quarta-feira, 30 de abril de 2008

O maior golpe do mundo*


Se Stálin roubou um banco, não o fez para encher de dinheiro os próprios bolsos, mas para ajudar o seu Partido e movimento. O senhor não pode considerar isso um roubo de banco. HITLER, Adolf, Documentos da Polícia Alemã; cit. Toland, John, Adolf Hitler: 657
O Príncipe lesará somente aqueles dos quais tomará as terras e as casas para dá-las aos novos habitantes; e aqueles, os lesados, que representam uma ínfima parte de seu Estado, achando-se dispersos e desvalidos, jamais contra ele poderão conspirar. Machiavelli, N., De principatu civile: 59-
O Príncipe moderno, o Príncipe mito, não pode ser uma pessoa real, um indivíduo concreto - ele só pode ser uma organização. Mussolini, Benito, Opera Omnia, XXII, 109
Se STÁLIN roubou um banco, e HITLER se apropriou das contas judias. agiram como trombadinhas.
* * *
NA CALADA DA NOITE de 15 de novembro de 1995, bem lembro, as luzes do Ministério da Fazenda estavam acesas. Dentro se monitorava um plano digno do Guiness: numa tacada, foi subtraída a fabulosa soma de 30 bilhões de reais, de milhões de correntistas de todo País. Foi uma espécie de assalto simultâneo a milhares de agências bancárias. A plêiade simplesmente reaplicava o exitoso esquema que esvaziara os cofres do glorioso Banco Sulbrasileiro, sem ninguém sentir. Coisa de batedor-de-carteira. .
Os depósitos "excedentes" dos outros estabelecimentos preencheram o rombo, e ninguém sentiu o buraco-negro; apenas a produção: com a falta do dinheiro, os juros brasileiros foram tornados absurdos, e assim se impede o acesso às escassas cédulas remanescentes. Não tem para todo mundo. Desse modo, os "banqueiros privados" do Nacional, Econômico, Bamerindus, Banorte, e os gerenciadores do partido governante que guardavam os cofres do Banco do Brasil, Banerj, Banrisul, Banestado, e Banespa, dividiram a estupenda cota.
A esmagadora maioria dos alienados e venais integrantes do Poder Legislativo jamais tomou consciência da relevância do desvio. E os que tomaram, foram facilmente calados com a instituição do mensalão, a genial idéia imediatamente trazida das Alterosas pelo bando da ave bicuda. Duzentos por cabeça foram fortes para alterar até a Constituição, virada em prol da reeleição.
Ao Poder Judiciário já havia um enrêdo ainda mais prosaico. Deu na mosca:
Os recursos referentes aos processos do Proer foram parar, por sorteio, na mesa de Gilmar Mendes. De saída, ele concedeu uma liminar, sustando a condenação que havia sido imposta a Serra, Malan e Parente até que o processo fosse julgado no mérito, em termos definitivos.
O barril do Old Eigth ficou hermeticamente fechado por mais de doze anos. Eis como se dá completa a cobertura jurisdicional do maior latrocínio (falo em latrocínio porque não foram, e ainda não são, poucos os que morreram pela carência desses recursos, mercê do índice de criminalidade, que explodiu, não por coincidência, exatamente após aquele dantesco ato):
PRESIDENTE DO STF ANULOU AS AÇÕES DE IMPROBIDADE DO PROER. NUM DOS PROCESSOS EX-MINISTROS HAVIAM SIDO CONDENADOS.
Na véspera de assumir a cadeira de presidente do STF, o ministro Gilmar Mendes julgou um processo que repousava sobre sua mesa havia mais de dois anos. A causa envolvia duas ações judiciais contra ex-ministros do governo FHC. Entre eles José Serra (Planejamento e Saúde), Pedro Malan (Fazenda) e Pedro Parente (Casa Civil).Gilmar Mendes, ele próprio um ex-ministro da gestão tucana (Advocacia-Geral da União), mandou ao arquivo o par de ações que pesavam sobre os ombros dos ex-colegas de governo. Escorou-se num precedente aberto noutra sentença do Supremo. Sentença da lavra de Nelson Jobim, outro ex-ministro de FHC (Justiça), que passou pelo STF antes de assumir, sob Lula, o ministério da Defesa.
http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/, 29/04/2008
Segundo Gilmar Mendes, em se tratando de ministros de Estado, 'é necessário enfatizar que os efeitos de tais sanções em muito ultrapassam o interesse individual dos ministros envolvidos'. Nesse sentido, ele chamou atenção para o valor da condenação imposta aos ex-ministros e ex-dirigentes do BC pelo juiz da 20ª Vara Federal do DF, de quase R$ 3 bilhões, salientando que este valor, 'dividido entre os 10 réus, faz presumir condenação individual de quase R$ 300 milhões'. Segundo ele, 'estes dados, por si mesmos, demonstram o absurdo do que se está a discutir'.
Revista Consultor Jurídico, 29 de abril de 2008
Mas será mesmo que todos seus antecessores, todos os operadores do Direito que se debruçaram sobre esta tarefa, de tão grave responsabilidade, seriam de tal modo ignorantes das simples quatro operações? Não, senhor presidente. A condenação foi até muito branda - apenas de 10% do furtado. Tudo, contudo, eu perdôo; e espero que meus filhos, os futuros netos e os tataranetos também saibam bem sublimar. Esses alto-coturnos dos Três Poderes não tiveram, como não tem, sequer noção do que fazem.
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* Título da triste canção de Teixeirinha.
*O GOLPE DA
atual crise americana É ASSEMELHADO, PORÉM DEIXA O NOSSO ANÃO. SUPÓNHO QUE ELE SE SUCEDE POR ESTA EXITOSA INSPIRAÇÃO BRASILEIRA.




terça-feira, 29 de abril de 2008

Carências jurídicas

Não é suficiente ensinar a um homem uma especialidade. Através dela ele pode tornar-se uma espécie de máquina útil mas não uma personalidade desenvolvida  harmoniosamente. A sobrecarga necessariamente leva à superficialidade.
Albert Einstein, cit. Pais, Abraham, Einstein viveu aqui, p. 271.
A fúria legiferante
A superioridade do jusnaturalismo medieval sobre o moderno consiste em que ele nunca teve a pretensão de elaborar um sistema completo de prescrições, deduzidas, more geométrico, de uma natureza humana abstrata e definida de forma permanente. Se é verdade que a função constante do direito natural sempre foi impor limites ao poder do Estado, é também verdade que a concepção medieval preenchia essa função atribuindo ao soberano o dever de não transgredir as leis naturais.
(Bobbio, Norberto, Locke e o Direito Natural, p. 46.)
A limitação, contudo, especialmente aos latinos, tornou-se coisa do passado, e jamais foi retomada. A "sociologia" de Maquiavel ensinou como preencher a carência:
A lei já não é um instrumento da justiça entendida em seu significado tradicional. É um meio dirigido à realização da concepção quantitativa da justiça que cuida de impor; um meio para transformar a sociedade conforme o modelo ideal que o legislador pretende instaurar. Aparecem assim as leis que em primeiro lugar pretendem iludir e mobilizar o povo, para que este caminhe gostosamente na direção - acertada ou não - que o governante deseja. E se a função de legislar se estima, ademais, como facere para realizar estas ilusões de transformar a sociedade ou de impor uma macro-justiça quantitativa: não resulta acaso a matematização como instrumento mais eficaz dessa pretensa macro-justiça? Mas como vimos antes, esta se realiza a custa de milhares de injustiças e da perda do sentido mesmo do justo e da virtude da justiça.
(Goytisolo, J.M., O perigo da desumanização através do predomínio da tecnocracia, p. 155.)
Cada pessoa possui uma "inviolabilidade fundada na justiça que nem mesmo o bem-estar da sociedade como um todo pode ignorar”, (Rawls, J., Justiça e Democracia, p. XV) mas isso, de Florença à Place de La Concorde, nunca mais veio ao caso:
"O ideal do positivismo jurídico seria uma ordem jurídica tão bem elaborada, leis tão claras e tão completas que, no limite, a justiça pudesse ser administrada por um autômato.” (Perelman, C. p. 69)

