forenses. Na falta de trens, são os aviões que não podem atrasar. "Instalados há pouco mais de três semanas nos cinco maiores aeroportos do país, os juizados especiais já fizeram cerca de 1,8 mil atendimentos a passageiros." (www.agenciario.com/materia.asp?cod=82299&NomeEdi=Cotidiano,%20Transporte)
    A coleção prêt-à-porter de MUSSOLINI ainda logra o maior sucesso entre nosotros: "São 100 mil advogados trabalhistas, mais 15 mil que vivem ligados à Justiça do Trabalho, no total chegam à cerca de 150 mil. Um lobby de 150 mil é maior que o desejo do restante da sociedade." (Evangelinos, Pedro, diretor da FIESP in Jornal O Estado de São Paulo, 25/11/2001, p.B6)  Tem filet para todo mundo:"A Justiça do Trabalho gaúcha garantiu a arrecadação total de R$356,24 milhões para os cofres da União, em 2007." (Correio do Povo, 13/02/2008, p. 18) 
    Os trabalhadores são aquinhoados com pífios aumentos. Por generalizado e obrigatório, e de efeito cascata porque junto aumenta o fisco, as despesas salariais flagelam todas as empresas, de modo indiscriminado, enquanto o operário sempre se considera injustiçado.. Do escárnio  sucumbem pequenas empresas, à passagem de  privilegiados transatlânticos. 
    "Arranjos corporativos são fórmulas de institucionalização do conflito de classes, levando-as ao diálogo ou a regras mínimas deconvivência com a arbitragem do Estado. Entre nós este arranjo produziu o completo distanciamento das classes que supostamente deveria aproximar.."( COSTA, V.,: 49) 
    Milhões e milhões de famílias são vitimadas, em prol da esperteza.
    Boletim de estatísticas divulgado anteontem pelo Ministério da Fazenda apresenta números e conceitos errados ou distorcidos para inflar os feitos do governo Luiz Inácio Lula da Silva, subestimar resultados da gestão anterior e esconder fragilidades atuais da política econômica. Folha, 12-8-2010
    O país que oferece vantagem em tudo cava a própria sepultura. O inglês vê, e tenta entender. Ele sabe o valor da estirpe. Fica abismado. Enquanto os sensores acusam abalos sísmicos no leito do continente sulamericano, na superfície elementos totalmente superficiais brincam de roda-da-fortuna.
    Agarrados como carrapatos no Leviathan, os políticos lhe chupam o sangue, estocando seu alimento predileto até para o século vindouro. E os banqueiros, esses sim, tem caixas e caixas de sapatos, de fósforos, e tudo que se se possa imaginar para ser preenchido pelo eterno suor alheio. Na agiotagem multiplicada por dez. Nossos
    patinhas
    tomam banho de cachoeira.
    O comerciante está convencido de que a lógica é a arte de provar à vontade o verdadeiro e o falso; foi ele que inventou a venalidade política, o comércio de consciências, a prostituição dos talentos, a corrupção da imprensa. Sabe encontrar argumentos e advogados para todas as mentiras, todas iniquidades. Somente ele nunca se iludiu sobre o valor dos partidos políticos: julga-os todos igualmente exploráveis, isto é, igualmente absurdos.
    PROUDHON, P.-J.,
    Filosofia da Miséria, Tomo I: 351.
    Qualquer filosofia da história deve demonstrar qual é o mecanismo por meio do qual aquela agência suprema que determina o curso de todas as relações humanas irá induzir os indivíduos a trilhar exatamente os caminhos destinados a levar a humanidade até o objetivo determinado., Theory and History, cap. 7
    O decano de Florença bem soube comunicar:
    Pois a fortuna é uma mulher que, para ser mantida em sujeição, tem de ser espancada e maltratada; e vemos que se deixa dominar mais depressa pelos que assim a tratam do que por quantos dela se aproximam de maneira mais tímida. E sempre, como uma mulher, ela favorece os jovens, porque são menos escrupulosos, mais violentos e a dominam com maior audácia. MAQUIAVEL, Nicolau, O Príncipe; tb. cit. DOWNS, Robert Bingham: 20.
    BERTRAND RUSSELL (cit. JORGE, F.:142) analisou com profundidade o manual político mais vendido no Eua, França, Itália, e best-seller no Brasil até por ser o único conhecido por aqui: O Príncipe é um compêndio dedicado a gangsters.

