quinta-feira, 4 de junho de 2009

O Carma Ocidental - 47. Tempo é dinheiro?


O homem ocidental civilizado vive num mundo que gira de acordo com os símbolos mecânicos e matemáticos das horas marcadas pelo relógio. É ele que vai determinar seus movimentos e dificultar suas ações. O relógio transformou o tempo, transformando-o de um processo natural em uma mercadoria que pode ser comprada, vendida e medida como um sabonete ou um punhado de passas- de-uva. E pelo simples fato de que, se não houvesse um meio para marcar as horas com exatidão, o capitalismo industrial nunca poderia ter se desenvolvido, nem teria contnuado a explorar os trabalhadores, o relógio representa um elemento de ditadura mecânica na vida do homem moderno, mais poderoso do que qualquer outro explorador isolado ou do que qualquer outra máquina. WOODCOCK, A ditadura do relógio, In A rejeição da política, 1972 
Como convém ao mito.
O efeito da "filosofia" grega é o domínio. Ao contraste, o efeito da filosofia oriental é o usufruto. Não por acaso, ainda que por paradoxo, a religião ocidental tudo fragmentou, despedaçou. Corpo e alma. céu, inferno, e, por fim, esquerda e direita. Não sobrou sequer o tempo, dividido em quarto sobre quarto, ad infinitum, mas desse modo tornando tudo totalmente limitado.
Religiosos não acreditam na eternidade.

Foi a tradição judaico-cristã que estabeleceu o tempo linear (irreversível) de uma vez por todas na cultura ocidental... O tempo irreversível influenciou profundamente o pensamento ocidental. Preparou a mente humana para a idéia de progresso, para o conceito de tempo profundo, para a surpreendente descoberta dos geólogos de que a evolução humana é apenas um episódio recente e curto na história da Terra. Preparou o caminho para a evolução de Darwin, que fala de nossa união com criaturas mais primitivas através dos tempos. Em resumo, o advento da idéia de tempo linear e da evolução intelectual desencadeada por essa idéia corroborou a ciência moderna e a promessa de melhoria da vida na Terra.
COVENEY: 22
Era (de de todo modo ainda é) o previsível (e monótono) tique-taque que orientava as previsões: "A confecção de relógios, por exemplo, é certamente delicado e trabalhoso, de tal modo que as suas rodas parecem imitar as órbitas celestes ou o movimento contínuo e ordenado do pulso dos animais." (BACON, F.: 67 Sir NEWTON (Principia, II, art. 37) aproveitou a carona:

O espaço absoluto, em sua própria natureza, sem levar em conta qualquer coisa que lhe seja externa, permanece sempre inalterado e imóvel... O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, de si mesmo e por sua própria natureza, flui uniformemente, sem depender de qualquer coisa externa.
Lêdo engano, o mais crasso dos equívocos:

O verdadeiro tempo (o que Bergson chama de 'duração') consiste propriamente na experiência vivencial da própria vida, e, por conseguinte, radicalmente intuitiva. Entretanto, para a maioria de nós, esse tempo verdadeiro foi inapelavelmente deslocado pelo ritmo do tempo marcado pelo relógio. Aquilo que constitui fundamentalmente o fluxo vital de experiência torna-se então um gabarito externo, arbitrariamente graduado, a que nossa existência é subordinada - e sentir o tempo de qualquer outra maneira torna-se 'místico ou louco'. Se a sensação do tempo pode ser assim coisificada, porque não haverá de ser tudo o mais? Por que não inventarmos máquinas que coisifiquem o pensamento, a criatividade, a tomada de decisões, o julgamento moral?
ROSZAK, T.:230
Mais do que isso, se presume que a quantidade de tempo, e não como se lhe usa é que constitui seu valor. Bobagem. De nada adianta dispor de tempo, e não bem usá-lo. Pode-se ter todo o tempo do mundo, que se mal empregado, torna-se desvalorizado. Portanto, não é o número, e sim a qualidade o maior distintivo do tempo de cada ser.
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Falam de nossa união com criaturas mais primitivas, através dos tempos. Quantos seriam? E se for apenas uma, pelo critério da seleção natural não são os macaquinhos mais equipados do que gente, porque tem até rabo, que ainda não temos? E nosso parentes, seriam descendentes do quê? DARWIN (cit. THUILLER: 199), todavia, para desespero do Cap. FRITZ ROY, curtiu o cruzeiro por longo tempo, e de graça; depois esperou, por dezenas de anos, a chegada de WALLACE. Só então apresentou "seu" trabalho, por sinal, idêntico. Nada perdeu, só ganhou. No casar, contudo, sim:

“O casamento acarreta uma terrível perda de tempo!”

PROUST foi em busca do tempo perdido. Na sepultura deve ter achado.

Não são poucos os que perdem o avião. Como ontem ainda vimos, pode ser a sobrevida. Outros, perdem o cinema, e até o bonde da história. Às vezes passa o cavalo encilhado, sem montaria. Diz-se que ao lento recai o vento.
Na falta de outro parâmetro, a marcha vem batida no cronograma: rush da manhã, do almoço, da happy hour. Ela nem pode durar a unidade; senão, o incauto leva um rolo de massa na cabeça. Em casa, depois do jantar, todos na TV. Acompanham a novela de enredo invariável, e de horário impecável. Ela é tão forte que desloca até o Maracanã lotado para mais tarde. A torcida que espere o beijo.
Hora-extra? Quem logra o fenômeno leva vantagem. Só não atrase o pagamento. Ele custará muito mais caro, principalmente por aqui. Coisa de “apenas” uns 200% ao ano.
Mas se o atraso recair na audiência, justiça não vem ao caso. Pronto: lá se foi o capital!
Trabalho à noite ganha adicional, mas vôo noturno à capital tem desconto. Durma-se com um barulho desses!

Um semialfabetizado demora um ano para ler o livro. Outro faz o percurso em dia. Àquele o tempo urge. Pela leitura dinâmica, há tempo para tudo.
Quem tem tempo não carece. Quem não tem, pega a primeira condução que aparece, comumente ônibus. Se parado ficasse, ainda assim poderia ser mais rápido: era só estar no saguão do aeroporto.

Mesmo dentro do ônibus há discrepâncias de tempo: um vai dormindo, e o tempo lhe passa sem sentir. Ao preocupado, o tempo varia. Para quem visita a namorada, o ônibus não chega nunca! Apreciando boa música, ainda mais se acompanhado, tudo finda muito rápido.

O tempo flui em taxas diferentes. Cabe ao agente definir a dilatação temporal. Sua ausência acarreta a contração espacial.

O tempo é elástico até para quem dorme. O rico sonha, e assim tem tempo dobrado. O carente, pesadelo. É sofrido, ninguém quer, mas o tempo também para ele se expande. Se ao acordar nada lembram, lá se foi o tempo em vão.

Quem possui a mulher nota 10, junto dela o tempo voa. Ao marido de mulher feia o feriado é interminável.

A Hora do Brasil demora mais do que noventa minutos de futebol, vai dizer que não. Mas quando o placard assinala um a zero, maldito relógio que não anda!
E o que dizer do caranguejo, que anda para trás? Pode-se dizer que seu futuro está no passado?
Se o trem percorre ao norte, numa velocidade de cem, e alguém dentro dele atira uma bola ao sul, na velocidade de cincoenta, pergunto: a bola está se dirigindo para o norte ou para o sul? Ela percorre o futuro, ou se dirige ao passado? Boa essa não? Posso responder facilmente. Qualquer resposta pode ser correta. Depende, apenas, do ponto do observador. Para quem atira a bola, ela se dirige para o passado. Para quem aprecia da plataforma, ela viaja ao futuro.
O tempo por tudo é relativo. Quando um carro anda a 180 km por hora, é incrível. No entanto, se ficasse parado daria quase no mesmo: é que a Terra por onde ele anda viaja a 180, mas a 180 mil km. por hora ao redor do Sol, que por sua vez viaja sei-lá a quantas, ao redor de nossa galáxia, que por último voa a bilhões, na expansão do Universo.

Era uma enorme cebola de ouro, suíço, pedras preciosas nos ponteiros, o tampo em filigranas, uma jóia, uma antigüidade, uma relíquia, uma preciosidade.
FESTER, R., O relógio do avô,in O mar tem várias cores. - São Paulo, Liv. Duas Cidades, 1979
No fito de pretensamente melhorar nossa estada na Terra, a linha do tempo marca o compasso das gentes como gado embretado. Tudo mentira, e fatal, como sói acontecer..