O Produto
Nosso renomado professor Goffredo Telles Jr. (O Direito Quântico, p. 280) pode bem aquilatar:
O Direito Objetivo é um Direito artificial. É um Direito que não exprime a realidade biótica da sociedade. É um Direito corrompido e corruptor. Ele forçará o surgimento de interações humanas à margem do campo de sua competência. Grande parte da vida social se processará fora de seus domínios.
A “inviolabilidade” apregoada por Rawls obviamente se estende às posses, ao patrimônio; todavia, as quatro operações são elementos estranhos à disciplina. A dialética desconhece regras-de-três:
“Para o Judiciário, analfabeto em economia, um marco era um marco, independentemente de quantos zeros aparecessem na nota.” (Levenson: 325)
"Pelo que tenho visto, muitos juízes não têm noção do que estão julgando quando o assunto envolve sites e rede sociais." (O problema do judiciário brasileiro é o mesmo de algumas empresas, http://www.tiagodoria.ig.com.br/ 10 Abril, 2008)
A determinação jurisdicional não deveria ser restrita ao ideal platônico:
"A questão do direito do direito, do fundamento ou da fundação do direito, não é uma questão jurídica. E a resposta não pode ser nem simplesmente legal, nem simplesmente ilegal, nem simplesmente teórica ou constatativa, nem simplesmente prática ou performativa." (Derrida: 36)
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A importância da interdisciplinaridade
O edifício das ciências atingiu altura e dimensaõ tremendas, e com isso cresceu também a probabilidade de que o filósofo se canse já enquanto aprende, ou se deixe prender e 'especializar' em algum ponto: de modo que jamais alcança sua altura, a partir de onde seu olhar abrange tudo em torno e abaixo.
(Nietzshe, F., Além do bem e do mal, p. 95)
Às jurídicas, também se requer a abrangência:"A ciência, por outras palavras, é um sistema de relações. Portanto, só nas relações se deve procurar a objectividade: seria inútil procurá-las nos seres considerados isoladamente uns dos outros." (Poincaré, J.H., cit. Abbagnano: 100)
"Para defender grandes criminosos, é preciso estudar psicologia. Para compreender a psicologia, é preciso iniciar-se na química orgânica e depois na físico-química: pouco a pouco o literato no senhor cede lugar ao cientista." (Delmas-Marty, Mireille, Acesso à humanidade em termos jurídicos; cit. Morin, E., 1999: 227. )
Não é lamentável que um operador do Direito tenha que recorrer ao Economista ou ao Contabilista para dizer a taxa de inflação incidente sobre o objeto processual, desconheça a física, ou confunda ideologia com justiça?
Na Academia, no entanto, não há tempo para tanto:
Tenho a impressão de que a maioria das faculdades de Direito estão ministrando aulas excessivamente técnicas, dando importância demasiada a uma instrução formal, superficial e pouco abrangente. Em uma carreira cuja principal matéria-prima é o ser humano, esquecem de tratar do homem em toda sua amplitude e fixam atenção no detalhe de prazos, no deleite de teses processuais e na adoração à capacidade de armazenar números, leis e informações.
O jurista André Luis Alves de Melo, na revista Prática Jurídica desta semana, alertou, também, para a existência de uma indução do aluno em aceitar como verdades absolutas algumas manifestações de autoridades: 'o estudante responde de que determinado entendimento é correto porque simplesmente o renomado jurista disse. Mas se indagar qual raciocínio utilizou o renomado jurista para chegar a esta conclusão, o aluno não sabe responder'. O excessivo apego à processualística jurídica, na academia, pode motivar a formação de profissionais que entendem de leis, mas que nada sabem dizer sobre direito e justiça. O mundo evolui de forma ágil e os operadores jurídicos não podem deixar de estudar continuamente o homem, a sociedade, suas mutações e valores. A capacidade criativa e de diálogo, nos dias de hoje, deve ser constantemente aprimorada por quem lida com o direito. As faculdades deveriam pensar, inclusive, na possibilidade de oferecer conhecimento aos bacharelandos em áreas como psicologia, ação social, ciência política, comunicação e administração pública. Deveriam, em vez de tanta decoreba, ensinar com mais eficiência temas pouco explorados, tais como Direito Constitucional, princípios jurídicos, ética, desenvolvimento de idéia e argumentação. Outro grande defeito de nossa área é que os alunos do Direito, quando deveriam conhecer exemplos de diálogo, prudência e moderação, muitas vezes têm, por parte de alguns professores, lições práticas de prepotência, arrogância, apego ao poder, autoritarismo e superioridade. O curso não está atento para o fato de que o profissional é um ser de corpo e alma, que precisa ter equilíbrio suficiente para interagir socialmente. Mais que gênios jurídicos, o mundo precisa e quer indivíduos éticos e acessíveis. Quer juristas que apreciem o ser, mais que o ter. Quer que usem o que sabem para fazer, e não que saibam por saber. Precisa de bacharéis, juízes e promotores vocacionados, em vez de homens vaidosos, egoístas e ociosos, escondidos em cargos, salários e pomposidades. O mundo precisa de transformadores, que tenham capacidade de tomar iniciativas socialmente responsáveis e de perseguir o bem comum. Muitos faculdades jurídicas estão desfocadas dessa realidade e é imperativo que reavaliem seus conceitos, paradigmas e métodos, a bem do homem, da sociedade e da justiça.
(Advogado Cleber Benvegnú - cbenvegnu@terra.com.br)
O resultado é flagrante:
O MEC (Ministério da Educação) cortou 24.380 vagas --de um total de 45.042-- de 81 cursos de direito de faculdades que haviam sido notificadas por registrarem conceitos inferiores a três no Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) e no IDD (Indicador de Diferença entre os Desempenhos). O corte representa 54% das vagas oferecidas nessas instituições.
Folha de São Paulo, 27/08/2008.
A culpa não é só das faculdades, tampouco dos professores. A carência é curricular, e motivada pelo próprio Ministério. Infelizmente, todas milhares de escolas jurídicas obedecem à cadência marcial:
"Não procurem a palavra 'Humanidade' nos manuais de Introdução ao Direito. Não a encontrariam.[...] Também não procurem 'Homem' nos manuais de Direito."
No afã da cientificidade, a cátedra das ciências humanas se torna cada vez mais cientística; por isso desumana, até por carência afetiva:
O arcebispo, por cuja liberalidade era mantido até então no campo das letras, pressionou-o para freqüentar o curso de Direito, embora isso lhe repugnasse à natureza. A mim ele trouxe apreensões. É que, na época, a gente condividia o mesmo alojamento. Então aconselhei a administrar o capricho de seu protetor, porque as coisas árduas, no princípio, ficam mais brandas com o tempo; que desse também uma parte do seu vagar àqueles estudos. Quando ele apresentou algumas espécimes da calamitosa ignorância repassada em programas de aula por professores tidos como luminares do saber, repliquei-lhe que não se apegasse àquilo e só retivesse o que realmente fosse concreto. Eu ia persistindo em convencê-lo com várias sugestões. De certa feita ele retrucou: 'Eu sinto, cada vez que me debruço sobre tais assuntos, como se uma espada perfurasse o meu peito.'... Seria, como soem dizer, aplicar ungüento em boi, ou dar harpa ao asno.
(Erasmo de Roterdã, p. 52)
O tempo como elemento constitutivo do Direito
A questão dos prazos assume a maior relevância no Direito, tanto que vem apregoado em todos os códigos de processo. Ocorre, todavia, que o tempo passa de diferente modo para cada agente. Aliás é a gente que passa pelo tempo, e não o contrário, e isto é aprendido na Física, mas não nas cátedras humanas, por paradoxo. Quanto mais avançada idade, mais ele é acelerado, e isto não requer demmonstração. No entanto, não há estipulação positivista capaz de equilibrar o Direito, que sempre é pessoal, em que pese alcunhado muitas vezes social, nesta balança. O judiciário é obrigado a cumprir o tosco instrumento normativo, como se tivesse aplicando a ciência a autômatos, desprovidos de personalidade. Eis o que apuramos:
Entrementes, no atual sistema judiciário, o advogado e seu constituinte não passam mesmo de meros pedintes dos favores do juiz do feito. E o direito? - bem, este acaba sendo um detalhe de somenos importância no contexto.Tanto que já se firmou, entre nós advogados militantes, o conceito pragmático de direito: 'direito é aquilo que se requer e o juiz defere'. Isso porque se o pedido é indeferido, mesmo contra a lei, o direito, em tese, somente será alcançado após anos e anos de renitente perseguição, e, não raro, somente quando já não tenha mais qualquer utilidade prática para o seu titular. Donde a constatação da triste realidade: a morosidade da justiça já se tornou 'moeda de troca' entre as partes litigantes. Neste sentido, o resultado útil e efetivo do direito é, pois, determinado pelo fator tempo, vez que é ele quem regula a existência dos seres vivos sobre este mundo. Sendo assim, o tempo é fator determinante para a eficácia do direito dos jurisdicionados. - Destarte, ou se exige 'também' do julgador e demais serventuários da justiça o cumprimento dos prazos legais, ou jamais o judiciário passará de mero 'vendedor de ilusões', conforme é hoje notoriamente rotulado pela sociedade. Assim, no comando do processo, o juiz comanda também o tempo, e, via sua nem sempre 'iluminada' discricionariedade, vai encaminhando o desfecho e duração da lide na direção que melhor lhe aprouver. Posto que correntes doutrinárias e jurisprudenciais antagônicas não lhe faltam para amparar o entendimento e assim substituir a Lei pelo seu critério de conveniência e simpatia. Destarte, não raras vezes, utilizando-se do direito como fachada e do subserviente advogado como instrumento da sua legalidade, vão ditando o destino aos seus semelhantes, arvorando-se, de fato, em legisladores sem mandato.
Advogado Carlos Alberto Dias da Silva, MG
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Nota
* De Pueris, p. 53.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A essencialidade da interdisciplinaridade