    O crescimento de grupos criminosos dedicados ao assalto, à venda de drogas, ao furto de automóveis e ao assassinato, entre outros delitos, transformou as ruas das principais cidades da América Latina em espaços cercados pelo medo. O Globo, 22/8/2009
    A cartilha cidadã, editada, revisada e ampliada pelos "estelionatários do Plano Cruzado", agora conta com a experiência da maturidade. "Será que a sociedade brasileira e o Brasil precisarão ter, no futuro, um lugar para os criminosos de outros países em seu território?"(Embaixador do Irã no Brasil. Folha, 16/8/2010)
    “O Brasil é feito para nos matar e não para nos fazer viver” (CARDOSO, Pedro, ator, . 13/8/2009 - http://emkt.pavazine.com) .
    Não é sem razão que a imprensa norte-americana tenha tratado com descrédito e até humor a nova constituição brasileira, de 1988. Um texto constitucional como o brasileiro, que desce a níveis bem específicos e se prolonga por centenas de artigos é, na tradição americana, uma piada.
    Os feitores tem alimento estocado com garantia de manutenção até o fim das gerações. Na casa ao lado, falta o pão."De janeiro a julho, o valor médio dos cheques sem fundos foi de R$ 1.230,23, o que indica uma alta de 39,2% em relação ao registrado no mesmo período do ano passado." (Estadão, 12/8/2010)Na carência generalizada, todos brigam, e ninguém tem razão. Marido e mulher se divorciam, na melhor hipótese, ou então causam a tragédia,, já corriqueira,
    De julho a novembro de 2008, o número de processos em tramitação por violência doméstica contra mulheres ultrapassou 150 mil. Ao todo, são 41.957 ações penais e 19.803 ações cíveis, além de 19,4 mil medidas protetivas concedidas e 11.175 agressores presos em flagrante. Os dados são do Conselho Nacional de Justiça revelados em reportagem da Agência Brasil



    domingo, 8 de agosto de 2010

    A centralização das emissoras



    A Record é a única rede de TV aberta que está sempre presente na cena do crime.  
    Jornal Correio do Povo, veículo da rede Record, 8/8/2010
    Não se usava micro-ondas. Para atingir uns 30% do território nacional, as rádios vinham equipadas com transmissores de potência máxima.
    A solução se fez mais óbvia e sensata: liberou-se para que cada cidade tivesse lá quantas emissoras quisesse, ou pudesse, naturalmente com o compromisso de elaborar a programação.
    As rádios transmitem assuntos de interesse direto da comunidade onde atuam, inclusive e especialmente, no que tange ao musical. Apreciador de música caipira diverge do sambista.
    As emissoras tem que estabelecer vínculos comerciais na localidade coberta por suas ondas. Os assuntos em pauta, também conforme a região, variam ainda mais. Ao amazonense o que pode interessar uma reportagem sobre gado de cria?
    As rádios são os porta-vozes da comunidade. Elas falam com sotaque local, e fortalecem a cidadela. Infelizmente, contudo, o veículo vem perdendo o caráter regionalista, em prol da ideologia dominante:
    "Segundo a reportagem, a maioria delas (57%) beneficia veículos ligados a políticos ou a igrejas." Folha, 16/8/2010
    Pior ainda se dá com emissoras e retransmissoras de TV.
    Tratar dezenas de milhões de ouvintes e telespectadores a partir dos dois centros do país significa extinguir as tradições do restante, os ideais esparsos, os costumes diversos, muitas vezes até mais valiosos, justamente por serem peculiares, raridades.

    O Tejo desce da Espanha
    E o Tejo entra no mar, em Portugal
    Muita gente sabe disso.
    Mas poucos sabem qual é o rio de minha aldeia
    E para onde ele vai
    E donde ele vem
    E por isso, porque pertence a menos gente,
    É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
    Pelo Tejo vai-se para o mundo.
    Para além do Tejo há a América.
    E a fortuna daqueles que a encontram.
    Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

    Ninguém nunca pensou no que há para além
    Do rio de minha aldeia.
    O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.