A órbita planetária nos remete a um parque de diversões. Estações climáticas corroboram a infantil noção do carrossel. Ao operador, e para quem usa o brinquedo, o tempo acarreta dinheiro ganho, ou gasto.. Mas se a Terra e nossa vida se restringem no incessante circular, nada faz sentido: seríamos meros passageiros do gigantesco disco-voador sem destino? Digo, de trem-voador, pela falta de mobilidade lateral? Não vai levar!.
O ponteiro do relógio não imita a cabeça de um cão correndo atrás do próprio rabo? Convenhamos: para quem isso é negócio?
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Obviamente a retrógada postura sequer pressupõe onde vai dar. Prometem o céu. Como papel, o celeste aceita tudo..Vá lá.
A Nova Era é que não suporta mais as primárias e limitadas dialéticas:
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"O fato de o tempo ser próprio de cada corpo, não uma ordem cósmica única, envolve mudanças nas noções de substância e causa." (RUSSEL, cit. FADIMAN: 165)
O ultrapositivista PONTES DE MIRANDA (cit. MOREIRA: 103) superou os próprios preconceitos, e conclamou:

O princípio da relatividade deve ser mais geral ainda - devemos procurar a diferença de tempo nas realizações biológicas e sociais, - o tempo local das espécies e dos grupos humanos. Isto nos poderá explicar muitos fenômenos que resistem às explicações atuais. Mas para conseguir tais fórmulas muito terá que lutar o espírito humano contra os preconceitos que o rodeiam e contra as obscuridades da matéria que irá estudar.
Não mais cabe o sofístico apelo trabalhista: "Como o valor do trabalho depende cada vez mais do conhecimento, não podemos mais vender ou padronizar o tempo de trabalho como se ele fosse igual para todos."(TOFFLER, A.: 86)  Ciao MUSSOLINI:

Uma coisa é certa, a hora uniforme do relógio não é mais pertinente para a medida do trabalho. Essa inadequação há muito era flagrante para a atividade dos artistas e dos intelectuais, mas hoje se estende progressivamente ao conjunto das atividades. Compreende-se porque a redução do tempo de trabalho não pode ser uma solução a longo prazo para o problema do desemprego: ela pereniza, com um sistema de medida, uma concepção de trabalho e uma organização da produção condenadas pela evolução da economia e da sociedade. Só se pode medir – e portanto remunerar – legitimamente um trabalho por hora quando se trata de uma força de trabalho-potencial (já determinado, pura execução) que se realiza. Um saber alimentado, uma competência virtual que se atualiza, é uma resolução inventiva de um problema numa situação nova. Como avaliar a reserva de inteligência? Certamente não pelo diploma. Como medir a qualidade em contexto? Não será usando um relógio. No domínio do trabalho, como alhures, a virtualização nos faz viver a passagem de uma economia das substâncias a uma economia dos acontecimentos. Quando irão as instituições e as mentalidades acolher conceitos adequados? Como aplicar os sistemas de medida que acompanham esta mutação?
LÈVY, PIERRE: 61
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Todo sistema natural, quando deixado livre, evolui para um estado de máxima desordem, correspondente a uma entropia máxima'. A entropia representa a perda de energia do universo, que ocorre a todo instante, razão pela qual os cientistas dizem que o universo caminha para a morte térmica. Ela é irreversível. Por isso, essa energia perdida jamais será recuperada. Esse sentido único da entropia fez com que os físicos a chamassem de 'a flecha do tempo'. Entropia - a flecha do tempo
Não creio correta tal divisa. Se o sistema natural caminha para desordem é justamente oposto da flecha, ordenada a um único sentido. O que caracteriza a desordem, por óbvio, é a falta de direção, do determinismo, do oriente. A flecha tem que ser precisa; viver, não é preciso. O que desejam realçar refere-se à expansão do movimento, que naturalmente é equalizado à anarquia, que significa ausência de hierarquia, mas não desordem, que é o inverso da ordem e mesmo do caos.  A entropia produz um ordenamento natural; ,portanto, contrário do apregoado.
Assim, descobriu-se recentemente que na natureza tudo está subordinado a uma ordem, até mesmo os fenômenos confusos, sem nexo, totalmente imprevisíveis. Esta ordem ‘superior’ é capaz de explicar eventos aparentemente randômicos - não importa se se trata de bolsa de valores, da mudança na temperatura de nosso planeta, ou da maneira que nós formulamos nossos pensamentos – e que podem ser expressos tanto em fórmulas matemáticas e físicas, quanto em belas imagens (os chamados fractals) disformes, mas com uma atraente irregularidade. Todos esses eventos têm algo em comum: o fato de serem atraídos a certos estados da natureza, o que lhes dá unidade, se bem que disfarçada. A nova regularidade dos fenômenos deu origem a uma nova ciência, que tem o ‘caos’ como tema central e na qual, um dia, deve se enquadrar a teoria das ondas.  WITKOWSKI, Bergè: 275

Entre os corpos há  troca de energia, e não propriamente perda, e a Teoria das Cordas sustenta há década, sem reparo, a vida em um universo de um total de dez,. Os buracos-negros nada mais são do que uma ponte, buraco de minhoca, como dizem, aos outros mundos. O que os  pesquisadores objetivavam afirmar na entropia é  seu caráter irreversível. Uma vez deflagrada,  não há volta - automaticamente ela dispõe a anarquia. Não há uma flecha do tempo, mas uma infinidade de vetores, em múltiplas direções., até suscetíveis de medida, mas restrita, relativa ao ponto do observador. A descontinuidade é manifesta nos instantes e nas diversidades vividas. O tempo vive sob o signo das diferenças: "Cada forma de vida inventa seu mundo (do micróbio à árvore, da abelha ao elefante, da ostra à ave migratória) e, com esse mundo, um espaço e um tempo específico." (LÈVY, Pierre, cit. PELLANDA e PELLANDA: 118)
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Por enquanto, milhões cultivam a ansiedade. Sentem-se atrasados, cansados, stressados, resultado da enorme pressão do tempo. E tome buzina, grita nas filas. Em véspera de Natal, cruzes. O fim-do-ano já está aí!!! É gente fechando, animal xingando:

"Sai da frente que atrás vem gente!"
“Tempo é dinheiro!”.
Sim, pode ser. Mas com tempo, porque a pressa pelo dinheiro? E sem tempo, como fazer dinheiro? Francamente!
"Quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro!"
Já ouvi essa outra aberração. Tal conceito deve ter vindo da Bobonne. Lá ensinavam maravilhas ao pessoal de cá. Houve um especial. Retornou à Pátria empertigado. Como chegava da Europa, bem vestido, de fatiota, ninguém percebeu a lorota. Deram-lhe a chave do cofre. O bon-vivant confirma o ditado, mas tem outro que deve ter esquecido:
"Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe!"
Aguardo.
Quando se aposentar, não faça como o tipo, que não sabe o que fazer com o tempo furtado de todos lá atrás. Não se perturbe. Se nada se dispuser a fazer, também nada há de perder, e não precisa tomar de ninguém. Orienta-nos Lao-Tzè:
"Pela não-ação tudo pode ser feito."
GOETHE, MIESTÓFOLIS, HEISENBERG e mesmo SÊNECA que me desculpem. Prefiro esta vera amarela.

APESAR DA CRISE GLOBAL, a China não abranda. Em todos os domínios se pode dizer que acelera o seu desenvolvimento. Das suas universidades saem centenas de milhares de cientistas e engenheiros e os melhores destes fazem cursos de pós- graduação nas escolas ocidentais onde se vão apropriando e desenvolvendo o conhecimento de ponta.
LETRIA, Joaquim, www.sorumbatico.blogspot.com - 14/5/2009
Se porventura nesse meio-tempo alguém necessitar qualquer auxílio, por favor, acuse. Boa-vontade não me falta.
O banco do “ú” também deve conhecer nosso precursor asiático. O estabelecimento não tem disponibilidade de tempo. De dinheiro, está farto. Ita demora no mínimo dez dias para abrir uma conta, na melhor das hipóteses. Na pior, não abre. Pela não-ação, fica com um dinheirão.