O homem só muito lentamente descobre como o mundo é infinitamente complicado. Primeiramente ele o imagina totalmente simples, tão superficial como ele próprio.
NIETZSCHE, F., O livro do filosofo: 41
Interdisciplinaridade se realiza como uma forma de ver e sentir o mundo. De estar no mundo. Se formos capazes de perceber, de entender as múltiplas implicações que se realizam, ao analisar um acontecimento, um aspecto da natureza, isto é, o fenômeno dimensão social, natural ou cultural, veremos e entenderemos o mundo de forma holística, em sua rede infinita de relações, em sua complexidade.  Fundação Darcy Ribeiro, www.fundar.org.br
HÁ QUEM SUPONHA preencher a carência com a simples reunião de estudantes ou profissionais de diversas áreas: "Exercer a interdisciplinaridade é tecer um ambiente interativo, onde os participantes estão 'entrelaçados' pelos saberes que são capazes de produzir coletivamente." (www.unimes.br)

Com todo respeito que merece, até pela tentativa, ou pela consciência da parcialidade, tal interpretação faz-se um tanto pueril, ideológica pela dialética. Tratamos das ligações entre as disciplinas, não de participantes. A formulação interdisciplinar requer se observar o nexo causal, o elo de ligação entre os conhecimentos especializados, pouco importando os agentes. No caso da junção dos acadêmicos, o risco é se obter uma nova Babel, onde cada um tem sua língua, e não há nenhuma comum. Eis a definição adequada:
O espaço do interdisciplinar, quer dizer, seu verdadeiro horizonte epistemológico, não pode ser outro senão o campo unitário do conhecimento. Jamais esse espaço poderá ser constituído pela simples adição de todas as especialidades nem tampouco por uma síntese de ordem filosófica dos saberes especializados. (JAPIASSÚ, H., 1976: 74)
-A segmentação

Prescindindo da percepção mais abrangente, o trem epistemológico da Academia tem o shape desenhado para discutível desenvolvimento tecno-estratégico; não suporta, todavia, em nenhuma hipótese, o selo científico:
Nossa Universidade atual forma, pelo mundo afora, uma proporção demasiado grande de especialistas em disciplinas predeterminadas, portanto artificialmente delimitadas, enquanto uma grande parte das atividades sociais, como o próprio desenvolvimento da ciência, exige homens capazes de um ângulo de visão muito mais amplo e, ao mesmo tempo, de um enfoque dos problemas em profundidade, além de novos progressos que transgridam as fronteiras históricas das disciplinas.
(Lichnerowicz; cit. Morin, 2002: 13)
Alfred North Whitehead, (cit. Abbagnano: 69) na longínqua década de 1920, alertava:
A sistematização do conhecimento não pode fazer-se em compartimentos estanques. As verdades gerais condicionam-se umas às outras; e os limites da sua aplicação não podem ser adequadamentes definidos sem a sua correlação numa generalidade mais vasta.
Antecipando-se a Whitehead, J.H. Poincaré (p.89) tinha consciência: "As verdades só são fecundas se forem ligadas umas às outras."  O grande matemático francês ainda  expressou: "A ciência, por outras palavras, é um sistema de relações. Portanto, só nas relações se deve procurar a objectividade: seria inútil procurá-las nos seres considerados isoladamente uns dos outros." (Poincaré, J.H., cit. Abbagnano: 100)
Michel Serres (cit. Descamps: 103) arrola inestimáveis prejuízos acarretados pelo viés acadêmico:
As disciplinas foram fragmentadas e, ao se fazer isto, impediu-se o diálogo e a polêmica intercientífica. A física descobre agora a necessidade de conceber outras operações para melhor perceber a complexidade da matéria. As ciências contemporâneas progridem com a contradição: a partícula se manifesta ora como onda, ora como partícula. A pesquisa de ponta se acha obrigada a reintroduzir o observador na observação. Estes percursos casuais e aleatórios nos remetem a Cristóvão Colombo. Não foi traçando seu destino que ele descobriu a América.
Descobrimos a América, mas tapamos a ciência e sufocamos a sociedade, ao lamento de Werner Heisenberg (cit. Capra: 16.) e Ludwig von Mises (p.112): "A cisão cartesiana penetrou fundo na mente humana nos três séculos após Descartes e levará muito tempo para ser substituída por uma atitude realmente diferente diante do problema da realidade."
"O que ocorreu foi que as premissas tecnocráticas quanto à natureza do homem, da sociedade e da natureza, deformaram-lhe a experiência na fonte, tornando-se assim os pressupostos esquecidos de que se originam o intelecto e o julgamento ético."
Ao especializar o cidadão, a civilização o tornou hermético e satisfeito dentro de sua limitação; mas essa mesma sensação íntima de domínio e valia o levará a querer predominar fora de sua especialidade. E a conseqüência é que, ainda neste caso, que representa um maximum de homem qualificado - especialismo - e, portanto, o mais oposto ao homem-massa, o resultado é que se comportará sem qualificação e como homem-massa em quase todas as esferas da vida  GASSET, Ortega Y, A rebelião das massas: 56
-
O atraso de Einstein
O gênio
(cit. Pais, Abraham, Einstein viveu aqui: 271) apreciava advertir:
Não é suficiente ensinar a um homem uma especialidade. Através dela ele pode tornar-se uma espécie de máquina útil mas não uma personalidade desenvolvida harmoniosamente. A sobrecarga necessariamente leva à superficialidade.
Apesar da privilegiada consciência, o gênio também escorregou pelos labirintos de sua exclusiva disciplina. Pode até parecer pretensão, mas não me preocupa o rótulo, tampouco receio encetar qualquer apreciação mais ousada. Ambas podem ser facilmente corrigidas. À primeira, basta trocar o ângulo de visão. À segunda, apenas uma reavaliação.Por enquanto, não tenho dúvidas. Albert Einstein, depois do estupendo edifício que construiu, não sem antes implodir uma arquitetura secular, simplesmente não evoluiu! Ao contrário, não fosse as insistências de Niels Bohr, Max Planck, e depois de Werner Heisenberg e ainda de Erwin Shörendinger, o Grande Relativo ainda estaria negando o aval científico à Teoria Quântica, devido à incerteza quanto ao percurso do eléctron, pelo prosaico motivo: "Deus não jogava dados." Convencido de que Ele  não vinha ao caso, Einstein tentou, pelo resto da vida, a unificação da Física Quântica com a Relatividade. A civilização perdia a chance de ouro, a melhor cabeça que dispunha para efetuar o grande liame. À despeito do ceticismo quântico, ao cabo Einstein se encarregou de alertar, e de certo modo iniciar o programa atômico que desencadeou nas bombas aos japoneses.
A Quântica nada mais é do que condição e extensão da própria Relatividade. Nestes campos, nada havia para unir. Uma é prolongamento da outra, apenas. O que era mister tentar, e totalmente possível, era a reunificação das ciências outrora chamadas exatas, com as humanas, ou filosóficas. Ambas  se encontram apartadas desde Platão, e confirmadas a partir da ascendência da plêiade mecanicista, através de Copérnico, Galileu, Descartes e Newton, a Bacon, Hobbes, Rousseau, Hegel, Comte, Bentham, Mill, Sorel, Darwin, Marx, Freud e Keynes, apenas para citar alguns mais fulgurantes.
Eis a grande lacuna que poderia ter sido preenchida pelo Grande Relativo, caso ele se dispusesse a debulhar as obras de cunho filosófico, sociológico, econômico, e jurídico que já podia dispor, além das magnitudes de Spinoza e Hume, e da chatice de Kant que tanto lhe atraíram. Compreende-se, todavia. Assim como os vocacionados de modo clássico encontram dificuldades em tabuadas, raros são os pesquisadores matemáticos que se dispõem ao enfadonho (e muitas vezes contraditório) estudo da ciência pelo caminho das letras, tão cheias de entretantos e filigranas, não poucas vezes movidas por interesse exclusivo e imediatista dos seus preceptores. .