    Alberto Caeiro, O guardador de rebanhos.
    Rádios e tvs tem primado pela ignorância. Elas tem consciência disso, mas isso não lhes importa. Quando o objetivo é o poder, o meio, a forma, não vem ao caso.
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    quinta-feira, 5 de agosto de 2010

    Antes havia, neste país


    Você pode explodir o Brasil inteiro e eles ainda dizem:
    'Obrigado! Aqui está um macaco para você levar de volta para sua casa'.

    STALLONE, S., ator de Os Mercenários.
    Não, meu guri, não se avançava no bolso, ou sobre o dorso do cidadão por nenhum motivo, que dirá em nome de nação estrangeira. O Brasil não era um país de tolos, nem de todos - pertencia apenas aos que nele moravam. É verdade que as comunicações eram precárias. Recém se dispunha de discagens diretas, e apenas umas tres ou quatro emissoras de TV cobriam o território nacional. Não sei onde fica Garanhus. É assim que se escreve? Talvez não chegasse nenhum sinal por lá, mas você deve ter ouvido falar na Jovem Guarda não? Tony Campello, sua irmã Cely, os Vips, Jerry Adriani, Wanderléia, Wanderley Cardoso, Leno & Lilian, Silvinha & Eduardo Araújo, Erasmo, Martinha, e a locomotiva chamada Roberto? E dos Mutantes, anunciando 2001? Teus professores políticos não gostavam. Nem de Raul Seixas. Duvido. Eles usavam a folga da USP para discutir as idéias dos brilhantes intelectuais que davam suporte àquela U.R.S.S., país competente para tornar temerário, e mesmo condenável qualquer sonho de realização pessoal. Às sumidades, ninguém poderia progredir  se não fosse tirando dos outros. São Paulo destoava. Era rico, meu caro, muito rico, e não escondia - orgulhava-se. Aguçava a ambição dos famintos pelo poder. Na capital havia uma rua, por acaso chamada Augusta, alameda de uns tres quilômetros onde se instalavam lojas e galerias da melhor qualidade. Sensacional era o aproveitamento do terreno. Aqueles de maior dimensão abrigavam uma quantidade enorme de pequenos comerciantes, cujo acesso acarretava se passar ao ar-livre por entre flores e jardins, bem diverso da "democrática" solução paraguaia. Barracas se destinavam a campings, não à calçadas.
    Homens não saiam sem gravata, podes crer. Senhoras e dondocas vestiam tailleurs, ou mini-saias, e nem por isto eram alvo de estupradores. Flanelinhas, mendigos, assaltos, roubos de carro? Mas nem falar.
    Santo Amaro fervia a noite inteira! Pessoal não tinha o menor receio. Paris ou Buenos Aires eram fichinhas.
    A moderna via Anchieta e de resto todas as excelentes estradas do país asseguravam viagem rápida ao turismo e principalmente ao escoamento da produção, sem ninguém cobrar nada por isso. Pedágio? Quem é esse gajo?
    O que não havia era trânsito de helicópteros. Nem políticos. tampouco banqueiros possuiam faturamento compatível à regalia.
    Para a Consolação se reservavam memoráveis festivais de música. Deves ter ouvido Geraldo Vandré, pois não? Este nunca mais apareceu. Agora a organizadora se ufana da grade de programação importada de algum Carandirú:
    "A Record é a única rede de TV aberta que está sempre presente na cena do crime." (Correio do Povo, 8/8/2010)
    Seus novos superstars: Bispo, Macarrão e Macalão.
    Por aqueles arredores estudantes saiam dos Sions, Mackenzies e outros mais, para curtir o pouco sol pelas calçadas, e ali ficavam contaminando o meio-ambiente com seu esplendor. Hoje o estudo é importante, mas não é decisivo - é coisa de elite. Pessoal prefere eleger paus-de-arara e semi-analfabetos.
    Turmas participavam de gincanas, havia as escuderias, não te contaram? Pois essa juventude criada com palmadas, nem por isso se sentia injustiçada. Códigos de Menor? Para quê?
    Grandes ícones arrastavam multidões não só à platéias ou torcidas, como à prática do tênis, boxe, basquete, automobilismo, iatismo, natação, judô, atletismo. Brasil era campeão mundial numa porção de modalidades. Não sei se tomastes conhecimento de uma Maria Ester Bueno, Thomas Koch, Edson Mandarino, Mauri Fonseca. Esses eram gaúchos, mas os paulistas apresentavam uma plêiade ainda maior, de Eder Jofre, aos azes Chico Landi, Luizinho Pereira Bueno, Bird Clemente, Christian Heinz, Jaime Silva, Camilo Christófaro, o Lobo daí, do Canindé, os Fittipaldi, José Carlos Pace. Muitas equipes prestigiavam Interlagos - Vemag, Willys, Simca, FNM, tinham participação direta.
    O futebol? Engraçado, mas o Exército formava notáveis estrategistas esportivos, despontando os capitães Carlos Froner, Cláudio Coutinho e Carlos Alberto Parreira. O mundo deve a Coutinho o sensacional over-lapping. Embora militares, nenhum deles entregaria a Copa em troca de porta-aviões.
    A produção de craques montava convocar uns cincoenta jogadores para o Scratch. A rigor, os atletas dos alvi-negros praianos já eram suficientes para enfiar goleadas memoráveis pelo mundo afora.
    São Paulo não prometia, caro nordestino, era a própria realidade. E tirante sindicalistas, não lembro de mais ninguém discutindo política, essa coisa completamente estranha à gente comum. Quem poderia querer ou esperar anos por Olimpíadas, ou Copas do Mundo, com tanta alegria por perto? Tinha-se mais o que fazer. Neste particular, que é o mais geral de todos, parece se iniciar um retorno:
    "A média de audiência do primeiro debate entre os presidenciáveis, realizado pela Rede Bandeirantes, foi decepcionante. A Globo venceu com a exibição de São Paulo x Internacional, pela Taça Libertadores da América." (Folha, 6/8/2010)
    Torcedores contribuiam diretamente para a construção de colossos como o Morumbi, ou o Gigante da Beira-Rio. Puxavam recursos do próprio bolso. Não obstante, o poder público edificava uma série de grandes estádios. Como estará hoje este imenso patrimônio?
    Ficha-limpa? Mas para o quê, se o próprio termo candidato, eloquente per se, condiciona o acesso apenas ao cândido, isto é, sem mácula?
    Exceto tratadores de animais, ninguém conhecia comida servida à kilo. E ao cabo da refeição, diferentemente daqueles miseráveis europeus, ou dos sofisticados platinos, os garçons nos serviam cafezinho como cortesia. Há quem diga que se devia à abundância de nossos cafezais. Por que será que o pecorrucho, mesmo custando mais caro do que o litro de leite, não revigora nossa mais tradicional cultura?
    Paozinho passando pela balança da padaria, antes de ser embrulhado? Quack! Nunca se viu tanta mesquinhez.
    Missa? Só no domingo, pela manhã. Ora porta-vozes celestiais infestam os lares todos os dias. Vários canais de TV são alocados em cadeia nacional para transmitir retransmitir os importantes comunicados, conselhos e advertências. Os arvorados cristãos se regozijam com a esperança de alcançar algum dia o Paraíso. Nossa realidade de fato tem sido não só deprimente, como decepcionante.
    São Paulo é a região do País onde mais se produziu miséria - 5,9% - no ano da crise financeira
    SIMANTOB, Fábio Tofic, Estatísticas do crime e discurso do medo 12/2/2010
    Os que oferecem o passaporte àquele Reino não o fazem por amor, claro. A produção televisiva é onerosa, e ainda tem os custos de manutenção dos Lear-Jets adquiridos. Então os iluminados se obrigaram a também investir em numerosas redes de rádio, assumiram o controle acionário de grandes periódicos de várias capitais, tocam bem-sucedidas editoras e agências-de-viagens, e mis cositas más. V. Exa. considera esta artimanha produção, e ainda mais, isenta de imposto? Pelamor de DEUS.
    Delegacias? Uma que outra, aqui ou acolá. Menor não tinha regalia especial; tampouco mulher. Não havia movimento para ocupar os oficiais. As represas eram usadas ao lazer, não para esconder cadáveres. Igualmente ninguém conhecia códigos de menores, de consumidores, de torcedores, e estatutos de tudo que é jeito. Nada precisava segurar. Tudo fluia, não perfeitamente, claro, mas dentro de uma harmonia geral. Os correios funcionavam cobrando o mínimo, acredite. Não havia necessidade de propinas. Os políticos eram assalariados, e se contentavam com seus limites.
    Ninguém reclamava de aeroportos. Não se pagava taxa para embarque, vai ver é por isso. Tudo cheirava querosene, mas as partidas não variavam de acordo com os assentos vendidos, ou com as escalas engembradas. Não havia filas, nem jamais se cogitou em colocar judiciários para dirimir pleitos dos consumidores. Era só o que faltava! Não lembro de acidentes com os guarda-louças Constellations, DC3, ou com o deslumbrante Caravelle. VARIG, Cruzeiro, Sadia, VASP, Real Aerovias e Lloid Aéreo respeitavam seus clientes, e principalmente seu próprio quadro. Empresas sérias, tradicionais, nenhuma surgiu em passe-de-mágica. Tampouco recordo de brasileiros barrados no exterior. Éramos dóceis, afáveis, e muito respeitosos, a ponto da Disney dispensar fiscais para acompanhar nossos passos.
    "Para evitar problemas na fila da imigração de países europeus, o Itamaraty lançou uma cartilha com orientações aos viajantes. Em breve, o material será distribuído no momento da emissão dos passaportes" (Folha, 17/8/2010)
    "A cada ano, cerca de 60 mil brasileiros são vítimas das redes internacionais de tráfico de pessoas e têm como principais destinos a Espanha, Portugal e Suíça, segundo dados divulgados pela Secretaria Nacional de Justiça (SNJ), ligada ao Ministério da Justiça." (Estadão, 18/8/2010)

    Ninguém pensava em trem-bala para ligar Rio-São Paulo. O romantismo poderia ser experimentado em magnífica composição, toda de aço e absolutamente silenciosa. Os "hóspedes" se acomodavam em cabines fechadas, equipadas com beliches. Pela manhã o serviço de bordo se despedia oferecendo reforçado café.
    Embora a partir de 1996 as empresas ferroviárias estatais tenham sido privatizadas, hoje não temos uma malha ferroviária muito melhor, isso graças à falta de concorrência. De fato o sistema rodoviário brasileiro é vergonhoso, são pouco mais de 29 mil quilômetros de ferrovias, contra mais de 63 mil quilômetros na Índia, 226 mil nos EUA e 85 mil na Rússia.
    Sorria! Você vai pagar um trem , por ,
    "A má qualidade das estradas, portos, ferrovias e aeroportos brasileiros não chega a ser novidade. Ficamos décadas sem investir e isso fez com que acumulássemos gargalos que ainda se refletem no estado atual da nossa infraestrutura." (BORGES, B., Economista-chefe de LCA Consultores. - Estadão, 8/8/2010)
    Não sei quando foi a primeira vez que pisastes nas areias de Copacabana. Elas recebiam gente muito elegante, meu amigo, de fino trato. Não se jogava lixo onde uma Leila Diniz, ou uma Rose di Primio se bronzeavam. Chocou-me ver a faixa litorânea mais famosa do mundo transformada em formidável cemitério. Ao chegar perto, veio o alívio: tratava-se apenas de um protesto frente a criminalidade assombrosa que assola a Cidade Maravilhosa.
    Os números são vergonhosos. Em apenas dois anos e cinco meses, foram registrados no Estado do Rio 18.137 assassinatos. Vou repetir: dezoito mil centro e trinta e sete pessoas tiveram a vida interrompida de forma violenta.

    Desde 1999, portanto há uma década,
    esses números são divulgados mensalmente
    pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), da
    Secretaria de Segurança do estado.
    Essa soma já foi até maior do que é hoje, atingiu o ápice em 1994.

    BARROS, J.A., O Globo, 17/8/2009
    Especial confeitaria homenageava o genovês. Toalhas de linho recebiam talheres de prata, e porcelana de alto gabarito para a senhora sentada na confortável poltrona degustar meros sandwiches! Mas quê sandwiches! A avenida N. S. Copacabana era a Augusta carioca, mais light, como convém à praiana.
    Bala perdida era da criança, ao rasgar o pacote na entrada da matinèe. Agora a criança não vai mais a lugar nenhum, e mesmo assim é atingida: Bala perdida mata menino que dormia no sofá de casa no Rio
    O Clube Olímpico lotava de brotos às vespertinas dominicais, enquanto a Papagaia se preparava na Lagoa. Das famosas noites cariocas não preciso mencionar, meu ilustre presidente. As coisas e as gentes não se dividiam por classes, e sim por gostos. O Canecão se derramava com Vinicius & Tom Jobim, Marcos e Sérgio Vale, e tantos... Quarteto em Cy, os trios Zimbo, Irakitan, o Tamba... Jair Rodrigues, Edu Lobo, Nara Leão, aquela doçura... os baianos da Tropicália - Gil, Caetano, Gal, Bethania... Elis e seu Boscoli... haja memória para listar tantas brilhaturas. Gil até chegou seu Ministro, mas parece que nada informou sobre aquele tempo, preferindo uma despedida prematura, e melancólica do reinado.
    Um banquinho e um violão bastavam para animar qualquer reunião. Pessoal mais sofisticado contava com Le Bateu, New Girau, Privè. Depois ainda vieram o Hypopotamus, e uma infinidade. Ipanema era a passarela do chopp - Cabral 1500, Copa 70, uma fila de bares repleta de gente 24 horas sem parar. Na divisa com Leblon se concentravam garbosos motociclistas. Esses veículos não eram usados no trabalho, muito menos em atividades de assaltantes. Não se usava capacetes.
    Festa rave? Mas o que é isso mesmo? Raps, e tal? Não me diga que estamos velhos, por isso não gostamos mais de acúmulos de gente, e brigas de garrafas.
    Passageiro da agonia não entrava no cinema, muito menos as tropas. Quem gostava de pobreza era intelectual, diziam. O cine lotava com A Doce Vida, de Fellini.
    O Jockey Club via intenso movimento. Não sei de onde vinha tanta gente rica e bonita. Ninguém se sentia constrangido em envergar aqueles elegantes chapéus. No Maraca nada de torcida organizada. Fosse rubro-negro ou cruz-maltino, todos estavam bem servidos, e admiravam os adversários, de Castilho a Garrincha. E como tinham times - Canto do Rio, Olaria, América, Madureira, Bangú, e mais uma meia-dúzia. Waldir Amaral e Jorge Cury se encarregavam de irradiar os lúdicos 90 minutos aos Spica espalhados pela Nação.
    Não, no trânsito não havia fechadas muito menos xingamentos. O pé do Cristo quase chutava a bola ao jogo dos motoristas de táxi. Eles usavam seus veículos, tres de cada lado, para brindarem o público com exuberantes manobras.
    Podia-se entrar e sair livremente das agências bancárias. Ninguém precisar se despir - nem de roupas, muito menos do dinheiro.
    O Mato Grosso começava a criação de milhões de cabeças de gado, tipo zebús, até então desconhecidos, enquanto o Rio Grande do Sul plantava arroz para todos os brasileiros. Não se importava este produto, por sinal primário. Seria mesmo maior non sense deter imenso território e ainda assim pagar o serviço de plantio para algum vizinho, como agora. Ademais se descobria o soja, coisa que também todos podiam colher, em vez de mergulharem abaixo de camadas de sal, no cobre do mundo, para não usar sua expressão química, em busca de qualquer inusitado.
    O pré-sal sempre foi tratado com nacionalismo retrógrado e grandiloqüência idílica. Do anúncio à ridícula idéia do país integrar a OPEP, o assunto foi marcado mais por devaneios do que seriedade – pelo menos dentro do governo e da aparelhada ANP. O Brasil do pré-sal é Pasárgada. Mas cuidado, Bandeira: lá, Lula é que é o rei.
    LIMA, Renato,Indigestão de pré-sal
    Porto Alegre mostrava como pode o homem evoluir vivendo socialmente. Sociedade quer dizer participação social na medida da vontade do sócio, não do presidente da associação. Fora o centro, nos bairros Independência e Petrópolis se concentravam enorme quantidade de bares e restaurantes do melhor gabarito, coisa de proprietário receber na porta vestido de smoking. Pernóstico? Nem tanto, senhor. Garçons não usavam blacktie?
    O que ora apuramos?
    Sinto saudades desse Portinho que eu adoro. Quando vim morar aqui em janeiro de 75 não existia tanta barbaridade que existe hoje. Tento lembrar quando começou a ter tanto morador de rua que impede até de a gente caminhar, pois ficam pedindo dinheiro e se enfurecem quando não recebem... Em 85 vim a passeio e me apavorei vendo casas com grades nas alturas. Virou terra de bandidos. Um país onde ser honesto merece ser recebido pelo presidente é algo estarrecedor.
    CAMARGO, V., Correio do Povo, 8/8/2010
    “O Brasil é feito para nos matar e não para nos fazer viver” (CARDOSO, Pedro, ator, . 13/8/2009 - http://emkt.pavazine.com) .
    Já faz algum tempo que banqueiros e politicos não usam mais esses obsoletos serviços à viagens. E dentro das cidades, as excelências dispõem de modernos helicópteros.
    O rebanho bovino brasileiro deve se recuperar apenas em 2014. Além de faltar boi para o abate, o volume de gado segue em queda. Segundo Luciano Vacari, superintendente da Associação de Criadores de Mato Grosso (Acrimat), "se tiver aumento na demanda, não vai ter boi".
    Mas se o brasileiro recomeçar a comer carne, igualmente não haverá para todos.
    Naquela época pessoal aparentava melhor saúde.
    Da década de 1960 em diante houve uma mudança na política do país, e as políticas públicas na área da saúde voltaram-se para uma maior inclusão da população em geral, com extensão da cobertura.Nos anos 70 e 80, o Ministério da Saúde tornou-se mais atuante no desenvolvimento de políticas de saúde para a população.
    MANSUR, Marilia Coser, O financiamento federal da saúde no Brasil: tendências da década de 1990. Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2001.
    CPMFs? Nada disso. Acreditava-se que subtrair dinheiro da Nação debilitaria a produção.
    O Brasil gerava milhares de talentos, sim senhor, em todos os setores, até mesmo na política, acredite se quiser!
    Curioso é que ninguém se melindrava com os fuzilamentos em massa de Fidel Castro. Agora, basta alguém ser condenado à morte em algum país qualquer, de preferência o mais longe possível, para se levantar duzentos milhões de brasileiros em protesto? Não se mandava embaixador a defender direitos ou constituições estrangeiras, muito menos dinheiro para amparar intempéries fora de nossas fronteiras. Imagina se iríamos nos meter nas controvérsias americanas, ou russas, que dirá com aquela gente do Oriente Médio. Os telejornais não sei de onde tiravam tanto assunto, mas não se via nenhum crime ou favelado nas telas - não sei se não existiam ou se o pessoal preferia mostrar shows e filmes, alguma novela interminável, ao invés de sangue, desdentados a chorar, e protestos por justiça. Da violência encarregava-se um senhor muito exigente. Na frente das câmeras ele quebrava as gravações musicais de mau-gosto. Brasil não podia tolerar mediocridades.
    O país era feliz, sabia disso, e ninguém tinha medo. E por causa disso, a herança legada foi farta e abundante. Todo desperdício não pode ser debitado apenas a V. Exa. e sua turma, claro, mas o senhor poderia me citar alguns expoentes, manifestações sociais, ou realizações produzidas nos últimos vinte ou trinta anos, com exceção das promessas para 2014, 2015, 2016, 2017...?

    Sabe o que é ditadura militar? É o [José] Sarney [presidente da República de 1985 a 1990] no governo, isso é ditadura. Isso é ditadura da minoria sobre a maioria.
    Presidente LULA, 1988 , na ocasião deputado federal. Entrevista no Programa Roda Viva, TV Cultura, São Paulo.
    Ah tá. A razão de haver alterado seus próprios conceitos de modo exatamente inverso em nada surpreende:
    Qualquer pessoa é fruto de sua época e de sua circunstância, e o atual presidente da República não foge à regra. Ele se enquadra nesses tempos de mediocridade, de vulgaridade, de superficialidade. Isso nada tem a ver com sua origem humilde, com o fato de continuar por vontade própria semi-analfabeto.
    BARBOSA, Maria Lucia Victor Barbosa, Tempos perigosos, 14/12/2009
    Choca, mas é real. O que será que haverá, neste país?