Nos EUA, a Nextcard limpa seu nome, histórico de crédito, e ainda aprova seu cartão em 35 segundos. É gente que faz; contudo, não falta quem reclame da demora.
A Bolsa opera com horário, mas aceita after-market. Não deveria fechar. Deus teve o privilégio de descansar no sétimo, depois de usar seis para criar o Universo, mas no céu o cair do Sol encerra o dia. Não temos tal regalia. No mundo ele nunca se põe. Se estamos no fim da semana, no Japão recém começa. Ien não é bemvindo também?
Os astrônomos determinaram um segundo extra ao ano passado. (Folha de São Paulo,10/12/2008). Isso é timidez. O Brasil troca tres mil e seiscentos, de uma vez, por conta do verão. "Neste país" basta um decreto para obrigar até o cuco. Não sei do galo. Como informá-lo? Meu relógio, todavia, não se mexe, não. Nele quem manda sou eu. No do povo, mandava o finado Zé Bedeu.
Certos segmentos não fecham. Acompanham nossos corações. Hospitais, bombeiros, postos, rádios e táxis amparam a comunidade sem parar. A Internet é oásis. A propósito: por ela podemos ter a noção exata da eternidade, em confronto com o tempo linear arbitrado. Se arrolássemos todos os sites nela inseridos, a partir do primeiro ao último, teríamos uma extensão inimaginável. Para ir do primeiro ao último levaria quanto tempo? No entanto estão todos ao alcance, ao mesmo tempo, no toque mágico da tecla.
Estou para ver a Cidade 24 horas. Não haveria insônia, nem garçon de cara feia.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Quantidade & igualdade x qualidade & liberdade


O raciocínio quantitativo tornou-se sinônimo de ciência, e com tal sucesso que a metodologia newtoniana foi transformada na base conceitual de todas as áreas de atividade intelectual, não só científica, como também política, histórica, social e até moral. GLEISER, M.: 164.
Se vamos continuar a nos apoiar na ciência para criar e gerenciar organizações, para fazer pesquisa e formular hipóteses sobre desenho organizacional, planejamento, economia (finanças), a natureza humana, e mudanças de processos, então deveríamos pelo menos nos apoiar na ciência de hoje. Deveríamos parar de procurar modelos na ciência do século XVII e começar a explorar o que aprendemos com a ciência do século XX. WHETLEY, M., Leadership and the new science
J. LOCKE livrou a Inglaterra das barbáries cometidas especialmente na América e na Europa latinas, mas também na Alemanha, Rússia, seus satélites, e alhures.
O escrito de Descartes se difundiu amplamente no continente, em particular na França e nos Países Baixos, mas não teve o mesmo sucesso na Inglaterra. A filosofia experimental tal como ali se desenvolveu impedia uma aceitação fácil de qualquer sistema dedutivo, e o sistema de Descartes foi considerado tão gerador de dissensões, quanto o sistema extremamente materialista de Thomas Hobbes. HENRY: 71
Nem mesmo os EUA permaneceram livres do vírus platônico, especialmente com os ROOSEVELT, o último introdutor de cartas di lavoro no bolso da famosa estátua, em troca de toneladas de ouro.
O médico inglês propugnou pelo óbvio, pelo que há de mais elementar, mas raramente lembrado:
“Cada pessoa possui uma inviolabilidade fundada na justiça que nem mesmo o bem-estar da sociedade como um todo pode ignorar.” (RAWLS: XV)
No decorrer daquele distante 1688, o Parliament aprovou inúmeras leis, salvaguardas civis, proteções contra eventual ganância da Coroa. O Rei foi impedido de lançar impostos sem o consentimento da Câmara. Os inglêses cansaram de trabalhar para entregar seus frutos na forma de shipmoneys, à construção da Marinha Real. As verbas do Tesouro passaram a ser fixadas em orçamentos anuais.
O triunfo punha a termo definitivo a monarquia absoluta na Inglaterra. Nunca mais uma cabeça coroada desafiaria o legislativo daquele País; muito menos, qualquer ditadura, seja de esquerda, ou direita.

Na liberdade de credo e convivência civil, o Toleration Act introduziu o Bill of Rights, inspirador do nosso “Mandado de Segurança”, o mais eficiente remédio jurídico ao seu dispor, contra males causados pelo Estado:

Acresce que, para Locke, a força por si só não legitima o direito, dado considerar que o direito precede o Estado e que o povo é superior aos governantes. Aliás, o poder legislativo (legislature), apesar de ser um supream power, não é um poder absoluto, estando limitado pelo fim para que foi instituído o governo, que é a protecção da vida, da liberdade e da propriedade dos homens: the legislative being only a fiduciary power to act for certain ends, there remains stil in the people a supream power to remove or alter the legislative when they find the legislative act contrary to the trust reposed in them (...) thus the community perpetually retains a supream power.
http://farolpolitico.blogspot.com/2007/10/locke-john-1632-1704.html
O cidadão se integrava às responsabilidades decisórias. Ninguém, nem mesmo o rei, poderia lhe ser senhor dos destinos. Disso o rei, obrigatoriamente, haveria de entender:
“Se o governo se exceder ou abusar da autoridade explicitamente outorgada pelo contrato político torna-se tirânico e o povo tem então o direito de dissolvê-lo ou se rebelar contra ele e derrubá-lo.” (LOCKE, Second treatise of civil government: 184)
KARL POPPER (p. 159) reconhece:
De fato, o funcionamento da democracia depende, em grande medida, da compreensão do fato de que um governo que intente abusar de seu poder para estabelecer-se sob a forma de uma tirania se coloca à margem da lei, de modo que os cidadãos não só teriam o direito, como também a obrigação de considerar delituosos esses atos do governo e delinqüentes seus autores.
LOCKE se consagrou como fundamento da Revolução Gloriosa; e por decorrência, do Estado de Direito:
Na era dos direitos passou-se da prioridade dos deveres dos súditos à prioridade dos direitos do cidadão, emergindo um modo diferente de encarar a relação política, não mais predominantemente do ângulo do soberano, e sim daquele do cidadão, em correspondência com a afirmação da teoria individualista da sociedade em contraposição à concepção orgânica tradicional .
BOBBIO, N., 1995: 27.

A inviolabilidade preconizada, ou o respeito à participação social advém da extensão da personalidade aos objetos produzidos. Ao dispender neles sua energia, ou mesmo captá-la, o trabalhador os transforma em partes de si mesmo, e assim pode oferecer algo ao meio que o acolhe:
“O homem tem direito natural as coisas com as quais 'misturou' o trabalho do seu corpo, tais como, por exemplo, cercar e lavrar a terra.” (LOCKE, J., cit. SABINE: 521)
Desse modo, que depende do talento, interesse, aptidão, capacidade, vontade, disponibilidade, até idade e vocação, é impossível, mas sequer essencial, a "igualdade de direitos". Pelo contrário:
"Aplicado aos outros domínios da vida em sociedade, o formalismo igualitário das regras coexiste mal com a exatidão das diferenças naturais." (GUÉHENNO: 37)
Até mesmo o minuto seguinte diverge do anterior:
A realidade física é concebida como uma teia dinâmica de eventos inter-relacionados. As coisas existem em virtude de suas relações mutuamente compatíveis, e tudo na física é tem de partir da exigência de preconceitos para modelos diferentes, sem dizer que é um mais que seus componentes sejam compatíveis uns com os outros.
CAPRA & STENDHAL: 129
Igualdade x Liberdade
“Existem tempos nos quais os homens são tão diferentes uns dos outros que a própria idéia de uma mesma lei aplicável a todos lhes é incompreensível.” (TOCQUEVILLE, A. 1997, Livro Primeiro, Capítulo III: 61)
Não há igualdade entre os homens, tampouco nos reinos animal, vegetal, e até no mineral. Se a procurarmos na teia cósmica, sequer nos anéis de Saturno. Não existe igualdade na natureza, nem entre os átomos que a compõem. O EspaçoTempo de cada partícula diverge da vizinha, seja por variações das órbitas dos elétrons pelos saltos quânticos, seja por deformar o espaço à sua volta pela simples passagem, ou por que o Universo, desde o Big-Bang, se expande, tornando-nos, ainda, peculiarmente complexos, originais, evolutivos, por tudo mutantes:
“Uma das conseqüências da ‘diversidade humana’ é que a igualdade num espaço tende a andar, de fato, junto com a desigualdade noutro." (SEN: 51)
“Sem homens livres não há possibilidade de um Estado livre.” (ROSSELLI: 149)