A reunificação
Era o que vaticinava John Dewey (p. 205):

Quando a filosofia vier a cooperar com o curso dos acontecimentos e tornar claro e coerente o significado dos pormenores diários, a ciência e a emoção hão de interpenetrar-se, a prática e a imaginação hão de abraçar-se.
O notável epistemólogo Edgar Morin (2002:35) bem sabe donde provém o grande equívoco: "Paradoxalmente, são as ciências humanas que, no momento atual, oferecem a mais fraca contribuição ao estudo da condição humana, precisamente porque estão desligadas, fragmentadas e compartimentadas."
A visão reducionista-mecanicista-materialista cultivou inúmeras dicotomias, cismas, fragmentações, alienações: alienação de si (o vácuo espiritual) e, por conseqüência, dos outros; alienação da natureza (autômatos não podem sentir muito por outros autômatos - se somos apenas máquinas, podemos muito bem nos apoderar do máximo possível, conquistar e explorar a natureza por completo); a dicotomia entre conhecimento e valores, meios e fins, mente e matéria, universo de matéria e universo de vida, entre ciências e humanidades, entre ricos e pobres, industrializados e de Terceiro Mundo, entre gerações presentes e gerações futuras. (Idem: 118)
Não é barato seu preço:

Acredito, e muita gente acredita como eu, que todo o ensino de nível universitário (e se pos­sível de nível inferior) devia consistir em educar e estimular o aluno a utilizar o pensamento crítico. O cientista 'normal', descrito por Kuhn, foi mal ensinado. Foi ensinado com espírito dogmático: é uma vítima da doutrinação. Aprendeu uma técnica que se pode aplicar sem que seja preciso perguntar a razão pela qual pode ser aplicada (sobretudo na mecânica quântica). Em conseqüência disso, tornou- se o que pode ser chamado cientista aplicado, em contraposição ao que eu chamaria cientista puro.(Popper, Karl, A ciência normal e seus perigos. www.consciencia.org)
Urge (pelo menos tentar) reverter:
O trabalho da UNESCO nesse campo identificou muitos problemas capitais [...] Um quarto problema é comum aos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Quase todos atuais programas de formação são setoriais ou disciplinares, e não tratam das complexas interações entre pessoas, formação, meio ambiente e desenvolvimento. Esse é um desafio considerável na formação da próxima geração de cientistas, que precisará ter a penetração interdisciplinar adequada para enfrentar tais problemas.
(Mayer: 137/8.)
Eis uma razão deste blog.

O grave dano social cartesiano

Aprecie, ainda:
A amplitude interdisciplinar
* O gap de Einstein

domingo, 27 de abril de 2008

A fragmentação da escolarização

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Aqui não entra quem não souber geometria
PLATÃO, ao inaugurar a Academia
.
O que você diria hoje do grande número de estudantes que consideram o saber como meio utilitário, como um meio de se tornarem uma engrenagem na máquina econômica e social? Os estudantes da máquina de que você fala fazem o que lhes mandam fazer. Adultos construíram essa máquina, essa ratoeira, esse labirinto. Num labirinto onde os ratos se perdem, as pessoas não dizem, ao observá-los 'os ratos estão loucos'; dizem 'construiu-se um labirinto para deixar os ratos loucos'. Em muitos países, o ensino foi construído para deixar os estudantes não muito felizes. M. Serres*
GRAÇAS AO ENCADEAMENTO racionalista, descambamos às especialidades, a tudo mutilando: "Desde o Renascimento, a ciência e a filosofia sofreram o rompimento entre o objeto e o sujeito." (Random: 175). A civilização caiu alienada na dialética telepositivista. "No decorrer do século XIX, a orientação mecanicista tomou raízes mais profundas - na física, química, biologia, psicologia e nas ciências sociais." (Lemkow: 15)
A ciência expulsou o sujeito das ciências humanas ao aplicar o princípio determinista, redutor. O sujeito foi expulso da Psicologia, expulso da História, expulso da Sociologia; e pode-se dizer, o ponto comum às concepções de Althusser, Lacan, Lévi-Strauss foi o desejo de liquidar o sujeito humano.(Gusdorf, George, Tratado de metafísica, p. 210; cit. Fazenda, 2002: p. 48)
A visão reducionista-mecanicista-materialista cultivou inúmeras dicotomias, cismas, fragmentações, alienações: alienação de si (o vácuo espiritual) e, por conseqüência, dos outros; alienação da natureza (autômatos não podem sentir muito por outros autômatos - se somos apenas máquinas, podemos muito bem nos apoderar do máximo possível, conquistar e explorar a natureza por completo); a dicotomia entre conhecimento e valores, meios e fins, mente e matéria, universo de matéria e universo de vida, entre ciências e humanidades, entre ricos e pobres, industrializados e de Terceiro Mundo, entre gerações presentes e gerações futuras. (Morin: 118)
Sabe-se de antemão que o mal continua. A ciência com seu método propõe a dicotomia sujeito-objeto, a curiosidade desinteressada e o desapego do primeiro, o isolamento e controle do segundo, a provocação de experiências com vista a fins bem delimitados, a ignorância dos elementos não-essenciais e o esquecimento do todo. A ciência contém no seu método os germes que levaram as suas mais famosas aberrações como atividade social. (Lemkow: 86)
"O senso da unidade humana encontra-se deturpado, por culpa do separatismo metafísico, da tradução quase unânime, que opõe a irredutibilidade do espírito à irredutibilidade da vida humana". (Deus: 24)
Ao decompor objeto e pensamento, ordenando-os na pretensa lógica platônica, o corte cartesiano rompe a homogenia. Cinge, diretamente, o principal hóspede:
Não é apenas o trabalho que é dividido, subdividido e repartido entre indivíduos, é o próprio indivíduo que é esfacelado e metamorfoseado em motor automático de uma operação exclusiva, de sorte a encontrarmos realizada a fábula absurda de Menenius Agrippa, representando um homem como fragmento de seu próprio corpo.
(Marx, Karl & Engels, Friederich, Formas pré-capitalistas da produção; Rio de Janeiro : Escriba, 1968, p. 34; cit. Bairon, S., p. 40)
Em nossa sociedade o modelo tecnocrático é bastante difundido: há uma tendência a recorrer sempre à especialistas. Pressupõe-se que o comum dos mortais não compreende nada e recorre-se então aos que sabem. Ocorre até que se pretenda que as suas decisões sejam neutras, puramente ditadas pela racionalidade científica.
FOUREZ, 1995: 211; cit. PADILHA, Fernanda Maria, Articulação entre conhecimento científico, especialização e interdisciplinaridade
; Revista Espaço Acadêmico, n. 81, Fevereiro/2008.
Chega-se a proclamar a virtude de não tomar conhecimento de quanto fique fora da estreita paisagem que especialmente cultiva, e denomina diletantismo a curiosidade pelo conjunto do saber.
Porque outrora os homens podiam dividir-se, simplesmente, em sábios e ignorantes, em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista não pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. Não é um sábio, porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade; mas tampouco é um ignorante, porque é "um homem de ciência" e conhece muito bem sua porciúncula de universo. Devemos dizer que é um sábio ignorante, coisa sobremodo grave, pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem na sua questão especial é um sábio.   E, com efeito, este é o comportamento do especialista. GASSET, José Ortega Y, Rebelião das massas - A barbárie do "especialíssimo".
Na faina da “câmera em close” para a visão pormenorizada, categorizada à profissão, contudo, o saber fragmentado em elementos disjuntivos e compartimentados exclui a apreciação dos movimentos periféricos, potencialmente responsáveis pelo objeto focalizado:
Qual a diferença entre um especialista e um filósofo? Um especialista é alguém que começa sabendo um pouco sobre algumas coisas, vai sabendo cada vez mais sobre cada vez menos e acaba sabendo tudo sobre o nada. Já um filósofo é alguém que começa sabendo um pouco sobre algumas coisas, vai sabendo cada vez menos sobre cada vez mais e acaba sabendo nada sobre tudo.  (Niels Bohr, cit. Pais, Abraham, Einstein viveu aqui, p. 42)
Nenhuma dialética redime a apreciação, incompleta e obtusa, errada na identificação da fonte e desorientadora pela precariedade de dados, fatos que restringem o aspirante a mera peça de engrenagem, peão de xadrez de um rei suicida:
A Universidade brasileira nasce no começo deste século sob estas fortíssimas influências: descompromisso elitista das 'Grandes Écoles', o reducionismo profissionalizante pragmático dos 'Land Colleges Americanos', e a departamentalização do saber de Humbolt e Descartes. Nesse ambiente cultural é formada em 1934 a primeira Universidade Brasileira, a Universidade de São Paulo, e, logo em seguida, em 1935, a Universidade do Distrito Federal. (Pinotti, José Aristemo, Professor titular e Diretor da Divisão de Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo/Hospital das Clínicas, Ex-Reitor da Unicamp , A Universidade : do Arcaísmo à Transcendência; Folha de São Paulo, 8/2/2003, p. 5)
A ciência dita moderna está estreitamente associada a um poder sobre as coisas, e sobre o próprio homem, e é por isso que ela aparece ligada à tecnologia, a ponto delas serem indiscerníveis. A fatalidade cobra seu preço:
Venho insistindo há tempos que por detrás da crise atual econômicofinanceira vige uma crise de paradigma civilizatório. De qual civilização? Obviamente se trata da civilização ocidental que já a partir do século XVI foi mundializada pelo projeto de colonização dos novos mundos. Este tipo de civilização se estrutura na vontade de poder-dominação do sujeito pessoal e coletivo sobre os outros, os povos e a natureza. BOFF, Leonardo, Zen e a Crise da Cultura Ocidental

grave dano social cartesiano

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Nota
* Michel Serres, De duas coisas, a outra; cit. Derrida, J., p. 67

sábado, 26 de abril de 2008

Planck, o "Revolucionário Relutante"

