quinta-feira, 28 de abril de 2011

UK reacende o farol do Iluminismo - O festival

Em 1660, quando a Royal Society foi fundada, a ciência estava em sua infância. Nossas vidas hoje diferem das de nossos antepassados em grande parte por causa dos avanços científicos feitos nos 350 anos subseqüentes. Pode muito bem ser de 9 bilhões de pessoas na Terra em meados do século, cada um com expectativas crescentes, e as consequentes pressões sobre o meio ambiente vai ser difícil de gerir. No entanto, a resposta estará na nova ciência, e em uma melhor aplicação do que já sabemos. A ciência é uma busca incessante para entender: como velhas questões são resolvidas, os novos vêm à luz dos holofotes. Não pode haver melhor maneira de comemorar o aniversário de 350 da Royal Society de olhar para o futuro da ciência, construída sobre as bases da pesquisa de hoje de ponta.   Completaremos este registro, elencando o modo e a importância capital desta roda para o estabelecimento da democracia, bem como sua responsabilidade, direta, pela abolição de todas escravaturas. Martin Rees, Lord Rees of Ludlow, Presidente
1660-68
Coube ao escocês Robert Moray´promover a a primeira reunião da Royal Society em 28 de Novembro de 1660, Moray enfatizava a ética para refutar as doutrinas de Bacon  & Hobbes , ambas consubstanciadas pela matemática cartesiana. Ao pioneiro libertário o homem era uma unidade em si, o qual, apenas posteriormente, encadearia as relações com outros homens e a sociedade em geral, especialmente cumprindo ao natural seus deveres para com ela, sem necessidade de coerções, ou repressõees. Um imperativo categórico, diria no século posterior o  "iluminado" Kant. O princípio era o da Harmonia ou Equilíbrio, mas a concepção excedia a mera racionalidade em voga. A moralidade é fruto da benevolência. , Ela é ética, não dialética; integrativa, não excludente..Apenas um processo dessarte sustentado pode ser racional. William Brouncker, 2º Visconde Brouncker (1620 1684 ) promoveria nova estocada contra o mito do Leviathan. Brouncker  (cit. Schwartz: 44) adquirira o doutorado em matemática pela Universidade de Oxford de maneira que facilmente identificou o caráter fictício, farsante de Thomas Hobbes.
O exercício da física deveria ser restrito a homens de mentes mais livres; se os mecanicistas fossem elaborar uma física sozinhos, eles a levariam para suas oficinas e a obrigariam a consistir exclusivamente de molas, pesos e rodas.
Ninguém menos do que Einstein avaliou: 
Só o indivíduo isolado pode pensar e por conseqüência criar novos valores para a sociedade, mesmo estabelecer novas regras morais, pelas quais a sociedade se aperfeiçoa.
O think-tank  mantinha o segredo: obssessivos não deveriam ali ter acesso, especialmente Hobbes (Bobbio, 1997:165): “Como se comentou recentemente, Hobbes foi a ovelha negra da sociedade inglesa do seu tempo, assim como Maquiavel, no século precedente.” A “ovelha negra”  mantinha seu pequenino fã-clube mecanicista. De More tentava sustentar Descartes, e. R. Boyle recebeu o ataque, traque intitulado Dialogus physicus sive de natura aeris, de 1662. Por milênios consagradas apenas pela técnica greco-romana, eis lavrado o corte epistemológico nas ciências políticas,.
  • A distinção entre certo e errado é parte da constituição inata do homem
  • A moralidade é distinta da teologia
  • As qualidades e ações morais não dependem da vontade de Deus
  • O teste final para qualquer ação é verificar se ela promove a harmonia e o bem geral
  • Os apetites e a razão concorrem para a determinação de uma ação
  • Não cabe ao moralista resolver o problema do livre arbítrio e do determinismo, mas cabe a ele determinar um sistema de teologia natural e estudar as relações entre Deus e o homem.
    Precisamente em 1666, John Locke se tornava médico de Anthony Ashley Cooper (1621-1683), Desta relação saiu a obra-prima da moderna democracia:
    Devemos os Dois Tratados ao prodigioso conhecimento das questões de Estado adquirido por Locke no curso de seus frequentes diálogos com o primeiro conde de Shaftesbury. LOCKE, J., Dois tratados sobre o governo: 37:
    Seis anos após Locke ter começado a lhe prestar serviços, conde de Shaftesbury  ganhou  título honorífico em seu próprio  nome - Lord Ashley - tornando-se Presidente do Conselho de Colonização e Comércio da Royal Society. Ashley ( carta a Thomas Poole, cit. Brett, R. L., La Filosofia de Shaftesbury y la estetica literaria del Siglo XVIII: 109) discordava do grande Newton, algo que nem Locke ousou.
    Newton é um mero materialista. Em seu sistema o espírito é sempre passivo, espectador ocioso de um mundo externo... há motivos para suspeitar que qualquer sistema que se baseie na passividade de espírito deve ser falso como sistema.
    Em 1671, Henry Stubbe (cit. Schwartz, Joseph: 44.) já disparara contra o pragmatismo baconiano, o maior associado de Hobbes, apontando seu “desrespeito às antigas jurisdições eclesiásticas e civis, ao antigo govêrno, bem como aos governadores do reino”.
    Locke foi guindado a Secretário para a Apresentação de Benefícios, até internacionais, como a Constituição  da colônia de Carolina e, por tabela, até mesmo da Constituiçao Norteamericana
    Os EUA transpuseram para suas instituições a idéia de checks and balances e conservaram em seus códigos a firmeza da common law. De modo que sua revolução pode parecer sob muitos aspectos uma seqüência (ou um coroamento) da Revolução Inglesa; uma democratização das instituições inglesas com fidelidade a seu espírito.  FURET, 2001: 74
    Muitos ingleses que emigraram para as colônias conheciam as idéias de Locke. De muitas formas, Locke também passou a fazer parte da tradição política das colônias. Os estudantes das colônia iam para a Europa em busca das universidades, voltavam influenciados por Locke e pelos filósofos iluministas do século XVIII. A política iluminista atravessava o oceano e frutificava na colônia. Karnal: 62
    Ao cabo de trezentos anos, também exatos, as mesmas reverberações proporcionaram a Revolução de Veludo Tcheca e o desmoronamento do grosseiro muro de Berlim, ambos comemorados com os mesmos fogos da democracia e liberdade assistidos na noite que precedeu a aurora do século XVIII.
    Em que pese a simplicidade do primeiro ato e do epílogo, para manter-se em órbita por tantos anos, a liberdade exigiu ciência e paciência, muita sabedoria, perspicácia e honestidade, virtudes empregadas no reforço do pioneiro casco democrático, tão frágil quanto mais apropriado para acomodar todas as gentes à travessia da vida.
    Foi na passagem pela Exeter House que o Secretário compôs o Ensaio sobre o Entendimento Humano. A iniciação foi acompanhada pelos integrantes daquela Royal Society , abrigo de Oxford, mas também da rival Cambridge, de expurgados de Cromwell, e de avulsos, como Sir William Petty, até então modesto agrimensor irlandês. Por lá aportaram o revolucionário médico Thomas Sydenham e o Alchymistarum  Robert Boyle Os destemidos pesquisadores ofereciam algumas dúvidas quanto à velha teoria grega dos quatro elementos. Henry More participava:
    Não só refutei suas [de Descartes e de Hobbes] Razões, como também, partindo de princípios Mecânicos admitidos por toda a gente e confirmados pela Experiência, demonstrei que o Descenso [queda] de uma pedra ou projétil, ou de qualquer outro Corpo pesado semelhante, é enormemente contrário às leis de Mecânica.
    Locke tinha ligação direta com Morey:
    Acresce que, para Locke, a força por si só não legitima o direito, dado considerar que o direito precede o Estado e que o povo é superior aos governantes. Aliás, o poder legislativo (legislature), apesar de ser um supream power, não é um poder absoluto, estando limitado pelo fim para que foi instituído o governo, que é a protecção da vida, da liberdade e da propriedade dos homens: "The legislative being only a fiduciary power to act for certain ends, there remains stil in the people a supream power to remove or alter the legislative when they find the legislative act contrary to the trust reposed in them (...) thus the community perpetually retains a supream power. http://farolpolitico.blogspot.com/2007/10/locke-john-1632-1704.html
    O cidadão se integrava às responsabilidades decisórias. Ninguém, nem mesmo o rei, poderia lhe ser senhor dos destinos. Disso o rei, obrigatoriamente, haveria de entender: “Se o governo se exceder ou abusar da autoridade explicitamente outorgada pelo contrato político torna-se tirânico e o povo tem então o direito de dissolvê-lo ou se rebelar contra ele e derrubá-lo.” (Locke, Second treatise of civil government: 184)
    KARL POPPER (p. 159) reconhece:
    De fato, o funcionamento da democracia depende, em grande medida, da compreensão do fato de que um governo que intente abusar de seu poder para estabelecer-se sob a forma de uma tirania se coloca à margem da lei, de modo que os cidadãos não só teriam o direito, como também a obrigação de considerar delituosos esses atos do governo e delinqüentes seus autores.
    “Assim, o Ensaio de Locke, mais do que oferecer um novo sistema, varreu velhos preconceitos e prejulgamentos.” (Russell, 2001: 307)
    Esse Segundo ensaio sobre o governo civil: um ensaio referente à verdadeira origem, extensão e objetivo do governo civil apresentava uma solução inovadora, genuinamente relativista. Seguramente Locke observou a relatividade inerente aos seres humanos, antecipando-se, pois, em três séculos a genialidade alcançada por Einstein:
    Por isso não é de estranhar que muitos universitários ainda imaginem Einstein como uma espécie surrealista de matemático, e não como descobridor de certas leis cósmicas de imensa importância na silenciosa luta do homem pela compreensão da realidade física. Eles ignoram que a Relatividade, acima de sua importância científica, representa um sistema filosófico fundamental, que aumenta e ilumina as reflexões dos grandes epistemologistas - Locke, Berkeley e Hume. Em conseqüência, bem pouca idéia têm do vasto universo, tão misteriosamente ordenado, em que vivem. BARNETT, O universo e o Dr. Einstein: 12
    A Nação percebia a existência de algo mais além do simples tic-tac:  “Na Grã-Bretanha, contudo, em particular no final do século XVII, a metáfora do relógio foi tratada com muito mais ambivalência do que no continente. O relógio sempre apareceu ali como uma metáfora de arregimentação e compulsão irracional.” (Henry, John, p. 100)  
    "Foi igualmente pela recusa do dualismo cartesiano, e pela defesa da observação e da análise contra o espírito sistemático, que Locke se impôs como 'mestre da sabedoria' aos filósofos franceses do século XVIII." (CHÂTELET: 228).
    O escrito de Descartes se difundiu amplamente no continente, em particular na França e nos Países Baixos, mas não teve o mesmo sucesso na Inglaterra. A filosofia experimental tal como ali se desenvolveu impedia uma aceitação fácil de qualquer sistema dedutivo, e o sistema de Descartes foi considerado tão gerador de dissensões, quanto o sistema extremamente materialista de Thomas Hobbes.
    HENRY: 71
    Os anglo-saxões apearam da limitada, tosca, perniciosa, antiecológica e antieconômica montaria do Leviathan para ascender pelo balão mágico da Revolução Gloriosa. E o mundo começava a tomar conhecimento que poderia viver sob a égide democrática dividindo o poder, desde o núcleo até a extremidade, onde vive o cidadão:. " A democracia inglesa é a única democracia moderna que combina o sentido de independência e excelência com o impulso da classe média em direção à liberdade de consciência e à responsabilidade pessoal." (Barbu, Zevedei, apresentação de Tocqueville, A., O Antigo Regime e a Revolução: 17)  Dessarte a grande ilha escapuliu do fetiche, espalhando suas luzes alhures 
    Percorria a França, por esse tempo, um grande surto de pensamento, palavra e sentimentos liberais. Correspondendo a John Locke, na Inglaterra, e um pouco posterior a ele, Montesquieu, na primeira metade do século dezoito, havia submetido as instituições sociais, políticas e religiosas da França e do mundo a idêntica análise percuciente e fundamental, especialmente no seu Esprit des Lois. Coubera-lhe despir a monarquia absolutista, na França, do seu prestígio mágico. Deve-se a ele, como a Locke, a destruição de muitas idéias falsas que haviam até aí impedido os esforços deliberados e conscientes pela reconstrução da sociedade humana. Se, a princípio, no terreno que tão bem soube desbravar, cresceram edificações extremamentes imperfeitas e transitórias, não foi culpa sua. WELLS, H.t. III: 112
    "Montesquieu dizia que os ingleses eram o povo mais livre do mundo porque limitavam o poder do rei pela lei." (PIPES, Richard: 151)
    Eis a razão da supremacia e estabilidade britânica, e dos frequentes colapsos dos demais países,  começando própria e pela rica França, subvertida pela metonímia cartesiana-roussoniana:
    Nenhum de nós pertence a tal ou qual Departamento, pois pertence a França inteira.Pretende-se que há favoráveis a fragmentação da França; façamos que estas idéias absurdas desapareçam, condenando seus autores a pena de morte. A França deve ser um todo indivisível. Exijo pena de morte contra quem gostaria de ver destruída a unidade da França.
    DANTON, Jacques, Discurso na Convenção de 25 de setembro de 1792; Danton, Discours choisis, Jouvre et Ditisheim, p. 102;
    Burke (p. 92) estava por perto, e testemunhou:
    Diferentemente de seus vizinhos do outro lado do Canal, os franceses foram privados - ou se privaram - de um conjunto básico de circunstâncias que são necessárias para a experiência da liberdade política, isto é, a cooperação e a participação nos assuntos públicos. Primeiramente as idéias dos filósofos, particularmente Rousseau, foram adotadas pelos líderes da Revolução e transmitidas as massas, na linguagem mais simples e sugestiva, com o propósito de criar apoio para suas políticas. Nesse estágio, o papel dos intelectuais era totalmente correlacionado com o dos políticos, cuja tarefa central era de mobilizar as massas, ou, em outras palavras, definir o papel das massas no contexto político em questão.
    Do alto do XX pode-se constatar:
    O reino da França foi um dos raros Estados europeus que se recusaram, de modo obstinado, a reformar-se segundo as exigências do novo espírito iluminista. Houve soberanos esclarecidos nas Alemanhas, Áustria, Rússia, Itália, na própria Espanha e em Portugal, mas não em Versalhes.
    (Gusdorf,  38)
    "Quando a Prússia e os outros estados germânicos ingressaram no século XIX, encontraram a onda de nacionalismo e as demandas por participação popular estimuladas pela Revolução Francesa." (ALMOND, G. e POWELL JR., G.: 197) 
    Faça a conta dos regimes que nos levam a codificar com um gesto nossas paixões do momento. Compensamos nossa inconstância através de visões eternas logo gravadas no mármore. Nossas revoluções passam primeiro pelo tabelião. Conseqüência: quinze Constituições em cento e oitenta se sucederam na França depois da Convenção: Diretório, Consulado, Primeiro Império, Restauração, Cem Dias, Restauração, Monarquia de Julho, II República, Segundo Império, III República, Vichy, de Gaulle, IV República, V República, ufa! MITTERRAND, FRANÇOIS, Aqui e Agora: 90
    .
    London celebrates Festival of Britain, 60 years on
     .