A democracia fala de um governo comandado pelo povo e sujeito às suas leis; na realidade, entretanto, os regimes democráticos são dominados por elites que planejam maneiras de moldar e dobrar a lei a seu favor. O totalitarismo aspira ao extremo oposto da democracia: ele luta para pulverizar a sociedade e estabelecer um controle completo sobre esta [...] O objetivo último do totalitarismo é a concentração de toda a autoridade nas mãos de um corpo autodesignado e autoperpetuado de eleitos que se denominavam 'partido', mas parece uma ordem, cujos membros devem lealdade a seus líderes e uns aos outros. Esse objetivo pressupõe controle, direto ou indireto, conforme as circunstâncias, dos recursos econômicos do país.
PIPES, R., 2001:251
VON MISES compreende o processo, cruzador dos séculos:
O principal erro do pessimismo tão alastrado é a crença de que as idéias e as políticas destrutivas de nossa era emergiram do proletariado e são uma 'revolta de massas'. Na verdade, as massas, precisamente por não serem criativas e não desenvolverem filosofias próprias, seguem líderes. As ideologias que produziram todos os danos e catástrofes de nosso século, não são uma façanha da turba. São proezas de pseudo-intelectuais e pseudo-estudiosos. Foram propagandas das cadeiras das universidades e dos púlpitos; foram disseminadas pela imprensa, pelos romances, pelo rádio. Os intelectuais são responsáveis pela conversão das massas ao socialismo e ao intervencionismo. Para reverter o processo, é preciso mudar a mentalidade dos intelectuais. Então as massas os seguirão.
As principais características do indivíduo no grupo são, portanto, o desaparecimento da personalidade consciente, o domínio da personalidade inconsciente, a orientação de pensamentos e sentimentos em uma só direção mediante a sugestão e contágio, a tendência à realização imediata de idéias sugeridas. O indivíduo não é mais ele mesmo, é um autômato destituído de vontade. Ademais, pela mera participação num grupo, o homem desce vários degraus na escada da civilização.
LE BON
cit. KELSEN, HANS, A Democracia: 315
Pois este mais reverenciado jurista do século XX tardou trinta anos, mas dobrou-se à grande diferença:
“É o valor de liberdade e não o de igualdade que determina, em primeiro lugar, a idéia de democracia.” (Idem: 141)
Os soviéticos demoraram o dobro, mais dez. Na implosão da Perestróika, o que se viu foi uma casta encastelada, a Nomenklatura dissipando-se no buraco-negro do blefe. A faina era utópica, do vírus platônico, apenas ideológico; e, como tal, estéril:
“Aparentemente a desigualdade – não a igualdade – é uma condição natural da humanidade.” (DAHL: 77)
Tudo muda. Tudo flui, disse HERÁCLITO. O rio nunca é o mesmo - são outras águas, em novas margens. Universo é movimento. Vivemos num caldo de energia cósmica fluente do caos atômico. As aspirações e necessidades de cada ser mudam constantemente. A flecha do tempo se distancia de si mesma. Somos diferentes de ontem, e de tudo o mais, na estupenda dança universal. A riqueza da Terra aí reside. E no entanto, ardemos de paixão pela justiça, pela igualdade!
As sociedades globais atuais compõem-se duma pluralidade quase infinita de agrupamentos particulares: famílias, comunas, municipalidades, departamentos, regiões, serviços públicos, Estados, seitas, congregações, ordens religiosas, conventos, paróquias, igrejas, sindicatos, operários e patronais com suas federações e confederações, cooperativas de consumo, de venda, de produção, sindicatos de iniciativa, caixas de segurança social, classes sociais, profissões, produtores, consumidores, usuários, partidos políticos, sociedades científicas e de auxílio, equipes esportivas e de turismo e assim ao infinito.Todos esses grupos se entrecruzam e se limitam, se unem e se opõem, se organizam e permanecem inorganizados, ora formam blocos maciços, ora se dispersam. A trama da vida social sob o aspecto macrossociológico não é menos complexa que sob o aspecto microssociológico, permanecendo caracterizada por um pluralismo inextricável.
GURVITCH, G., cit. GOLDMAN, L.: 46
A natureza não tem um nível simples. Quanto mais tentamos nos aprofundar, maior a complexidade com que nos defrontamos. Nesse universo rico e criativo, as supostas leis de estrita casualidade são quase caricaturas da verdadeira natureza da mudança. Há uma forma mais sutil de realidade, uma forma que envolve leis e jogos, tempo e eternidade. Em lugar da clássica descrição do mundo como um autômato, retornamos ao antigo paradigma grego do mundo como uma obra de arte.
PRIGOGINE, I., cit. FERGUNSON, M.: 164
Onde concretizar a faina? Por arranjos? Bem, pode ser. Então não venha com ciência do direito, mas sim com técnica, com estratégia juridica. E mesmo assim, fadada a esterelidade, como todo artifício:
Querer encerrar todo o direito de um tempo ou de um povo nos parágrafos de um código é tão razoável quanto querer prender uma correnteza numa lagoa. Cada um desses códigos estará superado necessariamente pelo direito vivo, no momento em que estiver pronto, a cada dia ainda mais antiquado.
ERHTICH, EUGEN, cit. COELHO, LUIZ FERNANDO, Teoria Crítica do Direito: 286
A justificativa dos tais direitos sociais supõe conter lógica em função matemática: o maior deve se sobrepor ao menor. Lêdo engano, o mais crasso dos equívocos. De plano utilizar a lógica como único guia já é estupenda burrice; ademais, mesmo ela não é propriedade exclusiva de ordenamentos numéricos. No Universo nada é maior do que o espaço. No entanto, ele se contrai na presença radiante do corpo. Portanto, pelo menos neste caso, mas posso estendê-lo alhures, é a qualidade, e não a quantidade que determina a importância, o valor.
Dir-se-á: mas queres um regime elitista, uma aristocracia, oligarquia, ou o quê?
Pois digo sem o menor constrangimento: é mais fácil, mais conveniente, lucrativo, e prazeiroso mirar um exemplo mais elevado do que preferir um chão-de-fábrica, não parece óbvio? Ou, por outro lado: qual razão teriam os generais para seguirem a batuta de soldados? Só se fosse um castigo. Não seria o mais completo non sense? E se ainda assim a inversão for preferida, por que cargas d'água deve existir cursos superiores?
No Brasil, não em Portugal, esta anomalia é tão comum que a plebe se refastela, mal sabendo que ela própria, a base da pirâmide, ao elevar um dos seus, transporta seu próprio mundo como ideal. Convenhamos, não me parece nem um pouco inteligente.
Como por aqui, no tempo em que circulava uma moeda chamada cruzado, o boi gordo valia menos do que o magro, e o carro usado era mais caro do que o novo, parece que não só continuamos, mas elevamos à máxima potência a mais notável capacidade portuguesa, com certeza. (Com o perdão dos queridos amigos do belo Além-mar.)
O ser humano per se é elitista. O livre-arbítrio lhe concede a prerrogativa da escolha.
A prevalência da qualidade sobre a quantidade é trivial em obras de arte. Será que não podemos nos incluir como notáveis criações, em vez de sermos apenas macacos, em primeiro instante, e depois autômatos, produtos de uma falida revolução industrial?
Eis a maior incoerência do fascismo e do comunismo: eles conservaram os nomes próprios de seus infelizes cidadãos, em vez de numerá-los, simplesmente, já que tratavam gente como gado.
A balança, instrumento eminentemente mecanicista, não é capaz de aferir qualidades, só quantidades, porque apenas numerais podem ser iguais.
BERTRAND RUSSELL (cit. FADIMAN, C.: 266) condena a possibilidade, tantas vezes tornada realidade:

Surge um grave perigo quando esse hábito de manipulação com base em leis matemáticas é estendido ao nosso trato com seres humanos, uma vez que estes, diferentemente do cabo telefônico, são suscetíveis de felicidade e infortúnio, de desejo e aversão. Seria, portanto, lamentável que se permitisse que hábitos mentais apropriados e corretos para o trato com mecanismos materiais dominassem os esforços do administrador no plano da construção social.
O numerário subverte a sociedade. A ética se torna dialética; e a política, espoliação.
O cérebro do Universo é capaz de contar acima de dois. Os dilemas do intelectual-artista e do teórico -político tem mais de dois chifres. Entre a torre de marfim, de um lado e a ação política direta, de outro, existe a alternativa da espiritualidade. Do mesmo modo, entre o fascismo totalitário e o socialismo totalitário existe a alternativa da descentralização e do empreendimento cooperativo - o sistema político-econômico mais natural à espiritualidade.
WELLS H.G.
O distintivo da democracia é a partilha, não a igualdade entre as gentes:

A difusão de poder, nas esferas política e econômica, em lugar da sua concentração nas mãos de agentes governamentais e capitães de indústria, reduziria enormemente as oportunidades para adquirir- se o hábito do comando, de onde tende a originar-se o desejo de exercer a tirania. A autonomia, para distritos e organizações, daria menos ocasiões para que os governos fossem chamados a tomar decisões nos assuntos alheios.
RUSSELL, B.: 24


O Carma Ocidental - 46. Da justiça social


As conseqüências do analfabetismo científico são muito mais perigosas em nossa época do que em qualquer outro período anterior.
SAGAN, C., O Mundo Assombrado pelos Demônios: 21
A história das ciências emergirá então como a mais reversível de todas as histórias. Ao descobrir o verdadeiro, o homem de ciência barra a passagem de um irracional.
BACHELARD, G., cit. QUILLET, P., Introdução ao Pensamento de Bachelard: 45
Da faina

Os espartanos se notabilizaram por duas peculiaridades: competição & vazio racional. Ela requer domínio sobre o adversário, daí se incluindo as guerras, e o conforto na morte do competidor. O objetivo é simples, delineado, e não requer controvérsias.
O conceito de justiça é o primeiro conceito democrático mistificado por Platão. A justiça surgiria como uma propriedade do Estado. Seu totalitarismo é disfarçado sob a capa de 'verdadeira justiça', e se legitima teoricamente mediante a subversão doutrinária do humanitarismo em três frentes: defendendo o privilégio natural, postulando o coletivismo, advogando a tese de que o indivíduo existe para o Estado.
PEREIRA, J.C., Epistemologia e Liberalismo - Uma Introdução a Filosofia de Karl R. Popper:116
É essa configuração de coletivismo extremado que, desde o século V, é vista na Grécia como um modelo perfeito de Estado, com a coletividade assim rigidamente aparelhada e destinada à defesa do Estado.
CASTRO, P.P. www.fflch.usp.br
HITLER, LENIN e MUSSOLINI agradeceram a boa idéia, mas pagaram caro por ela.
Longe de ridicularizar os aspectos irracionais do comunismo e do fascismo, devemos antes criticar estes credos políticos pela sua falta de conteúdo sensível e estético, pela pobreza de seu ritual e sobretudo pelo fato de que nenhum deles chegou a entender o papel que a poesia e a imaginação desempenham na vida da comunidade.
READ, HERBERT, O anarquismo e o impulso religioso, 1940, cit. WOODCOCK, 1971: 68
No fito de arrumar um cômodo junto ao Tirano de Siracusa, o vulgar PLATÃO recolheu a matéria-prima da colônia grega de Crotona, incrustrada na península italiana, onde havia a "primeira Universidade do mundo, obra do pioneiro"filósofo":
"A sabedoria plena e completa pertence aos deuses, mas os homens podem desejá-la ou amá-la tornando-se filósofos." (PITÁGORAS)
"Se não houvesse o 'teorema Pitágoras', não existiria a Geometria".
E lá se foi PLATÃO, induzindo a humanidade a medir tudo, até mesmo a imaginação:
"Quase que invariavelmente, todas as modernas áreas do conhecimento tiveram lume na Grécia Antiga." (MEISTER, L.F., A evolução do pensamento econômico - www.webartigos.com.br)
O resultado de tão alta sabedoria se apura no raiar de cada dia:
Com efeito, hoje sabemos que o direito está imerso numa atmosfera ideológica e a teoria geral do direito, empenhando-se em abstrair este aspecto do direito, só pode falsear as perpectivas e, com isso, fica, por sua vez, sujeita à acusação de ser mais ideologia do que ciência.
PERELMAN: 621
Encantado com as possibilidades numerais, o precursor dava ênfase à igualdade, que significava a exatidão. Infelizmente, foram esses princípios os determinantes para evolução geral da Filosofia Ocidental, e seus afluentes do Direito, da Sociologia, mesmo da Medicina, da História, e da Economia, naturalmente, entre várias outras áreas de investigação e proposição, todos baseados na pressuposição da harmonia matemática aferida pela "doutrina" dos números e do dualismo cósmico essencial:
"A Escola Pitagórica ensejou forte influência na poderosa verve de Euclides, Arquimedes e Platão, na antiga era cristã, na Idade Média, na Renascença e até em nossos dias com o Neopitagorismo." (Wikipédia)
PITÁGORAS descobriu a Mathematike, um sistema de pensamento dedutivo. Ao biografá-lo, Jâmblico (c. 300 d.C.) registra que o mestre vivia repetindo aos discípulos: “todas as coisas se assemelham aos números”.
Ainda que eivado de presunção, o dano seria menor se ficasse circunscrito às coisas, como predisse. Todavia, o gaiato PLATÃO contrabandeou o rascunho para estendê-lo ao geral, incluindo o próprio ser humano, desse modo também reduzido a objeto:
"A matemática pura, mais do que qualquer outra disciplina, tornou-se aquele discurso vivo que Platão considerou a única forma de conhecimento." (FEYERABEND, P.: 1991: 135)
O raciocínio quantitativo tornou-se sinônimo de ciência, e com tal sucesso que a metodologia newtoniana foi transformada na base conceitual de todas as áreas de atividade intelectual, não só científica, como também política, histórica, social e até moral.
GLEISER, M.: 164.
Pois assim falou o pai de Zaratustra:
Em algum ponto perdido deste universo cujo clarão se estende a inúmeros sistemas solares, houve uma vez um astro sobre o qual animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o instante da maior mentira e da suprema arrogância da história universal.
NIETZSCHE, F.W., cit. MATOS, OLGÁRIA, A polifonia da razão, 1997: 134
A igualdade pode ser lograda na imaginação, por cálculos; portanto, antes de tudo, é ficção. No caso da raça humana, a pretensão atinge as raias do non sense. Igualdade entre seres é totalmente impossível, exceto se todos nascerem ao mesmo tempo, e morrerem no mesmo tempo, ainda assim, de única forma, em produção seriada. É quase isso, mas não é isso. Na evidente impossibilidade, ocupa seu lugar a hipocrisia, e a má-fé. Demagogos e proselitistas sóem proclamar a "profunda injustiça" para imporem o pacto social que lhes convém. A increpação só atende ao gosto do rei:
“O igualitarismo não é imposto pela sociedade ao Poder, mas pelo Poder à sociedade.” (CANNAC: 107)
De antemão o vivente já vem com a marca da injustiça. Chega a ser perverso alguém nascer em melhores condições - a sorte não sorri para todos, e isso é uma aberração, ainda mais se o nascituro tiver que trabalhar quando crescer. Todavia, o trabalho, desde as divinas pregações, é considerado um fardo, um castigo por causa da aquisição do conhecimento no Paraíso, e como tal seu exercício é considerado penoso. Como Deus é inatingível, ou pelo menos surdo às reivindicações, o Leviathan promove seu balcão de queixas.
"Que culpa tenho se sou miserável? Mas é preciso que alguém tenha culpa, do contrário isso não seria tolerável..."
Essa invenção de responsabilidade cria o agradável sentimento da vingança, elemento-chave pelo qual LENIN logrou sua mudança para o Palácio:
"Justiça é dar a cada um, segundo as suas habilidades (capacidade e esforços), e a cada um, segundo as suas necessidades”.
Assim o culto soviético tomou as propriedades e ceifou milhares de vidas, deixando longe os “belos trabalhos” de CESAR BORGIA e de ROBESPIERRE, embora TRÓTSKI (cit. JOHNSON, P.: 42) comparasse o trio já em 1904. LENIN (cit. CHALLITA, M., Os Mais Belos Pensamentos de Todos os Tempos, 3. Vol. : 157), não titubeou expor suas medidas:
“Mesmo se para cada cem atos justos cometermos dez mil injustos, nossa Revolução não será menos grande.”
Mais dantesca, de fato, o mundo não conheceu.
O cérebro do Universo é capaz de contar acima de dois. Os dilemas do intelectual-artista e do teórico -político tem mais de dois chifres. Entre a torre de marfim, de um lado e a ação política direta, de outro, existe a alternativa da espiritualidade. Do mesmo modo, entre o fascismo totalitário e o socialismo totalitário existe a alternativa da descentralização e do empreendimento cooperativo - o sistema político-econômico mais natural à espiritualidade.
WELLS H.G.
Felizmente.
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segunda-feira, 1 de junho de 2009