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O salto conceitual que o físico alemão Max Planck deu em 1900, engendrando a base da mecânica quântica, reformulou de tal maneira a visão do mundo que, ao menos um historiador da ciência, não teria razões para supor que seu impacto já tivesse sido todo absorvido. Ulisses Capozoli (1) -
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Einstein e Bohr são dois dos três físicos sem os quais o nascimento do modo de pensar único do século XX, a física quântica, é inimaginável. Planck, o revolucionário relutante, descobridor da
teoria dos quanta, no início não entendeu que sua lei significava o fim de uma era hoje chamada de clássica.
E.B. Trattner (2)
MAX KARL ERNST LUDWIG PLANCK nasceu em Kiel, Alemanha,  no 23 de abril de 1858. Faleceu em Göttingen, 4 de outubro de 1947. Sua imagem foi estampada na moeda de 2 marcos, em 1958. A relevância de seu nome pode ser aferida inclusive no Brasil: desde 2002 fulgura a Faculdade Max Planck, localizada precisamente em Indaiatuba, no estado de São Paulo. A feliz iniciativa dos dedicados professores tem como o objetivo "cooperar com a Sociedade, auxiliando-a a tecer em sua formação valores comprometidos com a justiça, a ética e a valorização das pessoas e a vida." É dentro desta perspectiva que a instituição integra Ciência, Cidadania e Humanismo para compor a estrutura e o eixo de sua visão educacional.http://www.facmaxplanck.edu.br/-
A Revolução
Em toda a história da física nunca existiu um período de transição tão abrupta, tão imprevisto e de tamanha amplitude quanto o dos dez anos que separam 1895 a 1905.
Em 14 de dezembro de 1900, Max Planck anunciou o nascimento da Física Quântica na Sociedade Berlinense de Física. A energia não é emitida e tampouco absorvida continuamente, mas sim na forma de pequeninas porções discretas chamadas quanta, ou fótons, cuja grandeza é proporcional à freqüência da radiação.
Albert Einstein, em 1905, foi pioneiro em fazer uso da hipótese, o que lhe renderia o Prêmio Nobel de Física depois de mais de vinte anos de sua publicação. Tratava-se do efeito fotoelétrico. Este fenômeno é obtido quando uma luz de freqüência suficientemente alta atinge uma amostra metálica, arrancando elétrons superficiais, fazendo com que o metal adquira carga positiva.
O curioso é que o Grande Relativo passou mais da metade da vida refutando a Teoria Quântica, mercê do absolutismo religioso imporegnado pela tradição: “Deus não jogava dados”. Destarte, Einstein gastou enorme tempo na vã tentativa de unificar a quântica com sua relatividade. Demorou anos em aceitar os fenômenos, as anomalias matemáticas afiançados por Planck e depois Bohr. Ocorre, contudo, o fato pueril, que escapou à genialidade: a Teoria Quântica nada mais é do que um prolongamento, ou o prenúncio, da própria Teoria da Relatividade. Aliás, a Teoria Quântica é uma expressão da relatividade. Deus não vem ao caso, mas sim o observador, seu tempo e seu espaço.

As homenagens
No decorrer da longa existência, o “revolucionário relutante” foi agraciado com incontáveis homenagens. Nelas se inclui, de imediato, o Prêmio Nobel de 1919, curiosamente no mesmo ano em que os observatórios de Cambridge e Greenwich, cada um com concentrações diferentes, organizaram expedições de astrônomos para fotografar o contorno da luz das estrelas no eclipse que confirmou as certezas de Einstein. Foram assim as magníficas expressões de Albert(3) , no banquete em homenagem àquele pesquisador:

Há muitas espécies de homens que se dedicam à ciência, nem todos por amor à própria ciência. Alguns penetram no seu templo porque isso lhes dá ocasião de exibir os seus talentos especiais. Para essa classe de homens a ciência é um esporte, em cuja prática se regogizam como o atleta exulta no exercício de sua força muscular. Há outra casta que vem ao templo fazer ofertório para seus cérebros, movida apenas pela esperança de compensações vantajosas. Estes são homens da ciência pelo acaso de alguma circunstância que se apresentou por ocasião da escolha de uma carreira. Se a circunstância fosse outra, eles se teriam feito políticos ou financeiros. No dia em que um anjo do senhor descesse para expulsar do templo da ciência todos aqueles que pertencem às categorias mencionadas, o templo, receio eu, ficaria quase vazio. Mas restariam alguns fiéis - uns de eras passadas e outros de nosso tempo. A estes últimos pertence o nosso Planck. E é por isto que lhe queremos bem. (3)
Os infortúnios
As inúmeras honrarias que recebeu não foram suficientes para confortá-lo das muitas desgraças que atingiram sua trajetória. De dois casamentos ganhou cinco filhos. Uma das filhas casou-se com Max von Laue (Prêmio Nobel por seus estudos sobre raios X), mas dois filhos tiveram sorte trágica. Um tombou em Verdun, durante a I Guerra Mundial, e outro foi morto por agentes da Gestapo, em 1944, por haver participado de um atentado contra a vida de Hitler.
Ao fim da guerra, sua casa em Berlim estava destruída. E também arrasada estava sua preciosa biblioteca. Max Planck, fugiu do palco da tragédia, rumo a Göttingen, onde faleceu. Sua morte passou completamente despercebida no mundo ainda conturbado pelas conseqüências da guerra recém-finda.

Tributo
A Planck devemos o tributo. Além da estrutura atômica da matéria, há uma espécie de estrutura atômica da energia. Depois de séculos, podemos voltar a nos reconciliar com a poesia, com o cotidiano:
“A física contemporânea é uma verdadeira filosofia. Ela integra a experiência às condições da experiência.” (4)
Graças à iniciativa do revolucionário relutante, a civilização desenvolveu a microeletrônica e transistores, raios laser, supercondutores, e tantas outras apropriações que transformaram e se cotidianizaram no mundo contemporâneo, a ponto de se constituírem em fatores fundamentais do modelo econômico da globalização. Seus efeitos, porém, se estenderam para além da Física, com desdobramentos importantes na Química, com a teoria de orbitais quânticos e suas implicações para as ligações químicas, e na Biologia, com a descoberta da estrutura do DNA e a inauguração da genética molecular, apenas para citar dois exemplos. Pode-se aplicar os conceitos nos âmbitos das ciências humanas. O renomado professor paulista Goffredo Telles Jr. é autor do Direito Quântico.
"A descoberta do mundo quântico, que tanto impacto teve nas ciências e tecnologias, ameaça agora envolver o 'etéreo' universo da psique." (5)
No centenário da vitoriosa descoberta, pode-se aferir:
"Cerca de 30% do PIB dos Estados Unidos hoje é baseado em invenções tornadas possíveis pela mecânica quântica." (6)
Aprecio navegar neste espaço tão revolto. Tento estender um liame entre o desenvolvimento da economia liberal e o paradigma atômico.
Virtualidade e realidade, homem e natureza, ciência e religião, outrora toscamente apartados, são complementares. Por ondas o mar bate na areia; elas se propagam das pedras jogadas no meio do lago; por meio delas qualquer boato se amplia. A gravitação também flui por ondas; é dinâmica, por isto é mutante capacita-se a levar a energia emitida por qualquer objeto. Comunicações transitam pelo espaço sideral a vários portos de destino, mas às vezes só de passagem. Hardwares e softwares se conjugam no esplêndido universo.
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Notas
1.Ulisses Capozoli, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC)
2. p. 45.
3. Idem, p. 103.
4. Idem, p. 67.
5. Consciência Quântica ou Consciência Crítica? Roberto J. M. Covolan, Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp.
6. Tegmark, M. & Wheeler, J.A, 100 Years of the Quantum, Scientific American, Fev. 2001.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A irreverência da nova ciência

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O mundo do século XX, dividido entre os juízos fascistas e marxistas,
excluia a prevalência da relatividade. Isso parece meio impregnado,
mesmo depois daqueles funerais. Infelizmente, o desconhecimento não é
prerrogativa dos toscos; até hoje, a maioria das escolas superiores não
se ocupa da sutileza, sequer em pós-graduações. No colégio, naturalmente
nem consta do currículo e, se proposta, não será levada a sério.