    1951-68
    Seis anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, Londres já estava recomposta. O cantor Billy Bragg descreveu o festival de 1951 como um farol "em uma década muito escura, austera, entre o final da guerra e o nascimento do rock 'n'roll."  Tudo isso ,desembocou numa onda espetacular
    O ano de 1960 foi um marco para os estudos sobre Locke. Em um só ano, além da edição crítica de Laslett, já lembrada, foram publicadas três monografias importantes* que representam muito bem o interesse renovado pelo filósofo do liberalismo e do cristianismo racional. Todas as três enfatizam Locke moralista e político, mais do que o teórico do conhecimento, sobre o qual se havia detido especialmente os trabalhos e a crítica precedente.
    Bobbio, Norberto, Locke e o Direito Natural: 78
    O que começou a aparecer em 1960 foi na verdade o surgimento da corrente de pensamento anarquista acompanhada de movimentos ativistas que surgiram entre os jovens de vários países da Europa e da América. Muitas vezes o nome não era o mesmo; muitas vezes a doutrina acabava diluída por outras correntes de pensamento radical; raramente houve a tentativa de reestabelecer a continuidade com algum movimento do passado. No entanto, a idéia ressurgiu, clara e facilmente reconhecível, em países tão diferentes quanto a Inglaterra e Holanda, a França e os Estados Unidos. Ela conseguiu atrair seguidores numa escala nunca vista desde os dias que antecederam a I Guerra Mundial. Por toda a Inglaterra começaram a nascer grupos dedicados à prática de ação direta e à exploração de uma sociedade sem guerra nem violência e, portanto, sem coerção.Woodcock, G., Os grandes escritos anarquistas: 48.
    Oito milhões de pessoas participaram daquela religação iluminista, evento, que, contou com passeios e feiras de arte pública, exposições sobre a história, ciência, pesquisa e design, arquitetura e algumas dazzlingly modernas, incluindo a torre Skylon foguetes. Como o "modernista" Royal Festival Hall.  K. Braga disse: "O festival original era impressionante virada para o futuro - "
    "A comemoração do  60 º aniversário é  uma espécie de Festival da Grã-Bretanha 2.0". Ele  acontece num parque de uns 10 hecs,  totalmente decorado artisticamente, e dotado de instalações que refletem as glórias britânicas no decurso da história. Há um coreto, um jardim na cobertura e uma praia fluvial com uma fileira de barracas de praia pintadas. Muitas esculturas adornam as alamedas que dão ao museu dedicado a 1951, enquanto ao ar-livre se proliferam  sing-a-longs, concertos e palestras públicas. E, claro, peixe e batatas fritas. Este fim-de-semana é dedicado à celebração do amor, com o ápice do casamento real. Milhares de turistas estrangeiros circularão pelo Picadily Circus, enquanto sei lá quantos milhões estão acompanhando tudo por vários canais de transmissão on line. "Nós estamos dizendo, have a nice day à, gente de todo o mundo,"  Intelectuais, airtistas e as grandes bandas dos 60 e 70 foram convocados, e estão  presentes, despontando Paul Mc Cartney, um dos batedores de 68.
    O ano de 1968 talvez haja constituído um divisor de águas: desde então assistimos ao progressivo refluxo da maré, o qual se acentuou em 1989/91. O século XXI poderá conhecer, após calamidades imprevisíveis - guerras, novas revoluções e catástrofes ecológicas - o princípio da reconstrução da ordem internacional, uma reorganização em escala mundial do Estado de Direito Liberal. Penna,  J. O. de Meira, O Espírito das Revoluções: 46
    I hope, Senhor Embaixador! Parece quase. O  muro se veio abaixo, o Vaticano enfraqueceu, mas nunca se entrega, ao contrário, de um ou outro jeito se revigora, o nazismo já foi, a Europa se uniu numa espécie de confederação, a China surpreende o mundo, a trilha sonora ,Across the Universe viaja dirigida à estrela polar (Polaris), a mais brilhante da constelação da Ursa Menor, situada a 431 anos-luz da Terra. (Ano-luz corresponde a 9.460 mil milhões de quilômetros.),  até mesmo  Oriente Médio ensaia se libertar, mas com tamanha catarse a civilização demonstra se ver desorientada,  até perplexa. O Ocidente periclita,. Balança de cabo a rabo, exceto no ponto do farol. Felizmente, Nunca foi tão oportuno. Enquanto o Brasil tudo projeta ´"para inglês ver", o ingles projeta tudo para todo o mundo  ver. E o mundo recomeça a ver a pujança do conhecimento, da tradição, da certeza, e da harmonia  social reinante num país que, curiosamente, o que menos aprecia é a idéia da igualdade e do direito como sua máxima expressão. O Perú reconhece Paul McCartney
    Para finalizar,  a vibrante e intensa manifestação social conjugada com as cerimônias sugere levar o jovem casal  à direta ascenção ao trono. Forçando um pouco, assemelha-se ou lembra  o dia que trouxe Guilherme II e Maria ao poder, distinto deste  porquanto não há necessidade da fuga do rei*, e o cortejo dar-se-á pelas carnaby-streets, em vez do Tâmisa. Ao repórter da BBC Peter Hunt, casamentos são importantes para a família real porque "revigoram instituições centenárias" e renovam o interesse do público em suas atividades.
    Em vez de asssistir  peripécias de tropas de rebite,  quem sabe desta feita o mundo inteiro não possa divisar e apreciar  a simplicidade conjugada com a ética e a cientificidade, obviedade capaz de produzir  o esplendor de uma riqueza invejável e inatacável.
    2011-?
    Nav's ALL novamente  antecipou a vista do futuro de  presente para você,  desta feita com três meses de vantagem sobre a concorrência:  "É como em 1968", diz diretor de Conselho Europeu
    O que aconteceu com os governos?  Segundo a tradição, foram gradualmente caindo em desuso.  Convocavam eleições, declaravam guerras, impunham tarifas, confiscavam fortunas, ordenavam prisões e pretendiam impor a censura, mas ninguém no planeta os acatava.  A imprensa deixou de publicar suas contribuições e efígies.  Os políticos foram forçados a encontrar um emprego honesto; alguns se tornaram bons comediantes ou bons médicos. Borges, J.L., El Libro de Arena, Obras Completas, Barcelona, Emecé Editores, Tomo III, 1996: 55.
     _________
    * Na mosca: 