O Carma Ocidental - 45. A faina pela igualdade

Feliz aquele que ainda esperança pode ter, e desse mar de equívocos emergir! O que não se sabe, é o que mais se precisou saber, E do que se sabe, não se pode mais servir.
FAUSTO, à WAGNER, por GOETHE.
O AVATAR do marxismo e da democracia mora na igualdade. Aquele buscou atingi-la com fuzis. Não deveria nem ter tentado: se E=Mc2, o materialismo não tem, sequer, objeto! Até o muro desapareceu. Não há o quê abordar.
A aferição consensual tem por princípio “cada cabeça, um voto”. Às controvérsias dos imperfeitos humanos, basta equacionar contendores em eleições, agora eletrônicas.
Em todos regimes somos “iguais perante a lei”, mas no Estado de Direito a maioria é mais igual (?!), e por isso supõe ser a fonte da lei. A voz do povo deve ser a voz de Deus. A maior soma expressa a Vox apregoada, mas será mesmo ela, vibrante com os gladiadores, histérica na queima das bruxas e aguda na praça da guilhotina, originária ou expressão celestial?
Pois especialmente a partir da Revolução Francesa o ser humano vem se exterminando, em prol do igualitarismo:
"O socialismo nasceu da dissolução do Ancien Régime, da mesma forma que o conservadorismo foi criado a partir da tentativa de protegê-lo.” (GIDDENS, A.: 64).
A Constituição Francesa de 1791 proclamou uma série de direitos, ao passo que "nunca houve um período registrado nos anais da humanidade em que cada um desses direitos tivesse sido tão pouco assegurado - pode-se quase dizer completamente inexistente - como no ápice da Revolução Francesa." (LEONI: 85)
"A Revolução Francesa produziu um impacto galvanizado sobre os vizinhos europeus da França, desencadeando as idéias utópicas que reinaram soberanas nos séculos XIX e XX." (BRZENSKI, ZBIGNIEW, A desordem. - Veja 25 anos - Reflexões para o futuro: 67)
Ora até os míseros coreanos se arvoram assombrar o mundo, empunhando a tocha da escuridão. De fato, a sete-palmos somos todos iguais.
Se os seres humanos houvessem de inspirar-se nos exemplos da Natureza,
fazendo deles normas de conduta, a anarquia, a independência, o individualismo
e o princípio do menor esforço passariam a ser os ideais humanos.

GARBEDIAN, H. G.: 161
A obssessão por igualdade é mais uma cruel patologia decorrente do vírus platônico. Como todas as outras, ela se projeta por dupla incidência, tal qual a presa da cobra.
A marca da filosofia platônica é um dualismo radical. O mundo platônico não é um mundo de unidade, e o abismo que, de diversas formas, resulta dessa bifurcação, surge em inúmeras formas.
KELSEN, H., 2001:81
Por um lado, a possibilidade é matemática. Se dois e dois são iguais, a igualdade é perfeita e facilmente atingível. Por outro, outro artifício: a imperiosidade da Justiça, consubstanciada na divulgação que somos todos filhos de Deus; portanto, iguais. O mais lamentável é a Justiça Social, exterminadora da imprescindível sincronicidade entre o indivíduo e a sociedade, em nome da mais completa abstração, para não dizer alienação.
Seriam científicas tais plataformas? Suas disposições são aplicáveis aos seres humanos? A resposta é negativa, para todas.

O leitmotiv da Justiça
A Justiça depende de polos digladiantes. Somente a promoção da discórdia pode lhe consagrar. Os arautos subsistem da desintegração social, e isto é perfeitamente provável. Quanto mais gente é atirada na arena, mais se deliciam aqueles promotores, os empresários dos dantescos espetáculos. Embora digam que exista a Divina, e não poucos o Direito Natural, na Terra vinga a justiça pelo que o legislador entende que deva ser, ou melhor, a que lhe convém. Destarte, conforme o agente ou as circunstâncias, novos dispositivos são constantemente introjetados. Mesmo prêt-à-porter, são obsoletos. De sua confecção à utilização, a Terra e seus atores já tem disparado anos-luz:
Querer encerrar todo o direito de um tempo ou de um povo nos parágrafos de um código é tão razoável quanto querer prender uma correnteza numa lagoa. Cada um desses códigos estará superado necessariamente pelo direito vivo, no momento em que estiver pronto, a cada dia ainda mais antiquado.
ERHTICH, EUGEN, cit. COELHO, LUIZ FERNANDO, Teoria Crítica do Direito: 286
Leis primam pela burocracia, embora o telos da eficácia. Elas se pretendem claras, insofismáveis, inequívocas, precisas, exatas. A natureza é nebulosa, objeto de tantas interpretações quantas forem os passageiros; e, por tudo, move-se de maneira caótica, ainda que meio definidas estações. Mostra-se incerta pela nossa incapacidade de identificar a enorme quantidade de vetores incidentais. Impossível contabilizá-los, ainda mais sob o crivo de uma razão proporcional que tal empreitada exigiria. Toda sentença per se faz-se injusta. Eis a razão primaz para que os processos só findem em último grau de recurso. No entanto, as prescrições ou ideologias, sempre estanques, põem-se universais, e apresentam moral para designar o rumo da gente. Pode haver maior pretensão?

Da faina pela igualdade
Ela não é mister, pelo contrário: foi pela diversidade atômica que se manifestou o Big-Bang:
"Um universo físico requer diversidade. A matéria não pode se formar sem diferenças." (SHELTON: 170)
Mas lá se foi o homem, no apito da flauta mágica:
"A doutrina da igualdade!... Mas não há nenhum veneno mais venenoso: pois ele parece estar sendo pregado pela própria justiça, enquanto é o fim da justiça." (NIETZSCHE: 106)
BASTIAT (P:33) não ficou atrás:
"A lei só será um instrumento promotor da igualdade se tirar de algumas pessoas para outras pessoas. E nesse momento ela se torna instrumento de espoliação."
“O planejamento em escala abrangente é uma impossibilidade epistêmica” (GRAY, J., cit. GIDDENS, A.: 80), mas, pela extensão, pelo somatório de conhecimentos empilhados nas obras, ambiciosos players se punham competentes:
“No Século XIX os positivistas incidiram em tal erro ao reivindicarem a generalização do método experimental que se aplicava eficazmente nas ciências naturais, para estendê-lo também as ciências humanas.” (HUGON, PAUL, História das Doutrinas Econômicas: 128)
ALEXIS DE TOCQUEVILLE nunca duvidou - sob a capa do “governo igualitarista” é que nasceria o monstro totalitarista.
BOBBIO (1993: 57) pondera:
Tocqueville se revela um escritor liberal e não-democrático. Jamais demonstra a menor hesitação em antepor a liberdade do indivíduo à igualdade social, na medida em que está convencido de que os povos democráticos, apesar de terem uma inclinação natural para a liberdade, tem ‘uma paixão ardorosa, insaciável, eterna, invencível’ pela igualdade e embora ‘desejem a igualdade na liberdade são também capazes’, se não podem obtê-la, de ‘desejarem a igualdade na escravidão’.
O Nobel AMARTYA SEN (2001: 29) reconhece:
"A idéia de igualdade é contrariada por diversidades de dois tipos distintos: 1) a heterogeneidade básica dos seres humanos e 2) a multiplicidade de variáveis em cujos termos a igualdade pode ser julgada."
NIETZSCHE (Além do Bem e do Mal: 45) já entendia, e alertou:
Os niveladores... rapazes bonzinhos e desajeitados... mas que são cativos e ridiculamente superficiais, sobretudo em sua tendência básica de ver, nas formas da velha sociedade até agora existente, a causa de toda a miséria e falência humana... O que eles gostariam de perseguir com todas as suas foras é a universal felicidade do rebanho em pasto verde, com segurança, ausência de perigo, bem-estar e facilidade para todos; suas doutrinas e cantigas mais lembradas são 'igualdade de direitos' e 'compaixão pelos que sofrem' - e o sofrimento mesmo é visto por eles como algo que se deve abolir.
Malgrado a enorme contribuição, o alemão foi taxado louco. Ninguém lhe deu ouvidos, muito menos os olhos. A dezena de obras permanece desconhecida, especialmente entre os fervorosos latinos, um rebanho conduzido célere há milênios, à tosa em prol do feitor. A grande sociedade preferiu o pretenso bem-estar da maioria, preparo e educação para a democracia de massa, à magna sociolatria. Direitos pessoais se tornaram insignificantes, porque “nossas idéias e até o próprio egoísmo nasciam da sociedade.” O homem é obrigado a se resignar, adaptar-se ao meio social até perder a personalidade, pelo todo absorvido, ao usufruto da casta. Nada de novo ora no front:
A Rússia atual foi transformada por uma oligarquia oportunista, corrupta e sanguinária em um lugar aonde as políticas fascistas vêm sendo esticadas ao limite, com intensidade multiplicada se comparadas com as ofensivas anti-povo empreendidas em outras partes do mundo, em especial naqueles países que os papagaios da pirataria financeira costumam chamar de 'emergentes'. Ali mesmo, onde um dia bateu o coração da União Soviética revolucionária. Para nós, tomar conhecimento da realidade dos trabalhadores russos é sim uma questão de solidariedade, mas também de saber bem até onde podem chegar os esforços de aniquilação movidos pelos inimigos do povo. Ainda mais agora, que os demagogos do lado de cá do mundo, como Chávez e Lula, estão convidando gente como Dimitri Medvedev e toda a máfia russa para fazer negócios na América do Sul.