ALÉM DA CONCENTRAÇÃO exigida ao estudo “clássico” não contemplar apreciações numéricas, segundos de arcos e fórmulas, segredos afetos aos ramos mais especializados, não interessa esmiuçar questões tão “complexas, de aplicação tão restrita, apenas na Física, ainda mais Nuclear, ou Astrofísica. Homens do Direito, da Sociologia, da Psicologia, da Filosofia, da Comunicação, somos dedicados às letras.
Singela e essencial, porém, é a observação. Mal comparando, um novo “Ovo de Colombo”, tarefa fácil de ser assimilada ou “colocada” por alfabetizado que conheça as quatro operações.
Tomemos o exemplo: um trem se move em direção sul, na velocidade de 100 km/hora. Dentro dele, mas voltado para a sua cauda, um ator desfere um chute numa bola que atinge 50 km/hora. Pergunta: A bola se dirige ao sul ou ao norte? A correta resposta não é apenas uma e ambas vem pela magistral teoria: depende onde se coloca o observador. Para alguém que está na plataforma, a bola continua indo para o sul, na velocidade de 50 Km/h. (100km/trem sul- 50 km/h/bola norte= 50 Km/h sul.) Para alguém de dentro do vagão donde parte a bola rumo ao último carro, evidentemente ela desloca-se contrário do destino do trem, para o norte, nos 50 Km/h.
Não existe apenas uma exatidão. Nem matematicamente. Sabemos que massa e energia se confundem, mas não podemos estabelecer suas fronteiras: coloque três baldes d´água - o primeiro com água quente, o segundo morna, o terceiro fria. Uma mão na água quente, outra na fria. Colocando as duas em seguida na morna, as mãos sentirão temperaturas diferentes. Nós próprios, dependendo de cada tempo de vida, alteramos a conduta e a atenção.
A pessoa de 67 anos de hoje não é de forma alguma a mesma que era aos 50, ou 30, ou 20. Cada reminiscência é colorida pelo que se é, pelo que de fato se foi e por sua perspectiva. As pessoas não são iguais, sequer em si mesmas. O rio que passa não é o mesmo de ontem.(1)
O caminho mais curto é uma curva
Enquanto o espaço era tomado euclidiano e a Terra “era” reta , chata e quando o tempo passava medido exclusivamente pelo relógio newtoniano, permaneceu a suposição do universo infinito. A hipótese oferecida por Einstein tornou evidente que o espaço, como a superfície da Terra, é “curvo” e “condensado”. Imaginemos uma cortiça boiando. Seu casco produz uma depressão na água, até então plana, euclidiana. Jogada uma rolha menor, esta se aproxima da maior. Será que o rolhão possui um magnetismo capaz de atrair a rolhinha? Ou será que a rolhinha se obriga a modificar sua até então retilínea trajetória por sofrer, naquela depressão passageira, o desvio curvilíneo provocado pela presença do corpo maior, que altera a forma da base que o envolve? Onde há matéria o espaço circundante se deforma para poder abrigá-la. Ainda mais evidente se torna o fenômeno num corpo em cama elástica. Qualquer coisa menor que caia na rede corre em direção a este corpo:
Desde o advento da relatividade geral ficou claro, porém, que, por sua ação gravitacional, a matéria realmente determina 'em qual forma o espaço está', como o homem que pula na cama elástica. Longe da matéria o espaço continua plano e euclidiano, mas onde a matéria está presente o espaço obedece a uma geometria mais geral (riemanniana). A gravitação também não obedece mais às leis estabelecidas por Newton. (2)
John Wheeler bem sintetizou:
“A massa informa ao espaço como se curvar; o espaço informa à massa como se movimentar.” (3)
A retração cria ondas de diferentes tamanhos e frequências:
Em 9 de março de 1960 o gabinete editorial do jornal [Physical Review Letter] recebeu um artigo assinado por Robert V. Pound e Glen A. Rebka Jr., da Universidade de Harvard, cujo título era <<peso aparente dos fotons>>. O artigo descrevia a primeira medição em laboratório com sucesso da variação de freqüência ou do comprimento de onda da luz quando esta penetra num campo gravitacional. Este fenômeno é chamado deslocamento gravitacional da luz para o vermelho, e foi a primeira das três previsões que Einstein enunciou utilizando a relatividade geral. (4)
O necessário fim do positivismo
Em Maio de 1822, o opúsculo Plano dos Trabalhos Científicos Necessários para a Reorganização da Sociedade» decretava:
Toda a ciência tem por fim a previdência. Porque a aplicação geral das leis estabelecidas segundo a observação dos fenómenos tem por fim prever a respectiva sucessão. Na realidade, todos os homens, por pouco instruídos que os julguemos, fazem verdadeiras previsões, fundadas sempre sobre o mesmo princípio, o conhecimento do futuro pelo passado.(...) Está, portanto, evidentemente muito conforme com a natureza do espírito humano que a observação do passado possa facultar a predição do futuro, e que o possa fazer tanto em política como em astronomia, em física, em química e em fisiologia. (5)
Esta foi a base da sociologia, da física social. Evidentemente, era lastreada nas concepções de Newton, as quais "permitiam", mercê de simplório exame do passado, traçar a trajetória do futuro. Os conceitos são equivocados:
Se nos colocarmos do ponto de vista das aproximações - ponto de vista ao qual somos forçados para julgar uma teoria física - nada se verá no sistema de Newton que possa fazer prever o sistema de Einstein e reduzir assim a novidade realmente transcendente do sistema moderno. Nenhum caminho de inferência permite antecipar o primeiro a partir do segundo. A ruptura entre os dois métodos é verdadeiramente irrevogável, e que mesmo em sua tentativa de precisão, seguem duas ordens de pensamento inteiramente heterogêneas. O sistema de Newton, ao fazer a abstração de uma curvatura, desconhece uma característica essencial. O que é negligenciado é suscetível de desfigurar o problema. (6)
O ultrapositivista Pontes de Miranda foi o primeiro a superar seus próprios preconceitos:
O princípio da relatividade deve ser mais geral ainda - devemos procurar a diferença de tempo nas realizações biológicas e sociais, - o tempo local das espécies e dos grupos humanos. Isto nos poderá explicar muitos fenômenos que resistem às explicações atuais. Mas para conseguir tais fórmulas muito terá que lutar o espírito humano contra os preconceitos que o rodeiam e contra as obscuridades da matéria que irá estudar. (7)
Resta avisar à Nomenklatura que lhe sucede.
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Notas
1. Pais, Abraham, Einstein viveu aqui, p. 145.
2 Will, Clifford M., Einstein Tinha razão? Testando a teoria da relatividade geral, p. 18.
3 Wheleer, John, cit. Rohmann, Chris, p. 345.
4 Pais, A., p. 66.
5.Augusto Comte, Reorganizar a Sociedade, Guimarães Editores, 4ª Ed., Lisboa, 2002, p. 146.

6. Bachelard, Gaston, cit. Quillet, Pierre, p. 158.
7. Cit. Moreira: 103
Aprecie completo:..............

O socialismo de J. Locke


Leia, também:


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quinta-feira, 24 de abril de 2008

O "espanto" da Gravidade


O que é gravidade? Por que você cai depois de dar um pulo? Por que os rios correm da parte mais alta para a mais baixa? É porque existe uma força invisível chamada gravidade. Ela faz com que objetos sejam atraídos uns pelos outros, dependendo da massa (quantidade de matéria) que os constitui. Quanto maior a massa, maior a atração. A Terra é tão grade que sua poderosa gravidade é capaz de atrair todas as coisas, mantendo-as sobre sua superfície. www.escolas.trendnet.com.br/liceu_
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O fato de os planetas não se moverem em linha reta, mas percorrerem uma órbita fechada ao redor do Sol, indica que sobre eles age uma força. O mesmo se pode dizer dos satélites que giram em torno dos planetas, como é o caso da Lua. Sobre ela deve agir uma força que encurva continuamente sua trajetória. www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/fisica/lei-da-gravitacao-universal-1.php
POIS NÃO É BEM ASSIM. Não existe nenhuma força; por isso ela não é visível, nem detectada.
O Sol não age diretamente sobre a Terra. O que atrai a Terra não é um “fenômeno gravitacional de uma força agindo sobre um corpo”. Segundo a relatividade geral, o Sol age sobre o espaço-tempo, sobre esse meio continuo e entendido como um fluido material que tudo permeia entre o Sol e a Terra. O Sol, sua massa, atua sobre o espaço-tempo que vai então promover mudanças, ondulações, nessa estrutura espaço-tempo. Como consequência da agitação desse meio, ela provoca sobre a Terra mudanças induzidas pelas oscilações do espaço-tempo geradas pela ação do Sol. OLIVEIRA, Luiz Alberto,  físico do ICRA/CBPF.
Newton calculou a coincidência, mas jamais pode estipular de onde vinha tal capacidade, muito menos como a suposta força era capaz de agir a grande distâncias. Não existe a hipótese de atração/repulsão, esta dialética empilhada desde os tempos de Platão. O mecanicismo primata perde feio diante da correção e da beleza da formulação de Einstein.-
A sutileza
Repare na gravura: nela não aparece nenhuma força, não porque não se pode exprimi-la, mas por que não é nada disso. É o declive do espaço, a retração provocada pela presença do corpo  maior que conduz o menor para junto de si.
Largue uma rolha grande numa banheira, e outra menor. Verá que, vagarosamente, a menor se juntará a maior por uma única razão: a maior causa uma depressão na água, de modo que a menor escorrega em sua direção.
Suponha um navio em movimento. O que acontece com a água? Ela se abre, na medida que passa o corpo do transatlântico. Qualquer massa que circundar a passagem, fatalmente tenderá a ir para baixo do casco, muitos colando nele. Haja trabalho de limpeza nos cascos das embarcações. Nenhuma tem força magnética, ou atrativa qualquer.
Pense numa rede de um trapezista. Ele deita no meio. Largue uma bola na ponta. Ela correrá, imediatamente, ao corpo do circense. É o caminho mais natural, mais fácil para ela percorrer.
Agora lembre como a Terra percorre o espaço: além do circuito solar, ela gira sobre si mesmo, estabelecendo uma espécie de sutil redemoinho, desse modo formando a ao seu redor a clássica figura de um redemoinho d'água. Por isso a gravidade assola todo o espaço que circunda a Terra, e não apenas nas laterais, como acontecem com navios, por exemplo.
Nada depende de força, mas de massa, e posição. Na verdade é até uma questão filosófica, de caráter ético: o espaço respeita a presença do corpo, e por isso se retrai. Eis porque se diz que a presença do corpo "deforma" sua circunstância. Isso, definitivamente nada tem de força, mas de sutileza.
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As provas
Em 1919, o Brasil, precisamente Sobral, Ceará, atraiu grande excursão da comunidade científica internacional. A plêiade ansiava confirmar uma hipótese jamais pensada: a luz, sem peso e sem massa, curva-se diante da gravidade. Ao tangenciar o Sol, o Mercúrio varia sua trajetória. O fato observado no eclipse consagrou Einstein, e arrasou a improvável concepção científica empilhada desde Platão, mas especialmente desde Copérnico, Galileu, Kepler, Bacon, Descartes e Newton.
O periélio da órbita de Mercúrio apresenta uma precessão de 43 segundos de arco por século, um fenômeno explicado somente no século XX pela Teoria da Relatividade Geral formulada por Albert Einstein Sua aparência é brilhosa quando observado da Terra, tendo uma magnitude aparente que varia de −2,3 a 5,7, embora não seja facilmente observado pois sua separação angular do Sol é de apenas 28,3º. Uma vez que Mercúrio normalmente se perde no intenso brilho solar, exceto em eclipses solares, só pode ser observado a olho nu durante o crepúsculo matutino ou vespertino.
Cincoenta anos depois, os “terráqueos” obtiveram mais provas: antes do recebimento das mensagens das duas sondas enviadas a Marte, os sinais de rádio se distorceram quando cruzavam as cercanias do Sol. A trajetória dos sinais, mais longa que na linha reta, alterou, embora minimamente, a contagem do tempo de viagem e confirmou, pela enésima vez, a correção da Teoria da Relatividade.
London, UK, 7/11/1919
Extra, Extra: Fabric of the Universe
O conceito científico do tecido do universo tem de mudar. A recém-confirmada teoria de Einstein exigirá uma nova filosofia do universo, uma filosofia que vai varrer quase tudo o que se tem aceito até agora. (Editorial)
"Todo o mundo sabe que Einstein fez algo assombroso, mas poucos sabem, ao certo, o que foi que ele fez." (O maior cientista do Século XX: o Homem eo gênio; in TRATTNER: 112 ).
O fato que leva objetos a se deslocarem com velocidade e direções variáveis se deve, quase sempre, por intervenção da ação gravitacional, ação esta acontecida pela presença e pelos movimentos dos corpos no âmbito do espaço sideral, e não por sua atração magnética. Descreve-nos Asimov:
Einstein elaborou um conjunto de equações para demonstrar que se não houvesse matéria em parte alguma, nem gravitação, um corpo em movimento se deslocaria em linha reta. Havendo matéria, o espaço circundante se deformaria e o corpo em movimento seguiria uma trajetória curva. (1)
O verbo de Asimov pode ser conjugado no presente, mas tudo era verdadeiramente espantoso:
“A súmula do pensamento einsteniano produz vertigens numa pessoa comum. Não que seja muito difícil, mas pelo que tem de estranho”. (2)
A revista Times chegou pedir a seus leitores “para não se sentirem ofendidos pelo fato de apenas doze pessoas poderem compreender a teoria do subidamente famoso doutor Einstein”. (3)
Jornais de todo o mundo noticiavam as façanhas. As pessoas comuns não entendiam direito o que se passava, qual a diferença, o que, afinal, significaria uma luz passar um pouco aqui ou ali. Mas o reverenciavam. Sabiam que ali estava um gênio.
Por muitos anos a Relatividade Geral foi considerada difícil e obscura, mesmo para cientistas, sequer cogitada pelo leigo. Uma geração inteira de físicos e matemáticos não teve clara compreensão. Pela “estranheza”, a assimilação da comunidade científica obedeceu a rito exigente e demorado:
O pensamento de Einstein sobre as grandes questões do momento foi sendo parcialmente captado, em pequenas porções, às vezes mesmo em parcas gotas. Mas o resultado foi alcançado. Einstein não é mais o pensador isolado e solitário. Suas idéias e opiniões circulam. O eremita volta de sua tebaida e espalha suas palavras entre os homens do século. (4)
A expansão do Universo
As palavras do eremita reanimaram a cosmologia. O matemático Alexander Friedmann contemplou a possibilidade de um universo instável, provavelmente em expansão. Hubble estendeu-lhe a prova, abrindo-se o caminho para a já famosa tese desenvolvida a partir de então, o Big-Bang, ao espanto do próprio Einstein:
Em 1924 o astrônomo norteamericano Edwin Hubble verificou experimentalmente a proposição de Friedmann, segundo a qual as galáxias se afastam a uma velocidade crescente e o universo encontra-se em expansão. Einstein finalmente se rendeu à evidência e qualificou sua primeira hipótese de 'o maior disparate de minha vida'. (5)
Se essas dúvidas assaltavam até o mundo de Einstein, o que poderia sobrar aos domínios mais distantes, onde brilham as estrelas jurídicas, econômicas e sociais? Assim, mesmo passado o século, não nos admiramos pelo seu total desconhecimento, ainda mais se expresso por áridas fórmulas. Bastavam os complicados e estéreis teoremas colegiais. A esmagadora maioria dos habitantes de nosso planeta desconhecem, até hoje, o significado de E=mc2, mas o mestre só simplificou:
O ganho da massa de um corpo em movimento em alta velocidade fez Einstein concluir que energia (E) e massa (m) de um corpo são equivalentes. Ele estabeleceu uma fórmula para relacioná-las - a tão conhecida E=mc2, onde c é a velocidade da luz. Dada a magnitude de c, fica evidente que uma pequena quantidade de massa equivale a uma grande quantidade de energia. Esta é a base da energia nuclear. (6)
Resta adequarmos nosso obtuso pensamento, levado por diletantes, à realidade provada, isto não só no campo da Física, mas de resto a todas disciplinas. Atè mesmo a teologia busca ardentemente seu conforto na plataforma da racionalidade.

Do carisma
Se levarmos ao campo das ciências humanas, tais parâmetros simplesmente destroem mitos cultivados por séculos, entre os quais os conceitos de força do pensamento positivo, poder da atração, personalidade e carisma. Na verdade esas manifestações são generosidades do espaço circunstancial, e jamais podem ser obtidas pela exclusiva força ou vontade do agente. O agente sempre será ele e suas circunstâncias. Se não as salva, não se salvará. Portanto, de certo modo o que lhe circunda é o mais importante. A órbita do eletron é que condiciona o núcleo.


Notas
1. Asimov, Isaac, Para Compreender a Relatividade, in Trattner, Ernest B., p.127.
2. Idem, p. 42.
3. Cit. em Pais, Abraham, Sutil é o Senhor: a ciência e a vida de Albert Einstein, p. 367.
4. Almeida, Miguel Ozorio de, Ensaios, críticas e perfis: a ação humana e social de Einstein, Moreira, Ildeu de Castro e Videira, Antonio Augusto Passos Organizadores, Einstein e o Brasil, p. 42.
5. Einstein, Albert, cit. Trattner, Ernest B., p. 103.
6. Einstein, Albert, A natureza do Universo - Teoria Quântica e Relatividade; cit. revista Isto É, julho de 1995
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O fim da Torre de Papel



No ano de 1905, dois grandes eventos
balançaram, de modo indelével, a civilização. Na Rússia vingava o pontal da bestialidade, através da inolvidável revolta do Encouraçado Potemkim. Para completar o desastre, o Czar, exclusivamente movido pelo medo, promoveu o Domingo Sangrento, dia do fuzilamento em massa sobre os marinheiros comunistas, mas também sobre a inocente, queixosa e sofrida população daquele pós/guerra com Japão. Em vez de união, o governante conseguiu um rastro de pólvora contra si mesmo, contra
o poder constituído. No embalo, pôs-se acelerada a marcha do criminoso comboio, e nem sequer aquela nova e ainda mais dantesca guerra internacional elidiu sua trajetória; pelo contrário, aproveitando-se da confusão reinante e da exaustão do conflito, em 1917 Lênin perfez o golpe.Essa história raros desconhecem; e muitos puderam acompanhar o seu fim, sem derramamento de sangue, como uma nova Revolução Gloriosa, encetada justamente  quando a original completava o terceiro centenário. Eis a dimensão do atraso.
NA ALEMANHA acontecia outro estupendo fato, até infinitamente mais decisivo, porém no âmbito da ciência, e por isso pouco assimilado. Por bizarro e paradoxo, contudo, malgrado tanto tempo, raros conhecem esta história. Dizem que não vem ao caso. À manada, tanto faz ser o Sol que dê voltas sobre a Terra ou o contrário. Coisa da ignorância, mesmo. Ignorar a data, em si, até é admissível; contudo, desconhecer seus efeitos, até mesmo nos atuais cursos universitários, é simplesmente lamentável; intolerável é termo mais adequado. A academia continua singrando no mar da ilusão, levando seus passageiros à ilha da fantasia. Passo a lhes informar as novas, datadas recentemente, há mais de século, a fim de que não permaneçam a desencaminhar nossos filhos.-
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O desmanche da Torre de Papel
1905 também assistiu o desmoronamento da "ciência" (mal) calculada. Dois definitivos petardos fizeram ruir a torre do blá, blá blá, empilhada por quatrocentos anos, mas os soviéticos não quiseram disso saber. Para eles, o zenith chamava-se materialismo. O primeiro approach que mudou radicalmente todos os conceitos da ciência levou o discreto título de Sobre a Eletrodinâmica dos Corpos em Movimento, atenção de Albert Einstein aos paradoxos aferidos nas medições da velocidade de deslocamento da luz e especulações sobre sua influência, detectada na Teoria Quântica, por Max Planck (1828-1947), esta desenvolvida desde 1900.
O segundo tiro levou o nome de Teoria Especial da Relatividade, justamente cognominada Especial porque Einstein pensava não poder aplicá-la, num primeiro instante, ao geral, no completo, em tudo, pelo insólito motivo: a luz insistia, independentemente de qualquer movimento da fonte emissora, conservar exatamente a mesma velocidade de partida e de deslocamento. Em outras palavras, a velocidade da luz não é relativa ao corpo donde ela se despreende e isso a incompatibilizava com a Teoria da Relatividade. Intrigava-se o iluminado cientista. Que vetor, per se, transformar-se-ia em “estado da matéria” (1) e não matéria em si mesmo?
Lei do Movimento Browniano - a dança das partículas de pólen em suspensão na água, fato capaz de balançar os céticos do atomismo - e Teoria Quântica dos Raios e a Identidade da Massa e da Energia foram trabalhadas na seqüência, sendo que a última saía à cata de algo que fosse responsável por aquele incrível deslocamento da luz, em “flutuações” que percorrem o campo eletromagnético com freqüências altíssimas e variadas, entre quatrocentos a setecentos trilhões de ondas por segundo (2). Einstein aceitou a exceção. E a Teoria Especial da Relatividade passou a ser chamada Teoria Geral da Relatividade; ou, simplesmente, Teoria da Relatividade, “a maior obra de síntese do engenho humano até os dias de hoje”. (3)
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O Fio-de-Ariadne
Na metade do século XIX, precisamente em 1845, o astrônomo Leverrier alarmara a comunidade científica com narração de estranho fato - o planeta Mercúrio apresentava sutil irregularidade em sua órbita elíptica, no periélio, alternando o momento de sua elipse em relação ao sol por vagarosos deslocamentos. A explicação contemplava uma eventual ação de uma imaginário produto de uma força, dialética pertinente à “guerra” do magnetismo interplanetário, o jogo de “atração/repulsão”, batida verificação dialética oriunda do obtuso pensamento platônico. O desvio apresentava 532 segundos de arco por século. O avanço medido, todavia, era de 574, restando 42 segundos percorridos que não encontravam justificativa. Einstein veio com a resposta: sua lei de gravitação dava a chance à discrepância. O eclipse solar de 29 de maio de 1919 simplesmente confirmou o acerto da hipótese. Coberto pelas fotografias, deleitou-se o espirituoso cientista:
Agora que se demonstrou a exatidão da minha teoria da relatividade, a Alemanha vai proclamar que eu sou alemão e a França vai declarar que eu sou cidadão do mundo. Se se provasse a falsidade da minha teoria, a França diria que eu sou alemão e a Alemanha declararia que sou judeu. (4)
Até a nacionalidade, pois, fez-se relativa no cientista, anarquista (?!) para quem conviveu com a inigualável personalidade:
“E era irreverente, anarquista, pacifista, silencioso e dócil. Um homem bom.” (5)
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O tempo não é curto; é curvo
Além de sublimar antagonismos, evitando as estéreis emulações dialéticas, Einstein fez retornar à constelação científica sua estrêla d´Alva, a “hipótese”, apagada nas nuvens desde Francis Bacon. Este carrasco da natureza especulava: “É preciso procurar se há uma espécie de força magnética, operando entre a Terra e as coisas pesadas, entre a Lua e o oceano, entre os planetas, etc.” (6) Einstein o satisfez, sem procurar, sem precisar enxergar, ou sequer medir. Aliás, não é a força que atrai os corpos à Terra. E o espaço é curvo. O que? O espaço é curvo nas vizinhanças da matéria. Quanto maior a massa, maior é a curvatura. É esta distorção, criada em volta da matéria, que forma o contínuo espaço-tempo. Trattner comenta e explica:
Foi em conseqüência disto que Einstein predisse que os astrônomos verificariam uma curvatura dos raios estelares na proximidade do Sol, sendo ela maior junto à borda do grande orbe solar e diminuindo com o afastamento, até se tornar nula. É a curvatura do espaço, e não a suposta força da gravidade que faz o projétil cair no chão depois de descrever uma trajetória curva. A própria idéia da redondeza da Terra - e da curvatura de sua superfície - é um tanto recente. Foi preciso muito tempo para que a humanidade viesse a reconhecer esta verdade. Por que? Porque deslocando-nos sobre sua superfície numa direção qualquer, temos a impressão de que viajamos em linha reta. A realidade, como se sabe, é outra; e a prova é que se nos continuássemos a viajar na mesma direção, acabaríamos fazendo o circuito da Terra e regressando ao ponto de partida. Por aí se vê que a Terra é ilimitada, porém não infinita. (7)
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Notas
1. "O movimento da onda, observado, é o de um estado de matéria e não matéria em si."
Einstein Albert e Infeld, Leopold, A evolução da Física, p. 87.
2.Brian, D., Einstein, a ciência da vida,p. 473.
3. Fillipi, Marco Antônio, O maior cientista do Século XX, em Trattner, Ernest B., idem, p. 115.
4. Einstein, Albert, cit. Henry Thomas e Dana Lee Thomas, A Vida do Grande Cientista,

Trattner, Ernest B., p. 64.
5. Rohden, H., Einstein, O enigma do Universo, p. 227.
6. Bacon, Francis, cit. Voltaire, Vida e Obra, Cartas Inglesas, p. 19.
7. Trattner, Ernest B.,Einstein por ele mesmo - A vida do grande cientista, p. 43/44.