    quarta-feira, 27 de abril de 2011

    UK reacende farol do Iluminismo - Prólogo

    A grande epopéia das Luzes incluía no mesmo movimento o justo e o belo. Organizava um afresco tranquilizador da natureza e da sociedade. Os romances de aprendizagem diziam como se conduzir e se comportar. Ora, as indicações foram se desagregando nas sociedades industriais contemporâneas. Como poderiam ter consciência? Descamps, C., As Idéias Filosóficas Contemporâneas na França: 27 
    O Liberalismo pode encontrar algumas de suas raízes no humanismo que se iniciou com a contestação da autoridade das igrejas oficiais durante a Renascença, e com a facção Whigs da Revolução Gloriosa na Grã-Bretanha, cuja defesa do direito de escolherem o seu próprio rei pode ser vista como percussora das reivindicações de soberania popular. Wikipédia  
    Talvez por causa da densa neblina o potente farol não pode ser bem apreciado no continente. Houve uma tentativa com espelhos, através do Barão de La Brède et Montesquieu, porém imediatamente quebrado por coice da própria Vaca Leiteira, como alcunhava Hitler. Por isso resignava-se Voltaire (cit. Stewart, D., in Smith, Adam, Teoria dos Sentimentos Morais: XLVI.), em carta ao escocês endereçada:
    Meu caro Sr. Smith, tem paciência; tranquiliza-te; mostra-te na prática tão filósofo como és na profissão; pensa na vacuidade, aridez e futilidade dos juízos comuns dos homens: como são poucos governados pela razão, notadamente nas questões filosóficas, que tanto excedem a compreensão do vulgo.
    O repórter francês adivinhava o futuro. “A mensagem de Adam Smith, em particular, foi grotescamente distorcida durante os últimos duzentos anos.” (Ormerod: 223) Então passados os séculos, e muitas guerras do continente procedentes, o Reino Unido arrumou uns irreverentes batedores para se imiscuírem pelas linhas estrangeiras, no fito de tentar acordar os sonâmbulos, ainda enfeitiçados pela mera (a)tocha olímpica. The Beatles foram agraciados com a Ordem da Coroa, e aclamados mais conhecidos do que Jesus. Qual a razão de tamanho galardão? Pela harmonia das ondas tão magistralmente produzidas ainda podem viajar expressas informações de fé, de esperança, caridade, emoções, solidariedade, mesmo dramaticidades, até de alertas, ou conselhos, mas todas compatíveis com o ser.
    Ondas contaminam. Ninguém fica sentado numa Ola.
    A tentativa quase repetu a Revolução Gloriosa, mas desta feita  em caráter internaconal.
    Nesse contexto, o mês de maio de 1968 aparecera como um acontecimento que ninguém previra. Generalizado, o discurso político perdeu então seu privilégio. A proclamação do que era científico ficou abalada; as ciências políticas não souberam antecipar esta explosão internacional. Descamps, C.: 15
    Mesmo que fizessem esforços desesperados para falar de 'seu tempo', agitando os grandes significantes novos (comunicação, interação, inteligência artificial), mesmo que se esmerassem em manipular, em seus discursos, toda uma quinquilharia de objetos considerados concretos, posto que retirado do vivido mais banal (walkman, minitels, pílulas e robôs domésticos), os filósofos fugiam das questões mais decisivas. Porque as consideravam resolvidas. Contre la peus, Hachette, 1990: 112; cit. Japiassú, H. Um desafio à Filosofia: pensar-se nos dias de hoje: 17
    A década famosa apresentava um desapercebido Neoiluminismo: "O explosivo ano de 1968 começou luminoso" (F. Tavares, ZH, 4/12/2007: 21)
    A convergência em que se achavam os que estavam adiantados e os que estavam atrasados, os que haviam aberto o caminho e os que haviam tentado em vão segui-lo, teve lugar nos anos 60, quando os homens do Iluminismo pareceram trabalhar em uníssono." Apesar disso, a cronologia da circulação de tais ideais iluministas permitiu aos franceses testemunharem insurreições e revoltas antes nas margens mais extremas desse espaço iluminista, e só aos poucos "o círculo da revolução foi se apertando em torno da França.
    ZERON, Carlos Alberto, O espaço das Luzes, Folha de São Paulo, 14/6/2003
    Como nos instantes que precederam 1688,  houve o respaldo da ciência:
    O ano de 1960 foi um marco para os estudos sobre Locke. Em um só ano, além da edição crítica de Laslett, já lembrada, foram publicadas três monografias importantes* que representam muito bem o interesse renovado pelo filósofo do liberalismo e do cristianismo racional. Todas as três enfatizam Locke moralista e político, mais do que o teórico do conhecimento, sobre o qual se havia detido especialmente os trabalhos e a crítica precedente.
    Bobbio, Norberto, Locke e o Direito Natural: 78
    “Nos últimos anos foram lançados uns quatrocentos livros sobre Einstein e seu trabalho.”(Jammer, Max, Einstein e a Religião: física e teologia: 9)  O efeito foi deveras atômico:
    O que começou a aparecer em 1960 foi na verdade o surgimento da corrente de pensamento anarquista acompanhada de movimentos ativistas que surgiram entre os jovens de vários países da Europa e da América. Muitas vezes o nome não era o mesmo; muitas vezes a doutrina acabava diluída por outras correntes de pensamento radical; raramente houve a tentativa de reestabelecer a continuidade com algum movimento do passado. No entanto, a idéia ressurgiu, clara e facilmente reconhecível, em países tão diferentes quanto a Inglaterra e Holanda, a França e os Estados Unidos. Ela conseguiu atrair seguidores numa escala nunca vista desde os dias que antecederam a I Guerra Mundial. Por toda a Inglaterra começaram a nascer grupos dedicados à prática de ação direta e à exploração de uma sociedade sem guerra nem violência e, portanto, sem coerção.
    Woodcock, G., Os grandes escritos anarquistas: 48.
    Os guardiões da língua inglesa brigavam devido a questão da legitimidade do inglês negro. Os criminologistas brigavam devido a definição de crime. Os psicólogos discordavam das definições de personalidade. Os psiquiatras foram obrigados a rever a definição de homossexualidade como doença. Os sociólogos começaram a lidar não com problemas de pobreza, mas com a riqueza. Historiadores radicais resituaram as categorias supostamente atemporais de sexualidade, maternidade e inteligência como entidades subordinadas à historia e mutáveis, sujeitas a direcionamentos e influências humanas. Na ciência os ativistas desafiaram as instituições em questões relativas à raça e Q.I., a sociobiologia, preconceito sexual na ciência, o ensino da ciência, o controle da ciência pelas corporações e o envolvimento americano na guerra do Vietnã. A manifestação mais profunda dessa corrente pré-revolucionária nas sociedades ocidentais foi o Maio de 68, na França. Estudantes enfrentando polícia. Uma semana depois, violenta repressão aos estudantes e greve geral dos sindicatos em 13 de maio. Em Saclay, um contingente de 2.000 trabalhadores organizou-se para participar da gigantesca manifestação de 800.000 pessoas. As faculdades estavam ocupadas. As fábricas pararam. Os trabalhadores ocupavam-nas. Cerca de 9 milhões aderiram às greves. Todos estavam confusos com o estonteante rumo dos acontecimentos.
    Schwartz, Joseph, O momento criativo - mito e alienação na ciência moderna:  310
    Devo acrescentar que estávamos em meados de 68, ano dos protestos juvenis, que foram particularmente mais inflamados na Itália. A Universidade italiana (embora não apenas a italiana) mostrara-se politizada - e mal politizada - sobretudo nas Faculdades de Ciências Humanas. Bobbio, N., A teoria das formas de Governo. -  Prefácio à edição brasileira.
    O ano de 1968 talvez haja constituído um divisor de águas: desde então assistimos ao progressivo refluxo da maré, o qual se acentuou em 1989/91. O século XXI poderá conhecer, após calamidades imprevisíveis - guerras, novas revoluções e catástrofes ecológicas - o princípio da reconstrução da ordem internacional, uma reorganização em escala mundial do Estado de Direito Liberal.
    Penna, J. O. de Meira, O Espírito das Revoluções: 46
    Quase, sr. Embaixador.  O  muro se veio abaixo, a religião enfraqueceu, o nazismo já tinha sido banido,  a Europa se uniu numa espécie de confederação, a China surpreende o mundo, a trilha sonora Across the Universe viaja dirigida à estrela polar (Polaris), a mais brilhante da constelação da Ursa Menor, situada a 431 anos-luz da Terra. (Ano-luz corresponde a 9.460 mil milhões de quilômetros.),  até mesmo  Oriente Médio ensaia se libertar, mas com tamanha catarse a civilização demonstra se ver desorientada,  até perplexa. O Ocidente periclita,. Balança de cabo a rabo, exceto no ponto do farol. E lá vem ele, de novo, ligado a pleno. Enquanto o Brasil tudo projeta ´"para inglês ver", o ingles projeta tudo para todo o mundo ver. E o mundo recomeça a ver a pujança do conhecimento, da tradição, da certeza, e da harmonia  social reinante num país que, curiosamente, o que menos aprecia é a idéia da igualdade e do direito como sua máxima expressão. Pois este país mais aristocrático do mundo foi o que menos  apresentou anomalias sociais; e suas desavenças jamais foram resolvidas à bala, como se sucedem com todos os demais. E não me venha falar das Malvinas. Fosse o Rei  teria mandado capturar a Argentina inteira, porque ladrão que rouba ladrão tem cem anos de pérdão.
    Os anos sessenta, na verdade, foram construídos por nossa geração,  que vimos nossos pais dilacerados pelas bestialidades daléticas. Em 1951, foi dado o start., Nem sabia disso - afinal tinha apenas alguns meses de idade.
    A  Nav's ALL novamente  antecipou o futuro para você,  desta feita com tres meses de vantagem sobre a concorrência:  "É como em 1968", diz diretor de Conselho Europeu
    A.C. (Antônio Cicero ensina o que é ser moderno; O Estado de São Paulo, 18/8/1995: D4) permanece inquieto pelo novo tempo, na verdade um retorno à mais sensata cabeceira,
    O que nos falta é radicalizar a ideologia iluminista, que os Estados Unidos deixaram para trás. A concepção moderna de mundo não admite que haja um universal positivo. É por isso que a concepção moderna de mundo é não-religiosa. Hoje temos cada vez mais medo da diversidade. O Estado brasileiro nos dá freqüentes provas disso. Montesquieu já dizia que as leis ruins prejudicam as boas. Mas no Brasil de hoje, tudo tem de ser regulamentado. Isso é um perigo. Temos de ter um mínimo de lei absoluta para ter um máximo de experimentação. Mas o que se dá no Brasil é o contrário, temos o máximo de lei e um espaço cada vez menor para experimentar.
    Não só por atrair a atenção do mundo com a magnífica cerimônia real, por patrocinar as próximas olimpíadas, mas principalmente por outros dois fatores, entre eles o revigoramento da  Royal Society , que  completa seus trezentos e cincoenta aninhos,  UK parece estar usando de todas as suas forças para demonstrar ao mundo que o mundo pode ser muito melhor para todos,  desde que se arrefeça a  ficção greco-romana. Amanhã complemento  o insight, despontando também a repetição da solenidade de 1951, em aprazível recanto londrino. Londres mergulha em festa!. Britânicos acampam na rua para ver casamento Come back, please. Antes, porém, um óbice,  detalhe paradoxal - o papel nada condizente do governo britânico no  caso Assange Wikileaks faz parte da catarse,  clareza que o farol propicia.  A pedido da Suécia por solicitação escusa da filha modernizada ao arrepio de A. Cícero. o UK parece querer trair seu  próprio súdito, e até o mundo inteiro, e não o contrário. Isso sim, espera uma melhor resolução.
    __________

    quinta-feira, 21 de abril de 2011

    Entre o lado de lá e o de cá

    Do arquiteto
    Para Platão, a ordem e a beleza que vemos no Cosmo resulta de uma intervenção racional, intencional e benigna de um divino artesão, um "demiurgo" (gr. δημιουργός), que impôs uma ordem matemática a um caos preexistente e, assim, produziu um Universo divinamente organizado, a partir de um modelo eterno e imutável (Pl. Ti. 26a). A visão platônica da origem do Universo também teve enorme influência na filosofia, especialmente na neoplatônica, no ocultismo e na teologia desde o século -IV até nossos dias. www.greciantiga.org
    Durante seu desenvolvimento pelo pensamento grego, a filosofia da natureza enveredou por um caminho equivocado. Esse pressuposto errôneo é vago e fluído no Timeu de Platão. WHITEHEAD, Alfred North: 31
    Assim falou Zaratustra (NIETZSCHE, 1961: 7):
    Que é o macaco para o homem? Uma irrisão ou uma dolorosa vergonha. Pois é o mesmo que deve ser para o Super-homem: uma irrisão ou uma dolorosa vergonha. Percorreste o caminho que medeia do verme ao homem, e ainda em vós resta muito do verme. Noutro tempo fostes macaco, e hoje é ainda mais macaco do que todos os macacos.
    Dos primatas
    Quando Deus determinou a ordem dos corpos celestes, tinha em mente os cinco sólidos regulares, famosos desde os tempos de Platão e Pitágoras até nossos dias. KEPLER,cit. GLEISER, Marcelo, Criação Imperfeita. 65
    Os homens tinham a teoria de que a matéria celestial era fundamentalmente diferente da matéria terrestre e que era natural que os objetos assim caíssem, enquanto era natural que os objetos celestiais, tais como a Lua, permanecessem parados no céu. BOHM, David, Totalidade e ordem implicada: 20
    Não puderam (os homens), com efeito, tendo considerado as coisas (da natureza), como meios, supor que elas tivessem sido produzidas por elas mesmas, mas, tirando a sua conclusão dos meios que se acostumaram a obter, tiveram que persuadir-se de que existiam um ou mais diretores da Natureza, dotados de liberdade humana, que tivessem provido todas as necessidades deles e tivessem feito tudo para seu uso (dos homens). Não tendo jamais recebido (a) respeito do propósito destes seres informação alguma, tiveram também de julgar segundo o seu próprio, e assim admitiram que os deuses dirigem todas as coisas para uso dos homens, a fim de que esses se lhes liguem e para que sejam tidos por esses na maior honra. Do que resulta que todos, referindo-se ao seu próprio propósito, inventaram diversos meios de render culto a Deus, a fim de que fossem amados por ele acima de todos, e para que obtivessem que dirigisse a Natureza inteira em proveito de seu desejo cego e de sua avidez insaciável. 
    SPINOZA, B,, Ética, Prop. XXVI, Apêndice
    Esta lapidar percepção pertence ao meado do XVII. Não sei como não foram  queimados esses livros, em praça pública. Talvez chamasse  a  atenção do povo à obviedade. Mas ´pela ousadia de despir o dogma Spinoza tomou a excomunhão.
    Dous lados dizia Machado
    Na Grécia, berço das artes e dos erros e onde se levou tão longe a grandeza e a estupidez do espírito humano, raciocinavam sobre a alma como nós.
    VOLTAIRE, Cartas Filosóficas. «13.ª carta»,
    Pode um indivíduo ser usado como veículo de outro? Com certeza.   São Cristóvão é transatlântico a cumprir o trajeto à  margem metafísica.
    Os homens podem cometer injustiças porque tem interesse em cometê-las e preferem sua própria satisfação que a dos outros. É sempre por um retorno que eles agem; nada é mau gratuitamente, é preciso que haja uma razão que determine e essa razão é sempre razão do interesse.
    MONTESQUIEU, Cartas Persas: 282
    O caroneiro projeta a miragem, e o veículo escorrega pela gravidade. Caso se tornasse ponte, como preconizava Nietzsche, o caroneiro poderia deixar o santo se banhar à vontade, em vez de empregá-lo a seu vil interesse. O prazer do caroneiro, entretanto, não está propriamente no outro lado, mas em sentir-se poderoso sobre o veículo que dirige.  A viagem sobre o dorso é que lhe apraz.  O astuto aparece mais alto, porque na garupa; e mais importante, do que seu veículo, provado pelo sacrifício imposto, e docilmente aceito. Para onde vão, não vem ao caso - afinal todos para lá se dirigem,.  Exceto  o encantador Orfeu, todavia, ninguém mais voltou para dizer como são  os aposentos do lado de lá. O mistagogo da ciência  é que embarcou  na ilusão, antecipando-se   com a cicuta.
    Do lado de cá, a matéria,, insofismável.. Todos são testemunhas.  O Estado cuida de enaltecê-la ao máximo, e coloca todos no eixo. "Os bens são adquiridos com dedicação; porém, não há empenho algum pela pessoa que os vai possui". (Erasmo de Roterdã, De pueris) É que "a longo prazo estaremos todos mortos", ensina o biplatônico J.M. Keynes. A má tese, ou a má temática, a "quantofrenia", conforme Sorokin, ou a "aritmomania", como diz Georgescu-Roegens, coroou o homo faber tal homo mathematicus. O universo-máquina, que ainda tinha alma, passou a ser ‘um vasto sistema matemático de matéria em movimento’, um ‘universo material (onde) tudo funciona mecanicamente, segundo as leis matemáticas.’ Não há contabilidade, todavia, Mr. Keynes, e Herr  Marx, que contemple o ser humano diante da infinidade de possibilidades emergentes.
    A visão materialista estabelece: mais dinheiro=vida melhor. Porém, tendo adquirido mais e tendo descoberto que o vazio permanece, a conclusão da premissa materialista está errada.
    ARNTZ, W.: 30
    Como evidentemente em nada do lado de cá bate coração, o ser humano entende se achar excessão, por certo à Sua Imagem e Semelhança! “A terra, ou seja, a matéria, é contraposta à verdadeira natureza da alma, quer dizer, ao seu ‘ser boa’. A matéria representa o mal.” (Platão, cit. Kelsen, 1998: 3) Eis o dilema da civilização, já por  2.500 anos: o genuíno divino do lado de lá, tendo que transitar pela imperfeição do lado de cá.
    Vã tentativa de armistício
    Todos concordes com a primaz obviedade, o senso de equilíbrio  torna justa a relação entre os simpatizantes de ambos os lados.  O livre-arbítrio permite optar. Metade da face da terra, pelo menos, vem ocupado pelos chamados realistas - (de rei, veja só).Podemos ter  vindo do lado de lá, muito provavelmente, sim, mas enquanto estivermos do lado de cá, a matéria é o que mais importa. Que adianta a velhice?  "Não é um simples acaso que a idéia cartesiana de Deus como legislador do universo se desenvolva somente quarenta anos depois da teoria da soberania de Jean Bodin".(ZILSEI, E., The sociological roote of science, The American Journal of SociologyEstes) A autocognominacão  racional veio por conta de que sabiam contar. Tinham razão. Ela deriva de ratio - ratear, contabilizar. A outra metade, contudo, merecia ser reservada a quem cuidasse do  nosso distintivo primordial.  Isso não pode ser medido. Não é geométriico, nem muito lógico, até ao contrário - meio deslocado no interior do ser humano, ,a caixa- preta tornada vermelha não obedece a nenhuma fita metrica, mas isso não quer dizer que ela não exista.
    Quando alguém é chamado de materialista, geralmente se ofende. Não seria para tanto:  o espiritualismo, por desdenhar o material, implica na maior pobreza. Qual motivo para preferi-la? Alguns bacanas tiveram uma boa idéiia ao maquiarem o materialismo com o colorido escarlate e assim a região fronteiriça tem se ampliado consideravelmente. Ora os espiritualistas tratam de forrar o poncho; .e os materialistas agradecem a Deus tanta fartura. Assim todos mais ou menos concordes convencionaram a se chamar espiritualistas e materialistas, adversários, sim, mas não com explícitas agressões.
    É necessário que tal cidade não seja una, mas dupla, a dos pobres e a dos ricos, habitando no mesmo solo e conspirando incessantemente uns contra os outros.  PLATÃO, A República, livro VIII., cit. SAUTET, M.: 252
    A ideologia cria uma 'falsa consciência' sobre a realidade que visa a modo de suprir , morder e reforçar e perpetuar essa dominação. (Wikipédia)
    De um jeito ou de outro, ambos costumam pártir conscientes que fizeram tudo que podiam em seu curto EspaçoTempo do lado de cá. Afinal, que outra alternativa se pode almejar? Quanto muito o misto, ou, como digo, a junção dos dois, preconizariam Platão e Aristóteles, e de modo simplista e até simplório, pelo grande psicólogo Erich Fromm:
    A cultura medieval superior floresceu porque o povo seguia a visão da cidade de Deus. A sociedade moderna floresceu porque o povo foi vitalizado pela visão do crescimento da Cidade Terrena do Progresso. Em nosso século, porém, esta visão deteriorou-se no que foi a Torre de Babel, que está agora começando a ruir e em última análise sepultará a todos em suas ruína. Se a Cidade de Deus e a Cidade Terrena foram tese e antítese, a única alternativa para o caos é uma nova síntese.
    FROMM, E., 195
    O produto desta sapiência, desta síndrome pelo eixo estendido é o quadrado da ignorância.Com todo o respeito.
    Quo vadis? Se a carência é total, mas a busca pela satisfação é taxada insana, como escapulir do brete? Existe alguma panacéia capaz de arreferecer a ansiedade aviltada por qualquer quadrante que se escolha? A realidade seria miragem, fruto de potência patológica? Para onde mirar, se qualquer alvo é tão efêmero quanto a ilusão? E se o olho engana, não deveríamos mesmo arrancá-lo, como sugeriu venerado mestre? É possível isso, ou seria mais uma tentativa infrutífera, e pior, abrindo um buraco muito maior do que se pretendia tapar? Quem sabe então sentar no jardim de alguma acrópole, para admirar os lírios do campo, ou quiçá no embalo de uma rede nordestina, apenas para divisar a inexorável marcha do tempo, já que nada nos resta fazer, além de pensar, comer, caminhar, e descansar?
    Para aplacar a esquizofrenia, os pecados dos espiritualistas são tolerados, desde que purgados. coisas do limitado homem. E as falhas dos materialstas não seria de outro modo. Então todos embarcam imbuídos da mesma esperança, do otimismo realista que coroou o mistagogo da ciência.
    A civilização despenca firme e granítica  no rumo imprimido pelo grande arquiteto do universo, sim, do universo da palavra, da retórica, do sofisma, ao gáudio do inventor.
    O dualismo cartesiano, ao criar a bifurcação mente-matéria, observador-observado, sujeiro-objeto, moldou o pensamento ocidental, poucos filósofos discordando dele, cujos mais notórios foram Spinoza e Schopenhauer. No século XX essa discordância se acentuou. GOTTSCHALL: 189
    Grosso modo, a humanidade dessa maneira se divide: de um lado, espiritualistas mais ou menos radicais de toda a espécie - filósofos, alquimistas, magos e pastores, pintores,  videntes, historiadores, padres e os iogues, ideológos e sonhadores, poetas, românticos, artistas, muitos outros humanistas, também muitos ingênuos e não poucas vítimas; do outro, perfilam-se pragmáticos, os especialistas, profissionais,  operários, agricultores, serviçais, cientistas, técnicos, atletas, políticos, generais, muitos alienados, e não poucas vítimas também.
    Embora a tradição mantenha a maciça maioria enfeixada na faina socrática, um encontro entre atenienses e espartanos corresponde ao Negro com Solimões*. Dificilmente essas águas se misturam.
    Existem todo o tipo de pessoas, mas acho que seria razoável dizer que ninguém que se diga filósofo realmente entenda o que se quer dizer com a descrição da complementariedade. A relação entre os cientistas e os filósofos é bastante curiosa. A dificuldade é que é inútil que haja qualquer tipo de compreensão entre os cientistas e os filósofos diretamente. BOHR, NIELS, cit. PAIS, ABRAHAM, Einstein viveu aqui: 33
    O salto conceitual que o físico alemão Max Planck deu em 1900, engendrando a base da mecânica quântica, reformulou de tal maneira a visão do mundo que, ao menos um historiador da ciência, não teria razões para supor que seu impacto já tivesse sido todo absorvido. CAPOZOLI, U., Presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC)
    O anacronismo dialético
    O cérebro do Universo e capaz de contar acima de dois. Os dilemas do intelectual-artista e do teórico-político tem mais de dois chifres. Entre a torre de marfim, de um lado, e a ação política direta, de outro, existe a alternativa da espiritualidade. Do mesmo modo, entre o fascismo totalitário e o socialismo totalitário existe a alternativa da descentralização e do empreendimento cooperativo - o sistema político-econômico mais natural à espiritualidade. Cit. FERGUNSON, M. : 211
    Malgrado o estrondoso alerta lá do alto do penhasco, com os pulmões ao máximo, pressão arterial medida em torque, e numa elegância incomparável, com tudo isso continuamos símios.  E pior, ainda: por causa da evolução e da seleção natural, pessoal  anda preferindo derivar a gorila. Talvez no pressuposto da inexorabilidade genética aferida pelo astuto botânico virado rei dos animais, consubstanciada pela magnifica presença do indescritível Deus, mesmo que Ele exista apenas em nossa priviliegiada e já bem desenvolvida cabeça,  sujeitamo-nos a continuar seguindo os passos da macacada, com certeza como gesto de humildade e prudência. Pois convém informar os primatas:: não há fronteiras no Universo. Não tem nem se precisa misturar algo que não está separado. Qualquer cisão lhe mutilará. A outra margem que não enxergamos é apenas um prolongamento.
    E=MC² 
    Por mais otimismo, certeza, e boa-vontade que pudermos compactar, qualquer opção, qualquer preferência por um ou outro polo,  ou mesmo os dois ajuntados estará fadado ao fracasso, porquanto desdenha tudo o mais do EspaçoTempo. Se optarmos apenas pelo que os olhos vêem, e por isso tem certeza, equiparar--nos-emos ao chimpanzé. Embora parente, e inocente, e até mais simpático, o bananeiro  não tem direito a Habeas Corpus. Se voltado ao abstrato, perder-se-á em suas brumas, ainda antes de iniciar a travessia, Se engrossar o coro dos bacanas, verá que eles apenas racionalizaram o artifício, de modo que o atoleiro ainda será mais profundo, porque dobrado.
    seesaw
    Bem e mal são categorias inventadas pelo homem para conviver. [...] A imensidão do espaço não pode ser analisada do ponto de vista do bem e do mal. Não tem sentido, nenhum sentido, do ponto de vista do bem e do mal. 
    BOBBIO, N., e VIROLI, M.: 79
    Os velados embates decorrentes da parca imaginação socrática acusam exaustão. Restam muitos vitoriosos, por ambos os lados; e mesmo número de derrotados, alhures.:A estéril dicotomia vem sendo arrefecida conforme se dissemina o entendimento, o conhecimento, isto é, o reconhecimento:
    Só conhecemos uma realidade - a dos pensamentos. Como? Se isso fosse a essência das coisas? Se a memória e a sensação fossem os materiais das coisas? NIETZSCHE, F., O livro dos filósofos: 45
    A teoria quântica dos campos ensina  tanto a matéria (hadrons e leptons) quanto os condutores de força (bosons mensageiros) são causa & efeito  do campo fundamental de energia mínima, ,não-nula (vácuo).
    Em seu estado puro, isolado, os quanta não estão apenas num determinado lugar e num determinado tempo: cada quantum isolado está tanto aqui como ali - e num certo sentido, está em toda a parte do espaço-tempo
    Laszlo, E.: 33
    Eternidade? Existe sim, óbvio. Nessarte estamos inseridos. Hades: estás dispensado!

    terça-feira, 19 de abril de 2011

    A essência do Universo

    O pedaço de matéria nada mais é senão uma série de eventos que obedece a certas leis. A concepção de matéria surgiu em uma época em que os filósofos não tinham dúvidas sobre a validade da concepção 'substância'. A matéria era a substância no espaço e no tempo; a mente, a substância que estava só no tempo. A noção de substância tornou-se mais vaga na metafísica no decorrer dos anos, porém sobreviveu na física porque era inóqua - até a relatividade ser inventada. Um pedaço de matéria, que tomávamos como uma entidade persistente única, é na verdade uma cadeia de entidades, como os objetos aparentemente contínuos em um filme. E não há razão pela qual não possamos dizer o mesmo quanto à mente: o ego persistente parece tão fictício quanto o átomo permanente. Ambos são apenas uma cadeia de eventos que têm certas relações interessantes uns com os outros. A física moderna nos permite dar corpo à sugestão de Mach e de James de que a 'essência' do mundo mental e do mundo físico é a mesma.
    Bertrand RUSSELL,  Ensaios céticos: 74
    É a informação - a informação como um fator real e efetivo que estabeleceu os parâmetros do universo em seu nascimento, e, portanto, governou a evolução de seus elementos básicos em sistemas complexos. Erwin LASZLO,: 21

    sábado, 16 de abril de 2011

    A gravidade do sulco cartesiano


    A ciência como instrumento e máscara da dominação de classe: eis o signo indiscutível da ideologia!
    Claude Chrétien
    A vela "iluminava" os pobres mortais. Quando ela caia, e incendiava tudo, nada era culpa de Deus. Ele não tapeia suas criaturas.
    Os homens podem cometer injustiças porque tem interesse em cometê-las e preferem sua própria satisfação que a dos outros. É sempre por um retorno que eles agem; nada é mau gratuitamente, é preciso que haja uma razão que determine e essa razão é sempre razão do interesse. Mas não é possível que Deus faça algo de injusto, uma vez sequer.
    MONTESQUIEU, Cartas Persas: 282
    Os equívocos vem do “gênio mau”, “manhoso e enganador”, sempre empenhado no seu papel, o diabo caricaturado na Meditação Primeira, meditação deveras primária.
    O Deus cartesiano nos dá algumas idéias claras e precisas que nos permite encontrar a verdade, "desde que nos atenhamos a elas e não nos deixeis cair no erro". "O erro, o Mal entra pelo corpo, transforma o divino Bem da alma", e isso já ensinara Platão: “A terra, ou seja, a matéria, é contraposta à verdadeira natureza da alma, quer dizer, ao seu ‘ser boa’. A matéria representa o mal.” (Cit. Kelsen, 1998: 3)
    O “escultor e pai do universo” havia colocado tudo aos nossos pés, “para isentar a si próprio de qualquer culpa por futura ruindade.” Cabía-nos apenas rastrear a Sua charada. O racionalismo O legitimava:
    "A região do mundo colhia, pelo menos parcialmente, a herança grega, e a combinara com a visão da natureza e a vocação do homem trazida pela tradição judaico-cristã." (Ladrière, Les enjeux de la racionalitè, 1977)
    Lá vinha Descartes, na carta à Mersenne (15/04/1630), a aproveitar a maré:
    Mas eu não deixarei de tocar, em minha física, em várias questões metafísicas e particularmente nesta: que as verdades matemáticas, as quais chamais de eternas, foram estabelecidas por Deus e dele dependem inteiramente, assim como todo o resto das criaturas. Não receai, peço-vos, garantir e publicar em toda a parte que Deus é quem estabelece estas leis na natureza, assim como um rei estabelece leis em seu reino.
    Eis a ciência, prosaicamente simplificada, de coração partido. O peregrino, ainda que raramente implicado, é, dessarte, padrinho do absolutismo desde Bodin*. Afilhados não são poucos: Thomas Hobbes e sua invenção, o puritano Cromwell; do astuto Rousseau e seu fruto, Napoleão; culminando por abençoar o casal Hegel & Marx, e seus filhotes, entre os quais os mais salientes - Bismarck, Hitler, Mussolini, Lênin, Mao e Stálin.
    -
    O método

    A ênfase excessiva na análise (na parte) conduz ao reducionismo escotomizante, enquanto a focalização unilateral na síntese conduz ao globarismo obscurecedor. Existe uma polaridade onde a totalidade é vista pelos elementos, e vice-versa, formando um círculo que determina a reciprocidade da parte e da totalidade. Karl Jaspers,  Psicopatologia Geral, Ed. Atheneu, 1987, Vol I, p. 40; .
    Pela arquitetura ordenativa-normativa, passou a ser possível, e recomendável, balizar as ciências jurídicas, econômicas, sociais e governos, pela contundência de comparação expressada:
    Tal como uma casa construída por um só arquiteto será mais bela que aquela na qual vários construtores trabalharam, também uma cidade construída por gerações sucessivas não tem tanta ordem como a que foi construída de uma só vez [ele só não pode conhecer o tédio de Brasília!] do mesmo modo também as ciências, tendo sido construídas pouco a pouco, não possuem nenhuma certeza e não ensinam a ordem verdadeira das coisas. Por isso, seria preciso que alguém empreendesse, de uma vez para sempre, reconstrui-las e pô-las em ordem.
    Descartes, cit. Koyré, 1986: 44
    O barro cartesiano, pintado por Rousseau com as cores de Platão, tornar-se-ia o leitmov do “juspositivismo”, o “direito” da imposição:
    Descartes nos diz com toda a clareza, na segunda parte do Discurso do Método, que uma legislação que é obra de um só vale mais do que a que foi elaborada por vários através das transformações da história, pois é mais fácil a um só seguir um plano racional e apartar-se das contingências que constituem os hábitos e os costumes dos habitantes do país.
    Perelman: 363

    A gravidade
    Nosso TriPulante Sorman reitera:
    A culpa inicial cabe a Descartes. Ele foi o primeiro a negar a sabedoria inconsciente, persuadindo-nos de que só o que era demonstrável, era verdadeiro. Rousseau substituiu-o, imaginando que não havia leis fora das desejadas pelo homem. Finalmente veio Augusto Comte, que instalou de vez a universidade no positivismo, fez as ciências humanas oscilarem para a sociologia e eliminou todo o ensinamento sério da economia.
    Não era mesmo necessário utilizar nenhuma originalidade:
    O próprio Descartes esboçara as linhas gerais de uma abordagem mecanicista da física, astronomia, biologia e medicina. Os pensadores do século XVIII levaram esse programa ainda mais longe, aplicando os princípios da mecânica newtoniana às ciências da natureza e da sociedade humana. As recém-criadas ciências sociais geraram grande entusiasmo e alguns de seus proponentes proclamaram terem descoberto uma ‘física social’.
    Capra, 1991: 63
    A natureza tornava-se previsível, porque governada pelos números, na pretensão sem par, mas não passa pela agudeza de nenhum TriPulante:
    "Para que o mundo parecesse regulado, era preciso que as leis descobertas em primeiro lugar fossem matematicamente simples. O determinismo só podia impor-se por intermédio de uma matemática verdadeiramente elementar."
    Grande parte da moderna sociologia, da pedagogia e toda a psicologia da pessoa derivam desta linha de pensamento, assim como nossa violência característica do século XX, uma reação natural diante de tamanha impotência. Foi igualmente afetada nossa atitude em relação à natureza e ao mundo material. Se nossa mente, nosso consciente é totalmente diferente de nosso ser material, como argumentou Descartes, e se a consciência não tem nenhum papel a desempenhar no Universo, como sugere a física de Newton, que relacionamento podemos ter com a natureza ou com a matéria? Somos alienígenas num mundo alienígena, situados à parte dele e em oposição a ele, nosso ambiente material. ZOHAR, DANAH: 191

    O equívoco
    O dualismo cartesiano, ao criar a bifurcação mente-matéria, observador-observado, sujeiro-objeto, moldou o pensamento ocidental, poucos filósofos discordando dele, cujos mais notórios foram Spinoza e Schopenhauer. No século XX essa discordância se acentuou.
    (GOTTSCHALL: 189)
    A humanidade contabiliza enorme gama de perdas irrecuperáveis, malgrado a compreensão e o reconforto do grande Werner Heisenberg (cit. CAPRA, Fritjof, Sabedoria Incomum, Conversas com pessoas notáveis: 16), há algumas décadas atrás:
    “A cisão cartesiana penetrou fundo na mente humana nos três séculos após Descartes e levará muito tempo para ser substituída por uma atitude realmente diferente diante do problema da realidade.”.Descartes se vangloriava - a ciência “nada mais era do que geometria.”
    "O Determinismo é então uma consequência da simplicidade da geometrização primária. O sentimento do determinado é o sentimento da ordem fundamental, o repouso de espírito que dão as simetrias, a segurança das ligações matemáticas."
    "Não havia propósito, vida ou espiritualidade na matéria. A natureza funcionava de acordo com leis mecânicas, e tudo no mundo material podia ser explicado em função da organização e do movimento de suas partes. (Alquié: 29)
    A certeza era o bônus adquirido por quem seguia a palpável regra, esteira rolante a facilitar o acesso ao verdadeiro, lógica percorrida em progressão contínua, ordenada, por isto pretensamente clara, do simples ao complicado, passo-a-passo, técnica aprendida na lógica dos antigos geômetras temperada com a álgebra. Pascal incitara. Platão sobrevivera. Partindo do pre(mal)suposto, Descartes descreve período que o condena de plano:
    "Não admito como verdadeiro o que não possa ser deduzido, com a clareza de uma demonstração matemática, de noções comuns de cuja verdade não podemos duvidar. Como todos os fenômenos da natureza podem ser explicados deste modo, penso que não há necessidade de admitir outros princípios da física, nem que sejam desejáveis."
    Assim, até Lênin (Materialisme et empiriocriticisme; cit. Chrétien: 131) se arvorou a sentenciar:“O universo é um movimento da matéria regido por leis, e nosso conhecimento, não sendo senão um produto superior ao da natureza, só pode refletir essas leis.”
    O “grande físico” soviético era produto de uma natureza rude e estúpida. Suas esdrúxulas e tirânicas leis foram reflexos da ignorância, ainda que os parcos conhecimentos estivessem a serviço de superar a natureza. Ironicamente, o ateu era, de fato, símbolo de crença, picada na qual transitam, alhures, devastadores científicos, filosóficos, políticos, ecológicos, jurídicos, sociais e econômicos.
    ______________
    * “Não é um simples acaso que a idéia cartesiana de Deus como legislador do universo se desenvolva somente quarenta anos depois da teoria da soberania de Jean Bodin.” (Zilsel,E., The sociological roote of science, The American Journal of Sociology)