SOUZA, H.R.C., Um preocupante retrato da Rússia atual. www.anovademocracia.com.br
O jogo continua, vedada mudança na regra; mas de antemão sabemos que ela sofrerá o desvio, sutileza de quem está com as cartas:
A massa se rege por sentimentos, emoções, preconceitos, como a psicologia social já demonstrou exaustivamente. A opinião das massas formando a opinião pública será por conseqüência irracional. Não se iluda o publicista democrático a esse respeito, cunhando a expressão agora uso corrente no vocabulário político da propaganda: o ‘estereótipo’, ou seja o ‘clichê’, a ‘frase feita’, a idéia pré-fabricada, que se apodera das massas e elas, numa economia de esforço mental, como diz Prelot, aceitam e incorporam ao seu ‘pensamento’, entrando assim a constituir a chamada ‘opinião pública’.
BONAVIDES, P.:459.

domingo, 31 de maio de 2009

O Carma Ocidental - 44. Nascente socialista & fascista

O socialismo nasceu da dissolução do Ancien Régime, da mesma forma que o conservadorismo foi criado a partir da tentativa de protegê-lo. GIDDENS, A.: 64
O que acaba de acontecer em Paris é abominável, no fundo e na forma e quando se conhecerem os detalhes, parecerão ainda mais cruéis que todo o acontecimento. Quanto a este, já se encontra em germe desde a revolução de fevereiro, como o pintinho no ovo; para fazê-lo sair, não falta mais do que o tempo necessário de incubação. A partir do momento em que se viu aparecer o socialismo, devia se ter previsto o reino dos militares. Um geraria o outro. ..Eu esperava isso há algum tempo e, embora sinta muita pena e dor pelo nosso país, e uma grande indignação contra certas violências ou baixarias, que vão além do inaceitável, estou pouco surpreendido ou perturbado interiormente. Neste momento a nação está com medo louco dos socialistas e deseja ardentemente voltar a encontrar o bem-estar. É necessário que a nação, que nos últimos 34 anos tem esquecido o que é o despotismo burocrático e militar o prove de novo e, desta vez, sem o ornato da grandeza e da glória. TOCQUEVILLE cit. RODRÍGUEZ, R. VÉLEZ : 119
As idéias encadeadas de DESCARTES, ROUSSEAU, SAINT-SIMON & COMTE compunham os acordes aos estribilhos germânicos de HEGEL & MARX, ao tempo em que eram encorpadas pelas segundas vozes do oeste, de NEWTON, HOBBES, MALTHUS, DARWIN, MILL e BENTHAM.
A designação SOCIALISMO foi usada pela vez primeira por PIERRE LEROUX.
TODOS esses, sem exceção, formularam seus arrazoados sob a égide de PLATÃO.

A cambagem exigia a guerra de classes, a insurreição popular, como ENGELS pleiteava. AUGUSTO BLANCHI foi seu porta-voz. O escudeiro GUIZOT (cit. RUDÈ, G.: 182) sugeria atraente receita às mazelas sociais: Enrichissez-vous!  GEORGE LOVELESS (idem: 241), nome certo pela manifesta carência de amor, incitava:..“Nada será feito para minorar o sofrimento da classe trabalhadora, a menos que esta o faça por suas próprias mãos”.
Era uma questão tanto de sobrevivência quanto de política: uma panacéia que, pelo voto do trabalhador e pela transformação radical do Parlamento, proporcionaria ao trabalhador muitos assados, muito pudim de ameixas e cerveja forte, com três horas de trabalho diário . RUDÈ, GEORGE: 190
A França, coração do mundo, faria todo corpo adoecer com tamanha gravidade que até hoje perdura seu mal.
Sob influência dos filósofos absolutistas e autoritários, Hegel, Marx, Comte e uma pletora de epígonos contaminados por esta magia negra da política que é Ideologia - o Liberalismo recuou a partir da segunda metade do século XIX. PENNA, J. O. M: 179
Os interesses amedrontados pelas incertezas, a razão chocada pela desordem, sentimentos revoltados pela miséria, a imaginação estimulada por promessas de inversões, a força pela união, a junção para a defesa, tudo reclamava, de novo, ordenadores, condottieres, justiceiros de moderna versão. Os fins, de novo, justificavam os meios.
Mas em nossa época, a tirania das vastas organizações-máquina, governadas desde cima por homens que nada sabem e a quem nada importa se as vidas daqueles que controlam estão matando a individualidade e a liberdade de pensamento e forçando os homens, cada vez mais, a se amoldarem a um padrão uniforme.
RUSSEL, Bertrand, 2001:20
VON MISES (cit. LEONI, B., A liberdade e a lei, p. 167) .compreende o processo, cruzador dos séculos:
O principal erro do pessimismo tão alastrado é a crença de que as idéias e as políticas destrutivas de nossa era emergiram do proletariado e são uma 'revolta de massas'. Na verdade, as massas, precisamente por não serem criativas e não desenvolverem filosofias próprias, seguem líderes. As ideologias que produziram todos os danos e catástrofes de nosso século, não são uma façanha da turba. São proezas de pseudo-intelectuais e pseudo-estudiosos. Foram propagandas das cadeiras das universidades e dos púlpitos; foram disseminadas pela imprensa, pelos romances, pelo rádio. Os intelectuais são responsáveis pela conversão das massas ao socialismo e ao intervencionismo. Para reverter o processo, é preciso mudar a mentalidade dos intelectuais. Então as massas os seguirão.
As sentinelas nacionalistas obtinham no lago positivista o espelho da certeza sociológica, o “ver para prever”, “prever para prevenir” e isto já mencionamos sobejamente. Então, prevendo o adversário ideológico manifestado através da Internacional Socialista, a inversora do sentido, o negativo do positivo, a ampulheta do tempo histórico virada pela perspectiva dialética e equilibrada no eixo linear de disputa, repete-se a máxima de MAQUIAVEL: “para tudo fazer, necessário que o poder tudo possa”.
Sonhava-se que o poder total pudesse mesmo regular todos os mecanismos sociais, desde que pautado em razão objetiva, quando se sabe que ele, o poder, sempre foi movido por vontades subjetivas. Benevolentes ações governamentais, não fugindo às regras, embalaram-se em redes de represamento popular com os muros dos aparatos estatais. O Estado unitário, “monstro concebido na Renascença, dado à luz por ROBESPIERRE, evoluído em Napoleonismo”, concentração enfeixada de poderes, ligava tudo a uma só engrenagem, submetendo a um só impulso todas as forças e toda a vida de uma sociedade, obrigando aceitação de cada um. Nada deveria refrear o poder, muito menos concepções relativistas ou parlamentares.
Em que pese a presença marcante do iluminado TOCQUEVILLE na Câmara dos Deputados, a contumaz praticante nostálgica, mais uma vez, buscava nas glórias passadas a solução de seu futuro, reavivando o execrado mito napoleônico, a glorificação do herói romântico, magistral e triunfante. O novo rei LUÍS FELIPE primeiro manda buscar as cinzas de BONAPARTE e as deposita, com toda a glória, debaixo da cúpula do já tradicional Inválidos, motivando o povo na base do “Olha o que eu trouxe para vingar vocês”.
A lenda refez-se: passadas somente quatro décadas e de novo, através de revolução, voltava o despotismo, período cognominado cesarismo, evidente alusão ao famoso imperador romano, claro demonstrativo de que a França regredia cada vez mais, no tempo, no espaço e nos costumes concernentes. E tome NAPOLEÃO, agora em dose dupla, um de cada vez, é claro, não tão plenipotenciários, sem ornatos ou grandezas, submissos à supervisão real, quanto mais não seja, para que o próprio Rei não sentisse a guilhotina da antevéspera do original. O povo francês aceita. Mais uma vez, se demitia do poder.
O novo proprietário do Estado não hesita em praticar o enterro da liberdade em nome da segurança e da distribuição de “felicidade”. Diante do crescente terror, mister aquele governo uno, coeso, centralizado, esquema que veio atravessando séculos, desde o Tirano de Siracusa, ao Império Romano, daí a CARLOS MAGNO, BÓRGIA, CROMWELL, etc, por fim MAO TSÉ TUNG, com as inconfundíveis características:
1) A liberdade individual, alvo prioritário, suprimida em troca da lei de segurança nacional.
2) A liberdade de imprensa negada em nome do disciplinamento, impedindo serem decisões e acões governamentais conhecidas pela população.
3) A liberdade eleitoral extinta pela tutela processual de candidatura única.
4) A “liberdade” concedida aos representantes parlamentares, perfeitamente dispensáveis até por falta de matéria.-
A convulsão proletária foi desviada à “defesa” nacional: primeiro, contra a Rússia, na Criméia; depois, contra a Itália; no além-mar, contra o México. E por iniciativa do clone ou não, a retomada das hostilidades germânicas, desta feita atirando as tropas ao infortúnio contra BISMARCK, que por sua vez espreitava a chance da desforra:.
A derrota frente a Napoleão e a resoluta defesa por parte dos intelectuais da supremacia da cultura germânica converteu-se em ideologia popular: surgiu o sentimento de que a verdadeira força de uma nação residia no âmbito do espírito e da cultura. Segundo Soppè, entre 1850-80 dominava na ciência alemã um materialismo mecanicista, segundo o qual a realidade obedeceria a leis inerentes às próprias coisas, matéria e força seriam constituintes últimos do real. Dentro desta perspectiva, o objetivo da ciência seria o estudo da matéria com vistas a descobrir as leis mecânicas que regem o mundo.
PEREIRA, JULIO CESAR: 38
OTTO  era muito hábil para tentar abolir o socialismo emergente só com repressão ou choque frontal. A idéia era “roubar” parte da bandeira. BISMARX encetou a cantilena ao posar de combatente contra latifundiários e capitalistas, neste caso utilizando parte do argumento socialista, mas para aplicação exclusivamente nacionalista (?!).
Bismarck compreendeu muito bem o partido que poderia tirar das idéias do socialismo de cátedra: usou-as como um instrumento de luta contra o socialismo e como meio de expandir o poderio do Estado. HUGON, P., História das Idéias Políticas: 279
Malgrado conservador, aristocrata, e monarquista, BISMARCK foi o introdutor de leis de acidentes de trabalho, o seguro de doença, o pioneiro em valorizar os sindicatos. Naturalmente ao aristocrata o que menos importava eram as condições dos trabalhadores, mas a manutenção de um exército leal e agradecido, saudável e disposto a morrer por seus caprichos..Sempre de olho nas guerras e, como no período da Renascença, objetivando soldados leais e fortes, o "marechal" soube se colocar “a favor” do trabalhador (!?) contra a doença, velhice e outras atenções, “de modo que estes senhores (socialistas) façam soar em vão o canto das sereias”....O "Chanceler de Ferro" (Eiserner Kanzler) primeiro fez todas as vontades: instituiu a aposentadoria, e aquelas várias leis sociais; depois, mandou-os aos campos talados de minas e canhões, para que realizassem o supremo sacrifício. HEGEL (Fenomenologia dello Spirito, v. II: 15; cit. BOBBIO, N., Estudos sobre Hegel, Direito, Sociedade Civil e Estado: 48) também neste particular havia deixado suas recomendações. Assim ele delineou o caminho (do precipício) para o “êxito” dos governos junto a seu povo:
Para não deixá-los lançar raízes e enrijecerem-se em tal isolamento, para não deixar desagregar o todo e envaidecer o espírito, devem sacudi-los de quando em quando, em seu íntimo, com as guerras; devem fazê-los sentir, com aquele trabalho imposto, o seu senhor: a morte.
A guerra deixa ao Estado o encargo dos créditos das vítimas de guerra. Os governos adotam o princípio de que as vítimas de guerra fazem jus à solidariedade da nação. Direitos logo materializados pela carta de ex-combatente, pelo estabelecimento de pensões. Todos os anos parte apreciável do orçamento público se destina ao pagamento das pensões de guerra.
RÈMOND, R., O Século XX, de 1914 aos nossos dias:
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O jovem EINSTEIN (cit. THOMAS, H. e THOMAS, D. L., Einsten, perfil bibliográfico, A Vida do Grande Cientista: Einstein por Ele Mesmo: 53) chegou a conhecer o chanceler:
"Mas quando o assunto das palestras se desviava para a política, e as pessoas começavam a falar em Bismarck e na ascensão do Império Alemão, Albert se assustava e saía da sala.”
BISMARCK era consciente de sua maldade, e tentou o suicídio. Suas ações tiveram as mais graves conseqüências, assim apanhadas por EINSTEIN (New York Times, 23/6/1946; cit. PAIS, ABRAHAM, Einstein viveu aqui: 276): “Se a Alemanha não tivesse sido vitoriosa em 1870, que tragédia para a raça humana teria sido evitada!”
Logo a Alemanha veria o rio de sangue virou em delta:
Em Munique centenas de trabalhadores ocuparam estações ferroviárias e praças, enfrentando um exército de soldados e policiais. Arames farpados e barricadas brotavam por toda a parte, enquanto rajadas de metralhadoras varriam as ruas. Os vizinhos se acusavam mutuamente: 'Seu maldito bolchevique!' Ninguém estava a salvo dos delatores. Os revolucionários presos eram tratados como traidores. Em questão de semanas, os membros da Guarda Vermelha perceberam que haviam perdido sua mal concebida tentativa de tomar o poder; mas render-se significaria possivelmente enfrentar um esquadrão de fuzilamento. A loucura continuou assolando as ruas.
DIGGINS, J.: 271
Apesar do auxílio soviético, esta rebelião foi esmagada. ROSA DE LUXEMBURGO e KARL LIEBKNECHT que convocaram a luta nas ruas, ali mesmo tombaram. Tiveram o pouco de suas vidas jogadas em vão. O ambiente se adequava à demência de ambos os lados, confirmando os prenúncios de SEIPPEL, e mesmo de SPENGLER. Na cervejaria daquela Munique sentaria mero cabo, liderando mesa com sete serviçais, a fundar a obra requerida por HEGEL, FICHTE, WEBER, SPENGLER, e os positivistas logicos, de Viena. O Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães nascia com o nome sugerido, e já com chefe: o prático e carismático moço ADOLF..
Naturalmente por total ignorância, tais estratagemas encantaram os povos germânicos, russos, e italianos, além dos próprios franceses. Desnecessário aquilatar o preço que tem sido cobrado de todos - duas guerras mundiais, dezenas de internacionais, e centensa de revoluções civis, tudo em nome social. Agora essa dos desorientados orientais coreanos, completando a melhor idade do carma ocidental.

Eis o grande dilema vivido desde então: tentando escapar da arapuca de HOBBES, do Leviathan, para quem o Estado incorporado em algum absoluto é o grande protetor, a civlização ocidental, e como vemos boa parte da oriental, escorrega na perfídia de ROUSSEAU, que alterou apenas a origem do poder, mas não o poder, por entregá-lo ao sabor e feixe de um premiado, "ungido por ação popular."
Por um ou por outro, apuramos o bizarro: o cidadão se despe e se entrega totalmente à vontade do feitor, que se resume no usufruto das benesses do poder, e isento de qualquer responsabilidade, venha ele da esquerda ou da direita, do socialismo ou do fascismo.Pela música e conforto, lá se vão as gentes embarcando nos trens, com destino ao além: